De uma memória que somos felizes
em possuir, como humanos com predicados de extraordinário relevo segundo SOFIA
TEIXEIRA bem esclarece, como esse da MEMÓRIA, dependente de uma boa gestão do
pensamento aliado à informação. Julgo que por vezes também tem a ver com
estados de alma penetrantes como pregos, embora por vezes estes “enferrujem”,
dada a condição humana de “faible roseau”
como outro génio esclarecido nos descreveu, e, neste caso, deveríamos preferir
a designação “sequem”, também real, mesmo em termos de memória.
Não conseguir recordar detalhes recentes
pode ser causado por erros no processo de memória. Mas também pode ser
apenas uma forma de gestão eficiente da informação.
SOFIA TEIXEIRA
Texto
RODRIGO MENDES
OBSERVADOR, 25
out. 2025, 10:161
Uma iniciativa
Ontem
de manhã, vestiu uma camisola castanha ou preta? À tarde, quando saiu do
trabalho, disse “até amanhã” aos colegas ou saiu sem dizer nada porque estava
ao telemóvel? À noite, jantou carne ou peixe? E leu três páginas do livro ou
adormeceu ao fim do primeiro parágrafo?
Ao tentar trazer estas memórias à
tona, podemos sentir um vazio inesperado. A memória — que muitas vezes
consideramos um arquivo fiável da nossa vida — pode ser surpreendentemente
pouco fidedigna quanto a estes pormenores do dia-a-dia: lembramo-nos de episódios da infância com uma nitidez quase
fotográfica, mas hesitamos quanto ao que aconteceu há apenas vinte e quatro
horas. Afinal, porque é que nos lembramos tão mal de coisas que aconteceram
ontem?
Temos vários tipos de memória e um dos mais relevantes para recordarmos
este género de acontecimentos é a memória episódica, que “corresponde à capacidade de recordar eventos
passados, incluindo os detalhes associados a esses acontecimentos — como o
tempo, o lugar, as pessoas e os objectos envolvidos”, explica ANA LUÍSA RAPOSO, professora associada da Faculdade
de Psicologia da Universidade de Lisboa.
A
coordenadora do grupo de investigação Memória e Linguagem, onde estuda precisamente como funciona a
memória humana, frisa que a memória episódica se distingue de
outros tipos de memória a longo prazo, “como a memória semântica, que se refere ao conhecimento geral que
temos sobre o mundo, independentemente da experiência pessoal — por exemplo, a
memória para factos, conceitos ou normas sociais.”
Simplificadamente, o processo de
memória tem três fases:
A codificação ou formação: o momento em que o cérebro regista a
informação;
O armazenamento ou consolidação: quando a informação é guardada de forma
estável;
A recuperação — o acto de lembrar, isto é, de ir buscar a
memória guardada.
O esquecimento pode
ocorrer em qualquer uma das etapas deste processo. Por exemplo, “quando estamos cansados ou distraídos, a formação ou codificação da
memória pode ser afectada”, explica ANA LUÍSA RAPOSO. Por outro lado, diz, as emoções fortalecem o armazenamento da
memória, porque envolvem a comunicação entre duas regiões-chave do
cérebro: o hipocampo, responsável
pela formação e consolidação da memória, e a amígdala, ligada ao processamento emocional.
O que significa que “acontecimentos emocionalmente intensos tendem a
ser recordados de forma mais duradoura do que eventos neutros.”
Lembramo-nos mal de ontem porque o cérebro não vê razão para
guardar com cuidado aquilo que considera banal, irrelevante ou indistinguível.
A memória episódica não é um gravador: é mais
parecida com um editor — corta, simplifica e, às vezes, deita fora.
Também o sono é crucial
na fase de consolidação das memórias. “É durante o sono que o cérebro
‘reproduz’ os eventos do dia e cria ‘etiquetas’
que determinam se um dado evento vai ser consolidado em memória ou, pelo
contrário, será descartado e esquecido. Factores como o medo, a recompensa, a
novidade, a relevância ou os objectivos pessoais determinam
que memórias são fortalecidas durante o sono”, esclarece.
Em resumo: às vezes lembramo-nos mal de ontem porque o cérebro não vê razão
para guardar com cuidado aquilo que considera banal, irrelevante ou
indistinguível. A memória episódica não é um gravador: é mais parecida com um editor — corta, simplifica e, às vezes, deita fora. Mas isto
significa também que, quando o sono é pouco ou de má qualidade, a memória
sai prejudicada “porque este processo de
selecção, ‘limpeza’ e fortalecimento das memórias não se faz.”
Por fim, mesmo quando um evento foi
bem codificado e armazenado em memória, podemos ter dificuldade em aceder à
informação. “Frequentemente, a
recuperação de uma memória específica exige esforço. [Por exemplo:] Quando foi a última vez que estive num
museu?” A especialista explica que, nesses casos, há pistas ou
estratégias para recordar que podem ser usadas: “Gosto de arte clássica ou contemporânea? Com quem costumo visitar
exposições? Foi em Portugal ou fora do país?”
Há boas razões para esquecermos
detalhes, sendo a principal a sua função adaptativa, já que permite criar
espaço para guardarmos novas memórias. Um dos exemplos mais comuns é a interferência proativa — quando memórias antigas atrapalham as novas. “É o que acontece quando nos lembramos de uma
palavra-passe antiga e não conseguimos recordar a nova”, diz ANA LUÍSA
RAPOSO. Ou quando o hábito de estacionar
sempre no mesmo sítio nos faz esquecer onde deixámos o carro desta vez.
Neste caso, esquecer as informações mais antigas é bom: uma forma de manter
a memória eficiente, evitando que dados semelhantes, mas desnecessários e desactualizados,
atrapalhem o acesso à informação actual.
Por outro lado, há esquecimentos que
servem para proteger. “Como nos
sentiríamos se nos lembrássemos de cada pormenor das situações negativas que
vivemos?”. É aqui que entra o chamado esquecimento dirigido — um processo activo em que o cérebro tenta
enfraquecer ou suprimir memórias dolorosas. Ao contrário do esquecimento passivo, este é intencional e ajuda-nos
a seguir em frente sem ficarmos presos a recordações que magoam.
Mental é uma secção do Observador
dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma
parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine
e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem
dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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COMENTÁRIOS:
Simão Guedes: Uma
reflexão muito interessante sobre a memória, um tema em que raramente nos
lembramos de pensar ("pun intended")!
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