domingo, 16 de novembro de 2025

Chuchadeira


Na referência ao paralelo entre o cá dentro e o lá fora a respeito de EDUCAÇÃO, onde o tema merece ainda, ao que parece, fúteis discussões sobre os inícios escolares e quejandas. A futilidade e o repetitivo de assuntos que deveriam estar subentendidos na banalidade enriquecedora dos povos, sem motivo, pois, para qualquer tipo de dissidência, (tirando os casos pontuais de dificuldade ou doença), é tema de reflexão brincalhona de MIGUEL TAMEN, num país, aliás, onde os erros gramaticais, tanto em legendas televisivas, como na oralidade de alguns falantes, e até, por vezes, na imprensa diária, provam, sim, a urgência de uma reflexão mais a sério sobre o assunto, bem chocante, pela falta de brio ou de maturidade que isso implica. E envergonha.

O Mistério da Educação (XXIV)

Em países modernos e ricos as idas à escola tornaram-se tão endémicas como os comprimidos para o colesterol e os pós-doutoramentos.

MIGUEL TAMEN Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa

OBSERVADOR, 16 NOV. 2025, 00:14

Discute-se quando a educação acaba ou deve acabar. A premissa principal dessas discussões é a ideia de ensino obrigatório. Acredita-se que deve ser obrigatório andar na escola até a uma certa idade, embora não haja certezas sobre a idade.  Mas também se acredita que, depois de satisfeita a obrigação, é aconselhável continuar a observar uma certa devoção tanto tempo quanto possível.  Por causa disso, em países modernos e ricos as idas à escola tornaram-se tão endémicas como os comprimidos para o colesterol e os pós-doutoramentos.

Discute-se também, embora menos, quando deve a educação começar. Nem sempre a pergunta fez sentido; mas hoje, talvez por velocidade adquirida nas discussões sobre ensino obrigatório, acha-se que deve começar obrigatoriamente o mais cedo possível. Estende-se a conclusão de um raciocínio sobre escolas (aprender muitas coisas é bom; nas escolas é que se aprende mais coisas; nas escolas é que é bom) a outro raciocínio sobre a entrada nessas escolas (de pequenino se torce o pepino; ‘pequenino’ significa muitíssimo pequenino; de muitíssimo pequenino se torce o pepino).

Tornou-se assim comum que pessoas extraordinariamente pequenas sejam postas em escolas. O argumento costuma ser justificado pela ideia de que quem vive com elas tem de estar noutros lados, e não tem muito tempo para elas; e muitas vezes é de facto esse o caso. Da situação não se segue porém que as pessoas muitíssimo pequenas devam passar os dias em escolas. Se o objectivo é simplificar a vida de quem toma conta delas, não haveria razão para que não passassem os dias da semana em pastelarias, ou em barcos, ou fossem congeladas entre as 8 e as 6.

Sugestões como estas são de execução quase impossível; e talvez por isso não sejam tomadas a sério. Mas independentemente do resto acredita-se que as escolas têm certas vantagens indirectas, isto é, que coisas boas acontecem a quem lá está, apesar de não ser por isso que se está láA mais elogiada é interagir com outras pessoas igualmente pequenas. A doutrina implícita é a de que se começarmos por interagir com pessoas do nosso tamanho acabaremos por nos habituar a interagir com pessoas maiores que nós; e por isso com a maioria das pessoas.

E no entanto não é o caso que aprendamos a habituar-nos aos outros segundo o seu tamanho. Com efeito, antes de serem postas nas escolas as pessoas muitíssimo pequenas davam-se apenas com pessoas muitíssimo grandes. É mesmo possível que aos doze meses se acredite que todas as outras pessoas são enormes. Imagine-se então o medo e o horror de uma pessoa muitíssimo pequena colocada sem aviso num local rodeado de animais que nunca tinha até aí imaginado que existissem; de animais que se parecem com pessoas enormes que sem motivo aparente tivessem encolhido até ao tamanho dela. O bom-senso aconselha a que esses encontros se adiem o mais possível.

ERRO EXTREMO         OBSERVADOR

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