De Tebas, matou o pai e casou com a mãe – Jocasta, de quem teve quatro filhos, simultaneamente seus irmãos. Era esta a história que me trouxe Jean Anouilh, em tempos passados e o próprio Sófocles que tanto sabor dariam aos meus afectos literários, e hoje retomo em termos mais filosóficos, naturalmente menos prazerosos, para mim, que, às explanações filosóficas, prefiro, naturalmente, as aventuras romanescas. Mas o cegar-se, cometido pelo próprio Édipo, quando se reconheceu o responsável pelos crimes de incesto e de parricídio, que o fizeram autopunir-se, sem, contudo, ter culpa própria, já que tudo estava previsto, e as tentativas de o evitar, pelos seus e por ele próprio, sempre goradas, mostrara-me quanto a condição humana é exígua em felicidade, de antemão condenada, o corpo e a alma decididamente interligados, para o BEM e para o MAL, arrependimento e vergonha fazendo parte do processo, condenado o HOMEM à partida, mas nem por isso se desresponsabilizando – no orgulho de o HOMEM se julgar um ser superior, fazedor de leis e punidor dos desvios, de que ele próprio é juiz. Para felicidade humana, naturalmente, a alma como parte invisível mas poderosa deste ser minúsculo, condenado à partida, o O Tempora o Mores provando uma realidade, oxalá que para sempre, “O corpo, com todas as suas feridas e tremores, único instrumento por intermédio do qual a alma pode sentir o mundo”, segundo a síntese da excelente crónica de PAULO RAMOS.
Arrependimentos
e a cegueira de Édipo
O corpo, com todas as suas feridas e tremores, é o único instrumento por
intermédio do qual a alma pode sentir o mundo.
PAULO RAMOS, Investigador
no Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
e tradutor
OBSERVADOR, 15 nov. 2025, 00:152
O corpo é a primeira noite da nossa
herança. Antes
do primeiro vagido, antes que a linguagem ferisse as paredes macias do
ouvido, já estávamos imersos nesta antiga obscuridade da carne. É uma
escuridão mais antiga que a ancestralidade, mais antiga que a linhagem, mais
antiga até que o mito. Ao corpo, os gregos chamavam σάρξ (sarx), palavra
que carrega o suave peso da substância perecível, da carne exposta. Os latinos, mais severos, falavam de corpus, um termo
já ressonante no som da queda, do cadáver, da rendição que todo o ser vivo deve
um dia cumprir. Nessa dupla etimologia – sarx,
tremor; corpus, colapso – oculta-se a nossa primeira vergonha. A vergonha não se aprende – precede a gramática do erro, emerge qual
vapor frio do próprio corpo, como
se o conhecimento mais antigo que possuímos fosse o de sermos vistos.
Esse vapor habita as fissuras
anteriores à articulação, os tremores arcaicos que persistem sob as camadas da
fala. Apercebemo-nos
da alma como um sedimento subtil agitado pelo suave martelar do corpo. A carne estremece e o pensamento segue-a. Possuir um
corpo é já estar comprometido, exposto ao olhar, penetrado pelo tempo. Há nessa exposição uma humilhação
primitiva. Antes que qualquer falta seja cometida, antes que qualquer peso moral desça, o corpo permanece
ali – nu, secreto, poroso
– carregando uma vergonha que não tem origem fora de si mesmo.
A criança é lançada da
escuridão materna para o encadeamento interrogativo do mundo. Esse
encadeamento não é luz, mas julgamento. O olhar do outro torna-se a primeira lei. Os
romanos chamavam ao recém-nascido infans, literalmente “aquele que não pode falar”. Mas o
corpo fala muito antes da língua. Contrai-se,
arqueia, esconde-se, enrola-se, treme. Recorda. E a memória é a mais antiga das feridas. No momento em que nos damos conta de sermos
observados, abre-se em nós uma fina brecha, como a primeira fractura no gelo de
um lago no inverno. A vergonha infiltra-se nela e aí faz
morada.
A
tragédia antiga sabia-o muito bem: Édipo cega-se não apenas pelos crimes
que cometeu, mas também pela insuportável
clareza do autoconhecimento. A exposição à verdade – muito crua, muito luminosa – torna-se um tormento
maior do que o próprio crime. Penteu, dilacerado pela mãe, é punido por querer ver o que os deuses escolheram ocultar. Em
ambos os casos, o acto de ver e ser visto
é insuportável. O olho é
um predador; a visão fere. A
vergonha não é consequência de uma transgressão; é a condição de ter um corpo
aberto à contemplação.
Habitar a própria forma é já
confessar. Agostinho, escrevendo as Confissões, recua
da memória como de uma chama viva. Vê nos seus desejos passados
um vestígio que se apega à carne muito tempo depois de os próprios actos
terem desaparecido. O latim de
Agostinho – denso, trémulo, penitencial – tenta purificar nomeando, mas cada
nome que profere ressuscita aquilo que ele deseja esquecer.
Será necessário observar que poenitentia, arrependimento, deriva de poena, punição? Arrepender-se é sujeitar-se a um castigo interior, um regresso ao
local da ferida. É
um círculo linguístico: a palavra pune quem a profere.
E quão necessitados estamos de um sentido de arrependimento diferente do
de Agostinho, nem teológico nem moral; mais semelhante à compreensão estoica da turbulência da mente, ou à
consciência epicurista de que a memória muitas vezes esmaga o presente sob o peso
daquilo que não pode ser desfeito. Séneca, numa das suas cartas, observa que sofremos
mais com a imaginação do que com a realidade – plura nobis mala mentis quam corpora ingerunt –
mas ele sabia que a imaginação se alimenta precisamente daquilo que já aconteceu. O passado
não é passado. É um submundo que inunda o presente com os seus mortos.
Nesse sentido, o arrependimento é o
lento reaparecimento de escolhas que foram antes pequenas, fugazes, talvez até
acidentais: uma palavra dita descuidadamente, um gesto
apressado, um silêncio que não deveria ter sido mantido – esses actos menores incham nos longos
corredores da memória até se tornarem figuras colossais, como
as sombras que Ulisses encontra quando derrama sangue no fosso do Hades. Essas sombras não podem ser abraçadas. Ele estende os
braços; elas atravessam-no como fumo frio. Assim
são as antigas escolhas: insubstanciais,
mas repletas de um poder arrepiante.
O tempo não as dilui.
Pelo contrário, grava-as mais profundamente. Aquilo
que chamamos arrependimento nada mais é do que a persistência dessas gravações. Os
gregos usavam a palavra μετάνοια (metanoia) –
uma mudança de mentalidade, uma transformação do eu – e, no entanto, o
verbo que lhe subjaz, νοεῖν (noein), significa “perceber, pensar”. O
arrependimento é, portanto, uma segunda observação, um regresso do pensamento
àquilo que ele preferiria não ver.
O corpo, entrelaçado nessas memórias,
torna-se um arquivo de gestos e recusas. Cada dobra de pele, cada vinco oculto, carrega um rasto. A vergonha
habita esses rastos como um antigo inquilino que se recusa sair. O arrependimento
cerca-os como um
animal nocturno que regressa ao seu ponto de origem. E é aí
que muitas vezes nos demoramos, no espaço onde o corpo se torna o teatro de
dramas invisíveis. Ele
é atraído pelo momento anterior à cristalização do significado, para aquilo que
os latinos chamavam pudor – o rubor, o recuo, o recolhimento instintivo do eu
para dentro. Pudor não é culpa; é a ascensão da alma rumo ao ocultamento, o
desejo de regressar à noite primordial.
Os mitos oferecem inúmeras imagens desse anseio
por ocultação: ÁRION, saltando para o mar para escapar das mãos
dos seus captores, é levado por um
golfinho, meio salvo, meio
escondido nas dobras das ondas; PERSEU, protegendo-se com o espelho do seu escudo, avança em direção à MEDUSA sem jamais olhá-la directamente,
compreendendo que a própria visão pode ser fatal; ORFEU, descendo às sombras, caminha de rosto para a frente enquanto
Eurídice o segue atrás – uma presença invisível que não pode garantir sem
perdê-la de vista. Esses mitos falam de seres que vivem no limiar da
visão, que estão expostos ao perigo da visibilidade e, ainda assim, anseiam por
um refúgio além do domínio dos olhos. Revelam que ser visto já é ser vulnerável, e procurar a escuridão é
muitas vezes um apelo pela preservação do próprio eu mais profundo e trémulo.
O arrependimento, no
entanto, não
procura o ocultamento, mas uma forma de reconciliação – frágil – com esses
mitos inscritos na carne. É o despertar lento e paciente para o
facto de a própria
vida ser irrecuperável, e ainda assim ter de ser vivida. O passado é um terreno que se deve atravessar
incessantemente, como Eneias vagueando pelas ruínas de Troia depois de a cidade
ter sido reduzida a cinzas. A memória queima, mas também guia. Recordari significa, em latim, “trazer de volta ao
coração”. O arrependimento
é, portanto, um regresso do passado ao âmago do eu presente.
Nesse
regresso, começa a formar-se algo como uma música suave. Uma música de fendas, de resíduos, de pequenos
tremores. É a música das origens – aquilo que permanece sob a linguagem, sob os
séculos, sob o tecido do corpo. Na
sua vibração, ouvimos o murmúrio do rio de Heráclito, que nunca é o mesmo e, no
entanto, regressa sempre; o sussurro das metamorfoses de Ovídio, onde cada
transformação é simultaneamente punição e libertação; o tremor dos poetas
latinos que sentiam a fragilidade da carne como a primeira verdade.
Assim, o Eu avança carregando os seus dois fardos – a
vergonha e o arrependimento – como antigos companheiros sentados à popa
de um pequeno barco à deriva em águas escuras. Raramente falam, esses companheiros, mas o seu silêncio vem carregado
de etimologias, mitos e memórias. Recordam-nos que viver é ser marcado,
e recordar é reabrir a marca. Nessa reabertura, contudo, não há tragédia,
apenas frágil lucidez. O reconhecimento de que o corpo, com
todas as suas feridas e tremores, é o
único instrumento por intermédio do qual a alma pode sentir o mundo.
No fim, talvez seja isso que buscamos: não absolvição, não consolo, mas a verdade nua e crua
da nossa passagem trémula pelo tempo. Uma verdade que se inclina para o silêncio, mas que arde com a luz
ancestral daqueles que viveram antes de nós. O corpo
cora; o passado regressa; a alma curva, uma e outra vez, em direcção à noite de
que emergiu na primeira vez.
COMENTÁRIOS
Carlos Dias: Vale bem a pena ler textos destes. Obrigado PR Pobre
Portugal: Vou a
meio do texto. Tenho de parar. É demasiada a beleza. Angelo
Almeida: É
delicioso trepar por estes textos e aprender, olhar o passado que ajudou a
construir o nosso presente. E em vez de arrependimento, porque não considerar
metanoia como um ir para além da mente, do pensamento; como? Silenciando-o. Aí
a frase bíblica ganha outra textura e uma nova dinâmica: Indo além da mente
chegamos ao reino dos céus.
Maria Emília Santos: Alguns dizem que comer e beber bem, passear e
divertir-se é tudo o que levam deste mundo! A estes, eu acrescentaria:
vale tudo, até tirar olhos! Outros pensam realmente na alma, criada à imagem e
semelhança do Criador, e por isso, aproveitam o tempo para fazer o bem, isto
porque entenderam a sua própria missão e preocupam-se em encher a aljava de
boas acções, para quando se encontrarem com o Supremo Juiz da Vida e da Morte,
terem a bagagem bem cheia, e receberem em "compensação", a Vida
Eterna! Vítor Araújo:
Um texto
admirável. Mas será real o conceito, ou literário?
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