Assaz e sagaz colaboradora da acção
humana.
▲Melissa já é considerada a "tempestade do
século" na Jamaica Getty Images
Melissa. 8 respostas para perceber o
porquê de já ser considerada a tempestade mais forte de 2025 em todo o mundo
▲Melissa já é
considerada a "tempestade do século" na Jamaica
Getty Images
Melissa.
8 respostas para perceber o porquê de já ser considerada a tempestade mais
forte de 2025 em todo o mundo
Furacão com ventos acima de 280 km/h ameaça as Caraíbas. Após Haiti e
República Dominicana, chega à Jamaica, onde se teme "situação
catastrófica". Especialistas explicam causas e impacto do fenómeno.
28 out. 2025, 22:00
Índice
Que furacão é este e como se
formou?
O que significa ser uma
“tempestade lenta”?
Há algo de inédito neste
fenómeno? É a maior tempestade de sempre?
Quais as regiões mais afectadas?
Que tipo de danos costumam
estar associados a furacões desta dimensão?
Portugal pode ser afectado?
Há hipóteses de termos um evento deste género?
Mas afinal o que é um
furacão, como se forma e qual a sua estrutura?
O furacão Melissa está a atravessar
as Caraíbas com uma intensidade raramente vista. Primeiro o Haiti, depois a República
Dominicana. Segue-se
a Jamaica, antes de continuar viagem para as Bahamas e Cuba, com
ventos superiores a 280 quilómetros por hora — força suficiente
para o classificar como furacão de categoria 5, o nível máximo da Escala de
Saffir-Simpson. É,
até agora, a tempestade mais forte do planeta em 2025, segundo oCentro
Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC, na sigla inglesa).
Na Jamaica, o país mais ameaçado neste momento,
já foram decretadas evacuações obrigatórias e o Governo abriu mais de 800
abrigos. O Presidente jamaicano
confessou estar “de
joelhos a rezar”
pelo país. Apesar dos apelos, muitos moradores recusam abandonar as casas,
temendo perder o pouco que têm. Já há registo de três mortos e 13 feridos no
país e as autoridades alertam para a possibilidade de uma crise
humanitária nas próximas horas.
A Organização Meteorológica
Mundial (OMM), afiliada
na ONU, declarou que “é esperada
uma situação catastrófica na Jamaica”. De acordo com a especialista em
ciclones tropicais da OMM, Anne-Claire Fontan, “para a Jamaica, esta será, sem dúvida, a tempestade do século”. Por
seu turno, um porta-voz da Cruz Vermelha anunciou que se estima que o furacão Melissa afecte directamente pelo
menos 1,5 milhões de jamaicanos.
Que furacão é este e como se formou?
O Melissa nasceu de “uma onda
tropical vinda de Cabo Verde”, algo
comum nesta época do ano, segundo explica ao Observador o climatologista Mário
Marques, acrescentando que “encontrou um ambiente muito favorável ao
desenvolvimento rápido para furacão, com a temperatura das águas do Caribe
muito acima da média”.
A maior parte dos furacões mais
intensos que nascem no Atlântico têm origem perto das ilhas de Cabo Verde, a
600 quilómetros a oeste do Senegal. Isto acontece quando uma onda tropical — uma região de baixa pressão
atmosférica — se forma na savana africana durante a
estação das chuvas e se dirige para o Oceano Atlântico, onde se
encontra com as águas quentes ao largo do continente africano e se transforma
em ciclone tropical
A combinação entre o calor das águas e a
presença da zona intertropical de convergência — onde se cruzam ventos vindos
dos hemisférios norte e sul — cria
as condições ideais para o crescimento explosivo do sistema. “Esta
conjugação de factores intensificou o ciclone, que atingiu rapidamente a
categoria cinco”, sublinha o especialista. Isso aconteceu muito
rapidamente, desde o fim de semana até segunda-feira.
O fenómeno acontece quando a tempestade fica “presa” entre duas zonas
separadas de alta pressão, que fazem abrandar os ventos que “empurram” o
sistema. Neste caso, o Melissa abrandou ao largo
do sudeste da Jamaica, sobre as águas quentes do Mar das Caraíbas, onde
velocidade passou para metade dos cerca de 16 quilómetros por hora a que uma
tempestade costuma circular nas Caraíbas, tendo-se tornado um “furacão lento”. As
águas quentes e a geografia montanhosa do Haiti e da Jamaica acentuaram o
fenómeno, pois a intensa humidade “alimenta” a tempestade, o que pode causar
níveis de precipitação inéditos.
O que significa ser uma “tempestade
lenta”?
Este furacão é considerado uma tempestade lenta, deslocando-se a metade
da velocidade média de furacões nas Caraíbas.
Segundo Mário Marques, “quanto mais intenso é um furacão, mais lentamente tende a mover-se”.
Isto acontece porque “há muita energia
a ser assimilada e consumida”, o que faz com que o sistema “se alimente de forma mais prolongada e avance mais
devagar”.
Esta lentidão agrava o seu impacto.
Há, assim, registo de mais chuva, ventos mais duradouros e maior
potencial de destruição em áreas fixas. O Melissa é
o décimo terceiro furacão da época no Atlântico. Porém, o facto de ser uma tempestade lenta torna-o particularmente
destrutivo. “Quando mais devagar
uma tempestade se desloca, mais tempo tem para despejar muita chuva num único
local”, simplificou, também, Stephen Mullens,
professor da Universidade da Florida ao New York Times.
▲Tempestade
vista do céu. Imagem divulgada pela Força Aérea dos Estados Unidos
Índice
Portugal pode ser afectado? Há hipóteses de termos um
evento deste género?
Mas afinal o que é um furacão, como se forma e qual a
sua estrutura?
Há algo de inédito neste fenómeno? É
a maior tempestade de sempre?
O facto de ter passado de
categoria 2 para 5 em apenas 48 horas e de ser considerada uma tempestade
“lenta” faz com que o Melissa seja um fenómeno “pouco usual”.
O climatologista explica ao OBSERVADOr que esta
tempestade “não é inédita, mas o que torna o Melissa excecional é o fato de
atravessar a Jamaica como categoria 5, algo raríssimo. “Normalmente, estas tempestades passam mais a leste ou
mais a oeste. Desta vez, o furacão está a passar directamente sobre o centro da
ilha, o que amplifica a destruição pela sua lentidão e intensidade”.
No entanto, esta não será a maior tempestade de sempre, até porque quando
passar a ilha da Jamaica vai perder intensidade. “Pode ser, sim, aquela que afecta o país de uma forma mais intensa
desde que há registos”, afirmou Mário Marques.
É preciso recuar a 2005, por
exemplo, para encontrar um furacão
semelhante ao Melissa. O Katrina atingiu também a categoria 5,
com ventos que ultrapassaram os 280
quilómetros por hora e causou uma brutal destruição, sobretudo na Louisiana,
EUA. Para além dos danos
materiais, provocou 1.800 mortos, 1,5 milhões de desalojados e uma crise
humanitária.
Quais as regiões mais afectadas?
Ainda antes de chegar à Jamaica, o Melissa já deixou um rasto de
destruição pela América Central, como noticiaram a CNN, a BBC e a Associated Press. No Haiti, três pessoas morreram e mais de 15
hectares de plantações de milho foram destruídos, o que pode agravar a fome que
o país vive. Na República Dominicana, morreu uma pessoa, 50 mil pessoas ficaram sem energia e mais de três
mil ficaram desalojadas. “Não é motivo para brincar”, alertou o
ministro do ambiente dominicano.
A Jamaica é agora o epicentro da tragédia, tendo-se já registado
três mortes durante os preparativos para a chegada da tempestade — após duas
árvores lhes terem caído em cima e uma terceira por electrocussão —, confirmou
o ministro da Saúde e Bem-Estar, Christopher Tufton, na noite de
segunda-feira. Outras 13 pessoas ficaram
feridas, a maioria em quedas de escadas e telhados enquanto tentavam reforçar
as casas.
De acordo com o primeiro-ministro jamaicano, Andrew Holness, o furacão
causará “danos catastróficos”. “Não
há infraestruturas nesta região, ou talvez em qualquer parte do mundo, que
possam suportar um furacão de categoria cinco sem algum nível de danos”,
disse à CNN.
As Bahamas preparam-se
para a chegada da tempestade, tendo o Governo emitido ordens formais de
evacuação em cinco municípios. Cuba também se prepara, com
apoio logístico das Nações
Unidas, que anunciaram a activação do seu mecanismo
de Acção Antecipada face ao
próximo impacto do furacão no país. Está previsto serem distribuídas mais de
100 toneladas de arroz e material de emergência.
Depois de ter feito landfall na Jamaica, o Melissa passou a categoria
4, ma pode voltar a subir,
Que tipo de danos costumam estar
associados a furacões desta dimensão?
Segundo Mário Marques, furacões de categoria 5 trazem chuvas
intensas, ventos devastadores, marés de tempestade (as chamadas storm
surge) e subida acentuada do nível
do mar. “A pressão muito baixa faz com que o oceano suba entre dois e três
metros, podendo inundar áreas costeiras inteiras”, explica ao
Observador.
O Centro Nacional de Furacões dos
Estados Unidos (NHC, na sigla inglesa) alerta para o facto de o
furacão ser capaz de causar danos estruturais completos em áreas expostas e deixar
grandes regiões sem electricidade durante as próximas semanas.
Já de acordo com o The
COMET Program, uma ferramenta desenvolvida pela Corporação
Universitária para a Investigação Climatérica, em furacões de categoria 5
esperam-se “danos catastróficos“. Uma grande percentagem de casas vai ser
“severamente destruída”, com perda total do telhado e das paredes exteriores. A
esmagadora maioria das árvores será arrancada e os postes de eletricidade vão
ser varridos. As áreas residenciais vão ficar “completamente isoladas pelos
escombros”.
Este furacão pode ser um sinal de que estamos a
entrar numa nova fase de eventos extremos mais frequentes?
Para o climatologista, há que
distinguir entre frequência e intensidade. “Todos os anos há furacões de
categoria 5 — pelo menos um ou dois —, o que é normal”, começa por sublinhar,
explicando que o que muda é que, com mares mais quentes e mais vapor de água na
atmosfera, há mais energia disponível para que os furacões se tornem mais intensos e destruidores quando acontecem.
Deste modo, para Mário Marques, não há necessariamente mais
furacões, mas os que existem tendem a ser mais fortes.
Portugal pode ser afectado? Há hipóteses de termos um evento deste género?
“Não, não podemos ser afectados directamente”, garante Mário Marques. Após atravessar as Caraíbas, o
Melissa seguirá para o Oceano Atlântico, onde perderá força e poderá apenas
“alimentar uma área de baixa pressão a noroeste”.
Um fenómeno desta categoria não
afectará Portugal.
Para o climatologista, a razão está nas temperaturas do mar. “O oceano em
Portugal nunca atinge os 31 ou 32 graus que alimentam furacões desta magnitude”.
Ainda assim, o
especialista
admite que o país poderá enfrentar tempestades
pós-tropicais cada vez mais frequentes, “com características semelhantes a
furacões de categoria 1 ou 2”, mas sem a mesma escala de destruição.
Mas afinal o que é um furacão, como
se forma e qual a sua estrutura?
Os furacões são as tempestades mais perigosas e devastadoras que
podem ocorrer no planeta Terra. Trata-se
de “ciclones tropicais com ventos que viajam a uma velocidade mínima de 119
quilómetros por hora”, isto é,
movimentos rotativos da atmosfera em torno de um centro que ocorrem em águas
tropicais e subtropicais, segundo explica o Centro Nacional de Furacões, a entidade da
Administração Oceânica e Atmosférica norte-americana especialista neste tipo de
fenómenos.
Ciclones desta natureza extraem energia térmica da água do mar
quando esta se encontra a uma temperatura igual ou superior a 27 ºC e depois
transportam-na para as regiões mais altas da troposfera — a mais interna de
todas as camadas da atmosfera –, onde a temperatura é muito mais baixa. Para que se saiba se um ciclone
tropical é ou não um furacão, os cientistas medem as velocidades dos ventos que
se verificam nesses locais, como explica o Instituto Português do Mar e da
Atmosfera (IPMA).
Para que os furacões se formem é
necessário que estejam a acontecer, em simultâneo, cinco fenómenos:
Um ciclone tropical a perturbar a
atmosfera;
Que esse ciclone tropical ocorra
num oceano quente em que as águas estejam a uma temperatura igual ou superior a
27 ºC;
Que isso aconteça numa extensão
de pelo menos 50 metros de profundidade;
Que o ciclone tropical se
mantenha durante um longo período de tempo;
Que os níveis de humidade sejam
muito altos nas regiões mais inferiores da troposfera e que o vento sopre a
baixa velocidade e sem muitas variações de intensidade e direção nas camadas
mais altas da troposfera.
Relativamente à seu estrutura, o furacão
é composto por um olho, que é a parte central do ciclone tropical em
torno do qual giram as nuvens que compõem o furacão e onde se verificam as
pressões atmosféricas mais baixas e as temperaturas mais altas de todo o
fenómeno meteorológico. O clima é tão pacífico lá dentro que pode ser possível
observar o céu e, durante a noite, ver estrelas. O olho do furacão pode ter ter
entre oito e 200 quilómetros de diâmetro, como explica o Laboratório
Meteorológico e Oceanográfico do Atlântico.
Em torno do olho do furacão está a parede
do olho. É nessa região que ocorrem os ventos mais velozes e devastadores e é o
resultado da acumulações de nuvens do tipo cumolonimbus que se formam
quando o vapor de água vindo do mar condensa ao encontrar as massas de ar frio
nas regiões mais altas da troposfera.
A terceira e última parte de um furacão são as bandas de precipitação, que são
como braços de nuvens em espiral que
saem da parede do olho e giram em torno do centro da tempestade,
explica o IPMA. Essas nuvens giram no sentido contrário ao ponteiro
dos relógios no hemisfério norte e no sentido dos ponteiros do relógio no
hemisfério sul porque a direcção do movimento está dependente dos ventos.
FURACÃO DESASTRES
NATURAIS NATUREZA
AMBIENTE CIÊNCIA METEOROLOGIA HAITI AMÉRICA MUNDO
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