domingo, 2 de novembro de 2025

O que virá a seguir?

 Quando chegámos de África, já lá vai mais de meio século, era mesmo a democracia que estava a dar para a maioria do povo português - a minoria, sem voto na matéria, está visto - digo a minoria ultramarina - a maioria popular nacional funcionando em coesão com as tais tropas instaladoras do 25 de abril que lhes libertava os filhos, ou a si próprios - em nada se assemelhando, claramente, aos do leste europeu, que hoje se defendem, e ao seu país, patrioticamente, dos tais russos desocupados e desejosos de ampliarem o país deles com mais espaços terrenos, por alheios e independentes que estes sejam, e mesmo próximos, não se achando, esses tais, de modo algum usurpadores, como nos tinham apelidado antes, que enfrentáramos percalços graves para os obtermos – digo, os espaços - mesmo além da Taprobana, por mares nunca dantes navegados, muitos anos antes, ao que consta, como iniciadores - outros povos, nos seguindo nisso, posteriormente, mais orgulhosos dos seus feitos, todavia, e competentes, entre os quais os da nossa vizinhança peninsular.

O espaço europeu está hoje em risco, esquecidos - os actuais nossos seguidores na conquista de outrora - mais bem apetrechados todavia - das suas generosas teorias relativamente aos povos insignificantemente desconhecidos e longínquos, (que fomos nós e os nossos conquistados e descobertos de então), ao contrário destes bem conhecidos da sua vizinhança, que os mesmos atacam hoje, de pleno direito e sem subterfúgios efusivos, claramente.


O escudo democrático

Liberalíssimos democratas a defender a proibição das redes sociais, esse tentacular polvo de caótica e amoral informação alternativa, a bem da Democracia e da luta contra o Fascismo?

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 01 nov. 2025, 00:1827

A Comissão Europeia tem comissários para tudo. Mas há um que tem um pelouro mais exigente do que os outros. Trata-se de MICHAEL MCGRATH, Comissário Europeu para a Democracia, Justiça, Estado de Direito e Protecção do Consumidor.

Ora, dada a dimensão do campo de batalha e não estando o manipulado povo, o desinformado demos, de feição, parece que para proteger a Democracia, o Estado de Direito e o Consumidor, só mesmo instalando um Escudo. Um Escudo Democrático, contra o exército de desinformadores que, processo eleitoral a processo eleitoral, incessantemente trabalha na sombra para transviar o incauto povo europeu.

A fim de sensibilizar as massas para a implementação do dito Escudo, McGrath resolveu então organizar um debate na Comissão Europeia sob o título “A necessidade de um Escudo Democrático Europeu para fortalecer a Democracia, defender a UE da ingerência estrangeira e das ameaças híbridas e proteger os processos eleitorais na União Europeia”.

Assim, no dia 9 de Outubro, depois de desfiar os perigos que ameaçavam o futuro da Democracia na Europa, McGrath passou a tranquilizar as hostes para que não caíssem em desânimo, dando-lhes a boa-nova: graças à contribuição do Parlamento Europeu, dos Estados membros e até de cidadãos anónimos, o Democratic Shield estava pronto a ser “implementado!

O Escudo Democrático vinha, assim, socorrer a Europa, respondendo ao premente desejo dos cidadãos europeus, conforme expresso em inquérito realizado entre 31 de Março e 26 de Maio deste ano. Para o comissário, as 5 mil respostas ao inquérito (num universo de 400 milhões de eleitores) eram, já de si, um sinal positivo. Uma grande riqueza, a participação entusiástica dos cidadãos da Europa. É certo que, dos 5 mil cidadãos que responderam à consulta, só 79 se mostraram favoráveis à implementação do dito Escudo, mas não seria isso mais uma prova das “ameaças híbridas” e das “ingerências estrangeiras” que andavam no ar?

Em contrapartida, das 94 organizações não-governamentais inquiridasque, essas sim, estavam no terreno –, só 8 se tinham oposto ao Democratic Shield. Os canais de desinformação, que moram lá para os lados das “redes sociais”, apressaram-se a sugerir que a discrepância talvez se devesse ao facto de a maior parte das ONGs ser financiada pela própria Comissão EuropeiaMas não eram os cidadãos europeus também financiados, e até agraciados, pela Comissão, com comissões, debates, recomendações, subsídios e altos funcionários que permanentemente trabalhavam em sua defesa e em defesa da Democracia?

Independentemente dos inquéritos, o Escudo Democrático impunha-se; até para conter as escolhas eleitorais de povos cada vez mais manipulados e desinformados, que insistiam em ameaçar a Democracia, apesar dos inúmeros avisos da imprensa de referência e das inúmeras recomendações e sanções das inúmeras comissões.

À beira de um ataque de nervos

O Escudo do comissário do povo europeu Michael McGrath é só um exemplo da forma mais organizada e institucional que a reacção sistémica ao “voto do povo” tem vindo a tomar. A prática de recorrer a instrumentos jurídicos para, em nome da Democracia, proibir ou tornar ilegais eleições “que não correram bem” e prevenir as que poderão não correr bem, parece ter-se normalizado. A primeira volta das eleições na Roménia, por exemplo, foi anulada porque o “candidato errado” estava à frente; igualmente esclarecedora, é a tentativa de impor a Marine Le Pen uma sentença extraordinária por ter como funcionários no Parlamento Europeu alguns dos seus quadros partidários, prática generalizada entre os partidos franceses e europeus.

Também em Portugale logo num momento de grandes elogios à actividade jornalística e ao papel da liberdade de pensamento e de escrita no nascimento e consolidação da Democraciaparece haver partidários dos “escudos democráticos”, nomeadamente contra as famigeradas “redes sociais(como se “as redes sociais” fossem uma realidade unívoca e unilateral, e como se a desinformação, o discurso de ódio e os disparates só por lá andassem). A alternativa, supomos, seria ficarmos unicamente com os chamados jornais de referência e com uma aturada selecção de respeitáveis pivots e comentadores televisivos, capazes de informar democraticamente o povo, com a decência, o rigor, a objectividade, a correcção e a actualidade que a Democracia exige. (No Domingo passado, quando já se sabiam os resultados na Argentina, um dos canais de referência, atido ao wishfull thinking das sondagens e a uma suposta vitória dos peronistas em Buenos Aires, ainda dava Milei a perder as eleições parlamentares na Argentina).

Liberalíssimos democratas a defender a proibição das redes sociais, esse tentacular polvo de caótica e amoral informação alternativa, a bem da Democracia e da luta contra o Fascismo? O mesmo Fascismo instituído pelo Estado Novo, esse “bafiento regime de terror”, que censurava tudo o que era amoral e…alternativo?

Com todo este “ó tempo volta para trás”, só podem estar à beira de um ataque de nervos.

A SEXTA COLUNA      HISTÓRIA      CULTURA      COMISSÃO EUROPEIA       EUROPA       MUNDO       DEMOCRACIA       SOCIEDADE

COMENTÁRIOS:

António Rocha Pinto: Os "jornais de referência" fazem haraquiri diariamente, afugentando leitores e até "simpatizantes" só não morrem por o Estado fazer uso do seu "escudo democrático" financiar o ventilador.                 José B Dias: É certo que, dos 5 mil cidadãos que responderam à consulta, só 79 se mostraram favoráveis à implementação do dito Escudo, mas não seria isso mais uma prova das “ameaças híbridas” e das “ingerências estrangeiras” que andavam no ar? São agora os "agentes russos" no lugar das velhinhas bruxas de Salém ... e o jeito que dá ter algo para servir de bode expiatório e simultaneamente manter a população medrosa, desconfiada e assim bem mais disposta a tudo aceitar? Mas como sempre, é tudo para a nossa segurança, é preciso aplanar a curva e vai ficar tudo bem ...                Ana Bosque: Este artigo é mais um alerta de JNP. Nunca devemos tomar a democracia como um dado adquirido. Há muitas formas de, para bem do demo, acabar com ela.                   João Filipe Reis: Muitos parabéns.                  madalena colaço: Obrigada por denunciar a ingerência dos comissários e altos dirigentes europeus no nosso dia-a-dia. Eles é que sabem o que podemos ler, ouvir, ver e ainda nos atiram que com esse "escudo" nos estão a proteger. Em breve preparam-se para imitar a China, no controle do que fazemos dando pontos do que podemos ou não ler ou fazer. Quem ler os seus artigos, JNP, certamente terá pontuação negativa.                   Jorge Carvalho: A Europa está tolhida pela serventuária comunicação social e a oligarquia de Bruxelas já vão estando muito desmascarados. Mais uns empurrões e vão borda fora. Ainda não perceberam que não vai haver escudos que cheguem para defender os seus pérfidos previlégios.               Sr Leão: O povo não tem defeitos. As pessoas são como são -- ou como a vida lhes permite ser. Sendo a democracia o regime em que a vontade popular deve prevalecer -- sendo imposta pela maioria -- é evidente que essa treta do "escudo democrático" que protege os cidadãos de si próprios não passa de mais uma aldrabice destinada a garantir a continuidade no poder a quem já o exerce. É preciso denunciar a manobra totalitária que está a ser ensaiada pela maioria dos governos e de quem preside às instituições europeias. Ou já esquecemos o trapaceiro Costa e outros que vivem pela Europa à nossa custa?             Manuel Magalhães: Óptima demonstração do que é o trágico ridículo do que é e do que tem sido a “gouvernance” da UE, entretanto, tarde e a más horas começamos a perceber que geopoliticamente já praticamente não existimos, e agora???                José Costa-Deitado:  “Um Escudo Democrático”? O novo comissário europeu para a Democracia quer salvar a Democracia... da própria democracia. Chamam-lhe “Escudo”, mas o que parece mesmo é “La Piovra” — o polvo tentacular do pensamento único, que tenta agarrar tudo o que mexe fora da bolha mediática e das televisões oficiais. Querem proteger-nos da desinformação — isto é, proteger-se da informação alternativa. Democracia sim, mas sem povo e sem redes. É o novo lema de Bruxelas. Jaime Nogueira Pinto, disse o que muitos pensam e poucos se atrevem a escrever.                    Miguel Seabra: E que tal extinguir a comissão europeia?          João Floriano: E estão mesmo à beira de um ataque de nervos. Por cá também se tentou impor uma higienização do discurso que mais não é do que dar plena liberdade de expressão à esquerda e seus arautos e fechar  a matraca da direita. «Tavares alerta para discurso político polarizado e defende pedagogia do jornalismo». Este artigo de 18 de janeiro de 2024 publicado no Observador, mostra-nos a opinião do irrequieto Rui Tavares a propósito de um jornalista do Expresso que  foi retirado «ao colo», da sala. Em novembro de 2023, Rita Matias foi barrada na Faculdade de Direito da Cidade Universitária em Lisboa. Não me lembro de o nosso querido careca do LIVRE ter sido tão vocal como no caso do jornalista do Expresso. Em 2017 Jaime Nogueira Pinto foi também calado e boicotado numa conferência a realizar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa. O curioso é que o alvo da higienização é sempre de direita. Na esquerda é tudo limpinho, lavadinho, um brinquinho. Não pude deixar de sorrir com  a amostra de 5000 respostas ao rápido inquérito do Sr. McGrath. Aposto que foi realizado no próprio Parlamento Europeu onde trabalham 8000 funcionários. Foi o inquérito da semana. Na anterior os 8000 funcionários tinham votado entre brioche ou croissant ao pequeno almoço no restaurante do edifício.                 Miguel Seabra: E que tal extinguir a comissão europeia?                Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!            Rui Lima: Nos subúrbios de Helsínquia, a Solar Foods fabrica uma proteína em pó a partir de um micróbio que não precisa de fotossíntese para crescer. Apresentam-na como uma alternativa ‘revolucionária’ à carne — eficiente, limpa e supostamente sem sustos ambientais. Depois de ler o artigo de JNP sobre a ‘boa liberdade’ que Michael McGrath, Comissário Europeu para a Democracia,  Justiça,  Estado de Direito e Protecção do Consumidor, nos quer dar, comecei a perceber o quadro completo: Solar Foods promete carne em pó de micróbio. O Comissário promete ‘boa liberdade’ higienizada. Parece que, em breve, estaremos protegidos da carne… e da liberdade também.”

 

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