De tanto
desprezo enérgico pelos lusitanos, num discurso de ferocidade sagaz mas que
entristece, na sua tão alterosa veemência competente. Por isso, releio a BALADA DA NEVE, a
afundar-me nesse aspecto miserabilista e piedoso lusíada, de um sentimentalismo,
inerte embora, de tuga compassivo e modesto:
Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim.
Será chuva? será gente?
Gente não é, certamente
E a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
Mas há pouco, há poucochinho,
Nem uma agulha bulia
Na quieta melancolia
Dos pinheiros do caminho...
Quem bate, assim, levemente,
Com tão estranha leveza,
Que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
Nem é vento com certeza.
Fui ver. a neve caía
Do azul cinzento do céu,
Branca e leve, branca e fria...
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
Os passos imprime e traça
Na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
Da pobre gente que avança,
E noto, por entre os mais,
Os traços miniaturais
Duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
A neve deixa inda vê-los,
Primeiro, bem definidos,
Depois, em sulcos compridos,
Porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, senhor,
Porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza
E cai no meu coração. AUGUSTO GIL.
Uma bolha de pelintras
As personagens da imaginária “bolha” são tão ou mais
rústicas quanto o “tuga” que fingem desconhecer. Não há “bolha”: há “tugas” sem
noção do ridículo nem escrúpulos.
ALBERTO GONÇALVES
Colunista do Observador
OBSERVADOR, 31 mai. 2025, 00:20
Na semana passada, os especialistas já
haviam descoberto que o eleitorado do continente e ilhas é impreparado e
racista. Agora os especialistas confirmaram que os portugueses que moram e
votam no estrangeiro também são impreparados e racistas. Num ápice, as
multidões de jovens promissores e geniais escorraçadas um dia por Pedro Passos
Coelho transformaram-se em burgessos que atribuem mais dois deputados ao Chega.
Um especialista, comentador da bola que
em tempos o PS naturalmente resgatou para a “cultura”, traçou com densidade o
perfil social, académico e profissional dos emigrantes que votam no Chega: são
boçais e desqualificados. Outros
especialistas não foram tão suaves e desataram mesmo a questionar a pertinência
de os emigrantes, com “e”, esses “chupistas” (cito um especialista amador,
cônjuge de uma especialista profissional) que não descontam cá dentro e
“parasitam” Estados lá fora, poderem continuar a votar.
É interessante notar que a súbita sanha contra os emigrantes com “e”
está normalmente a cargo dos maiores entusiastas ao acolhimento de imigrantes
com “i”. Não é por nada, mas começo
a ter a impressão de que o problema dos especialistas é com os portugueses
“nativos” em geral, residam eles no Cacém ou em Carcassonne – ou pelo menos com
os portugueses “nativos” que votam “mal”, em lugar de votar “bem”. Se
virmos com atenção, os especialistas só têm um problema com os cidadãos que
votam conforme lhes apetece e não como os especialistas recomendam. Se os
resultados eleitorais coincidissem com a vontade dos especialistas, não haveria
problema nenhum. A não ser, claro, o problema dos próprios especialistas.
A fim de explicar a cósmica discrepância entre os palpites dos
especialistas acerca da realidade e a realidade, lançou-se para aí o conceito
de “bolha”. A
“bolha” pretende sugerir que os especialistas habitam um universo exíguo,
resguardado das existências simplórias e partilhado por uma casta restrita de
iluminados.
Não
sei se o objectivo é imaginarmos os frequentadores da “bolha” a discutir
Turgenev em conversas tardias e regadas a conhaque, ou a fretar jactos para
tomar o pequeno-almoço em Florença (e discutir o niilismo de “Pais e Filhos” à
mesa do Gilli). Sei que a “bolha” passa por sinónimo de “elite”.
E esta particular “elite” aprecia a deferência, ainda que pejorativa. Aliás,
esta particular “elite” não se importa que a acusem de não compreender o país
e, de caminho, o mundo – desde que a acusação presuma a sua distância à
gentinha que, acima de tudo, a “elite” não quer ser. Acima de tudo, e
literalmente de todos, a “elite” quer ser elite. Porquê? Porque não é.
Ir a “telejornais” ou programas de “debate”
repetir babugem sobre a “actualidade” não eleva uma senhora ou um cavalheiro a
membro de uma hipotética “elite”. Quando muito, prova que a criatura necessita
de uma modesta avença ou acha “importante” aparecer na televisão. No primeiro
caso, é pelintra. No segundo, é pacóvia. Em ambos, não é elite. É, salvo
raríssimas excepções, alguém que cobra pouco para fazer figuras tristes e sai
do estúdio inchado de “fama”, leia-se ser reconhecido pelo funcionário do Solar
dos Presuntos ou arranjar bilhete VIP para a tenda dos rissóis nos festivais de
variedades. As personagens da imaginária “bolha” são tão ou mais rústicas
quanto o “tuga” que fingem desconhecer. Não há “bolha”: há “tugas” sem noção do
ridículo nem escrúpulos de exibir a carência perante as câmaras.
Não é por causa da distância aos comuns
mortais que a imaginária “elite” da “bolha” imaginária não compreende o país e,
de caminho, o mundo: é por ignorância e conformismo. Sempre que
preenchem o vazio nas cabecinhas com o tipo de “argumentos” que supõem
“seguros”, são atropelados pelos factos. Sempre que arriscam prever, analisar e
interpretar seja o que for, são atropelados pelos factos. Sempre que abrem a
boca em sorrisos e clichés, são atropelados pelos factos. E nunca admitem o
atropelamento. E nunca se confessam enxovalhados. E nunca recusam o convite,
que nunca cessa, para voltar a comentar o que não entendem. Para usar o jargão
ridículo que os empolga, são “resilientes” – ao bom senso.
As “legislativas” e o crescimento do
Chega são um mero exemplo: aquilo que os especialistas não percebem encheria
volumosos compêndios. Eles falham com tamanha regularidade e tanta convicção
que parecem falhar de propósito, mas isso implicaria uma argúcia perversa que
não possuem. Sem legitimidade nem independência nem vergonha, os especialistas,
a “elite”, os condóminos da “bolha” são apenas sujeitos e sujeitas vulgares
que, de modo a garantir o emprego televisivo ou a subir no partido que não
assumem servir, se aliviam de pontos de vista alucinados, por regra os pontos
de vista que o “sistema” decreta numa tentativa de influenciar a opinião
pública. Sucede que os especialistas não influenciam vivalma, a não ser,
crescentemente, em sentido contrário ao desejado. Nem um povo de brutos está
disposto a ligar a uma bolha, perdão, um bando de pelintras.
ELEIÇÕES POLÍTICA PARTIDO CHEGA EMIGRAÇÃO MUNDO
COMENTÁRIOS
André Ondine: Uma crónica importante. E excelente. Esta bolha, ou
elite, ou corja, é também responsável pelo crescimento dos populismos que eles
tanto criticam. É que as pessoas estão tão saturadas e indignadas de os ver,
ouvir e ler a toda a hora de cima daquele pedestal moral e ético superior em
que eles julgam viver, que fazem qualquer coisa para se verem livres dele. Mas
não é possível. Os directores dos Média adoram esta gente. E eles promovem-se
bem e promovem-se uns aos outros, sem vergonha. E multiplicam-se. Basta ver o
imberbe Jonet, réplica do guru Marques Lopes. O jovem Jonet era de direita, mas
a direita não lhe deu o tacho em Cascais que ele ambicionava e ele (tal como o
seu guru Lopes com Passos) vinga-se agora dizendo-se de direita mas sendo
aquela direita que a esquerda adora. Um puto vingativo capturado pela bolha. O
resto é a mediocridade do costume. O Lopes, excelente propagandista de si
próprio e dos amigos. Só não se indignou quando o amigo Pinto da Costa estava
com ele enquanto um amigo de ambos dava uns tabefes num repórter de imagem que
os incomodava. O camarada Adão, político, especialista em comentário político,
futebol, cultura, música e agora DJ, a Sra Anjos, frequentadora do Benformoso
desde que nasceu, a Betty Davis Davim, sempre amiga bloquista, o cão raivoso
Oliveira….a lista é infinita. O puto Jonet, a Sra Carmo Afonso, o guru mor
Pacheco Pereira, que, este sim, adora cascar na direita…São sempre os mesmos,
reunem-se no Lux (menos o Pacheco Pereira, que não o devem deixar entrar…),
detestam pessoas rurais e têm múltiplos e generosos tachos. Usam cravo uma vez
por ano, bebem champanhe nos outros. Frequentam salões de indignação selectiva e
tendem a sofrer fascínio por políticos profissionais indigentes como Mariana
Mortágua, Mariana Vieira da Silva, António Costa e outros heróis urbanos. Não
são inocentes no estado a que isto chegou.
Maria Paula Silva: Muito bem, excelente crónica, excelente definição. E
ainda há quem perca tempo a ouvir esta gente ignorante e inculta que nada de
interessante tem para dizer. Se deixarem de lhes dar audiência, desaparecem... Anda
tudo anestesiado. Entre comentadeiros, programas de culinária e outros de entretenimento
de baixo nível cultural, venha o diabo e escolha. E... ainda bem que não
acertam. Nunca o resultado de umas eleições me deu tanto gozo. Rejubilo. Parece
que os kompensans e rennies já esgotaram. E o outro que se julga vencedor, que
andava calado e cínico com ar de arrogante e agora parece um menino contente no
kindergarten não se vai aguentar 4 anos. Faz-se muito barulho neste país e trabalha-se
pouco. E, caramba, não é para isto que lhes pagamos os ordenados. Trabalhem,
carago!
Eduardo Cunha: Excelente crónica. Parabéns.