sábado, 22 de novembro de 2025

Um justo comentário

 

O de ANDRÉ ONDINE ao excessivo azedume de ALBERTO GONÇALVES para com os críticos de RONALDO, este como visitante de um TRUMP a viver a sua glória de eleito no seu país poderoso, a que TRUMP se propõe acrescentar os traços das suas manobras de artificioso aproveitador do seu tempo. Se RONALDO foi convidado de TRUMP, não sei por que não aceitaria o convite, afinal, como ALBERTO GONÇALVES aponta, TRUMP também se passeia pelo mundo e o mundo aceita TRUMP, com o zelo necessário. Ainda bem que RONALDO figurou na Sala Oval, mas não vale a pena condenar os que discordam disso. Ou a democracia é uma batata.


Ronaldo Derangement Syndrome

O que lhes dói mais nem é Ronaldo, ou o brutal abismo que separa Ronaldo da mediocridade deles: o que lhes dói é o ocupante da Sala Oval ser Trump.

ALBERTO GONÇALVES Colunista do Observador

OBSERVADOR, 22 nov. 2025, 00:2012

Começo por informar que não tenho conhecimento privilegiado da carreira de  Cristiano Ronaldo. Quase não vejo futebol há pelo menos vinte anos, e hoje a minha relação com a bola limita-se a ocasionais vídeos de Pelé e Cruijff no YouTube. Sucede que Ronaldo é tão omnipresente que mesmo o mais distraído dos sujeitos não consegue não saber que ele é um atleta extraordinário, um sujeito com uma dedicação quase desumana ao ofício que escolheu ou que o escolheu a ele.

Em larga medida, Ronaldo é o exacto oposto da maioria dos que, nos últimos dias, se tornaram seus detractores. E por isso Ronaldo é tudo o que os detractores detestam. Nasceu e cresceu na pobreza extrema e, através de um esforço incomum e apenas através do esforço, alcançou fama e fortuna de dimensões impensáveis. Subiu na vida, como se diz. E não se envergonha das origens. E é extraordinariamente bom no que faz, a ponto de ter dispensado as proverbiais ajudas ou “cunhas”. E, numa idade e situação em que podia passar o resto da existência na piscina a contemplar os Bugatti na garagem, continua a resistir à reforma e à preguiça.

Em suma, Ronaldo tem todos os defeitos. Faltava um. O pormenor que faltava para que o ódio dessa gente por Ronaldo explodisse sem amarras “patrióticas” chegou agora. Há duas semanas, manifestou em entrevista uma inequívoca admiração por Donald Trump. Esta semana encontrou-se com Trump na Casa Branca, onde jantou. O dinheiro, os automóveis, a ostentação, os penteados ainda se fingia tolerar, até porque o contrário implicaria exibir um rancor injustificável pelo maior desportista português e a única celebridade portuguesa. Ainda havia um módico de decoro, ou de vergonha na cara. Após a entrada em cena de Trump, o decoro foi-se e o descaramento irrompeu com força.

O ódio que se verteu nas “redes sociais” não espanta. O ódio vertido nos “media” convencionais também não. As televisões, principalmente as televisões, estão repletas de “especialistas” em Política & Variedades que ocupam noventa por cento do seu tempo a esconjurar o presidente americano (os dez por cento restantes são aplicados no dr. Ventura). E é engraçado verificar a relação directamente proporcional entre o nível de fúria que Ronaldo lhes mereceu e o grau de idiotia que os “especialistas” habitualmente demonstram. Sumidades que juraram aos espectadores pela saúde mental de Joe Biden e pela vitória de Kamala Harris acham-se com legitimidade não só para continuar a comentar coisas mas para achar “inaceitável” a ida de Ronaldo a Washington. Em canal que não recordo, vi um sujeito, que jamais vira, recomendar “cautela” a Ronaldo. Outro aconselhou Ronaldo a ir a Gaza. Não é necessariamente verdade que os recursos naturais são limitados: a estupidez de tantos “especialistas”, por exemplo, é infinita.

Corre por aí a tese de que a inveja explica tamanho ódio. Trata-se de uma explicação parcial. Claro que a burgessos convencidos de que expelir inanidades na Sic Notícias é o apogeu do cosmopolitismo, a ascensão de Ronaldo à Sala Oval deve doer. Porém, o que lhes dói mais nem é Ronaldo, ou o brutal abismo que separa Ronaldo da mediocridade deles: o que lhes dói é o ocupante da Sala Oval ser Trump. O Síndroma do Destrambelhamento fez inúmeras vítimas, e não acredito que invejem encontros com Trump – excepto durante um comício, a partir de um telhado e com arma mais bem calibrada que a de Butler, Pensilvânia. Com Biden ou Obama no poder, os medíocres calariam a inveja e louvariam a honra concedida ao “melhor jogador do mundo”.

Por fim, há a questão da Arábia Saudita. É uma ditadura brutal? É, e os recentes progressos evidentemente não bastam para redimir o regime. Mas nem a pergunta nem a resposta são essas. Eis as perguntas: alguém levantaria sequer uma ligeira objecção caso Ronaldo tivesse acompanhado uma delegação saudita ao Eliseu, a fim de obsequiar o badameco local? Ou ao Torquemada da Temu que mora em Downing Street? E eis a resposta: não, obviamente que não.

Para cúmulo, estamos a falar de criaturas que, com altíssima probabilidade, ignoraram ou aplaudiram os múltiplos e fraternos encontros de “estadistas” nacionais com Hugo Chávez, Nicolas Maduro, o sr. Lula, Fidel Castro, Vladimir Putin (depois da Crimeia), os presidentes de Angola, o soba da Guiné-Equatorial, o torcionário da China, o saudoso Kadhafi (recebido em glória por cá) e, vejam lá, o próprio príncipe herdeiro das Arábias, com quem o prof. Marcelo reuniu em Riad e em Lisboa. E estamos a falar de criaturas que possivelmente festejaram os golos da “selecção” em paraísos dos direitos humanos do calibre da África do Sul, da Rússia e do Qatar.

O problema das criaturas não é especialmente com Ronaldo, ainda que a grandeza deste os humilhe e ajude a expor a respectiva pequenez. O problema é com Trump. O problema, hoje, é sempre com Trump, que embora ao contrário de Ronaldo não pareça ter muitas virtudes, tem a virtude maior, que é a de irritar as pessoas certas: as que nunca deixam de estar erradas.

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COMENTÁRIOS (de 12):

Miguel Seabra: Por uma vez, não concordo totalmente com o AG. Se o problema fosse só o ódio ao Trump, tinha havido revolta e indignação quanto o Costa e o professor catavento foram lá de joelhos. Acontece que eles dizem mal do Trump todos os dias (sempre pelas costas) e isso garante-lhes a absolvição dos comentadores da treta que enxameiam os estúdios das nossas TVs fake news. O problema aqui é que o CR disse que admirava o Trump e queria ir à Casa Branca. Isto é que os deixou loucos, a evidência de que o CR7 não está minimamente preocupado com a manada do politicamente correcto. Na entrevista ao Piers Morgan ele disse claramente: eu não consigo ver TV, bem tento para saber o que se passa no Mundo, mas ao fim de um minuto já estou a desligar, não consigo….Este é que é o problema, o CR7 cancelou os comentadores….                    Alfredo Vieira: Ora nem mais: Trump é detentor da "virtude maior de irritar as pessoas certas: as que nunca deixam de estar erradas". E só por isso merece respeito.               João Floriano: Não podia estar mais de acordo com a opinião de AG. Também sou daqueles que não tem uma paixão particular por Cristiano Ronaldo, nem igualando-o aos deuses do Olimpo, nem fermentando invejas como as que rebentaram e jorraram livres de filtros nos últimos dias. Tal como AG admiro a sua resiliência, força de vontade, disciplina sem limites, a sua auto-estima bem lá no alto e se inveja houvesse seria daqueles genes maravilhosos que aos quarenta anos ainda lhe permitem correr até à baliza do adversário. Talvez não comece a cavalgada tão cá detrás ainda antes do meio campo, mas continua  a ser notável. O que me irrita em Ronaldo é a fixação nos «troféus» e na necessidade de bater records. E para escândalo de muitos até considero que a selecção joga mais solta e alegre quando ele não está e não há  a obrigação de lhe passar  a bola. Então agora com o golo 1000 nas aspirações do CR7, deve ser uma angústia. Ronaldo nasceu com o traseiro voltado para a Lua, uma daquelas bem gigantes, uma super lua. A mãe Dolores que agora anda a fazer publicidade ao bacalhau com natas (???) do Pingo Doce, foi aconselhada a interromper a gravidez porque a miséria era muita. Mas logo desde o início Ronaldo teve sorte. Dolores não seguiu a recomendação e ainda por cima baptizou o catraio com o nome de Ronaldo, um presidente americano. Ronaldo não se deixou fotografar com o keffyeh enrolado ao pescoço, nem mostrou uma bandeira do Hamas na camisola interior para festejar um golo. Não se conhecem videos com um braço por cima da Greta  e outro por cima da Mariana Mortágua, não condenou Israel. Ronaldo entrou para  a lista negra dos grandes moralistas politicamente (in)correctos. Nem quero imaginar como deve estar preocupado!                André Ondine: O facto de Ronaldo poder ser criticado pelas suas escolhas não significa que não se admire o desportista extraordinário e o percurso profissional e pessoal de quem vem de um lugar remoto e de uma família em dificuldades e consiga o que ele conseguiu. Poucos serão indiferentes a esse caminho notável. Mas dizer que admira Trump e aparecer num jantar de bilionários na Casa Branca dourada com Trump, Musk e afins é uma escolha de Ronaldo. E pode ser criticado. E, na minha opinião, deve ser criticada. Não (mas, a meu ver, também) por razões políticas, mas principalmente por razões de humanismo. Trump é um narcisista, um bully que gosta de usar o seu poder para humilhar os que não o têm, um mal-educado, um homem que está a querer mandar no mundo em troca de riqueza, de vaidade e de poder. O que o move é o tal Nobel, o ego, a fortuna do futuro resort de Gaza e da relação misteriosa com a Rússia. Tudo é obscuro. É rude a valer, quase doentio. Tem tiques ditatoriais lamentáveis. É isto que Ronaldo admira? A fortuna que Ronaldo tem traz responsabilidade. E esta amostra de bilionários dourados é um mau exemplo que não se apaga com gestos vazios posteriores. Ronaldo poderia, por exemplo, ter escolhido ir à Ucrânia encontrar-se com Zelensky e mandar uma mensagem urgente de paz ao mundo. Mas a sua escolha foi Trump e Musk. É isso, Alberto Gonçalves, pode ser criticado. Respeitosamente. O Alberto Gonçalves tem criticado muito quem critica Trump, mas dedica-se muito pouco a criticar um homem como Trump que, com as suas atitudes abjectas, se fosse de esquerda (e eu não sou) mereceria do Alberto semanas de crónicas de escrita de fina ironia.

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