Na
referência ao paralelo entre o cá dentro e o lá fora a respeito de EDUCAÇÃO,
onde o tema merece ainda, ao que parece, fúteis discussões sobre os inícios
escolares e quejandas. A futilidade e o repetitivo de assuntos que deveriam
estar subentendidos na banalidade enriquecedora dos povos, sem motivo, pois,
para qualquer tipo de dissidência, (tirando os casos pontuais de dificuldade ou
doença), é tema de reflexão brincalhona de MIGUEL TAMEN, num país, aliás, onde os
erros gramaticais, tanto em legendas televisivas, como na oralidade de alguns
falantes, e até, por vezes, na imprensa diária, provam, sim, a urgência de uma
reflexão mais a sério sobre o assunto, bem chocante, pela falta de brio ou de
maturidade que isso implica. E envergonha.
O Mistério da Educação (XXIV)
Em países modernos e ricos as idas à escola tornaram-se tão
endémicas como os comprimidos para o colesterol e os pós-doutoramentos.
MIGUEL TAMEN Colunista do Observador,
Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na
Universidade de Lisboa
OBSERVADOR, 16 NOV. 2025, 00:14
Discute-se quando a educação acaba ou
deve acabar. A premissa
principal dessas discussões é a ideia de ensino obrigatório. Acredita-se que deve ser obrigatório
andar na escola até a uma certa idade, embora não haja certezas sobre a idade.
Mas também se acredita que, depois de
satisfeita a obrigação, é
aconselhável continuar a observar uma certa devoção tanto tempo quanto possível. Por causa
disso, em países modernos e ricos as idas à escola tornaram-se tão endémicas
como os comprimidos para o colesterol e os pós-doutoramentos.
Discute-se também, embora menos,
quando deve a educação começar. Nem sempre a pergunta fez sentido; mas hoje, talvez por velocidade adquirida
nas discussões sobre ensino obrigatório, acha-se que deve começar
obrigatoriamente o mais cedo possível. Estende-se a conclusão de um raciocínio
sobre escolas (aprender muitas coisas é bom; nas escolas é que se
aprende mais coisas; nas escolas é que é bom) a outro raciocínio sobre a entrada
nessas escolas (de
pequenino se torce o pepino; ‘pequenino’ significa muitíssimo pequenino; de
muitíssimo pequenino se torce o pepino).
Tornou-se assim comum que pessoas
extraordinariamente pequenas sejam postas em escolas. O argumento costuma ser justificado pela
ideia de que quem vive com elas tem de estar noutros lados, e não tem muito
tempo para elas; e muitas vezes é de facto esse o caso. Da situação não
se segue porém que as pessoas muitíssimo pequenas devam passar os dias em
escolas. Se o objectivo é
simplificar a vida de quem toma conta delas, não haveria razão para que não
passassem os dias da semana em pastelarias, ou em barcos, ou fossem congeladas
entre as 8 e as 6.
Sugestões como estas são de execução
quase impossível; e talvez por isso não sejam tomadas a sério. Mas
independentemente do resto acredita-se que as escolas têm certas vantagens
indirectas, isto é, que coisas boas acontecem a quem lá está, apesar de não ser
por isso que se está lá. A
mais elogiada é interagir com outras pessoas igualmente pequenas. A
doutrina implícita é a de que se
começarmos por interagir com pessoas do nosso tamanho acabaremos por nos
habituar a interagir com pessoas maiores que nós; e por isso com a maioria das
pessoas.
E
no entanto não é o caso que aprendamos a habituar-nos aos outros segundo o seu
tamanho. Com
efeito, antes de serem postas nas escolas as pessoas muitíssimo pequenas
davam-se apenas com pessoas muitíssimo grandes. É mesmo possível que aos doze meses se
acredite que todas as outras pessoas são enormes. Imagine-se então o medo e o
horror de uma pessoa muitíssimo pequena colocada sem aviso num local rodeado de
animais que nunca tinha até aí imaginado que existissem; de animais que se
parecem com pessoas enormes que sem motivo aparente tivessem encolhido até ao
tamanho dela. O bom-senso aconselha a que esses encontros se adiem o mais
possível.
Nenhum comentário:
Postar um comentário