O de ANDRÉ ONDINE ao
excessivo azedume de ALBERTO GONÇALVES para com os críticos de RONALDO, este
como visitante de um TRUMP a viver a sua glória de eleito no seu país poderoso,
a que TRUMP se propõe acrescentar os traços das suas manobras de artificioso aproveitador
do seu tempo. Se RONALDO foi convidado de TRUMP, não sei por que não aceitaria o
convite, afinal, como ALBERTO GONÇALVES aponta, TRUMP também se passeia pelo
mundo e o mundo aceita TRUMP, com o zelo necessário. Ainda bem que RONALDO figurou
na Sala Oval, mas não vale a pena condenar os que discordam disso. Ou a
democracia é uma batata.
Ronaldo Derangement Syndrome
O que lhes dói mais nem é Ronaldo, ou o brutal abismo que separa
Ronaldo da mediocridade deles: o que lhes dói é o ocupante da Sala Oval ser
Trump.
ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador
OBSERVADOR, 22 nov. 2025, 00:2012
Começo por informar que não tenho conhecimento privilegiado da carreira
de Cristiano Ronaldo. Quase não vejo futebol há pelo menos vinte anos, e
hoje a minha relação com a bola limita-se a ocasionais vídeos de Pelé e Cruijff
no YouTube. Sucede que Ronaldo é tão omnipresente
que mesmo o mais distraído dos sujeitos não consegue não saber que ele é um
atleta extraordinário, um sujeito com uma dedicação quase desumana ao ofício
que escolheu ou que o escolheu a ele.
Em larga medida, Ronaldo é o exacto
oposto da maioria dos que, nos últimos dias, se tornaram seus detractores.
E por isso Ronaldo é tudo o que os
detractores detestam. Nasceu e
cresceu na pobreza extrema e, através de um esforço incomum e apenas através do
esforço, alcançou fama e fortuna de dimensões impensáveis. Subiu na vida, como
se diz. E não se envergonha das origens. E é extraordinariamente bom no que
faz, a ponto de ter dispensado as proverbiais ajudas ou “cunhas”. E, numa idade
e situação em que podia passar o resto da existência na piscina a contemplar os
Bugatti na garagem, continua a resistir à reforma e à preguiça.
Em suma, Ronaldo tem todos os
defeitos. Faltava um. O
pormenor que faltava para que o ódio dessa gente por Ronaldo explodisse sem
amarras “patrióticas” chegou agora. Há duas semanas, manifestou em entrevista
uma inequívoca admiração por Donald Trump. Esta semana encontrou-se com Trump
na Casa Branca, onde jantou. O dinheiro, os automóveis, a ostentação, os
penteados ainda se fingia tolerar, até porque o contrário implicaria exibir um
rancor injustificável pelo maior desportista português e a única celebridade
portuguesa. Ainda havia um módico de decoro, ou de vergonha na cara. Após a
entrada em cena de Trump, o decoro foi-se e o descaramento irrompeu com força.
O ódio que se verteu nas
“redes sociais” não espanta. O ódio vertido nos “media” convencionais
também não. As televisões, principalmente as televisões, estão repletas de
“especialistas” em Política & Variedades que ocupam noventa por cento do
seu tempo a esconjurar o presidente americano (os dez por cento restantes são
aplicados no dr. Ventura). E é engraçado verificar a relação directamente
proporcional entre o nível de fúria que Ronaldo lhes mereceu e o grau de
idiotia que os “especialistas” habitualmente demonstram. Sumidades
que juraram aos espectadores pela saúde mental de Joe Biden e pela vitória de
Kamala Harris acham-se com legitimidade não só para continuar a comentar coisas
mas para achar “inaceitável” a ida de Ronaldo a Washington. Em canal que não
recordo, vi um sujeito, que jamais vira, recomendar “cautela” a Ronaldo. Outro
aconselhou Ronaldo a ir a Gaza. Não é necessariamente verdade que os recursos
naturais são limitados: a estupidez de tantos “especialistas”, por exemplo, é
infinita.
Corre por aí a tese de que a inveja explica tamanho ódio.
Trata-se de uma explicação parcial. Claro
que a burgessos convencidos de que expelir inanidades na Sic Notícias é o
apogeu do cosmopolitismo, a ascensão de Ronaldo à Sala Oval deve doer. Porém, o
que lhes dói mais nem é Ronaldo, ou o brutal abismo que separa Ronaldo da
mediocridade deles: o que lhes dói é o ocupante da Sala Oval ser Trump.
O Síndroma do Destrambelhamento fez inúmeras vítimas, e não acredito que invejem encontros com Trump – excepto durante um
comício, a partir de um telhado e com arma mais bem calibrada que a de Butler,
Pensilvânia. Com Biden ou Obama no poder, os medíocres calariam a
inveja e louvariam a honra concedida ao “melhor jogador do mundo”.
Por fim, há a questão da Arábia
Saudita. É uma
ditadura brutal? É, e os recentes progressos evidentemente não bastam para
redimir o regime. Mas nem a pergunta nem a resposta são essas. Eis
as perguntas: alguém levantaria
sequer uma ligeira objecção caso Ronaldo tivesse acompanhado uma delegação
saudita ao Eliseu, a fim de obsequiar o badameco local? Ou ao Torquemada da
Temu que mora em Downing Street? E eis a resposta: não, obviamente que não.
Para cúmulo, estamos a falar de
criaturas que, com altíssima probabilidade, ignoraram ou aplaudiram os
múltiplos e fraternos encontros de “estadistas” nacionais com Hugo Chávez,
Nicolas Maduro, o sr. Lula, Fidel Castro, Vladimir Putin (depois da Crimeia),
os presidentes de Angola, o soba da Guiné-Equatorial, o torcionário da China, o
saudoso Kadhafi (recebido em glória por cá) e, vejam lá, o próprio príncipe
herdeiro das Arábias, com quem o prof. Marcelo reuniu em Riad e em Lisboa. E
estamos a falar de criaturas que possivelmente festejaram os golos da “selecção”
em paraísos dos direitos humanos do calibre da África do Sul, da Rússia e do
Qatar.
O problema das criaturas não é especialmente com Ronaldo, ainda que a
grandeza deste os humilhe e ajude a expor a respectiva pequenez. O
problema é com Trump. O
problema, hoje, é sempre com Trump, que embora ao contrário de Ronaldo não
pareça ter muitas virtudes, tem a virtude maior, que é a de irritar as pessoas
certas: as que nunca deixam de estar erradas.
CRISTIANO
RONALDO FUTEBOL DESPORTO DONALD
TRUMP ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA MUNDO EXTREMISMO SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 12):
Miguel Seabra: Por uma vez, não concordo totalmente com o AG. Se o
problema fosse só o ódio ao Trump, tinha havido revolta e indignação quanto o
Costa e o professor catavento foram lá de joelhos. Acontece que eles dizem mal
do Trump todos os dias (sempre pelas costas) e isso garante-lhes a absolvição
dos comentadores da treta que enxameiam os estúdios das nossas TVs fake news. O
problema aqui é que o CR disse que admirava o Trump e queria ir à Casa Branca.
Isto é que os deixou loucos, a evidência de que o CR7 não está minimamente
preocupado com a manada do politicamente correcto. Na entrevista ao Piers
Morgan ele disse claramente: eu não consigo ver TV, bem tento para saber o que
se passa no Mundo, mas ao fim de um minuto já estou a desligar, não
consigo….Este é que é o problema, o CR7 cancelou os comentadores…. Alfredo Vieira: Ora nem mais: Trump é detentor da "virtude maior
de irritar as pessoas certas: as que nunca deixam de estar erradas". E só
por isso merece respeito. João
Floriano: Não podia
estar mais de acordo com a opinião de AG. Também sou daqueles que não tem uma
paixão particular por Cristiano Ronaldo, nem igualando-o aos deuses do Olimpo,
nem fermentando invejas como as que rebentaram e jorraram livres de filtros nos
últimos dias. Tal como AG admiro a sua resiliência, força de vontade, disciplina
sem limites, a sua auto-estima bem lá no alto e se inveja houvesse seria
daqueles genes maravilhosos que aos quarenta anos ainda lhe permitem correr até
à baliza do adversário. Talvez não comece a cavalgada tão cá detrás ainda antes
do meio campo, mas continua a ser notável. O que me irrita em Ronaldo é a
fixação nos «troféus» e na necessidade de bater records. E para escândalo de
muitos até considero que a selecção joga mais solta e alegre quando ele não
está e não há a obrigação de lhe passar a bola. Então agora com o
golo 1000 nas aspirações do CR7, deve ser uma angústia. Ronaldo nasceu com o
traseiro voltado para a Lua, uma daquelas bem gigantes, uma super lua. A mãe
Dolores que agora anda a fazer publicidade ao bacalhau com natas (???) do Pingo
Doce, foi aconselhada a interromper a gravidez porque a miséria era muita. Mas
logo desde o início Ronaldo teve sorte. Dolores não seguiu a recomendação e
ainda por cima baptizou o catraio com o nome de Ronaldo, um presidente
americano. Ronaldo não se deixou fotografar com o keffyeh enrolado ao pescoço,
nem mostrou uma bandeira do Hamas na camisola interior para festejar um golo.
Não se conhecem videos com um braço por cima da Greta e outro por cima da
Mariana Mortágua, não condenou Israel. Ronaldo entrou para a lista negra
dos grandes moralistas politicamente (in)correctos. Nem quero imaginar como
deve estar preocupado! André
Ondine: O facto de Ronaldo poder ser criticado pelas suas escolhas não significa
que não se admire o desportista extraordinário e o percurso profissional e
pessoal de quem vem de um lugar remoto e de uma família em dificuldades e
consiga o que ele conseguiu. Poucos serão indiferentes a esse caminho notável. Mas dizer que admira Trump e
aparecer num jantar de bilionários na Casa Branca dourada com Trump, Musk e
afins é uma escolha de Ronaldo. E pode ser criticado. E, na minha opinião, deve
ser criticada. Não (mas, a meu ver, também) por razões políticas, mas principalmente por
razões de humanismo. Trump é um narcisista, um bully que gosta de usar o seu
poder para humilhar os que não o têm, um mal-educado, um homem que está a
querer mandar no mundo em troca de riqueza, de vaidade e de poder. O que o move é o tal
Nobel, o ego, a fortuna do futuro resort de Gaza e da relação misteriosa com a
Rússia. Tudo é obscuro. É rude a valer, quase doentio. Tem tiques ditatoriais
lamentáveis. É isto que Ronaldo admira? A fortuna que Ronaldo tem traz
responsabilidade. E esta amostra de bilionários dourados é um mau exemplo que
não se apaga com gestos vazios posteriores. Ronaldo poderia, por exemplo,
ter escolhido ir à Ucrânia encontrar-se com Zelensky e mandar uma mensagem urgente
de paz ao mundo. Mas a sua escolha foi Trump e Musk. É isso, Alberto Gonçalves,
pode ser criticado. Respeitosamente. O Alberto Gonçalves tem criticado muito quem critica
Trump, mas dedica-se muito pouco a criticar um homem como Trump que, com as suas
atitudes abjectas, se fosse de esquerda (e eu não sou) mereceria do Alberto
semanas de crónicas de escrita de fina ironia.
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