sábado, 8 de novembro de 2025

Em JOSÉ VENTURA


Não se trata de cassette, trata-se mesmo de má educação. Suponho que, desde garoto, a família o deixou expressar sempre os seus ressabiamentos altissonantes, para poder admirar a sua arte de burilador de argumentos que se entendiam como impolutos, plenos de um moralismo defendido com arrogância, tanto na sua expressão formal, como na articulação conceptual, regozijando-se todos com o prodígio e incitando-o a prosseguir, via essa que ele escrupulosamente tomou. E ainda hoje traduz, pleno de dados comportamentais alheios que não se inibe de atacar, mais do que em esclarecer as propostas das suas reformas partidárias. Mau exemplo o seu, mas mau exemplo também o dos que o deixam gritar as suas razões, não de fornecimento de conceitos, mas de ataque a todos os dirigentes em serviço a quem julga superiorizar-se. Por isso, mal entendo quem o defende ainda, ironizando sobre os que condenam, moralmente, naturalmente até reconhecendo quanto é nocivo esse discurso de ferocidade constante.

A angústia do jornalista diante de André Ventura

Numa entrevista a Ventura, quem está a ser entrevistado não é Ventura, mas os próprios entrevistadores. É, para os entrevistadores, uma espécie de entrevista de emprego.

RUI RAMOS  Colunista do Observador

OBSERVADOR, 07 nov. 2025, 00:20139

Porque é que, quando têm de entrevistar o líder do Chega, os jornalistas e comentadores ficam de repente estúpidos? A cena repete-se há anos. Ninguém parece querer ou ser capaz de fazer perguntas a André Ventura. Estão ali para o contradizer, para o desmentir, para lhe chamar nomes. Não são nem nunca foram assim com nenhum outro entrevistado. Álvaro Cunhal, que em 1975 tentou fazer abortar a democracia em Portugal, foi sempre entrevistado com urbanidade, apesar das suas incontornáveis “cassettes”.

Obtêm os entrevistadores, com os seus impropérios, alguma coisa de André Ventura? Não. É talvez o lado mais absurdo de tudo isto. De entrevista em entrevista, todos já deviam ter aprendido que Ventura não se deixa intimidar por más maneiras, e que vai preparado para armadilhas. Também seria de esperar que soubessem outra coisa: que os ataques do entrevistador dão uma enorme vantagem a Ventura. Outros entrevistados têm de responder a perguntas, ou correr o risco de parecer que não respondem; Ventura só tem de rebater e retribuir agressões e pedradas.

Os jornalistas e os comentadores não percebem isto? As pessoas, não sendo estúpidas, só se comportam como se o fossem por duas razões: ou quando não compreendem a situação, ou quando, compreendendo, o medo – a pior das emoçõesas paralisa ao ponto de não conseguirem agir de modo inteligente. O segredo da entrevista a André Ventura parece-me que está aqui: diante de Ventura, o jornalista e o comentador são gente assustada. Mas não é Ventura que lhes mete medo. São os outros: todos os que o entrevistador imagina que o estejam a ver, ouvir ou ler a entrevistar André Ventura. É a pressão dessa multidão imaginária que torna estúpido o entrevistador.

O cerco que a esquerda e parte da direita montaram a André Ventura não dissuadiu 1,5 milhões de portugueses de fazerem do Chega, em seis anos, o segundo maior partido parlamentar. Não se deixaram intimidar. Mas aqueles que lutam por empregos, posições e destaque no sistema mediático, esses, sim, ficaram apavorados. A tese de que não se deve “dar plataforma” ao Chega ou de que o Chega não pode ser “normalizado” tornou a entrevista a André Ventura no exercício mais perigoso do jornalismo em Portugal. Diante de Ventura, o entrevistador sabe que toda a gente o está a vigiar. Vai ele deixar Ventura falar? Vai ele tratá-lo como a qualquer outro entrevistado? Ai dele: estará a incorrer no crime de lhe “dar plataforma” e de o “normalizar”. Por isso, a preocupação principal do entrevistador, perante Ventura, não é levá-lo a responder a perguntas, mas distanciar-se dele, mostrar que nada tem a ver com ele, pelo recurso primitivo de o afrontar e insultar.

Há, no jornalismo, activistas anti-Chega. Mas mesmo a manifestação do preconceito, de tão ostensiva, precisa de ser explicada, porque é regra, em relação a tudo o mais e por uma questão de profissionalismo, o jornalista tentar passar por imparcial. Só em frente de Ventura o fanático julga que pode ou até deve expor o seu fanatismo. Até o mais encartado activista se sente obrigado a exibir excesso de zelo. Não está menos assustado.

Numa entrevista a Ventura, é como se quem estivesse a ser entrevistado não fosse Ventura, mas o entrevistador. Funciona, para os entrevistadores, como uma espécie de entrevista de emprego. É a ocasião de provarem que nada têm a ver com Ventura e, por isso, merecem a consideração e as posições que têm ou a que aspiram. Tal como quando classificam os debates de Ventura, não estão a pensar no líder do Chega, mas nos colegas e correligionários que os possam acusar de simpatia pelo diabo ou de pouca fé, e fazê-los “cancelar”. Não lhes interessa a verdade, mas apenas serem aceites.

JORNALISMO      MEDIA      SOCIEDADE      ANDRÉ VENTURA      PARTIDO CHEGA      POLÍTICA

COMENTÁRIOS (DE 139)

J. D.L.: Se os jornalistas, por motivos profissionais e de carreira, têm de parecer ser contra Ventura a conclusão é que o jornalismo profissional é actualmente jornalismo não isento, jornalismo ao serviço do sistema.   Como Maria Paula Silva muito bem nota, não é Jornalismo.                    Maria Paula Silva: Se calhar são mesmo  es tú  pi dos. Ou, se calhar, isto só vem provar que afinal não temos Democracia desde 1974. Porque, em Democracia cabem todos. Mas a democracia da esquerda é pequenina, só cabem eles. São piores, mais ditadores, facciosos e fanáticos do que aquilo que sempre criticaram ao Estado Novo. E, pelos vistos, nem se enxergam e continuam a trabalhar para o crescimento do Chega  LOL                  João Floriano: Na mouche. É mesmo isso. A recente entrevista na CNN com Pedro Costa e Chicão é simultaneamente um exercício de estupidez e arrogância, que inicialmente nos pode indignar mas que acaba por nos fazer rir. O velho ditado do burro que não tem pé mas que dá coice. Neste caso os burros eram três. A estratégia está definida: lançar  perguntas em catadupa e não deixar o entrevistado responder, falando por cima, tal e qual como Prata Roque pretendeu fazer com Rodrigo Taxa. o mais assustado de todos deve ser o guru do  humor nacional de esquerda: RAP. Uma entrevista a Ventura deverá ser um pico no share da estação. «Deverá ser» ou melhor «deveria ser», porque RAP só tem coragem para ridicularizar a vozinha de falsete do Moedas. A partir daí é terreno onde não pisa. Será falta de coragem?                    graça Dias: A entrevista a AV na CNN não o foi!.. foi porém, um julgamento por parte de três  activistas de cultura marxista Woke, em style "Santo Ofício" ao serviço da Inquisição. As TVs têm perdido toda a sua credibilidade e, a continuarem com tão deprimentes espectáculos, em que tudo é uma exibição grotesca, sem graça, sem uma réstia de ética ou pudor, cá em casa a SIC Notícias ninguém vê terá mais de ano e meio, o mesmo com RTP 3, a CNN com o seu activismo político, informação enviesada e com alguns (ou muitos), " palhaços " comentadeiros, desde esse dia deixaram de interessar estes espectáculos Tablóide de supermercado.                   SDC Cruz: Caro Rui Ramos, pondere remeter a sua excelente crónica para todas as redações da CS.  Começando, naturalmente por aí, pelo Observador (quantos teriam a coragem de aprender e de compreender?) e continuando, em lugar de destaque, na SIC & Filhos, CNN, Público e outras Notícias, de forma a que, ao lerem-no (será que seriam capazes, só porque fala do inimigo de estimação?), se vissem reflectidos no espelho. Como não creio que eles o permitissem, tal o ódio que têm ao político mais hábil e inteligente da nossa democracia, então que seja afixada à entrada do ISCTE, ISG, ISEG e outras coisas de Coimbra.  Absolutamente notável!                  André Tavares: Nem se pode chamar o que estes entrevistadores fazem de jornalismo, não conseguem esconder a antipatia, a repulsa e o rancor por AV. Não conseguem ser imparciais. Nem fazem ideia de qual a função de um jornalista. Estão ali como se estivessem a representar um partido da oposição (do espectro politico mais distante) e fazem daquilo um debate em vez de uma entrevista.          Ana Luís da Silva: Excelente artigo! A visão telescópica, desarmante e crua de Rui Ramos alia-se aqui à sua já reconhecida qualidade de tornar simples o que outros atrapalham, enredam e complicam.  Nestas linhas se vê clarinho como está enviesada e tóxica a nossa sociedade mediática. Cheia do politicamente correcto de Esquerda. Um nojo.                     Vitor Batista: Um excelente artigo que confirma de maneira sóbria e factual a realidade das entrevistas a Ventura.  A esquerda e extrema-esquerda associadas, formam uma grande organização conspirativa e pidesca, de olho nos jornalixos que entrevistam Ventura, e ai deles se saltarem fora do guião, porque serão silenciados e conduzidos às masmorras das Stasi e Pides desta vida, e condenados ao esquecimento e ostracismo. Essa gente não brinca em serviço, e Salazar e a sua Pide sentiriam inveja destes pequenos Estalines que conseguem silenciar mais do que aqueles que ele nunca conseguiu silenciar.  Mas não vai ser sempre assim, porque quando se pensa que o povo é grunho como o milhão e meio, outro milhão e meio sente-se forçado a responder a estes comunas nazis que se julgam donos do rectângulo.                   Carlos Chaves: E há uma outra terceira razão caro Rui Ramos, estarem vendidos a uma estratégia, estúpida é certo, da cor que todos sabemos! A prova disto é que aos “jornalistas” não lhes interessa a verdade, como bem diz, ou seja, não são jornalistas são paus mandados de uma estratégia que está no terreno!                  José Martins de Carvalho: Excelente retrato dos entrevistadores. Extensível a comentadores e analistas, que, para ganhar a vida, têm de dizer mal de Ventura.                João Floriano > Mario Figueiredo: Discordo, Mário. Se há partido mais escrutinado desde 2019 é sem dúvida o CHEGA. Se há lider que tenha  sido mais criticado nestes anos é sem dúvida André Ventura. Há maus de ambos os lados. O seu erro é estar convencido que do lado do CHEGA somos todos uns velhacos.                Vitor Batista > Manuel Almeida Gonçalves: Ventura não é Sócrates, não precisou de tirar a licenciatura ao domingo, Ventura é um tipo inteligente e humanista, Sócrates é um tipo "experto "e mafioso,mas no ps não encontramos Venturas,só encontramos Sócrates,porque o homem fez escola e foi o herói de muita gente com cartão da camorra do Largo do Rato, e que muitos também abandonaram quando o galo cantou três vezes.              António Lamas: Disse tudo. E para endireitar este jornalismo bacoco, ignorante cobarde, e parafraseando o próprio Ventura, são precisos três Berlusconis .
(CONTINUA)

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