quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Desgaste

 

De uma memória que somos felizes em possuir, como humanos com predicados de extraordinário relevo segundo SOFIA TEIXEIRA bem esclarece, como esse da MEMÓRIA, dependente de uma boa gestão do pensamento aliado à informação. Julgo que por vezes também tem a ver com estados de alma penetrantes como pregos, embora por vezes estes “enferrujem”, dada a condição humana de “faible roseau” como outro génio esclarecido nos descreveu, e, neste caso, deveríamos preferir a designação “sequem”, também real, mesmo em termos de memória.

 

Não conseguir recordar detalhes recentes pode ser causado por erros no processo de memória. Mas também pode ser apenas uma forma de gestão eficiente da informação.

SOFIA TEIXEIRA Texto

RODRIGO MENDES

 rmendes@observador.pt

OBSERVADOR, 25 out. 2025, 10:161

Uma iniciativa

Ontem de manhã, vestiu uma camisola castanha ou preta? À tarde, quando saiu do trabalho, disse “até amanhã” aos colegas ou saiu sem dizer nada porque estava ao telemóvel? À noite, jantou carne ou peixe? E leu três páginas do livro ou adormeceu ao fim do primeiro parágrafo?

Ao tentar trazer estas memórias à tona, podemos sentir um vazio inesperado. A memória — que muitas vezes consideramos um arquivo fiável da nossa vida — pode ser surpreendentemente pouco fidedigna quanto a estes pormenores do dia-a-dia: lembramo-nos de episódios da infância com uma nitidez quase fotográfica, mas hesitamos quanto ao que aconteceu há apenas vinte e quatro horas. Afinal, porque é que nos lembramos tão mal de coisas que aconteceram ontem?

Temos vários tipos de memória e um dos mais relevantes para recordarmos este género de acontecimentos é a memória episódica, que “corresponde à capacidade de recordar eventos passados, incluindo os detalhes associados a esses acontecimentos — como o tempo, o lugar, as pessoas e os objectos envolvidos”, explica ANA LUÍSA RAPOSO, professora associada da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa.

A coordenadora do grupo de investigação Memória e Linguagem, onde estuda precisamente como funciona a memória humanafrisa que a memória episódica se distingue de outros tipos de memória a longo prazo,como a memória semântica, que se refere ao conhecimento geral que temos sobre o mundo, independentemente da experiência pessoal — por exemplo, a memória para factos, conceitos ou normas sociais.”

Simplificadamente, o processo de memória tem três fases:

A codificação ou formação: o momento em que o cérebro regista a informação;

O armazenamento ou consolidação: quando a informação é guardada de forma estável;

A recuperaçãoo acto de lembrar, isto é, de ir buscar a memória guardada.

O esquecimento pode ocorrer em qualquer uma das etapas deste processo. Por exemplo, “quando estamos cansados ou distraídos, a formação ou codificação da memória pode ser afectada”, explica ANA LUÍSA RAPOSO. Por outro lado, diz, as emoções fortalecem o armazenamento da memória, porque envolvem a comunicação entre duas regiões-chave do cérebro: o hipocampo, responsável pela formação e consolidação da memória, e a amígdala, ligada ao processamento emocional. O que significa que “acontecimentos emocionalmente intensos tendem a ser recordados de forma mais duradoura do que eventos neutros.”

Lembramo-nos mal de ontem porque o cérebro não vê razão para guardar com cuidado aquilo que considera banal, irrelevante ou indistinguível. A memória episódica não é um gravador: é mais parecida com um editorcorta, simplifica e, às vezes, deita fora.

Também o sono é crucial na fase de consolidação das memórias. “É durante o sono que o cérebro ‘reproduz’ os eventos do dia e cria ‘etiquetas’ que determinam se um dado evento vai ser consolidado em memória ou, pelo contrário, será descartado e esquecido. Factores como o medo, a recompensa, a novidade, a relevância ou os objectivos pessoais determinam que memórias são fortalecidas durante o sono”, esclarece.

Em resumo: às vezes lembramo-nos mal de ontem porque o cérebro não vê razão para guardar com cuidado aquilo que considera banal, irrelevante ou indistinguível. A memória episódica não é um gravador: é mais parecida com um editorcorta, simplifica e, às vezes, deita fora. Mas isto significa também que, quando o sono é pouco ou de má qualidade, a memória sai prejudicada “porque este processo de selecção, ‘limpeza’ e fortalecimento das memórias não se faz.”

Por fim, mesmo quando um evento foi bem codificado e armazenado em memória, podemos ter dificuldade em aceder à informação. “Frequentemente, a recuperação de uma memória específica exige esforço. [Por exemplo:] Quando foi a última vez que estive num museu?” A especialista explica que, nesses casos, há pistas ou estratégias para recordar que podem ser usadas: “Gosto de arte clássica ou contemporânea? Com quem costumo visitar exposições? Foi em Portugal ou fora do país?”

Há boas razões para esquecermos detalhes, sendo a principal a sua função adaptativa, já que permite criar espaço para guardarmos novas memórias. Um dos exemplos mais comuns é a interferência proativaquando memórias antigas atrapalham as novas.É o que acontece quando nos lembramos de uma palavra-passe antiga e não conseguimos recordar a nova”, diz ANA LUÍSA RAPOSO. Ou quando o hábito de estacionar sempre no mesmo sítio nos faz esquecer onde deixámos o carro desta vez. Neste caso, esquecer as informações mais antigas é bom: uma forma de manter a memória eficiente, evitando que dados semelhantes, mas desnecessários e desactualizados, atrapalhem o acesso à informação actual.

Por outro lado, há esquecimentos que servem para proteger. “Como nos sentiríamos se nos lembrássemos de cada pormenor das situações negativas que vivemos?”. É aqui que entra o chamado esquecimento dirigidoum processo activo em que o cérebro tenta enfraquecer ou suprimir memórias dolorosas. Ao contrário do esquecimento passivo, este é intencional e ajuda-nos a seguir em frente sem ficarmos presos a recordações que magoam.

 

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

 

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COMENTÁRIOS:

Simão Guedes: Uma reflexão muito interessante sobre a memória, um tema em que raramente nos lembramos de pensar ("pun intended")!

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