quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Um mundo de ilustres cruzados


Ainda hoje, para nós, a quem esses cruzados teutões e bretões ajudaram nas lutas contra os mouros e disso lhes devemos estar gratos, pese embora a chacina descrita, contra mouros e moçárabes, sem distinção de credos. E o Dr. Salles, manuseando os seus conhecimentos, e como lutador que foi, na aventura pátria recente, aqui os desenterra, neste seu texto do 2 de Novembro – Dia de Finados – esses teutões e bretões ainda mais dignos de serem evocados porque ajudaram na conquista de Lisboa aos Mouros, uma gente já a definir-se, como povoadora de um país antigo de quase 900 anos.

NO DIA DE FINADOS

 HENRIQUE SALLES DA FONSECA

A BEM DA NAÇÃO, 03.11.21

Lembrei-me dos meus e lembrei-me também de outros finados longínquos, desconhecidos.

* * *

Há muito esquecidos por alguns, ignorados por outros e completamente desconhecidos dos restantes europeus cristãos de obediência romana, os filósofos gregos e suas subtilezas foram trazidos de volta ao conhecimento dos ibéricos por eruditos árabes do Al Andaluz.

Claro está que esses conhecimentos apenas terão transbordado para círculos de erudição muçulmana e, por osmose, para moçárabes. Creio que dificilmente essa erudição subtil tivesse chegado aos círculos mais privilegiados da cristandade afecta a Roma.

Naquelas épocas (refiro-me ao séc. XII da nossa era), na Europa, a lógica ainda não era (voltara a ser?) aristotélica e a razão estava no fio da espada.

Em 30 de Junho de 1147, dentro das muralhas de Lisboa vivia uma importante comunidade cristã moçárabe misturada com muçulmanos que, à ´época, eram benignos mas no dia seguinte, 1 de Julho, a frota dos cruzados bretões e teutões fundeou no Tejo e os seus tripulantes tomaram a zona a Ocidente da cidade (a que hoje chamamos a Baixa-Chiado) e as tropas de D. Afonso Henriques tomou a zona a nascente (a que hoje temos por Stª Apolónia) assim se dando início ao cerco de Lisboa. Em 20 de Outubro, os católicos entraram na cidade e D. Afonso Henriques, perdendo o controlo da voracidade sanguinária dos cruzados, teve que assistir ao saque e à chacina dos sitiados. O sangue jorrou sem que teutões nem bretões distinguissem muçulmanos de cristãos moçárabes. Um dos degolados foi o próprio bispo (moçárabe, herdeiro da já distante tradição visigótica) que logo de seguida foi substituído por Gilbert de Hastings ali mesmo nomeado (por quem?) bispo de Lisboa e de obediência a Roma.

Na pessoa desse bispo degolado (cujo nome tentarei descobrir) no dia 20 de Outubro de 1147, recordo hoje, 2 de Novembro de 2021, os cristãos de rito moçárabe chacinados na conquista de Lisboa.

Mas, continuando a referir finados, o cemitério dos cruzados teutões mortos nesta conquista está situado nos baixos da Igreja de S. Vicente de Fora e o dos bretões é nos baixos da Basílica dos Mártires, na Rua Garrett.

Lisboa, 2 de Novembro de 2021

Henrique Salles da Fonseca

COMENTÁRIOS

Henrique Salles da Fonseca  03.11.2021:: Invocamos no dia 1 todos os santos sem nome no hagiógrafo , muitos deles com quem já nos cruzámos nos nossos caminhos. Maria João Botelho

 Adriano Miranda Lima  03.11.2021:   Não tinha informação sobre os locais dos cemitérios dos cruzados que tombaram no cerco de Lisboa. É interessante saber isso e seria conveniente que nos respectivos locais houvesse placas a assinalar o facto. E se calhar lá estão. Mas quero crer que alguns cruzados, se não muitos, terão morrido por doença, dada a atroz falta de higiene naquele tempo. Longe já iam os tempos da exemplar prática de higiene dos romanos, que mesmo em campanha não o descuravam. Mas esse legado foi tragado pela fé cristã. Os cristãos europeus tinham, ao tempo, da religião, uma leitura que não diferiria muito da cultura talibã: corpos emporcalhados mas fé religiosa bem afiada no gume da espada. Isso era o fermento da santidade. Adriano Miranda Lima

Anónimo  04.11.2021 : Uma lição bem narrada e explicada da nossa história portuguesa, nomeadamente da nossa querida Lisboa. Sepulturas no subsolo da Igreja de São Vicente de Fora, os Cruzados, e na Basílica de dos Mártires na Rua Garrett, os Bretões, eram-me completamente desconhecidas. Muito Obrigado Rui Bravo Martins Anónimo  04.11.2021  

- A história do século XII em Lisboa está a repetir-se, nove séculos depois, nas terras do Médio Oriente, ás mãos do Taliban e do Estado Islâmico, e para além, graças ao zelo destes dois elementos. O sonho de voltar ao Al Andaluz é ainda acalentado pela horda e foi mesmo expresso por alguns dirigentes do mundo islâmico (Gaddafi, Erdogan). Apenas a estratégia é diferente - imigração e o ventre das mulheres (Arafat). A Europa, quando acordar do seu sonâmbulo, dará conta que o mundo mudou. Não teremos de esperar nove séculos, porventura apenas nove décadas. António Fonseca

 

 Henrique Salles da Fonseca  04.11.2021

CERCO DE LISBOA – CRONOLOGIA

16 de Junho de 1147 – chegada dos cruzados ao Porto

Pedro II, Pitões – Bispo do Porto

30 de Junho – chegada ao Tejo

1 de Julho – início do cerco a Lisboa

20 de Outubro – católicos entram na cidade e iniciam saque e chacina dos sitiados

21 de Outubro – fim do cerco e substituição do Bispo moçárabe (degolado) por Gilbert de Hastings cuja sagração foi presidida por D. João Peculiar, Arcebispo Primaz de Braga

FONTES
• Wikipédia

• Carlos Traguelho/Joaquim Veríssimo Serrão (sobre D. João Peculiar)

 

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