Mais fácil de contentar,
mesmo – e sobretudo - nessa questão de felicidade, sendo tudo, de facto, tão
relativo, nesta vida! Uma sorte, essa conquista relativamente recente da democrática
equiparação da Mulher com o Homem em termos de responsabilidades laborais, de
diversão ou quaisquer outras, pesem embora as características diferenciadoras
entre as actuações masculina e feminina - o que não é mau. Mas a felicidade tem
a ver com tanta coisa, num mundo ameaçado por tanta gente que se não importa de
o destruir, para se afirmar, que a felicidade feminina – ou masculina, é
indiferente – não pode tão egoisticamente sobrepor-se a tais imagens de
arrasamento de espaços e de gente pequena a estender a malga para a comida, entre
outros desastres que por aí vão…
Todavia, alegremo-nos
sempre com António Nobre que também defendeu a
sua, não menos amarga, todavia, marcada pela doença precoce:
«Felicidade! Felicidade!
Ai quem ma dera na minha mão!
Não passar nunca da mesma idade,
Dos vinte e cinco, do quarteirão.» (“SÓ”)
E tantas mais coisas,
que exprimiu, numa de aparente insatisfação!!
O paradoxo da felicidade
feminina
Apesar de todas as medidas adoptadas
para melhorar as condições sociais e laborais das mulheres desde 1970, os
índices femininos de felicidade e bem-estar encontram-se abaixo dos registados
nessa década
PATRÍCIA FERNANDES Professora na Escola de
Economia e Gestão da Universidade do Minho
OBSERVADOR, 24
nov. 2025, 00:1814
1Machos Alfa
Devido a um viés anti-tecnologia, evitei durante muito tempo uma sugestão
do algoritmo da Netflix até compreender o meu erro. Apesar do título e
de se tratar de uma série espanhola, Machos Alfa não é mais uma diatribe feminista contra
os homens: é, antes, um bom retrato das
transformações mais obtusas que nos últimos anos assolaram as nossas sociedades
e nos fizeram duvidar da sanidade mental do Ocidente, desde a defesa do poliamor até à confusão trans que tentam meter na
cabeça das nossas crianças. O resultado
foi uma série sobre o lugar de incompreensão em que homens e
mulheres se encontram e fá-lo
de uma forma muito divertida.
Como tenho argumentado, parte dessas
transformações, e da confusão que geram, resulta
de se ter familiarizado no discurso público a ideia da “página em branco”: a
ideia de que nascemos como tábuas rasas, pelo que tudo o que somos e pensamos
seria resultado de mera construção social – uma convicção especialmente errada
quando é utilizada para defender que não há diferenças entre homens e mulheres.
Em
sentido contrário, as teorias que melhor permitem compreender a realidade
partem não só do pressuposto de que existem diferenças biológicas entre os dois
sexos, como ainda de que essa diferença se verifica também acima do pescoço,
pelo que herdamos estruturas cognitivas e psicológicas que resultam do processo
evolutivo.
Isto não significa negar uma certa
variabilidade individual, mas significa que, de acordo com uma regra de distribuição normal, homens e
mulheres agrupados apresentam características distintas – e foi precisamente o
reconhecimento dos contributos da psicologia cognitiva que levaram Helen
Andrews a formular o argumento que analisamos na semana passada.
A verdade é que, embora possam existir
excepções, homens e mulheres tendem a
comportar-se de determinada forma e é por essa razão que não é possível
separar sexo e género, como algum feminismo da segunda metade do século XX
tentou fazer. Em muitas
dimensões, as duas coisas estão interligadas, e é por isso que projectos de
engenharia social tendem a dar maus resultados.
2 Pernille
Depois de me ter divertido com a sátira espanhola, levei o algoritmo
mais a sério quando me recomendou a série Pernille, realizada e protagonizada por uma
comediante norueguesa. O contexto
remete para o universo dos países nórdicos, sempre usados como referência para
sociedades mais igualitárias em termos “de género”, mas o enredo é
particularmente bom a retratar aquilo que no mundo académico tem sido
designado, desde 2008, como o paradoxo da felicidade
feminina, e que tem sido sucessivamente confirmado desde então (v.g.; v.g.).
O paradoxo encontra-se aqui: apesar
de todas as medidas adoptadas para melhorar as condições sociais e laborais das
mulheres desde 1970, os índices femininos de felicidade e bem-estar
encontram-se abaixo dos registados nessa década. Ou seja, apesar de todas as
transformações, as mulheres não estão mais felizes.
Muitas razões têm sido apontadas para
este paradoxo (e que podem
divergir, claro, de país para país): o
ingresso das mulheres no mercado de trabalho, com todas as responsabilidades
que daí decorrem e que condicionam a realização de projectos de casamento e
maternidade; o
enfraquecimento das relações matrimoniais e o divórcio como recurso fácil; as
famílias monoparentais, que geram condições de maior fragilidade económica e de
educação desadequada para as crianças; ou a desestruturação comunitária
e a vida em grandes sociedades ou no estrangeiro que limitam o apoio familiar.
Todos estes aspectos podem ser
sintetizados na grande mentira que, nas últimas décadas, tem sido repetida às
meninas: a de que é possível as mulheres terem tudo. Não podem. Ninguém
pode.
E é provável que o momento em que a
mulher se confronta de modo mais claro com este quadro de contradições seja
quando se torna mãe (quando o consegue) e se vê mergulhada na radical solidão da maternidade.
3A solidão feminina
Considerando a crise de infertilidade, o tema da solidão da maternidade
tornar-se-á, com muita certeza, num dos temas mais abordados dos próximos anos.
Como chama a atenção Louise Perry:
“Não
é normal que os pais criem os seus filhos em isolamento. Durante
mais de 95% da história da nossa espécie, fomos caçadores-recolectores, vivendo
geralmente em pequenos grupos e constantemente rodeados por outras pessoas. Tradicionalmente, eram as mulheres após a
menopausa — especialmente as avós maternas — que estavam mais profundamente
envolvidas no apoio aos pais jovens. Na verdade, alguns investigadores
acreditam que é por essa razão que as mulheres passam pela menopausa, um
fenómeno observado em apenas algumas outras espécies. Os nossos bebés vêm ao mundo tão indefesos e a díade mãe-filho é
vulnerável por tanto tempo que os nossos antepassados dependiam da ajuda não
maternal para manter os seus filhos vivos.”
Basta recuar duas ou três gerações no nosso país (depende da região)
para as mulheres falarem sobre isto: de
como a mãe devia ficar um mês de cama após o parto e de como todas as tarefas
em casa eram realizadas por outras mulheres, da família ou vizinhas, que
ajudavam neste momento difícil.
De
facto, não evoluímos para ter filhos sozinhas e não é pelo facto de as
condições sociais e tecnológicas actuais o permitirem que isso se torna correcto. As
sociedades actuais parecem desajustadas à nossa natureza e a tristeza que
sentimos é o sinal desse desajustamento.
E se é verdade que muitas medidas de
apoio à maternidade são exigidas ao Estado – medidas
que levantam muitas dificuldades à agenda para a “igualdade de género”
–, é na sociedade civil que devemos procurar respostas para lidar com
o problema da solidão, criando estruturas de apoio (como grupos de partilha),
recuperando o compromisso familiar e um sentido mais alargado de família e
garantindo formas de cooperação (com espaço
para a Igreja desempenhar aqui um papel importante). Não
estamos é condenados ao paradoxo que o feminismo progressista nos legou.
PS: Farei
uma pausa durante o mês de dezembro, com a promessa de regressar no início do
novo ano. Deixo a todos os leitores, e às suas famílias, votos de um Santo
Natal.
MULHER SOCIEDADE FELICIDADE BELEZA E BEM
ESTAR LIFESTYLE
COMENTÁRIOS
Orlando Tambosi: Bom descanso. Sentiremos sua falta. Paul C.
Rosado: Mais uma vez, um artigo que vale ouro. As feministas são, na sua maioria,
miseráveis. E, como tal, não suportam ver as mulheres felizes. É a síndrome da
amiga feia, que tenta destruir os relacionamentos amorosos das amigas, mas
agora levada ao nível de toda a sociedade. Aliam-se a isto os interesses da
extrema- esquerda antiocidental e o resultado desta doideira é que temos as
sociedades com a Família em crise e as crianças cada vez mais cheias de
problemas mentais. Feminismo é puro veneno! José B
Dias: Um Feliz Natal e a garantia de que sentirei a falta da crónica à
segunda-feira. isabel
ferreira: Artigo fundamental! Como professora, sinto a frustração de adolescentes,
por não se encaixarem naquilo que a sociedade lhes impõe, via feminismo,
pensarem em estudar e construírem uma carreira sólida e só depois na
eventual construção de uma família. Vejo que não é o que sonham, mas o que se
espera delas, que sejam mães na idade em que antigamente se era avó. Não
se pode ter tudo, mas o construtivismo social acha que sim. José Lúcio: Um Santo Natal Professora
Patrícia Fernandes! Manuel F: É sempre um prazer ler as suas
crónicas. Destaco a sua afirmação: "as
famílias monoparentais, que geram condições de maior fragilidade económica e de
educação desadequada para as crianças;" Sempre me chocou ver
defender a solução extrema de adopção de crianças por "casais" do
mesmo sexo, essas crianças correm o risco de ter sempre uma compreensão do
homem e da mulher e do seu relacionamento que não é biologicamente a natural,
embora reconheça que para crianças em situação de falta de condições de sobrevivência
extremas isso seja um mal menor.
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