Não parece possível tal
crueldade – a chamar-se humana, para mais. Não, nem queremos
ler…
738 dias nos confins do inferno de Gaza,
relato na primeira pessoa
Numa
época em que escolhemos as cenas que veremos e com as quais o nosso coração se
decide comover fica o testemunho de dois anos em Gaza que podiam ter sido em
Auschwitz - e o mundo olhou para o lado
HELENA FERRO
DE GOUVEIA Jornalista e analista de assuntos
internacionais e risco geopolítico
OBSERVADOR, 09 nov. 2025, 00:18185
Para tanta dor não há lugar no léxico
nem hipérboles suficientes na gramática para toda a brutalidade. Contemos esta
história pelas palavras dele. Ele que traz no corpo aos 20 e bem poucos anos um
mostruário completo de todas as forma de violência inventadas. O que faz de um
homem um homem? O reconhecimento da sua história, da sua existência e Rom quer
que ela seja contada.
“Só rezava para que acabasse. Todos os
dias, a cada golpe, todas as noites, dizia a mim mesmo: terminei mais um dia no
inferno. Amanhã de manhã vou acordar para mais inferno, e mais inferno, e mais
inferno. Isso não acaba.”
Durante dois anos não falou. O
adolescente de 19 anos de sorriso rasgado morreu a 7 de Outubro, o homem que
sobreviveu quer “que as pessoas saibam o que passei — que compreendam o que é
realmente o sofrimento. Voltei de um encontro com o diabo. O mundo inteiro deve
compreender e saber, mesmo que seja um pouquinho, o que significa um pesadelo”.
Rom, libertado em Outubro com 19 outros
reféns, ainda não deixou o hospital. “Mentalmente, não consigo sair do
hospital. Preciso desta bolha. Todos me protegem, perguntam por mim,
preocupam-se comigo… Tenho esta cama, sinto-me confortável aqui. Tenho medo de
sair para o mundo — medo de enlouquecer, de desmoronar. É difícil para mim
tomar banho, ficar de pé, andar. Sinto-me quebrado”. Depois de quebrar nunca
mais voltamos a ser como antes.
Rom Braslavski foi mantido em cativeiro
pelo grupo terrorista Jihad Islâmica Palestina em Gaza durante 738 dias. Numa
entrevista de 50 minutos ao programa “Hazinor” do Canal 13 israelita,
transmitida na quinta-feira à noite, Rom falou desses dois anos começando pelo
momento do seu sequestro no festival de música Nova, em 7 de outubro de 2023,
onde trabalhava como segurança. “Foi a primeira vez que vi um cadáver”, disse,
contando como se deparou com os corpos ensanguentados de duas jovens mulheres,
enquanto tentava escapar dos terroristas invasores, sem sucesso. “Disse a mim
mesmo: “ouve, estás num filme”. Se estou num filme, com câmaras, o que é que o
tipo nos filmes faria? Comecei a atacá-lo com os punhos, com toda a minha
força, e empurrei-o com toda a minha força. Apanhei-o desprevenido”. Aproveitou
a oportunidade para fugir do seu captor, correndo descontroladamente, apenas
para perceber que estava a correr em direcção à Fronteira de Gaza, e não para
longe dela, e que estava cercado por todos os lados.
Quando o terrorista o alcançou,
partiu-lhe o nariz e levou-o. Rom passou os seus primeiros 10 dias em cativeiro
amarrado a um guarda-roupa no quarto de alguém, antes de decidir tomar o
assunto nas suas próprias mãos.
Tendo aprendido com um amigo como se
libertar de amarras, Rom engendrou um plano: tentaria libertar-se sempre que
seus captores não estivessem por perto e procuraria na casa qualquer coisa que
pudesse ajudá-lo. Isso continuou por 11 dias, até que ele decidiu embarcar numa
“missão suicida”. “Disse a mim mesmo: ‘Vou fazer massa’”.
Mas sem gás para o fogão, não havia
maneira fácil de cozinhar a massa, levando Rom a recorrer a vários livros e uma
pilha de roupas pertencentes aos filhos do seu captor e a atear-lhes fogo. O
fumo que saía da casa enquanto ele cozinhava numa fogueira improvisada atraiu a
atenção dos locais, que rapidamente perceberam que a fonte era um refém
israelita sem vigilância a cozinhar o seu jantar. “Começaram a bater na porta.
Depois começaram a bater nas janelas. As janelas eram de plástico. Olhei à
minha volta e pensei: “Merda, apanharam-me’”.
Escondeu-se debaixo da cama, cobrindo-se
com um cobertor. “Eles entraram. Puxaram-me de debaixo da cama e
espancaram-me”. Antes que a multidão enfurecida pudesse matá-lo, o seu
torcionário voltou e expulsou-os, apenas para amarrar Braslavski mais uma vez e
sair da casa novamente.
“Nasci judeu, morrerei judeu”
O então jovem de 19 anos passou a
maior parte do cativeiro da Jihad quase totalmente sozinho, excepto por um
breve período de 48 horas que passou com o refém Sasha Troufanov em Rafah, no
sul de Gaza, em maio de 2024. “Esse foi o maior presente que eu poderia ter
recebido. Sentei-me com Sasha, no início tínhamos medo de falar, mas
conversámos baixinho.” “Conversámos por horas, sem parar. Da manhã até a noite…
Senti-me quase feliz”.
A 6 de maio de 2024, as IDF entraram em
Rafah e eles foram separados. Rom não veria outro refém até a noite
anterior à sua libertação, 17 meses depois.
O tempo de Rom nas mãos da Jihad
Islâmica teve dois momentos distintos. Em março de 2025, após o colapso do
segundo acordo de cessar-fogo, as suas condições, já difíceis, pioraram quando
ele recusou converter-se ao islamismo. “Nasci judeu e morrerei judeu”.
O guarda não aceitou bem a recusa e,
dias depois, apareceu com uma nota escrita alegando ter sido entregue pelos
seus comandantes superiores, que, segundo ele, o instruíram a vendá-lo. “Ele
disse-me com um sorriso que a tirariam em dois ou três dias.” A venda não foi
removida, e o seu captor começou a impor-lhe cada vez mais limitações,
restringindo o uso da casa de banho a três vezes por dia, reduzindo a sua ração
de água de um litro por dia para meio litro; reduzindo a sua já escassa ração
de comida, e acrescentando outra venda sobre a primeira quando Rom admitiu que
ainda conseguia ver alguma luz através do tecido.
Um dia, o seu captor aproximou-se dele :
“Olha o que eu trouxe para ti”. Eram pedras que foram enfiadas nos ouvidos com
um prego e permaneceram lá durante semanas, deixando-o efetivamente surdo.
“Grito e ele não se importa, apenas continua a enfiar as pedras cada vez mais
fundo. Isso esgota-te mentalmente. Eu já estava cansado, com fome. Nem sequer
tinha um pão pita por dia. Segurava a urina, não conseguia ver e agora também
não conseguia ouvir bem”.
Após três semanas com os olhos vendados
um homem dirige-se a ele e diz: “‘Abu Salem (nome que os seus captores lhe deram),
aqui está outra nota’.”
Quando questionado sobre o que dizia a
nota, respondeu: “Amarre Abu Salem e torture-o.”
A tortura
Naquela noite, tudo começou. “Era
espancado talvez sete vezes por dia, cada vez por cerca de vinte minutos.”
Descreveu como tentava perder a consciência e desmaiar, “mas eles também não
deixavam — agarravam-me. Depois dos socos, passaram a usar aquele chicote [o
que usavam para os burros], cada golpe parecia uma queimadura. Fiquei com
cicatrizes — ainda hoje tenho essas cicatrizes. Elas não desapareceram do meu
corpo.”
Mesmo durante o sono, não havia
descanso. Ao amanhecer, os espancamentos recomeçavam com um ritual cruel. “Às
seis da manhã — lanternas. ‘Yalla, yalla, yalla, yalla!’ Entravam com dois
rádios, ligavam música árabe alta e gritavam: “Allahu Akbar! Allahu Akbar! Que
dia maravilhoso! Que dia feliz!”. Por vezes os seus captores exigiam que ele
dançasse para entretê-los. “Dance com as mãos. Dance e ria”, diziam eles.
Começa a duvidar se vai sobreviver, se algum dia vai sair vivo.
“Eles espancaram-me com tudo o que
tinham. Esmagaram um rádio na minha cabeça. Partiram um bastão em mim. O
chicote dobrou-se completamente — era de metal. Dobraram o metal com a força
com que me batiam. Lembro-me que doía muito. Quando eles disseram “Deita-te”,
um sentou-se nos meus joelhos, outro pegou no chicote e chicoteou as solas dos
meus pés — chicotada após chicotada, talvez quarenta seguidas. E ele diz-me:
“Em pé. Fica de pé.» É como ser queimado vivo. Sentes fogo.”
Rom recorda-se como os sequestradores
comiam à sua frente e diziam ter comida suficiente para abrir um restaurante.
Em agosto de 2025, a Jihad Islâmica
Palestiniana filmou e divulgou um vídeo de Rom Braslavski a chorar de dor. A
sua família não autorizou a publicação do vídeo na imprensa israelita,
aprovando apenas imagens estáticas, nas quais ele podia ser visto deitado no
chão. “Eu sei que o Rom está a ser torturado, porque o Rom não chora. Se ele
chora, é porque estão a abusar dele. Olhem para ele. Magro, sem forças, a
chorar. Todos os seus ossos estão à mostra”, disse a sua mãe, Tami, na época.
“Eu não chorava de fome. Chorava de dor física”, disse ele, acrescentando que
não conseguia assistir ao vídeo que seus captores o forçaram a gravar.
“Disse-lhes: ‘Essa bola de falafel que vocês me dão todos os dias, tirem-na.
Deixem-me morrer de fome, deixem-me em paz. Apenas parem de me espancar”. Após
a gravação do vídeo, a situação piorou ainda mais, e Rom sofreu abuso sexual,
com os seus captores a despirem-no e amarrarem-no para espancamentos
adicionais.
“Foi
violência sexual — e o seu principal objetivo era humilhar-me. O objectivo era
destruir a minha dignidade. E foi exactamente isso que [eles] fizeram. É
difícil para mim falar sobre essa parte especificamente. Não gosto de falar sobre
isso. É difícil. Foi a coisa mais horrível”.
O testemunho de Rom Braslavski parece
torná-lo o primeiro ex-refém do sexo masculino a relatar ter sido abusado
sexualmente durante o cativeiro, depois de várias reféns do sexo feminino o
terem feito.
“Mentalmente, não estou preparado
para sair do hospital. Tenho medo de enlouquecer, de perder o controlo. Mesmo
quando saio e faço o mínimo necessário, faço-o sem qualquer vontade. Sem
qualquer força ou energia. O meu cérebro está desligado, a minha alma está desligada,
o meu corpo está desligado.» Mas está determinado a recuperar, mesmo sabendo
que o caminho será longo e difícil.
“Quando vejo os outros reféns em
concertos, a gritar e fortes, não tenho inveja deles por estarem felizes e
satisfeitos, porque esse momento também chegará para mim, quando conseguir
levantar-me e recuperar. Também serei feliz”.
Que Rom possa dançar outra vez.
Rearranjando os pedaços de si.
Numa época em que escolhemos as cenas
que veremos e com as quais o nosso coração se decide comover, fica o testemunho
de dois anos roubados. Dois anos em Gaza que podiam ter sido em Auschwitz e
o mundo olhou para o lado.
COMENTÁRIOS (de 187)
Luis Silva: Mais uma propagandista profissional. Pedro Abreu > Maria Barreiro: Coragem???? Luis Silva: Quando a ONU, a comunidade
internacional e até a União Europeia condenam o genocídio de Israel em Gaza, o
Observador agora recruta propagandistas profissionais para branquear a imagem
dos carniceiros. Depois mandam os comentários para moderação pois não
têm argumentos. Pedra
Nussapato: Por mais terrível
que esta história seja, e de facto é arrepiante, não justifica nem desculpa o
que Netanyahu andou a fazer à população civil e inocente palestiniana. Pedro
Abreu: Este texto parece ter sido escrito por IA, é tudo
inventado. A senhora devia entrevistar os presos palestinianos submetidos a
anos de torturas e abusos sexuais. Ao menos devia ler os jornais israelitas
para se informar, em vez de ler as redes sociais dos criminosos de guerra
judeus. graça
Dias: Caríssima Helena
Ferro Gouveia Artigo que é um testemunho horribilis !... e que nos atinge a alma. Um relato de uma experiência
traumática de tanto sofrimento, que deixará marcas físicas e psicológicas
duradouras por toda uma vida!... mesmo com o passar dos anos, estes 738 dias
irão estar sempre presentes nas memórias deste jovem, sobretudo a humilhação de
que foi vítima a sua dignidade humana ( uma chaga que nunca
cicatrizar ).
#
O dia 7 de Outubro de 2023 foi o Holocausto de 1200 judeus indefesos e
pacíficos. #
ps.1) O islão é mais do que uma religião, é uma ideologia, cujo
modo de vida completo e total, glorifica a opressão, a escravidão e a
morte. PS.2) O islamismo moderno é tão opressivo e perigoso, quanto o islamismo do séc
VIII. Isso porque, culturalmente, o islamismo ainda impõe os mesmos princípios
de 1.400 anos atrás.
Caríssima Helena Ferro Gouveia, manifesto o meu obrigada pelo relato de uma
tragédia (entre muitas e difíceis de descrever). Vivemos um período de
muita desinformação, de muitas narrativas de inverdades / mentiras, de activismos
políticos e culturais marxistas, em que testemunhos isentos e factuais são
necessários. Bem haja. Carlos
Chaves: Caríssima Helena
Ferro Gouveia, muito obrigado por nos trazer aqui um “podcast”, proibido no
mundo ocidental, do interior do inferno! A gente que anda a defender estes
representantes do inferno na Terra, deveriam ter igual tratamento. Obrigado Helena Ferro Gouveia,
e desejo aos “Roms” o retorno à nossa civilização, com o menor número de
sequelas possíveis, sabendo que isso é impossível para quem regressa do
inferno! Jose
Carmo: Avassalador. O
que espanta, em todos os casos que já se conhecem, é que não há um único caso
de humanidade. O ódio é absoluto, parece uma sociedade onde só há
psicopatas. Há coisas que numa sociedade normal, jamais se fazem sequer a
um cão, quanto mais a seres humanos. João
Floriano: O relato é arrepiante e penso que haverá pormenores ainda mais chocantes
que Rom não revela e conserva para si mesmo. É impossível que o abuso
sexual, a violação, tanto de homens como mulheres não tenha sido usada
repetidamente para quebrar o ânimo dos sequestrados. Mentalmente ia lendo e
pensando na repulsa que me causa ainda a flotilha de «mer....», com gente de
«mer....», que foi fazer um cruzeiro de propaganda e apoio a terroristas como
os que levaram os reféns ao limite da sobrevivência. E havia portugueses entre
essa gente. Só posso sentir vergonha e repulsa. E ainda se deram ao luxo de se
sentirem maltratados pelas forças da IDF. Rosa Silvestre: Sendo que todas estas sevícias
podiam facilmente ser imaginadas, é incompreensível que num Ocidente, que
até se rege mais pelas emoções do que pela razão, se apoiem
ostensivamente estes criminosos enquanto simultaneamente se
vilipendiam os judeus.
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