terça-feira, 9 de novembro de 2021

Como tudo se passou


Helena Garrido, com saber de estudos feito, relata os truques que por nós passaram, nestes últimos tempos de miserabilismo pedinchão e incompetência governativa, medrosa das consequências sobre uma continuidade governativa posta em causa pelos mesmos que governam e os que os apoiam. Relata com simplicidade e vivacidade aquilo que nos parecia também ser assim mesmo como interpretou. Donde, a nossa satisfação por termos intuído idêntica interpretação das nossas rapaziadas executivas.

As eleições desejadas pela esquerda

É racional considerar que todos, PS, PCP e BE, quiseram antecipar as eleições legislativas. Os dados que temos neste momento dizem-nos que a economia pode estar pior daqui a menos de um ano.

HELENA GARRIDO OBSERVADOR, 09 NOV 2021

Passada a espuma dos dias de chumbo do Orçamento e do anúncio, pré-anunciado, do Presidente da República de legislativas a 30 de Janeiro conseguimos hoje perceber um pouco melhor que, afinal, toda a esquerda queria eleições antecipadas. Marcelo Rebelo de Sousa, numa intervenção em que, embora se possa discordar, explicou muito bem o que fez e porque o fez, parece não ter conseguido evitar dar ao PS, ao PCP e ao BE aquilo que afinal queriam, apesar de dizerem que não. Porque se o PS queria eleições antecipadas, o PCP e o BE fizeram tudo para satisfazer esse seu desejo – que não defende os interesses do país, mas ajusta-se muito bem à situação política actual e às perspectivas para a economia.

Quer o PCP como o BE sabiam perfeitamente que era manifestamente impossível ao PS aceitar medidas que alterassem significativamente a legislação laboral, dar um salto no salário mínimo ou eliminar o factor de sustentabilidade. António Costa nunca poderia concordar com isso, se não fosse por convicção – de que as mudanças solicitadas reduzem a competitividade – pelo menos pela inevitabilidade de abrir uma frente de batalha com a Comissão Europeia, no caso da lei laboral, que poderia colocar em causa, isso sim e não o Orçamento, novas transferências do subsídio do Plano de Recuperação e Resiliência.

Sabendo isso o PCP e o BE, a pergunta é: porque fizeram tanta questão num tema em que, sabiam, era impossível de obter acordo? Sabendo até antecipadamente que o Presidente tinha dito que haveria eleições caso o Orçamento não fosse aprovado? Temos de concluir que queriam eleições antecipadas, tal como o PS. Serve aos três partidos, só não serve o País.

Olhemos à nossa volta, primeiro para os concorrentes do bloco PS/PCP e BE. Que melhor altura para ter eleições antecipadas do que aquela em que o bloco concorrente está caótico? O principal partido da oposição, o PSD, enfrentava o fim do mandato de Rui Rio e, mesmo não antecipando o que veio a acontecer, todos sabiam que o líder social-domocrata vivia sob constante crítica. Depois das eleições autárquicas ficou também a saber-se que iria ter um desafiador, Paulo Rangel, confirmando-se o que já se ouvia nos corredores. O Conselho Nacional do fim-de-semana conseguiu dar ao PSD alguma normalidade, evitando-se o que aconteceu ao CDS. Conseguiu evitar ser o CDS, graças ao recuo de Rui Rio. Mas, quer se queira quer não, o PSD vai perder todo o mês de Novembro a olhar para dentro, com as directas a 27. Nem PSD nem CDS partem para eleições na sua melhor forma, e a sua oposição sabia isso.

Do lado da saúde pública e da economia também tudo aconselhava os partidos, que nos governaram nestes últimos seis anos, a fazerem tudo para antecipar eleições. Se o interesse público fosse a sua preocupação, claro que teriam aprovado esta proposta de Orçamento até que fosse mais claro o que nos espera na pandemia e na economia. Mas não quiseram correr esse risco.

O Governo está convencido que o que afastou o BE da aprovação do Orçamento de 21 – viabilizado com a abstenção do PCP – foi a convicção de que o pós-pandemia iria ser terrível, com um aumento significativo do desemprego. Não aconteceu e bem pelo contrário, a actividade económica deu um salto e o emprego ultrapassou já os níveis registados antes da pandemia. O problema começa agora.

A recuperação foi muito rápida, aqui e no resto do mundo. Mas nada nos garante, bem pelo contrário, que vai continuar assim. Primeiro por causa da pandemia, que ainda não acabou. Na Europa central e oriental a evolução é cada vez mais preocupante e já temos pelo menos dois países em confinamento. Não sabemos como vai ser o nosso Inverno, levando até em conta que o processo de reforço da vacinação está neste momento atrasado. Se a pandemia se agravar será mais um problema a acrescentar ao que já se detecta na frente económica.

Começam a existir sinais de perda de velocidade da recuperação em simultâneo com um aumento dos preços. São o reflexo dos estrangulamentos nas redes de distribuição, sequelas da pandemia e da crise energética. Na Alemanha, por exemplo, o indicador de clima económico do Ifo está a cair desde Agosto. E este abrandamento da economia acontece ao mesmo tempo que a taxa de inflação sobe, retirando ao BCE margem de manobra para manter a sua política monetária de compra de dívida pública. Quanto tempo vai durar este condicionamento da recuperação económica, ditado pelo lado da oferta, ninguém sabe. Quanto mais duradouro for mais danos causará na economia.

É com este cenário de elevada incerteza que os partidos políticos, que mantiveram o Governo do PS, escolheram ir para eleições. Como disse o primeiro-ministro na entrevista, que deu à RTP nesta segunda-feira, 8 de Novembro, para os portugueses “os políticos não tiveram respeito pelos sacrifícios que as pessoas fizeram”. Mas, verdadeiramente, não há inocentes nesta crise política. Todos, PS, PCP e BE quiseram eleições antecipadas. Daqui a um ano tudo poderia estar muito pior, como os dados que temos neste momento parecem dizer.

ORÇAMENTO DO ESTADO   ECONOMIA   ELEIÇÕES   POLÍTICA  CRISE POLÍTICA  GOVERNO

COMENTÁRIOS:

Portugal, que Futuro: Helena Garrido, Muito pobre. Pobrezinho mesmo. Só uma nota. "Não aconteceu e bem pelo contrário, a actividade económica deu um salto e o emprego ultrapassou já os níveis registados antes da pandemia.": olhe que não, olhe que não...          Alfaiate Tuga: Não estou certo de que o Costa quisesse já eleições, se não tiver maioria absoluta não sei como vai governar. Acho que foi mesmo o BE e PCP que quiserem fugir antes que fosse tarde, já tinham conseguido espremer o país (OE) até ao limite do aceitável, já pouco havia para distribuir pelas suas clientelas, vão voltar ao protesto por mais “avanços”. Vem aí tempos difíceis Radykal Chic: A lucidez é sempre bem-vinda. Obrigado!           Liberal Assinante do Local: É tudo muito lógico, mas no pressuposto de o povo eleitor ser composto por tugas tão burrinhos quanto servis. Quanto aos acontecimentos recentes, quem provocou a rejeição do OE foi apenas o PCP. O PS tem interesse em eleições, conta com o pressuposto, mas quem provocou a "crise" foi apenas o PCP. O professor Selfito cumpriu o seu papel de lacaio da geringonça.           A Mas: Podias ser um bocadinho mais perpicaz (inteligente) ou menos PS. É óbvio que só ao PS interessam estas eleições      jose Afonso: Entretanto em Unhos-loures-Portugal-2021  os cidadãos vão ás 4 horas da manhã para a porta do centro de saúde para terem uma consulta....viva o socialismo. Joaquim Rodrigues: O “habilidoso” Costa já tinha começado a campanha eleitoral para as Legislativas na campanha das Autárquicas. O “habilidoso” Costa já há muito que tinha decidido o chumbo deste Orçamento de Estado, mas está a fazer de todos nós parvos. Na verdade, do que ele anda à procura, é de uma “saída limpa” do ghetto em que se meteu e, numa fuga para a frente, vai tentar a maioria absoluta ou uma maioria, agora em coligação com o Partido dos animais. Para isso contou e conta com quatro “habilidades”: 1) a acusação aos companheiros de viagem, a quem deu boleia, de terem avariado a "geringonça", vitimizando-se, e deixando-os apeados; 2) o aproveitamento da desorganização dos partidos do centro/direita, que ele esperava agravar, com os resultados das Autárquicas; 3) o uso e abuso da "Bazuka", como instrumento de chantagem sobre os eleitores, já usado nas Autárquicas, mas de que vai usar e abusar, acima de tudo, nas Legislativas; 4) a cumplicidade do Marcelo que, armado em “Maquiavel” de trazer por casa, anda à procura de usar o capital político acumulado na Presidência com “selfies, beijos e abraços”, para deixar um “lacaio“ seu, na liderança do PSD, que não o Rio nem o Rangel. A verdade nua e crua é que o “habilidoso” Costa esgotou todo o seu “reportório programático” nas “reversões” e, para além disso, não tem qualquer “Visão”, qualquer “Estratégia”, qualquer “Programa Político” para oferecer aos portugueses. Ele que, sendo 1º Ministro há mais de seis anos e membro de um Partido que nos últimos 25 anos esteve quase 20 no poder, não foi capaz de fazer um Programa de Emergência pós Covid e teve que ir contratar um “Costa e Silva” qualquer para, a partir do nada, fazer a famigerada “Bazuka” de onde só sai mais “Estatismo” e mais “Centralismo”, contra a sociedade civil e a livre iniciativa privada A "Bazuka", se não for desactivada, será mais uma oportunidade perdida por Portugal, esbanjando a ajuda dos "contribuintes europeus".        Joao Mar: Concordo. Se as eleições fossem em 2023 a esquerda arriscar-se-ia a uma derrota tipo hecatombe. Provavelmente depois de terem levado o país a uma quarta bancarrota.          josé maria: Os dados que temos neste momento dizem-nos que a economia pode estar pior daqui a menos de um ano. Ó Helena Garrido, não nos diga que quer concorrer, em matéria de profecias falhadas, com as dos seu colega JMA ? A atividade económica portuguesa regista uma forte recuperação no 2.º trimestre de 2021 e aproxima-se dos valores verificados antes dos efeitos provocados pela pandemia Covid-19, Vida Económica, 2/9/2021         アンドレ -アンドレ > josé maria: Oh boyzito, zé maria -  vê se calas a matraca...já todos sabemos ao que vens!   " Só os boys e girls e xuxó-dependentes ( aqueles que o governo costa e socas levaram para o sistema) é que culpam o pc e be...e o PR... enfim, parece difícil não terem visto a raposa que nos tem governado...pelo sim pelo não votam PS e lá vamos cantando e rindo...até ao empobrecimento total - os piores da UE - "          josé maria > アンドレ -アンドレ: A franca evolução registada em relação ao trimestre homólogo do ano anterior (+33,59%) deve-se, certamente, à reabertura da economia no segundo trimestre de 2021, após um período de recessão devido ao confinamento. Vida Económica, 2/9/2021         Luís Costa > josé maria O que é que interessam esses números se o ponto de partida é imensamente baixo? Ainda nem estamos ao mesmo nível de 2019!        Gabriel Moreira > josé maria: Maior cego é aquele que não quer ver.         advoga diabo: Não obstante a perseguição tenaz perpetrada por um conjunto de pessoas neoliberais que têm aqui a sua sede, a Esquerda está em causa porque quis. Pela negativa BE e PC num último laivo de sobrevivência, pela positiva o PS ao rejeitar colocar o futuro do país para manter o status quo. O povo, ao contrário do que a prática desses iliberais mostra acreditar, na verdade meia dúzia a falarem uns com os outros, não é serôdio, vive a realidade dia a dia e tem dado repetidas provas de sensatez, sabe que só a maioria absoluta PS é solução!          Fenix Europa > advoga diabo Quando o barco afundar seja homem, seja digno e afunde se com o barco. Não seja rato.         Andrade QB: Num artigo ao lado é relembrado o grito de 1979 de esperança contra um destino de pobres e dominados e é exatamente a urgência de se evidenciar na sua plenitude a urgência desse grito agora, que fez os partidos da Geringonça inventarem esta diversão. Vai-se repetir o erro da antecipação da vinda da Troika, não vai haver tempo para que as pessoas interiorizem à miséria que o socialismo conduz. Quando têm essa oportunidade, como aconteceu nos antigos países comunistas que já conseguiram libertar-se, socialismo é palavra maldita. É isso que esta encenação vai evitar.        Rita Salgado: Não fora pelo futuro dos meus filhos, desejaria ardentemente que o Kosta fosse de novo PM para aguentar com as consequências de toda a porcaria que comandou nos últimos seis anos! E vê-lo torcer-se a reverter de novo a Função Pública para as 40 horas, e ter de fazer despedimentos, e ter de diminuir pensões mais abastadas, e todas as medidas difíceis de quem não tem dinheiro para pôr o pão na mesa! Porque foi desperdiçado na TAP e noutros "investimentos" inúteis.  E muito provavelmente, chamar de novo a ajuda externa. De novo, pela mão do PS.         Pontifex Maximus > Rita Salgado: E também devolviam os descontos aos reformados mais abastados? Nota: estou longe da reforma… mas custa ouvir tanta asneira. Se dissesse que retirava aos que se reformaram aos 50 e tal anos do tempo do Cavaco, ainda perceberia!    Liberal Assinante do Local > Pontifex Maximus: Compreendo a sua posição, mas ela só seria válida num modelo de pensões com contribuições capitalizadas. Nada disso existe nem em Portugal nem em qualquer socialismo. Os beneficiários da treta social não podem invocar os descontos que fizeram, à força, a não ser no momento do cálculo da pensão. Mas atenção, a pensão não é calculada apenas com base nos descontos efectuados. O modelo vigente em Portugal chama-se de repartição, e aquilo que há para repartir é cada vez mais escasso, a repartir por cada vez mais comensais. Usando o palavrão da moda, é insustentável. As pensões cairão mesmo, de resto há muito que isso acontece.        Clarisse Seca: Esses 3 partidos PS, PCP e Bloco só visam salvar a face deles e a dos seus kamaradas. Não têm o mínimo interesse pelo país. Costa também nunca teve uma estratégia a médio e longo prazo para o país, só governar à vista, fomentar o nepotismo e dominar as instituições para se eternizar no poder. Por isso é importante dar-lhes um manguito nas eleições de janeiro próximo.         Carlos Quartel: Esta solução nunca convenceu, apesar de apoiada numa maciça campanha publicitária. Costa não derrubou muro nenhum, agarrou a corda que o PC lhe estendeu, para evitar a saída pela porta  pequena.  A derrota eleitoral associada ao empurrão dado a Seguro tinha significado o fim. O PC estendeu essa corda salva-vidas, aterrorizado com o fracasso da CGTP, com algumas convocatórias de poucos milhares. A verdade é simples, basta dizê-la. Só que o contacto com o PS só fez mirrar PC e BE, que deram com a porta, para voltar à estrada, aos gritos e aos cartazes. Entretanto contaminaram o PS onde começam a aparecer palermices marxistas, que o César tenta pôr nos eixos. Só sairemos da pelintrice com uma solução baseada no PS/PSD, com acordos de governação mínimos e com perspectivas de futuro, com planos a longo prazo. Fora disto, só há folclore .... e ordenado mínimo ... Joaquim Moreira: Mais um excelente texto de Helena Garrido, que só acaba por ser prejudicado, por padecer de um preconceito que não há meio de ser superado. Estou a falar do preconceito que está instalado, na CS, em geral, contra um dos raros políticos preocupado com o interesse nacional. Na verdade, como fica aqui bem demonstrado, o PS, o BE e o PCP, só se preocupam com o seu eleitorado, como facilmente se percebe, e bem se vê. Já o mesmo não acontece no PSD! E porquê? Porque tem um líder que, ao contrário dos seus muitos opositores, não está no PSD para fazer favores. Por isso, o seu discurso e as suas posições, são sempre objecto de distorções! E este parágrafo, no essencial, é disso a prova cabal: O Conselho Nacional do fim-de-semana conseguiu dar ao PSD alguma normalidade, evitando-se o que aconteceu ao CDS. Conseguiu evitar ser o CDS, graças ao recuo de Rui Rio. Não se trata de falta de brio, é mesmo um enorme desvario! De toda a CS, em geral. Que numa cruzada muito pouco habitual, diz, a tudo o que Rui Rio diz e faz, que está mal! Mas não deixa de ser muito fácil de perceber. Porque, não se trata de “recuar”, trata-se de ter muito bom senso, quando está em causa algo muito mais intenso! Que é não prejudicar mais, o que o seu incumbente e os seus apoiantes carentes, estão a fazer com as suas atitudes deprimentes. Como seja atacar o líder com mais tempo de oposição, no momento em que se prepara para a governação. Ou seja, quando se preparava para derrubar o seu opositor, é vítima de um ataque interno, com muito fervor, mas sem pavor! Aliás, até na linha do Observador. E assim evitar, que Rui Rio chegue a governar. Mas, felizmente, que quem vai decidir não é gente com a mania que é inteligente!      João Floriano: A leitura do artigo da Helena Garrido faz-me acreditar que a articulista prevê um novo governo de esquerda, já que o caos no CDS e a indefinição no PSD não auguram grandes avanços para a direita, ambos os partidos apanhados na curva e de calças na mão. Assim sendo a crise anunciada vai rebentar mesmo nas mãos da esquerda. Pescadinha de rabo na boca.         Fernando E Pobre Portugal!: O PS apenas quer o poder pelo poder, não tem políticos com sentido de Estado! Aliás, o governo PS é praticamente uma agremiação dos amigos de António Costa e seus familiares…          Henrique Ribeiro: De que serve ao país subvencionar partidos políticos que o país abjuram?          Américo Silva: Bom dia. A Helena Garrido mostra acerto. Parabéns. A PJ terá restringido informação ao papagaio mor, muito bem.  A orelha e a perna de determinado porco não têm consciência de que fazem parte do mesmo animal, mas fazem. Nas democracias ocidentais bifásicas, talvez a maioria, a esquerda e a direita não terão consciência de que fazem parte duma engrenagem una, destinada a extorquir a classe média e os produtores, mas fazem. Na fase a, de esquerda, a riqueza é distribuída por todos, mas muito mais pelos ricos, como no tempo do Sócrates, por exemplo com a injeção da PT no GES de centenas de milhões de euros. Na fase b, de direita, a classe média e produtores em geral são chamados a repor o prejuízo, novamente a favor dos ricos como no tempo do Passos, um troikista convicto. Após alguns ciclos, uma minoria de cerca de um por cento da população distancia-se absurdamente dos noventa e cinco por cento mais pobres. 

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