segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Curiosidade


E a História do Mundo assim vai sendo conhecida, os meios passados, sobretudo os escritos, a par dos dados materiais e imateriais, que as tecnologias, em permanente desenvolvimento, permitem repescar, nos arcanos de um passado, naturalmente obscuro, que desce para além da vida animal e humana, esta bem mais recente, é claro. Quanto às memórias da presença humana, a partir desses Descobrimentos de coragem, - de ambição e curiosidade, naturalmente também – nas terras que seriam palco futuro de acusações de perfídia, apenas, libertas que forem da violência palavrosa desse conveniente ataque já menos recente, redutor do milagre de coragem que elas subscrevem – um dia - talvez bem próximo, segundo a informação de JOÃO VAN ZELLER - a HISTÓRIA mundial se encarregará de favorecer, mais tranquilamente, e com menor perfídia. Como de justiça – BONDADE e MALDADE subsistindo no Mundo desde os inícios, Caim e Abel, sendo exemplo disso.

 

50 anos depois: a redescoberta da História colonial portuguesa

Os protagonistas são improváveis: livros! Ressuscitados, convertem-se em fontes de água viva da História. Parecem saídos do "Thriller", cobertos de teias de aranha. Mas não: estão vivos e bem vivos.

JOÃO VAN ZELLER Autor e cronista

OBSERVADOR, 02 nov. 2025, 00:1518

Na próxima quarta-feira, 5 de Novembro, seremos testemunhas de um fenómeno singular: o desenterrar de memórias quase adormecidas há meio século. Trata-se de levantar a laje tumular das fontes autênticas da História da presença portuguesa em Angola e noutras antigas colónias.

Os protagonistas são improváveis: livros !!! Ressuscitados, convertem-se em fontes de água viva da História. Parecem saídos do Thriller de Michael Jackson, cobertos de teias de aranha. Mas não: estão, escorreitos, vivos e bem vivos!

O evento terá lugar no Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, às 17h30, reunindo académicos de prestígio e personalidades do mundo financeiro, empresarial, cultural e militar. De forte significado cultural e académico, esta cerimónia é um verdadeiro presente para os estudiosos da História das antigas colónias portuguesas, num esforço de renovação das fontes genuínas da presença portuguesa no mundo até 1975.

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Serão apresentadas, pelos seus doadores, cinco colecções de excepcional valor histórico e patrimonial: a Biblioteca Ultramarina da Caixa Geral de Depósitos, o acervo do Instituto de Investigação Científica Tropical, o espólio do etnólogo José Redinha, o acervo de Daniel dos Santos Nunes e a Biblioteca Angolana.

Em paralelo, inaugura-se uma exposição no átrio da Faculdade, com livros e publicações que testemunham idealismos, viagens e acções ao longo de sucessivas conjunturas históricas. É quase um filme em 3D, uma travessia por mundos múltiplos onde se cruzam memórias e descobertas.

Expõem-se obras produzidas e coleccionadas por figuras e instituições distintas — dos acervos de Redinha e Daniel dos Santos Nunes às bibliotecas do Banco Nacional Ultramarino e do antigo Instituto de Investigação Científica Tropical. Diversa e fascinante, a mostra revela percursos pessoais e institucionais diferentes nas motivações, mas unidos pelos saberes perenes da cultura. Trajectórias cheias de intenções e emoções, umas efémeras, outras sonhadas como eternas.

Somos aqui convidados a redescobrir o saber e a pluralidade do mundonão a que dorme nas prateleiras, mas a que desperta, pela leitura. Tudo é estimulante, em particular o espólio de José Redinha.

Tive a fortuna de privar com Redinha, sobretudo no Dundo, no nordeste de Angola, onde se situava o seu Museu. Foi etnólogo, museólogo, investigador e desenhador de excepção. No Museu do Dundo guardava gravações de música e coros da região da Lunda, recolhidas por si, de beleza inefável. Transformou o Museu numa instituição etnográfica de referência em África, modelo de museologia moderna, integrando documentação, música e fotografia. A sua Colecção Etnográfica Lunda foi considerada a mais vasta do género no continente. Colaborou comigo na revista O Turismo, que dirigi entre 1968 e 1970, onde publicou textos e desenhos irrepetíveis.

Ernesto Vilhena, administrador-delegado e director-geral da Diamang entre 1930 e 1966, foi um visionário humanista, defensor do investimento cultural e científico nas regiões onde a empresa operava. Idealizou e financiou o Museu do Dundo, para preservar e estudar as culturas locais, especialmente a dos Cokwe (Chokwe). Nomeou o jovem José Redinha, então desenhador curioso e talentoso, como colaborador técnico encarregado de organizar e ilustrar o acervo inicial. Deu-lhe total liberdade para viajar, recolher e documentar tradições — gesto raro e generoso. Da colaboração entre Vilhena, mecenas e organizador, e Redinha, etnólogo e artista, nasceu um modelo de museologia africana sem paralelo, tornando o Museu do Dundo uma referência mundial, visitada por investigadores da UNESCO e de universidades estrangeiras.

As obras de Redinha agora apresentadas são autênticos “estados de arte”. Entre elas, destaca-se o estudo sobre os pigmeus expulsos do norte de Angola por incursões de Quiocos – apontamentos de extraordinário interesse. Os textos, mapas e desenhos de traço primoroso conferem vida às descrições e revelam uma Angola irrepetível, que revive ao olhar os nomes locais, as plantas, as construções e a disposição dos povoados.

O desaparecido Banco Nacional Ultramarino teve um papel cultural de relevo, reunindo no seu acervo documental a Biblioteca Ultramarina e um Arquivo Fotográfico. Esse Banco foi incorporado na Caixa Geral de Depósitos. Biblioteca do BNU foi transferida  para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e aí continuará a ganhar dimensão como fonte de consulta multidisciplinar e relevância para o estudo da história das antigas colónias portuguesas.

No dia 5, a Faculdade de Letras terá a honra de receber a Reitora da Universidade Católica de Angola, Professora Irmã Maria da Assunção, que vem a Lisboa para assinar com o Diretor da Biblioteca e o doador o protocolo da Biblioteca Angolana, coleção monotemática por natureza. O acordo prevê a digitalização dos 770 volumes e publicações, permitindo o acesso online aos estudantes da Católica de Angola e da FLUL, e a criação de bolsas de estudo para estadias em Lisboa de alunos e investigadores da UCAN, com acesso directo às obras físicas. A Faculdade assegurará os meios informáticos e logísticos, reforçando a cooperação académica e cultural entre Portugal, Angola e os países da CPLP.

A Palanca Preta Gigante, um dos símbolos de Angola

Segundo o catalogador Paulo Gonçalves, a Biblioteca Angolana contém um notável conjunto de obras raras — muitas sem exemplar, na Biblioteca Nacional de Portugal nem na base Memória de África e do Oriente. Outras, por terem sido publicadas em tiragens reduzidas ou contextos restritos, também não figuram na PORBASE. A raridade estende-se a roteiros, dicionários corográficos e anuários turísticos, frequentemente perdidos pelo uso intenso. As publicações periódicas, quando completas, são preciosidades como os 24 primeiros números (1968–1970) da revista O Turismo. Destacam-se ainda as edições das Publicações Imbondeiro, de Sá da Bandeira, apreendidas pela PIDE/DGS por publicarem obras de Agostinho Neto e de outros opositores políticos. Entre os documentos mais invulgares figura um relatório restrito da PIDE sobre os Bosquímanos. As obras cobrem toda a história de Angola, do século XV aos dias de hoje, oferecendo uma pluralidade de olhares e metodologias.

O antigo Instituto de Investigação Científica Tropical estará igualmente representado. Criado sob o signo de um tempo autoritário, foi durante décadas um dos grandes repositórios do saber português sobre o ultramar. Reuniu vastas colecções de fotografias, desenhos e publicações nos domínios botânico, antropológico e histórico, espelhando uma curiosidade científica que, apesar das limitações políticas, procurava compreender o mundo tropical.

Depois do 25 de Abril, a instituição não cessou por completo a investigação, mas perdeu fôlego e coerência. Tornou-se episódica, quase simbólica, e acabou por se desagregar lentamente.— Em 2015, foi oficialmente extinta, e parte do seu acervo, acumulado ao longo de mais de um século, foi transferido para a Universidade de Lisboa, onde hoje sobrevive como testemunho de uma longa e complexa tradição científica feita de descobertas, contradições e memórias partilhadas.

(Painel na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, do pintor e ceramista Jorge Barradas, 1957)

Na cerimónia do dia 5, o Auditório 1 contará com as presenças do Reitor da Universidade de Lisboa, do Diretor da Faculdade de Letras, do Presidente da Caixa Geral de Depósitos, tendo sido convidados os Ministros dos Negócios Estrangeiros e da Cultura, embaixadores da CPLP, académicos e personalidades da cultura e da economia.

As pessoas verdadeiramente inteligentes têm a rara virtude de nos fazer sentir mais lúcidos do que somos. A sua natureza inspira. José Pedro Serra é um desses casos. Investigador do Centro de Estudos Clássicos e Director da Biblioteca da FLUL, fez-me sentir miraculado. Especialista em literatura e pensamento da Grécia Antiga, é reconhecido pela sua erudição, clareza e espírito humanista. Conheço-o há alguns anos e segui religiosamente a série MYTHOS – 26 episódios sobre mitologia transmitidos na RTP 2 entre 2022 e 2023, aos domingos, pelas 23h. Não perdi um.

Nos últimos anos, como Director da Biblioteca da FLUL, deu-lhe novo fôlego, conseguindo doações de valiosíssimas bibliotecas particulares.

É a José Pedro Serra que se deve este Thriller: o renascer de uma História tantas vezes esquecida, ou mesmo sepultada.

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COMENTÁRIOS (de 18)

Carlos Chaves: Sim, uma história que para além de esquecida e sepultada, foi/é escondida e deturpada, pela detestável esquerda, que tem tomado conta do nosso país, nestes últimos 51 anos! Obrigado por não deixarem morrer este património comum dos povos de língua portuguesa!       Américo Silva: Portugal foi grande, milagrosamente, grande.                  Carlos Chaves > António Soares: O milagre foi feito pelos nossos antepassados que devemos honrar!    graça Dias: Só posso dar os Parabéns pela excelência da iniciativa.                   António Soares > Américo Silva: Milagrosamente! Sem dúvida.                 António Soares > Luis Silva: Essa, uma visão mesquinha do nosso país. A pensar como você, Portugal continuaria no Restelo para sempre. Se há orgulho nesta Nação foi termos dado novos Mundos ao Mundo.  Fique lá pela sua paroquiazinha e reduza-se à sua insignificância.                Luis Silva: "e a criação de bolsas de estudo para estadias em Lisboa de alunos e investigadores da UCAN" Mais uma porta para entrarem e nunca mais saírem.        graça Dias > Luis Silva: Uma avaliação obtusa e esdrúxula. 

 

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