De um jantar, um matabicho servia perfeitamente, e julgo mesmo que Passos Coelho se contentaria com um
biscoito de ocasião. Ele sabe que o país precisa dele, mas suponho que desistiu.
Não vale a pena, por isso, Seguro referir-se a ele, para ficar mais seguro de
si. Maria João Avillez tem razão. Não havia necessidade.
Jantares e outras considerações
Em Seguro tudo se apresenta um pouco
previsível, um pouco banal, um pouco monocórdico, um pouco redondo. Mas sempre
bem educado, sempre afável, eis o que nunca é de somenos.
MARIA JOÃO AVILLEZ
Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 22
out. 2025, 00:221
1Ah os jantares lisboetas e as
voltas que eles dão. (Ou que querem que eles dêem.)
Agora foi mais um, o jantar dos
falsos passistas e o seu (a caminho?) apoio a António
José Seguro. Uma coisa com semanas mas que ou fora já
indiscretamente contada aos bocadinhos, aqui e ali, quebrando-se o recato
sugerido pelo autor da iniciativa de
juntar algumas pessoas “de bom senso” para conhecerem melhor um candidato
presidencial; ou talvez que um ouvinte casual deste encontro o
resolvesse contar para chegar à meta procurada de um jornal. (O qual, naturalmente fez o que quis com a
história.)
O encontro agradou a convidantes e convidado (que “gostou de o ser”).
Foi o pouco que eu soube e até aqui nada disto mereceria uma linha, a não
ser a questão dos, digamos, comportamentos. E aí não sei o que é pior: se
pessoas que não (se) resistem a si próprias – e contam –, para brilhar com uma
suposta “caixa”, transformando automaticamente um jantar de conhecimentos
mútuos e troca de ideias numa coisa que ele nunca foi; se dar intencionalmente
seguimento jornalístico a uma história que apesar de se conhecer mal, irá ser
ampliada, muito condimentada e publicada com o máximo relevo. Onde quero
chegar? A isto: a quem o jantar
pode afinal não servir como um sapato apertado é muito mais a António José
Seguro e não aos fictícios passistas que lá estavam; e menos ainda ao
verdadeiro Passos Coelho que não sabia de nada mas sabe que tem (e “acha
natural”), amigos e correligionários espalhados pelos quatro maiores candidatos
presidenciais e não pensou mais nisto. Se percebo alguma coisa de política não
me parece ser este o momento – para Seguro – da publicitação do seu interesse
ou agrado por possíveis apoios vindos do centro-direita (agora?).
É verdade que Seguro está em maré de se encontrar com plateias
diversificadas e de as ouvir; e que
evidentemente ignorava que tal serão iria ser transformado publicamente num
jantar de “apoio de passistas”. Pode ser que eu me engane, mas o
intencionalmente mal usado “epíteto” talvez não lhe venha a soprar de feição.
Eu, quando olhei
para o jornal, acendeu-se-(me) um sinal vermelho.
2Não sei quantos eram – ignoro em
absoluto a “lista” completa da mesa de jantar – nem o que disseram os convivas
e o convidado de honra desse jantar de futuros apoiantes – não tinha que saber.
Sei o que a televisão me
trouxe anteontem, numa entrevista com este mesmíssimo candidato: num tom sempre
sereno, sempre afável, ouviu-se uma soma quase pueril de boas intenções com o
maior denominador comum entre elas: “resolver problemas dos portugueses”.
Evocadas com o ânimo da descoberta: como
se mais ninguém antes deste candidato se tivesse afligido com o estado do SNS,
da Justiça, da Habitação; ou como se a resolução dos problemas – que, sim,
concordamos, são realíssimos – dependesse de “consensos” ou de simplesmente
“construir pontes” para pôr as pessoas a falar umas com as outras; depois
pareceu-me uma postura muito intrusiva nas áreas da governação, admito que
motivada pela vontade de bem fazer. António José Seguro parecia
transbordar de uma contida mas real auto-satisfação com a sua própria
descoberta de um “modelo” presidencial novo ou totalmente inédito e nada do que
ouvi era novo ou inédito.
E depois – tome-se nota – ficou-se com o mandamento de qualquer
candidato presidencial hoje: ser
diferente, senão o oposto, do actual Chefe de Estado (o que se está a tornar
numa espécie de palavra passe dos candidatos para abrirem o portão de Belém).
Tudo um pouco previsível, um pouco banal, um pouco monocórdico, um pouco
redondo. Mas, repito, sempre bem educado, sempre afável, eis o que nunca é de
somenos.
Uma apoiante e minha amiga a quem
expus isto mesmo minutos depois, disse-me laconicamente: “pode funcionar”.
Eu percebo-a e penso o mesmo: pode.
Porque tudo menos o sr. Almirante e o sr. Ventura na segunda volta. Tão
felizes e contentes pelo menos como o “Sr. Contente” e o “Sr. Feliz” do Herman
José, aqui há uns anos. Mas esses eram a brincar.
PS: António José Seguro quer Belém. Não será
com o meu voto, sou fiel a pertenças. Ao que implicam, ao que significam. O que
não me impede de deixar este apontamento. Conheço há muito António José Seguro,
nunca o hostilizei, encontramo-nos às vezes na sua morada principal – a cidade
das Caldas – muito perto do concelho de Óbidos, onde vou muito. Pedi-lhe uma
entrevista há seis ou sete anos, “estava
afastado” e estava mesmo: uma longa distância da política feita de recato e
silêncio após o modo como António Costa o enxotou de um minuto para o outro e
sem pré-aviso de um PS que ele liderava. No intervalo deu aulas e fez vinho, coisa avisada. Voltei a pedir
muito mais tarde novo encontro, aquele “caso” interessava-me, voltou a recusar,
estava prestes a entrar para a CNN como comentador. E agora está onde está, numa estrada de
sentido único, a correr. Estarei atenta como sempre estive a este percurso não
totalmente desinteressante, mas…
ANTÓNIO JOSÉ SEGURO PS POLÍTICA
COMENTÁRIOS:
MARTINS: Presidenciais ou talk show? Marques Mendes na
CNN parecia mais comentador do que candidato. Diagnóstico, análise, pose de
crónica tudo menos visão presidencial. Se Belém é palco, Mendes quer ser
apresentador. Já Seguro, na SIC, prometia resolver o SNS, A justiça, a
Habitação... como se o Presidente fosse o Pº Mº. A Constituição? Ignorada. O
papel de moderador? Esquecido. Só faltou prometer comboios a tempo e sol aos
fins-de-semana. Ambos confundem funções. Um comenta, o outro governa nenhum
parece entender o que é ser Presidente da República. Precisamos de candidatos
que respeitem o cargo, não que o reinventem para caber nas suas ambições.
Nenhum comentário:
Postar um comentário