E a História do Mundo assim vai sendo conhecida, os meios passados, sobretudo
os escritos, a par dos dados materiais e imateriais, que as tecnologias, em
permanente desenvolvimento, permitem repescar, nos arcanos de um passado, naturalmente
obscuro, que desce para além da vida animal e humana, esta bem mais recente, é
claro. Quanto às memórias da presença humana, a partir desses Descobrimentos de
coragem, - de ambição e curiosidade, naturalmente também – nas terras que
seriam palco futuro de acusações de perfídia, apenas, libertas que forem da
violência palavrosa desse conveniente ataque já menos recente, redutor do
milagre de coragem que elas subscrevem – um dia - talvez bem próximo, segundo a
informação de JOÃO VAN ZELLER - a HISTÓRIA mundial se encarregará de
favorecer, mais tranquilamente, e com menor perfídia. Como de justiça – BONDADE
e MALDADE subsistindo no Mundo desde os inícios, Caim e Abel, sendo exemplo
disso.
50 anos depois: a redescoberta
da História colonial portuguesa
Os protagonistas são improváveis:
livros! Ressuscitados, convertem-se em fontes de água viva da História. Parecem
saídos do "Thriller", cobertos de teias de aranha. Mas não: estão
vivos e bem vivos.
JOÃO VAN ZELLER Autor
e cronista
OBSERVADOR, 02 nov. 2025, 00:1518
Na próxima quarta-feira, 5 de
Novembro, seremos
testemunhas de um fenómeno singular: o desenterrar de
memórias quase adormecidas há meio século. Trata-se
de levantar a laje tumular das fontes autênticas da História da presença portuguesa
em Angola e noutras antigas colónias.
Os protagonistas são improváveis: livros
!!! Ressuscitados, convertem-se em fontes de água viva da História. Parecem
saídos do Thriller de Michael Jackson, cobertos de teias de aranha.
Mas não: estão, escorreitos, vivos e bem vivos!
O evento terá lugar no Anfiteatro 1
da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, às 17h30, reunindo académicos
de prestígio e personalidades do mundo financeiro, empresarial, cultural e
militar. De forte
significado cultural e académico, esta cerimónia é um verdadeiro presente para
os estudiosos da História das antigas colónias portuguesas, num esforço de
renovação das fontes genuínas da presença portuguesa no mundo até 1975.
Faculdade de Letras da Universidade
de Lisboa
Serão
apresentadas, pelos seus doadores, cinco colecções de excepcional
valor histórico e patrimonial: a Biblioteca Ultramarina da Caixa Geral de Depósitos,
o acervo do Instituto de Investigação Científica Tropical, o espólio do
etnólogo José Redinha, o acervo de Daniel dos Santos Nunes e a Biblioteca
Angolana.
Em paralelo, inaugura-se uma
exposição no átrio da Faculdade, com livros e publicações que testemunham
idealismos, viagens e acções ao longo de sucessivas conjunturas históricas. É quase um filme em 3D, uma travessia por
mundos múltiplos onde se cruzam memórias e descobertas.
Expõem-se obras produzidas e coleccionadas
por figuras e instituições distintas — dos
acervos de Redinha e Daniel dos Santos Nunes às bibliotecas do Banco Nacional
Ultramarino e do antigo Instituto de Investigação Científica Tropical. Diversa e fascinante, a mostra revela
percursos pessoais e institucionais diferentes nas motivações, mas unidos pelos
saberes perenes da cultura. Trajectórias cheias de intenções e emoções,
umas efémeras, outras sonhadas como eternas.
Somos aqui convidados a redescobrir
o saber e a pluralidade do mundo – não a que dorme nas prateleiras, mas a que
desperta, pela leitura. Tudo é
estimulante, em particular o espólio de José Redinha.
Tive a fortuna de privar com Redinha, sobretudo no Dundo, no nordeste de
Angola, onde se situava o seu Museu. Foi etnólogo, museólogo,
investigador e desenhador de excepção. No
Museu do Dundo guardava gravações de música e coros da região da Lunda,
recolhidas por si, de beleza inefável. Transformou o Museu numa instituição etnográfica de referência em
África, modelo de museologia moderna, integrando documentação, música e
fotografia. A sua Colecção
Etnográfica Lunda foi considerada a mais vasta do género no continente.
Colaborou comigo na revista O Turismo, que
dirigi entre 1968 e 1970, onde publicou textos e desenhos irrepetíveis.
Ernesto Vilhena, administrador-delegado
e director-geral da Diamang entre 1930 e 1966, foi um visionário humanista,
defensor do investimento cultural e científico nas regiões onde a empresa
operava. Idealizou e financiou o Museu do Dundo, para preservar e
estudar as culturas locais, especialmente a dos Cokwe (Chokwe). Nomeou o jovem José Redinha, então desenhador curioso e talentoso, como
colaborador técnico encarregado de organizar e ilustrar o acervo inicial. Deu-lhe
total liberdade para viajar, recolher e documentar tradições — gesto raro e
generoso. Da colaboração entre Vilhena, mecenas e organizador, e
Redinha, etnólogo e artista, nasceu um modelo de museologia africana sem
paralelo, tornando o Museu do Dundo uma referência mundial, visitada
por investigadores da UNESCO e de universidades estrangeiras.
As
obras de Redinha agora apresentadas são autênticos “estados de arte”. Entre
elas, destaca-se o estudo sobre os pigmeus expulsos do norte de Angola por
incursões de Quiocos – apontamentos de extraordinário interesse. Os
textos, mapas e desenhos de traço primoroso conferem vida às descrições e
revelam uma Angola irrepetível, que revive ao olhar os nomes locais, as
plantas, as construções e a disposição dos povoados.
O
desaparecido Banco Nacional Ultramarino teve um papel cultural de relevo, reunindo
no seu acervo documental a Biblioteca Ultramarina e um Arquivo Fotográfico. Esse
Banco foi incorporado na Caixa Geral de
Depósitos. A Biblioteca do BNU foi
transferida para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e aí
continuará a ganhar dimensão como fonte de consulta multidisciplinar e
relevância para o estudo da história das antigas colónias portuguesas.
No
dia 5, a Faculdade de Letras terá a honra de receber a Reitora da Universidade
Católica de Angola, Professora Irmã Maria da Assunção, que vem a Lisboa para
assinar com o Diretor da Biblioteca e o doador o protocolo da Biblioteca
Angolana, coleção monotemática por natureza. O acordo prevê a digitalização dos 770
volumes e publicações, permitindo o acesso online aos estudantes da Católica de
Angola e da FLUL, e a criação de bolsas de estudo para estadias em Lisboa de
alunos e investigadores da UCAN, com acesso directo às obras físicas. A
Faculdade assegurará os meios informáticos e logísticos, reforçando a cooperação
académica e cultural entre Portugal,
Angola e os países da CPLP.
A Palanca Preta Gigante, um dos
símbolos de Angola
Segundo o catalogador Paulo
Gonçalves, a Biblioteca Angolana contém
um notável conjunto de obras raras — muitas sem exemplar, na Biblioteca
Nacional de Portugal nem na base Memória de África e do Oriente. Outras,
por terem sido publicadas em tiragens reduzidas ou contextos restritos, também
não figuram na PORBASE. A raridade
estende-se a roteiros, dicionários corográficos e anuários turísticos,
frequentemente perdidos pelo uso intenso. As publicações
periódicas, quando completas, são preciosidades — como os 24 primeiros números
(1968–1970) da revista O Turismo. Destacam-se
ainda as edições das
Publicações Imbondeiro, de Sá da Bandeira, apreendidas pela PIDE/DGS por
publicarem obras de Agostinho Neto e de outros opositores políticos. Entre
os documentos mais invulgares figura um relatório restrito da PIDE sobre os
Bosquímanos. As obras cobrem toda a
história de Angola, do século XV aos dias de hoje, oferecendo uma
pluralidade de olhares e metodologias.
O antigo Instituto de Investigação Científica
Tropical estará
igualmente representado. Criado sob o signo de um tempo autoritário,
foi durante décadas um dos grandes repositórios do saber português sobre o
ultramar. Reuniu vastas colecções
de fotografias, desenhos e publicações nos domínios botânico, antropológico e
histórico, espelhando uma curiosidade científica que, apesar das limitações
políticas, procurava compreender o mundo tropical.
Depois
do 25 de Abril, a instituição não cessou por completo a investigação, mas perdeu
fôlego e coerência. Tornou-se episódica, quase simbólica, e acabou por se
desagregar lentamente.— Em 2015,
foi oficialmente extinta, e parte do seu acervo, acumulado ao longo de mais de
um século, foi transferido para a Universidade de Lisboa, onde hoje sobrevive
como testemunho de uma longa e complexa tradição científica feita de descobertas, contradições e memórias
partilhadas.
(Painel na Faculdade de Letras da
Universidade de Lisboa, do pintor e ceramista Jorge
Barradas, 1957)
Na cerimónia do dia 5, o Auditório 1 contará com as presenças do Reitor da Universidade de Lisboa, do
Diretor da Faculdade de Letras, do Presidente da Caixa Geral de Depósitos,
tendo sido convidados os Ministros dos Negócios Estrangeiros e da Cultura, embaixadores
da CPLP, académicos e personalidades da cultura e da economia.
As pessoas verdadeiramente inteligentes
têm a rara virtude de nos fazer sentir mais lúcidos do que somos. A sua
natureza inspira. José Pedro
Serra é um desses casos. Investigador do Centro de
Estudos Clássicos e Director da Biblioteca da FLUL, fez-me sentir miraculado.
Especialista em literatura e
pensamento da Grécia Antiga, é reconhecido pela sua erudição, clareza e
espírito humanista. Conheço-o há alguns anos e segui religiosamente a série MYTHOS –
26 episódios sobre mitologia transmitidos na RTP 2 entre 2022 e 2023, aos
domingos, pelas 23h. Não perdi um.
Nos últimos anos, como Director da
Biblioteca da FLUL, deu-lhe novo fôlego, conseguindo doações de valiosíssimas
bibliotecas particulares.
É a José Pedro Serra que se deve este Thriller: o
renascer de uma História tantas vezes esquecida, ou mesmo sepultada.
LIVROS LITERATURA CULTURA HISTÓRIA
COMENTÁRIOS (de 18)
Carlos Chaves: Sim, uma história que para além de esquecida e
sepultada, foi/é escondida e deturpada, pela detestável esquerda, que tem
tomado conta do nosso país, nestes últimos 51 anos! Obrigado por não deixarem
morrer este património comum dos povos de língua portuguesa! Américo Silva: Portugal foi grande, milagrosamente, grande. Carlos
Chaves > António Soares: O milagre foi feito pelos nossos antepassados que
devemos honrar! graça
Dias: Só posso dar os Parabéns pela
excelência da iniciativa.
António Soares > Américo Silva: Milagrosamente! Sem dúvida. António
Soares > Luis Silva:
Essa, uma visão mesquinha do nosso país.
A pensar como você, Portugal continuaria no Restelo para sempre. Se há orgulho
nesta Nação foi termos dado novos Mundos ao Mundo. Fique lá pela sua paroquiazinha
e reduza-se à sua insignificância. Luis
Silva: "e a
criação de bolsas de estudo para estadias em Lisboa de alunos e investigadores
da UCAN" Mais uma porta para entrarem e nunca mais saírem. graça Dias
> Luis Silva:
Uma avaliação obtusa e esdrúxula.
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