segunda-feira, 5 de abril de 2021

A mim parece-me sacrilégio apenas


Para inglês/americano ver.

Só uma mente obnubilada ou distorcida se lembraria de aplicar a designação de racista a um livro de uma urdidura impecável, que conjuga a temática clássica do incesto a uma perspectiva analítica da sociedade portuguesa oitocentista, ao longo de quatro gerações – a absolutista intransigente, representada por Caetano da Maia; a liberal de fundamentação filosófica, colhida nos revolucionários enciclopedistas, que Afonso da Maia pretendeu observar nos seus tempos juvenis (sem o concretizar, de resto, na desistência criada não só pelo bem-estar económico, como pela marginalidade e utopia de tal pretensão, num país sem condições culturais e económicas possibilitando uma inversão capaz); a sentimental desistente, protagonizada por Pedro da Maia; a “geração de setenta”, mais aberta e dinâmica que Carlos da Maia pretende assumir, sem resultado, todavia, não só pelos motivos que fizeram falhar o seu avô, a riqueza pessoal proporcionando uma vivência de aparato social, como, no caso presente, uma paixão condenada pela fatalidade, que fora temática entre os clássicos da tragédia grega, (ou mesmo de vários seus mitos). E no meio de tudo isso, uma estruturação sequente de uma obra tantas vezes enriquecida por processos técnicos de modernidade, como analepses ou prolepses, e um mundo dinâmico em torno das personagens principais, ali posto em função da visão irónica com que o seu autor pretende demonstrar o pensamento negativo sobre a sociedade portuguesa de contrastes, entre a tacanhez e subserviência, e a arrogância, tantas vezes igualmente parca em valores, onde sobressaem, no entanto, espíritos de extraordinário brilho irónico, como o de Ega, e outros de sobriedade e elegância, que todos conhecemos. Atribuir crédito à chalaça de Ega citada, é não querer intencionalmente soltar a gargalhada que o discurso escandaloso e provocatório, de “boutades”, provoca em nós, deixando a personagem-tipo, Sousa Neto, do tal jantar da Gouvarinho (Cap. XII), perfeitamente siderada – porque o leva a sério, como o fez Vanusa Vera-Cruz Lima. E não resisto a transcrever o belo naco da prosa queirosiana -para melhor repescar – em homenagem a este  (já ido) domingo de Páscoa de confinamento - todo o humor alegremente crítico, que as falas como as atitudes das personagens, apontam, no traço genial de Eça de Queirós:

«Mas Ega, que estivera um pouco silencioso, entalando de vez em quando o monóculo no olho e sorrindo para a baronesa, pronunciou-se alegremente contra todas essas explorações da África, e essas longas missões geográficas... Porque não se deixaria o preto sossegado, na calma posse dos seus manipansos? Que mal fazia à ordem das coisas que houvesse selvagens? Pelo contrario, davam ao Universo uma deliciosa quantidade de pitoresco! Com a mania francesa e burguesa de reduzir todas as regiões e todas as raças ao mesmo tipo de civilização, o mundo ia tornar-se numa monotonia abominável. Dentro em breve um touriste faria enormes sacrifícios, despesas sem fim, para ir a Tumbuctu - para quê? Para encontrar lá pretos de chapéu alto, a ler o Jornal dos Debates!

O conde sorria com superioridade. E a boa D. Maria, saindo do seu vago abatimento, movia o leque, dizia a Carlos, deleitada:

- Este Ega! Este Ega! Que graça! Que chic!

Então Sousa Neto, pousando gravemente o talher, fez ao Ega esta pergunta grave:

V. Exc.ª pois é em favor da escravatura?

Ega declarou muito decididamente ao Sr. Sousa Neto que era pela escravatura. Os desconfortos da vida, segundo ele, tinham começado com a libertação dos negros. Só podia ser seriamente obedecido, quem era seriamente temido... Por isso ninguém agora lograva ter os seus sapatos bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde que não tinha criados pretos em quem fosse licito dar vergastadas... Só houvera duas civilizações em que o homem conseguira viver com razoável comodidade: a civilização romana, e a civilização especial dos plantadores da Nova Orleans. Porque? porque numa e noutra existira a escravatura absoluta, a sério, com o direito de morte!...

Durante um momento o Sr. Sousa Neto ficou como desorganizado. Depois passou o guardanapo sobre os beiços, preparou-se, encarou o Ega:

- Então V. Exc.ª nessa idade, com a sua inteligência, não acredita no Progresso?

- Eu não senhor.

O conde interveio, afável e risonho:

- O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem razão, tem realmente razão, porque os faz brilhantes...

Estava-se servindo Jambon aux épinards. Durante um momento falou-se de paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia também brilhantes e difíceis de sustentar, excessivamente difíceis, era o Barros, o ministro do reino...

- Talento robusto, murmurou respeitosamente Sousa Neto.

- Sim, pujante, disse o conde.

Mas ele agora não falava tanto do talento do Barros como parlamentar, como homem de estado. Falava do seu espírito de sociedade, do seu esprit...

- Ainda este inverno nós lhe ouvimos um paradoxo brilhante! Até foi em casa da Sr.ª D. Maria da Cunha... V. Exc.ª não se lembra, Sr. D. Maria? Esta minha desgraçada memória! Ó Tereza, lembras-te daquele paradoxo do Barros? Ora sobre que era, meu Deus?... Enfim, um paradoxo muito difícil de sustentar... Esta minha memória!... Pois não te lembras, Tereza?

A condessa não se lembrava. E enquanto o conde ficava remexendo ansiosamente, com a mão na testa, as suas recordações, - a senhora de escarlate voltou a falar de pretos, e de escudeiros pretos, e duma cozinheira preta que tivera uma tia dela, a tia Vilar... Depois queixou-se amargamente dos criados modernos: desde que lhe morrera a Joana, que estava em casa havia quinze anos, não sabia que fazer, andava como tonta, tinha só desgostos. Em seis meses já vira quatro caras novas. E umas desleixadas, umas pretensiosas, uma imoralidade!... Quase lhe fugiu um suspiro do peito, e trincando desconsoladamente uma migalhinha de pão:

- Ó baronesa, ainda tens a Vicenta?

- Pois então não havia de ter a Vicenta?... Sempre a Vicenta... A Sr.ª D. Vicenta, se faz favor.

A outra contemplou-a um instante, com inveja daquela felicidade.

- E é a Vicenta que te penteia?

Sim, era a Vicenta que a penteava. Ia-se fazendo velha, coitada... Mas sempre caturra. Agora andava com a mania de aprender francês. Já sabia verbos. Era de morrer, a Vicenta a dizer j'aime, tu aimes...

- E a senhora baronesa, acudiu o Ega, começou por lhe mandar ensinar os verbos mais necessários.

Está claro, dizia a baronesa, que aquele era o mais necessário. Mas na idade da Vicenta já de pouco lhe poderia servir!

- Ah! gritou de repente o conde, deixando quase cair o talher. Agora me lembro!

Tinha-se lembrado enfim do soberbo paradoxo do Barros. Dizia o Barros que os cães, quanto mais ensinados... Pois, não, não era isto!

- Esta minha desgraçada memória!... E era sobre cães. Uma coisa brilhante, filosófica até!

E, por se falar de cães, a baronesa lembrou-se do Tomy, o galgo da condessa; perguntou por Tomy. Já o não via há que tempos, esse bravo Tomy! A condessa nem queria que se falasse no Tomy, coitado! Tinham-lhe nascido umas coisas nos ouvidos, um horror... Mandara-o para o Instituto, lá morrera.

- Está deliciosa esta galantine, disse D. Maria da Cunha, inclinando-se para Carlos.

- Deliciosa.

E a baronesa, do lado, declarou também a galantine uma perfeição. Com um olhar ao escudeiro, a condessa fez servir de novo a galantine: e apressou-se a responder ao Sr. Sousa Neto, que, a propósito de cães, lhe estava falando da Sociedade protectora dos animais. O Sr. Sousa Neto aprovava-a, considerava-a como um progresso... E, segundo ele, não seria mesmo de mais que o governo lhe desse um subsidio.

- Que eu creio que ela vai prosperando... E merece-o, acredite a senhora condessa que o merece... Estudei essa questão, e de todas as sociedades que ultimamente se têm fundado entre nós, à imitação do que se faz lá fora, como a Sociedade de Geografia e outras, a Protectora dos animais parece-me decerto uma das mais úteis.

Voltou-se para o lado, para o Ega:

- V. Exc.ª pertence?

- Á Sociedade protectora dos animais?... Não senhor, pertenço a outra, à de Geografia. Sou dos protegidos.

A baronesa teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se extremamente sério: pertencia à Sociedade de Geografia, considerava-a um pilar do Estado, acreditava na sua missão civilizadora, detestava aquelas irreverências.

 

Cultura-Ípsilon

LIVROS

Discutir o racismo n’Os Maias é ensino responsável ou ameaça à autonomia da literatura?

Uma doutoranda luso-cabo-verdiana gerou intensa polémica ao apontar passagens racistas na obra-prima de Eça e ao sugerir uma nota pedagógica nas edições escolares do romance. O PÚBLICO foi ouvir argumentos.

LUÍS MIGUEL QUEIRÓS

PÚBLICO, 3 de Abril de 2021

Quando Vanusa Vera-Cruz Lima, uma estudante de doutoramento da universidade americana de Massachussetts  Dartmouth, onde também ensina português, deu uma palestra por Zoom, no passado dia 18 de Fevereiro, que partia da pergunta “Serão Os Maias de Eça de Queirós um romance racista?” tinha decerto consciência  de que encontrara um título provocador, mas dificilmente adivinharia que, um mês e meio depois, e após dezenas de notícias e textos de opinião nos jornais e incontáveis publicações nas redes sociais, a polémica que gerou não teria ainda esmorecido, como a tardia publicação deste artigo de resto confirma.

Na verdade, a controvérsia até começou ainda antes de Vanusa Lima, uma investigadora com dupla nacionalidade portuguesa e cabo-verdiana, ter iniciado a sua apresentação, na qual analisaria “não apenas a ofensiva linguagem racista usada neste romance clássico hiper-canónico, mas também a hiperbólica [outsized] adoração da brancura detectável na narrativa”, para citar o texto que anunciava a palestra. Victor Mendes, professor de Estudos e Teoria Luso-Afro-Brasileiros naquela universidade, conta: “Antes da palestra, quando ainda não havia nenhum argumento sobre a mesa, recebemos montes de mensagens, nas redes sociais e por mail, a dizer ‘que estupidez!’ ou ‘que vá para a terra dela!’, o que é particularmente irónico tratando-se de uma cidadã da República Portuguesa”.

O departamento de Estudos Portugueses da Universidade de Massachussetts Dartmouth tem uma longa tradição de organizar palestras públicas, e ainda em Outubro do ano passado uma professora que fez ali o seu doutoramento, Diana Simões, apresentou uma conferência que também incidia n’Os Maias, discutindo o modo como o romance “desumanizava” as personagens femininas, justapondo-as a animais, plantas ou objectos. “Uma análise racial d’Os Maias, seja qual for a conclusão, é questionada, mas um tópico igualmente quente não gera qualquer controvérsia na sociedade portuguesa”, observa Victor Mendes, sublinhando, no entanto, que nada o move contra as polémicas, que até “têm produzido bons resultados”.

Receando que a palestra de Vanusa Lima pudesse atrair alguns espectadores digitais mais interessados em bloquear a iniciativa do que em ouvir a oradora, a assistência só pôde intervir no final, no período de perguntas e respostas, que se estendeu “muito civilizadamente” por uma hora e meia, diz Victor Mendes, até que ele próprio achou que já era tempo de lhe pôr fim. Mas a discussão prolongou-se na imprensa e nas redes sociais.

Victor Mendes, a quem Vanusa Lima mostrou interesse em ter como orientador de tese, acha que a doutoranda, até tendo em conta a sua experiência pessoal – “é cabo-verdiana e portuguesa, e já morou em Lisboa, na Holanda, no Brasil, e agora nos Estados Unidos” –, deveria ponderar uma abordagem tripartida que incluísse, a par de Os MaiasMemórias Póstumas de Brás Cubasde Machado de Assis, e um clássico da literatura cabo-verdiana, Chiquinho, de Baltasar Lopes, o que daria à tese “uma perspectiva comparatista, mostrando que não se trata de atacar um alvo, mas de analisar uma estrutura mental e uma linguagem”. 

Houve mais de 30 artigos nos jornais e convites à Vanusa para ir à televisão, à rádio e à cassete pirata, e ela percebeu que isto se poderia tornar um emprego a tempo inteiro e não faria mais nada na vida

Victor Mendes, professor de Estudos e Teoria Luso-Afro-Brasileiros

Uma pergunta incómoda

O PÚBLICO tentou ouvir a investigadora, mas esta confirmou que as suas obrigações académicas não lhe permitiam neste momento dar mais entrevistas e prontificou-se a ser contactada noutra altura. No entanto, a partir dos relatos da sua palestra que surgiram na imprensa e das próprias declarações que foi fazendo aos jornais, talvez possa resumir-se a sua posição em dois pontos, que correspondem a uma constatação e a uma proposta. A primeira, fundamentada num conjunto de citações d’Os Maias, é a de que o romance contém várias passagens racistas. Uma das mais eloquentes ocorre no capítulo XII e tem como cenário o jantar dos Gouvarinhos, durante o qual um comensal pergunta a João da Ega se este defende a escravatura. “Ega declarou muito decididamente ao sr. Sousa Neto que era pela escravatura. Os desconfortos da vida, segundo ele, tinham começado com a libertação dos negros. Só podia ser seriamente obedecido, quem era seriamente temido… Por isso ninguém agora lograva ter os seus sapatos bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde que não tinha criados pretos em quem fosse lícito dar vergastadas…”, escreve Eça [a transcrição segue a edição crítica coordenada por Carlos Reis].

Já a proposta que Vanusa Lima avança a partir do reconhecimento da existência de linguagem racista n’Os Maias é a de que se justificaria que as edições do romance incluíssem um “comentário pedagógico”. A investigadora defende que “as passagens raciais não retiram nem adicionam valor” ao que a obra “representa na literatura portuguesa”, mas acredita que devem ser encaradas como “oportunidades de ensino e instrução culturalmente responsáveis”. Um argumento que sugere que, ao propor a inclusão da referida nota, está a pensar apenas nas edições adoptadas nas escolas, e designadamente no ensino secundário. 

Além de Victor Mendes, o PÚBLICO ouviu a escritora Isabela Figueiredo, cujo Caderno de Memórias Coloniais trouxe um olhar novo e impiedosamente honesto à literatura portuguesa que tratou a guerra colonial, o fim do império e a experiência dos retornados, mas que foi também durante muitos anos professora de português no secundário e tem uma vasta experiência de ensino d’Os Maias; a escritora, jornalista, crítica literária e professora de Estudos Portugueses em Edimburgo, na Escócia, Raquel Ribeiro, autora de um dos vários artigos de opinião suscitados por esta polémica; e ainda o ensaísta Abel Barros Baptista, catedrático do departamento de Estudos Portugueses da Universidade Nova de Lisboa e reconhecido camilianista. Ainda tentou ouvir um queirosiano, Carlos Reis, mas este declinou comentar o assunto.

A investigadora Vanusa Lima defende que “as passagens raciais não retiram nem adicionam valor” ao que a obra “representa na literatura portuguesa”, mas acredita que devem ser encaradas como “oportunidades de ensino e instrução culturalmente responsáveis

Que Vanusa Lima deve ter toda a liberdade para ler Os Maias como quiser, que tem razão em identificar como racistas vários excertos do romance, e que nada obsta a que estes sirvam de pretexto para os professores discutirem o tópico do racismo nas suas aulas são alguns dos consensos que emergem destas conversas.

Mas saber se as passagens citadas pela investigadora transformam Os Maias um romance racista, ou mesmo se é pertinente sublinhar a presença destas passagens, que se encontrariam com a mesma facilidade em virtualmente qualquer romance português do século XIX, já são perguntas de resposta bastante menos consensual. E quando chegamos à recomendação de se incluir uma nota pedagógica em edições do romance, as opiniões assumidas com maior veemência são as que militam contra essa possibilidade.

Não quero nenhum Governo a dizer-nos como interpretar Os Maias”, diz Victor Mendes, que não defende a imposição coerciva de nenhuma nota pedagógica. Mas acena com as dezenas de edições escolares com resumos, fichas e comentários do romance que andam no mercado – algumas delas com “a função razoavelmente explícita” de evitar que os alunos tenham de ler livro – para lembrar que a nota proposta por Vanusa Lima seria apenas mais uma, e tanto quanto sabe a primeira respeitante à questão racial.

Baseado na sua longa experiência académica nos Estados Unidos, assegura que “os estudantes de doutoramento, e especialmente a nova geração, não têm uma grande vocação para fazer um trabalho de meses ou anos sobre o uso da vírgula n’Os Maias: têm motivação para outros tópicos, que são da escolha deles e delas e que dizem respeito à sociedade contemporânea e aos seus próprios interesses”.

O mesmo argumento é reiterado por Raquel Ribeiro. “Porque é que a questão racial não há-de ser mais um tema a debater com os alunos? E porque não também questões de género? Será que Eduarda ou Raquel Cohen eram mulheres emancipadas? Como é que Eça descreve as mulheres?”, interroga. “Aquilo é um texto longo e que não é propriamente fácil de ler, e às vezes é preciso fazer com que a sua leitura seja de alguma maneira entusiasmante para os alunos do secundário”, defende, criticando o modo “chato, prescritivo, analítico” como o romance continua a ser ensinado. “A questão racial está na ordem do dia e é interessante ver como a descrição da realidade do século XIX nos pode fazer discutir coisas contemporâneas”, argumenta. “É isso que a literatura faz, cria esse efeito de espelho para nós mesmos, seja qual for o tempo em que vivemos”.

Raquel Ribeiro, Docente de Estudos Portugueses

O próprio modo como esta polémica se desenvolveu – “quase ao nível do folhetim” –, confirma a sua convicção de que “a academia e a cultura literária em Portugal são muito fechadas e elitistas” e presumem deter autoridade sobre o cânone literário nacional. “Quem é que esta estudante pensa que é para confrontar um texto canonizado, que amamos e pusemos num pedestal, e fazer-lhe aquelas perguntas incómodas?”, ironiza.

A pergunta que Vanusa Lima dirige ao romance “incomoda porque vem de baixo”, sugere. “São aqueles que nós tornámos outros que de repente se perguntam: mas como é que eu me vejo neste espelho, como é que me confronto com isto?” Raquel Ribeiro, Docente de Estudos Portugueses

Isabela Figueiredo ensinou Os Maias no secundário, mas não pode dizer que se lembre de a questão racial ser suscitada nas aulas, e tem uma explicação para isso. “Essas passagens aparecem sobretudo nas cenas em que os homens estão em tertúlia a discutir política, que são as partes mais chatas, que os miúdos detestam e passam à frente, e nós também”.

A autora não gosta de julgamentos sumários e diz não ter apreciado “a recepção nas redes sociais” à notícia de que uma investigadora numa universidade americana encontrara ideias racistas n’Os Maias. E surpreende-a o escândalo: “Grande novidade: O Eça, o Camilo e toda a literatura europeia dos séculos XIX e XX está cheia de ideias racistas”. Mas também acha que “é necessário contextualizar, dizer que no final do século XIX, quando o Eça escreveu o livro, a ideia de civilizar os negros era uma ideologia plausível, corrente, que hoje muito validamente questionamos, como daqui a cem anos seremos questionados pelo que pensamos hoje”. Daí que ache “possível afirmar que Eça era racista”, mas pergunte: “Quem não o era em 1800 e tal? Que pensamento existia então que se opusesse a isso, a essa cultura?”

Tendo lido dezenas de vezes o romance, não acha que seja “uma obra racista”. Acredita, sim, que “Portugal é uma sociedade ainda muito racista” e que “todos os contributos para ajudar a eliminar essa ideologia são úteis”. Mas também percebe que haja “muita gente inquieta”, porque “o mundo está a mudar muito rapidamente, há muita coisa a ferver ao mesmo tempo”.

O Eça, o Camilo e toda a literatura europeia dos séculos XIX e XX está cheia de ideias racistas. [...] Quem não o era em 1800 e tal? Que pensamento existia então que se opusesse a isso, a essa cultura?

Isabela Figueiredo, escritora e professora

Pensa que “não faz mal nenhum fazer-se análise crítica do passado”, e estudar-se e discutir-se passagens como essas a que Vanusa Lima agora deu visibilidade, desde que elas não sejam expurgadas do romance. E que não façam perder de vista que “Eça é o maior escritor português do século XIX” e que “ler toda a sua obra é o melhor curso de escrita criativa que alguém pode fazer”.

O modelo da errata

Abel Barros Baptista até nem poria Eça no trono que Isabela Figueiredo lhe outorga – não custa adivinhar quem seria o seu candidato –, mas concorda que “o racismo é uma chaga” e “um problema sério em Portugal, que tem de ser discutido de forma ampla”. Não acredita é que isso se deva fazer “encontrando passagens racistas em obras literárias do passado”.

Observando que “não nos faltam pretextos” para discutir o racismo, “a começar pela própria História de Portugal”, não lhe parece que se justifique usar o romance de Eça para esse efeito, e muito menos acrescentar-lhe notas pedagógicas. “E porque não, então, sobre o modo como os homens se referem às mulheres n’Os Maias?”, pergunta. E lembrando que “os alunos dantes tinham de estudar a estrutura da narrativa”, receia que agora “tenham de estudar o que está certo e errado, o que é uma intromissão da moral, que nega a ideia de literatura”.

Daí que defenda que “não podemos estar a pôr notas a dizer que este livro tem passagens horríveis, porque é uma forma de autoritarismo e de paternalismo disfarçado que desrespeita o autor e o leitor”. E nota que esta discussão em torno de obras do passado também se pode colocar no presente: “Será que não é possível hoje alguém escrever um romance em que apareça um escravocrata a elogiar as vantagens da escravatura, o que, de um ponto de vista literário, até pode ser uma forma de denúncia muito eficaz?”

Argumentando que “não podemos combater o racismo ameaçando a autonomia da arte”, o ensaísta defende que a literatura “é transnacional e está acima das raças e dos sexos”, e lamenta que “ande perdida essa ideia de que quando nos abeiramos de um livro ele é sempre estrangeiro para nós”.

Será que não é possível hoje alguém escrever um romance em que apareça um escravocrata a elogiar as vantagens da escravatura, o que, de um ponto de vista literário, até pode ser uma forma de denúncia muito eficaz?

Abel Barros Baptista, catedrático do departamento de Estudos Portugueses

Abel Barros Baptista preferia que esta polémica se tivesse centrado menos na defesa do romance ou do seu autor e mais na discussão do que é ensinar literatura na escola. E nesse plano afasta-se daquilo a que Vanusa Lima chama ensino “culturalmente responsável”, argumentando que este se “baseia na figura da errata: aponta-se o erro, explica-se porque é erro, corrige-se nas aulas e espera-se dos alunos que aprendam a reconhecê-lo, naquele livro e nos outros, porque o erro é legião”.

Um modelo que se “apresenta como novo”, mas que, defende, “é quase todo velho, pois é o mesmo programa de redução da literatura a expressão da história, ou da identidade, ou do povo, ou da ideologia, ou do idioma, ou dos celerados que a escreveram”.

Victor Mendes também é “muitíssimo favorável à autonomia da literatura, como da arte em geral”, e acha que esta “não deve ser um repositório de posições políticas com fins específicos”, mas nem por isso considera ilegítima uma análise política do romance de Eça. “Os Maias pensam formas de organizar a sociedade” e “fazem análise moral”, defende, lembrando, por exemplo, a crítica de Eça à mundanidade dos prelados da Igreja Católica. “Não podemos ser uns copinhos de leite e dizer que não podemos fazer análise moral de uma obra de arte. Claro que fazemos: não há nenhuma interpretação que não tenha essa componente”.

E rejeita também um dos argumentos mais esgrimidos nesta polémica: a de que não se pode reflectir no autor o que dizem as suas personagens, exercício que a intromissão da ironia tornaria ainda mais inseguro. Victor Mendes até não tem dúvidas de que é esse o caso na passagem em que João da Ega enaltece a escravatura. “É evidente que é uma ironia, toda a gente percebe isso, que ele é alguém que diz boutades, coisas satânicas”. Mas ao contrário dos que, “ao invocarem a ironia, pretendem fechar a interpretação da passagem”, pensa, pelo contrário, que esta a “abre”, porque “é uma ironia com objecto, que conta uma história específica – podia ser sobre alentejanos, mas não é; há aqui um factor que não é aleatório e que se prende com outros aspectos da obra e da personagem”.

A Abel Barros Baptista preocupa-o o que o ensino “culturalmente responsável” poderá fazer “à experiência de ler, singular e própria de cada um”. E ironiza (ou talvez não): “A experiência do estudante deixado a sós com o livro ou em comum com outros e o professor em aula, sem metas, nem finalidades, nem erratas, meu Deus, que perigo!”.

Abel Barros Baptista, catedrático do departamento de Estudos Portugueses

tp.ocilbup@sorieuqml

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1 COMENTÁRIO (entre 37)

RUI ESTEVES  EXPERIENTE: Ironia da boa, a sua. Mas se o nilton conhece os Maias, saberá que as passagens que a doutoranda caboverdeana aponta como racistas, são escritas em tom irónico. Eça escreveu sobre invertebrados (Eusebiosinho), sobre estúpidos (Dâmaso Salcede), crápulas (Palma Cavalão), negreiros (o pai da Maria Monforte), enfatuados e ocos (Steinbroken), poetas românticos (Alencar), senhoras com a frescura à flor da pele (condessa Gouvarinho e Raquel Cohen), financeiros agarrados ao Estado (Jacob Cohen), vaidosos e egocêntricos (Craft), e suprema ironia, coloca como protagonistas dois diletantes que vivem sem nada produzir, o Carlos e o pendura João da Ega. Salvam-se duas personagens: o avô Afonso e o procurador Vilaça. Com quais é que o nilton acha que o Eça simpatiza?

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