quarta-feira, 21 de abril de 2021

Sou pela discrição


Mas gostei de conhecer os comportamentos exigidos pelos diferentes países europeus, relativamente a estes pormenores de pertença, ou não, a uma qualquer dessas sociedades que um maior secretismo envolve, como que a formar barreira  de libertação da vulgaridade, mas que criam desconfianças entre os tais exigentes de transparência... nos outros...                    

TRANSPARÊNCIA

Na Europa, só Roménia e São Marino obrigam à declaração de pertença a entidades “discretas”. PSD quer impor uma regra que não é comum na larga maioria dos países europeus, onde se prefere deixar ao arbítrio dos políticos e altos cargos públicos a informação facultativa sobre ligação a associações — mas recomenda-se que seja pública se puder interferir na sua imparcialidade.

MARIA LOPES

PÚBLICO, 20 de Abril de 2021,

Entre 30 países europeus, apenas na Roménia e em São Marino os políticos e altos cargos públicos são obrigados a declarar se pertencem a sociedades consideradas “discretas” ou secretas, como a Maçonaria e o Opus Dei, ao passo que na Bulgária só os magistrados judiciais têm esse dever. Na Letónia e na Áustria vigora a regra de a declaração só ser obrigatória se o político ou alto dirigente ocupar algum cargo executivo nessa organização, mas não se tratar de um mero membro. Na Dinamarca, por determinação do Governo, desde 2005 que os ministros têm de declarar qualquer organização a que pertençam, designadamente organizações da sociedade civil.

Estes foram os únicos seis casos encontrados pelos serviços da Assembleia da República de países onde vigoram, em pleno ou em parte, as regras que o PSD quer impor em Portugal ao defender que todos os políticos e altos cargos públicos devem declarar as suas ligações a todo o tipo de entidades. A proposta coerciva dos sociais-democratas vem tentar colmatar a falha apontada à que o PAN também fez há mais de um ano, para que os políticos e altos dirigentes possam, apenas facultativamente, declarar se pertencem a sociedades ditas secretas ou discretas. 

No relatório  Declaração de filiação em organizações ‘discretas’: enquadramento internacional elaborado pela Divisão de Informação Legislativa e Parlamentar (DILP), a que o PÚBLICO teve acesso, são analisados os regimes vigentes em 30 países europeus, e também nos Estados Unidos e no Canadá, Israel e Jordânia (e em nenhum existe este dever), e ainda no Parlamento Europeu.

A somar aos países em que há algum tipo de dever de declaração, há os casos em que se admite essa informação de forma voluntária, como na Estónia, Finlândia, Turquia e Reino Unido. Tal como em Portugal, o assunto está actualmente a ser debatido também em Itália, em cujo Senado se encontra a ser discutido um projecto de lei sobre “matéria de incompatibilidade com a participação em associações envolvendo um vínculo de obediência, conforme exigido pelas lojas maçónicas ou associações baseadas em juramentos ou vínculos de pertença”.

No caso da Roménia, a sua Constituição proíbe a existência de organizações secretas, e a lei que “regula a integridade no exercício de funções e dignidade públicas” exige que os titulares destes cargos divulguem se pertencem a órgãos de administração, sociedades comerciais, instituições de crédito, grupos de interesse económico, associações, fundações ou outras instituições não-governamentais.

São Marino tem também legislação direccionada para este tipo de entidades, com uma “norma das incompatibilidades de pertença a associações secretas”: deputados, ministros, autarcas, magistrados judiciais, juízes do Tribunal Constitucional, da Comissão de Controlo das Finanças Públicas, corpo diplomático, chefias das Forças Armadas e de polícia, directores-gerais da administração pública, membros da gestão e fiscalização do banco central, e de empresas directa ou indirectamente detidas pelo Estado “têm de declarar a sua não pertença, no passado ou no presente, a associações secretas”, descreve o relatório elaborado pelos serviços da Assembleia da República a que o PÚBLICO teve acesso. Essa declaração tem de ser entregue à Secretaria Institucional Estatal no momento da candidatura (no caso dos eleitos) e da posse (para os nomeados).

Em outros países europeus analisados — onde se incluem Alemanha, Espanha, França, Noruega ou Países Baixos —, não há qualquer obrigação, mas alguns incentivam à publicitação facultativa para os casos em que isso possa colocar em causa a imparcialidade. Na Estónia, a lei anticorrupção prevê que se o declarante considerar que a pertença a uma organização (qualquer que seja a sua natureza) pode influenciar o seu exercício de funções e que o facto de a revelar não viola os seus direitos, então deve divulgá-la.

Na Finlândia e na Turquia, os deputados podem, se quiserem, declarar de modo mais pormenorizado os seus interesses privados. E no Reino Unido, além de poderem fazer a declaração de forma voluntária, é aconselhado a que se faça uma declaração de interesses “sempre que esta informação seja relevante no contexto do debate ou do assunto em discussão” - mas entre 1998 e 2009 a lei obrigava os candidatos a cargos judiciais a dizerem se pertenciam ou não à Maçonaria.

Em Espanha, a regra é até praticamente ao contrário, uma vez que a Constituição determina que “ninguém pode ser obrigado a fazer declarações sobre a sua ideologia, religião ou crença”. Nos Estados Unidos, onde o primeiro Presidente, George Washington, era maçon e colocou a primeira pedra do Capitólio numa cerimónia maçónica —perto há mesmo um memorial maçon em sua homenagem — a Primeira Emenda à Constituição protege o direito de associação.

No fundo, a natureza voluntária da declaração é o regime que também já existe em Portugal. Mas PAN pretende que se crie um campo específico no formulário da declaração de rendimentos, património e interesses sobre “filiação ou ligação a associações ou organizações de carácter discreto”, que é de preenchimento facultativo.

O PSD veio a seguir propor que o preenchimento seja obrigatório. O código de conduta dos deputados à Assembleia da República aprovado em 2019 também estabelece que, no exercício do seu mandato, estes devem declarar naquele formulário “os seus interesses particulares que possam condicionar a prossecução do interesse público”.

O relatório dos serviços do Parlamento relembra que, em 2009, a Associação Sindical dos Juízes Portugueses aprovou em congresso um compromisso ético dos juízes que estipula que estes não integram “organizações que exijam aos aderentes a prestação de promessas de fidelidade ou que, pelo seu secretismo, não assegurem a plena transparência sobre a participação dos associados”.

tp.ocilbup@sepol.airam

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COMENTÁRIOS:

DemocrataXXI  EXPERIENTE: O que quer dizer, que o cancro é mais bem mais grave, do que poderíamos supor. Como diz a sabedoria popular" quem não deve não teme" ou ainda " à mulher de César não basta ser séria, há que parecê- lo"              AM.242743:  INFLUENTE: Quem não deve não teme? Uma treta que mesmo repetida à exaustão não deixa de ser uma treta... pergunte isso a milhares de inocentes condenados a cadeia ou mesmo à morte, por "erro judiciário"...        Moreira Moreira  EXPERIENTE: Pelo princípio da transparência parece uma boa medida, mas se na Roménia esta mesma medida existe, esta é a prova de como é inútil no combate à corrupção. Quão menos desejável é um cargo político, piores recursos humanos atrai. É como em qualquer outra profissão.         jimi hendrix  INICIANTE: Quem quer ir para cargos públicos deve declarar toda e qualquer associação em que esteja. Não percebo qual é a dificuldade nisto. Aliás não se percebe o porquê do secretismo que estas sociedades como a maçonaria quer manter. Se não têm nada a esconder então que declarem quem faz parte se essas pessoas estiverem a trabalhar em cargos públicos. DemocrataXXI  EXPERIENTE: O problema Jimi, é que não são sérias, mas querem parecê- lo, é assim um bocado ao contrário da expressão popular          bruno INICIANTE: São bons exemplos! Venham mais. O título é super enganador. Na notícia lê-se que também se aplica na Bulgária, Letónia, Áustria e Dinamarca.       Figueira da Foz  EXPERIENTE: É difícil o respeito pela liberdade individual. Já não chegam as redes sociais ... Que tristeza ver esta proposta por parte do PSD! A Inquisição não exigiria outras declarações?

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