quarta-feira, 16 de junho de 2021

Valha-nos Santo António

 

Para sempre, na transfiguração que dele nos dá a fascinante peça de arte alegórica do seu “Sermão aos Peixes” segundo o figurino do Padre António Vieira. Só esta obra-prima de composição literária e de “martelada” figurativa nos deveria tornar credores de um milagre adequado à nossa desatenção simbolizada em tais peixes, de fábula, quando não mesmo no molusco cefalópode, de traição superior à de Judas. Um breve passo, no final, desse Sermão de Vieira, como homenagem e agradecimento a essas três figuras bem representativas dos seus mundos específicos, em tempos específicos: Sto António, Vieira e Henrique Salles da Fonseca.

O MARTELO DOS HEREGES

HENRIQUE SALLES DA FONSECA

A BEM DA NAÇÃO, 13.06.21

Nascido em Lisboa no ano de 1195, morreu em Vercelli no dia 13 de Junho de 1231; baptizado Fernão, ficou na História para nós, portugueses, como Santo António de Lisboa e de Pádua para os italianos.

FOTO: Santo António pregando aos peixes - mural de azulejos, Guimarães

Historiadores do séc. XV admitiram a possibilidade de o seu pai, Martim de Bulhões, ser descendente de Godofredo de Bulhão, comandante da Primeira Cruzada e a sua mãe, Teresa Taveira, descendente de Fruela I, quarto rei das Astúrias e Leão que governou entre 757 e 768. Contudo, a genealogia completa ainda é incerta; tudo o que se sabe é que os seus pais eram nobres, ricos e tementes a Deus. Fernão nasceu rico numa casa próxima da Sé de Lisboa, com pais relativamente jovens.

Educado na escola da Sé, ingressou em 1210, aos 15 anos, no convento de Lisboa da Ordem de Santo Agostinho, o de S. Vicente. Dois anos depois e para evitar as frequentes visitas de amigos e familiares, pediu e obteve dos seus superiores a transferência para o Convento de Santa Cruz em Coimbra onde permaneceu oito anos. Muito estudioso e dotado de grande inteligência e excelente memória, cedo obteve um grande conhecimento das Sagradas Escrituras.

Em 1220, assistindo na Igreja de Santa Cruz aos actos fúnebres dos primeiros mártires Franciscanos mortos em Marrocos em 16 de Janeiro desse mesmo ano, optou pela via do sacrifício e eventual martírio e decidiu tornar-se Frade Menor de modo a pregar a Fé aos sarracenos. Tendo confidenciado as suas intenções a alguns membros do Convento dos Olivais, então arrabaldes de Coimbra, recebeu deles o hábito franciscano. Assim foi como Fernão deixou a Ordem dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho para ingressar na Ordem dos Frades Menores, Franciscanos, onde tomou o nome de António. Este, o nome que o Convento dos Olivais viria em sua memória a adoptar também.

Pouco depois do seu ingresso na Ordem Franciscana, António seguiu para Marrocos mas adoeceu gravemente durante todo o Inverno e foi obrigado a regressar a Portugal na Primavera de 1221. Contudo, o barco em que navegava foi apanhado por forte tempestade e acostou involuntariamente à Sicília onde António permaneceu o tempo suficiente para se recompor dos problemas de saúde. Tendo entretanto ouvido dizer que um Capítulo Geral se reuniria em Assis a 30 de Maio, para lá se dirigiu a tempo de participar nos trabalhos. Concluída a reunião, António permaneceu no silêncio sem que mais se tenha ouvido falar dele.

Não disse uma palavra sobre os seus estudos”, escreveu um dos seus primeiros biógrafos, “nem sobre os serviços que já prestara; o seu único desejo consistindo em seguir Jesus Cristo até um eventual martírio”. Assim, pediu para ser colocado num lugar em que pudesse viver em isolamento e penitência com vista a entrar mais profundamente no espírito e disciplina da vida franciscana. Foi então colocado no Eremitério de Montepaolo (próximo de Forli) onde passou a celebrar Missa para os irmãos leigos ali residentes.

Certo dia reuniram-se em Forli inúmeros frades franciscanos e dominicanos para receberem a ordenação sendo que António estava presente apenas como acompanhante do seu Provincial. A certo momento, concluiu-se que ninguém fora indigitado para fazer a Homilia e o Provincial Franciscano convidou o Superior Dominicano ali presente para indigitar algum dos seus para fazer a prática. Contudo, todos declinaram dizendo que não estavam devidamente preparados. Na emergência, coube a indigitação a António a quem todos julgavam apenas capaz de ler o Missal e o Breviário. Foi-lhe assim ordenado que dissesse o que o Espírito de Deus pusesse na sua boca.

Compelido pelo voto de obediência a que estava obrigado, António começou por falar lenta e timidamente mas depressa se entusiasmou e passou a explicar os mais recônditos significados das Santas Escrituras com tal erudição, profundidade e de tão sublime doutrina que todos os presentes se encheram de espanto. Aquele, o momento em que começou a carreira pública de António.

Informado da ocorrência, o futuro São Francisco de Assis dirigiu-lhe a seguinte carta:

Ao Irmão António, meu Bispo (i.e. Professor de Ciências Sagradas), o Irmão Francisco envia as suas saudações. Será do meu agrado que vós ensineis Teologia à nossa irmandade considerando, contudo, que o espírito de oração e devoção não se extinga. Adeus.(1224)

Seguiu-se o ensino em Bolonha, Montpellier e Toulouse.

No entanto, foi sobretudo como orador – mais do que como Professor – que António fez a sua grande colheita. Num grau perfeitamente eminente, possuía todas as qualidades de um pregador eloquente: voz forte e clara, porte de ganhador, memória prodigiosa e os mais profundos e amplos conhecimentos da Doutrina. A estas características há a acrescentar o espírito profético e um extraordinário dom miraculoso. Com o zelo de um apóstolo, iniciou uma reforma da moralidade então vigente combatendo especialmente os vícios da luxúria, avareza e tirania. Distinguiu-se igualmente no combate aos hereges mais importantes naquela época, os Cátaros e os Patarinos que «infestavam» o centro e norte de Itália e os Albigenses no sul de França.

Dentre os muitos milagres que lhe são atribuídos, os mais referidos pelos seus biógrafos são:

O de um cavalo em Rimini que não comia havia já três dias recusando qualquer comida que lhe pusessem à frente, até que se ajoelhou em adoração perante as Sagradas Escrituras que Santo António lhe colocou à frente comendo então umas avelãs que lhe apresentaram;

• O da comida envenenada que uns herétics italianos lhe apresentaram e que ele, com o sinal da cruz, transformou em inofensiva;

• O do famoso sermão aos peixes que ele proferiu nas margens do rio Brenta, próximo de Pádua.

Eis por que tanto o zelo no combate às heresias como as inúmeras conversões que fez lhe renderam o glorioso título de Malleus hereticorum, o Martelo dos Heréticos.

Henrique Salles da Fonseca

Tags: efeméride

COMENTÁRIOS:

Anónimo 13.06.2021: Mesmo nos acontecimentos e histórias mais conhecidas, tem sempre algo a ensinar-me! Obrigada. Abraços. Maria Mamede.

Henrique Salles da Fonseca13.06.2021: Fernando de Bulhões que disse" É viva a Palavra quando são as obras que falam por ela " Santo António de Lisboa de quem se festeja o dia, sem festejos. Maria João Botelho

Henrique Salles da Fonseca 13.06.2021: Excelente texto como habitual! O dia de 13 de Junho já era para mim um dia importante, quer pelo sábio e simpático St. António quer pelo nosso mais internacional Poeta Português Fernando Pessoa. Há 14 anos que para mim e família chegada tem uma importância acrescida pois nasceu o meu primeiro neto varão, o Duarte. Desculpem a vaidade mas os netos são para nós os mais velhos a garantia da nossa continuidade. Obrigado Rui Bravo Martins          Henrique Salles da Fonseca 13.06.2021: PARABÉNS ao Duarte e a toda a família, são os votos do vizinho Henrique Salles da Fonseca

Miguel Magalhaes: Obrigado Henrique por este excelente artigo sobre Santo Antônio.:

Adriano Lima: Excelente síntese biográfica do nosso Santo António de Lisboa. Fiquei a conhecer particularidades da sua vida e percurso como servidor de Deus que eu desconhecia. Quanto aos milagres, endossemos tudo ao domínio da lenda. Aliás, as lendas são quase todas repositórios de factos extraordinários que a crença cristã facilmente transforma em milagres nos casos em que lhe interessa. Descendo agora às calçadas da velha Lisboa, sentiu-se neste ano, e mais uma vez, a ausência de Santo António. Porque as sardinhas assadas e o pão de milho são o que melhor perpetua a sua imortalidade.

Excerto de um Sermão adequado ao tempo passado e presente

«Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino, contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam»


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