terça-feira, 14 de outubro de 2025

BALANÇO

 

Das ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS de 12/10/25.

Já tinham esquecido que toda a política é local?

O PSD teve uma boa vitória, o PS uma derrota tolerável. Mas o mais interessante das eleições de ontem foi comprovar a centralidade dos candidatos, o que atrapalhou o Chega e amorteceu a queda do PCP.

JOSÉ MANUEL FERNANDES Publisher e colunista do Observador

OBSERVADOR, 13 out. 2025, 01:4547

Todos querem leituras nacionais, e sem dúvida que há sempre leituras nacionais das eleições autárquicas, mas não podemos explicar o que se passou este domingo sem reconhecermos que se há indiscutivelmente ilações políticas a tirar, é indiscutível que foi muito localmente que tudo ou quase tudo se decidiu. E decidiu muitas vezes, ou mesmo quase sempre, por diferenças de qualidade dos candidatos.

Por isso, antes de ir a algumas leituras incontornáveis, deixem-me chamar a atenção para alguns resultados que só se explicam por factores eminentemente locais – e nem preciso citar o inevitável Isaltino Morais que, em Oeiras, bateu todos os recordes de votação.

Quem imaginaria, por exemplo, que o PSD perdesse Viseu para o PS mas, em contrapartida, conquistasse Beja? Como explicar a reviravolta em Gaia senão pela personalidade de Luís Filipe Menezes? E que dizer do resultado esmagador de Santana Lopes na Figueira da Foz? Ou do número significativo de presidentes eleitos em listas de independentes?

Mais: quando olhamos para os resultados bem modestos do Chega não é possível deixar de constatar que as vitórias que obteve – com destaque para a de Albufeira – se devem em grande parte a ter apresentado nesses municípios candidatos mais sólidos do que nas dezenas de outros concelhos onde foi o partido mais votado nas legislativas e podia, em princípio, esperar ganhar.

Há uma velha máxima na política segundo a qual toda a política é local, e é local no sentido em que políticos que não sejam capazes de se ligar directamente aos eleitores, sobretudo de se identificar com problemas concretos dos eleitores, dificilmente algum dia terão sucesso. Isso também permite perceber porque é que o Chega ficou muito aquém das expectativas: primeiro, porque não se constroem candidaturas fortes colocando apenas André Ventura nos cartazes, ao lado de candidatos que raramente tinham uma agenda local; depois, porque o voto “zangado” tem, apesar de tudo, mais razões de zanga a nível nacional do que a nível local.

Mas não nos enganemos: o Chega ficou bastante aquém das expectativas, a começar pelas expectativas sempre grandiloquentes do seu líder, mas um partido novo, para mais com as características do Chega, dificilmente conseguiria construir de um dia para o outro uma forte base autárquica. Nisso Ventura tem razão: é um caminho que está a fazer, um caminho que nenhum partido para além dos partidos fundadores da democracia (PS, PSD, PCP e CDS) conseguiram até hoje fazer. O Chega não deitou foguetes, os seus adversários também não deviam festejar, como alguns fizeram na noite de domingo.

Em contrapartida a evolução do PCP é uma espécie de reverso da medalha do Chega: eleição após eleição que os comunistas têm visto minguar uma base autárquica que começaram a construir ainda no PREC, antes das primeiras eleições democráticas, que consolidaram nos dez anos que se seguiram, mas que depois se foi desfazendo pouco a pouco, apesar de muitos dos seus candidatos beneficiarem da vantagem dos incumbentes e de terem bom nome localmente. O que aconteceu aos comunistas ontem foi mais um desastre, e não pequeno: perderam as duas capitais de distrito que ainda governavam, Setúbal e Évora, sendo que nesta última cidade sofreram a humilhação de ficarem em terceiro lugar, atrás do PS e do PSD, apesar de terem apresentado um candidato forte, João Oliveira.

Com metade da votação a nível nacional do Chega, o PCP perdeu um terço das câmaras que governava (manteve apenas 12 das 19 suas presidências municipais), o que levou muitos a comentar que, apesar de tudo, o que ainda deu alguma alegria ao partido foi a votação de João Ferreira em Lisboa.

Restam, por fim, os dois maiores partidos, sendo que é indiscutível que o PSD ganhou as eleições e que os socialistas perderam, mesmo tendo saboreado algumas pequenas vitórias.

Os sociais-democratas ganharam nas duas câmaras mais importantes do país, com Moedas a reforçar a votação em Lisboa e Pedro Duarte a suceder a Moreira no Porto; o PSD vai governar os cinco concelhos mais populosos do país (por ordem, Lisboa, Sintra, Gaia, Porto e Cascais) e sete dos dez mais populosos (considerando Braga e Oeiras, este último por ter apoiado Isaltino); o PSD volta a ser o partido com mais presidentes de câmara, o que lhe permitirá regressar à liderança da Associação Nacional de Municípios; por fim os sociais-democratas, mesmo tendo perdido câmaras importantes e emblemáticas, como Viseu e Coimbra, conquistaram outras muito significativas, como Guimarães e Beja.

Mais do que isso: estes avanços eleitorais do PSD acontecem numa altura em que o Chega está a crescer, discutindo-se até que ponto poderia comprometer alguns resultados, como as vitórias em Sintra ou em Setúbal, para não falar também de Lisboa e do Porto.

Já os socialistas continuam a ser um grande partido autárquico e não se esperava outra coisa (apesar daquilo que sugeriu o seu líder na reacção aos resultados eleitorais). Não alcançou nenhum dos seus principais objectivos – as grandes cidades, a presidência da ANMP – mas ainda assim saboreou algumas vitórias com algum significado, por acontecerem em capitais de distrito (Bragança, Viseu, Coimbra, Évora e Faro), o que amenizou uma noite com sabor mais amargo do que agridoce, como a tentaram apresentar os seus líderes.

Não devem contudo iludir-se os socialistas, e já agora também os sociais-democratas. É verdade que, como disse José Luís Carneiro, o PS vai continuar à frente de um número muito significativo de câmaras, ainda mais significativo se compararmos com as que o Chega obteve, mas isso não significa que o partido (e o PSD em menor grau) não possa estar a viver uma erosão de certa forma irreversível. Vale a pena ver, por exemplo, o que se passou em países como a França, onde os velhos partidos, gaulistas e socialistas, conseguiram conservar muitas das suas bases locais e regionais mesmo quase desaparecendo quando olhamos para a Assembleia Nacional francesa. Em contrapartida nunca a União Nacional da senhora Le Pen, nem os macronistas, lograram construir uma forte base local. Significa isso que os velhos partidos tenham fugido a um desgaste irreversível? Não aconteceu e não se prevê que possa acontecer.

De resto, como genericamente se previa, estas autárquicas não provocaram qualquer sobressalto nas lideranças partidárias (apesar de pelo menos uma ter ficado em maus lençóis – Mariana Mortágua – mas isso são contas de outro rosário). O que também é coerente com a máxima de que toda a política é local, mesmo quando só temos olhos de Lisboa para ver o resto do país.

AUTÁRQUICAS 2025      ELEIÇÕES      POLÍTICA

COMENTÁRIOS (de 47)

Vítor Araújo: Mortágua ganhou,...a câmara de Gaza.

Ruço Cascais: Não resisto; Mortágua entrou hoje numa outra flotilha em parte incerta rumo à Dinastia Ming para salvar os chineses do extermínio às mãos das lâminas afiadas dos samurais nipónicos. Já Leitão esgotou o KFC da zona e está plantada no sofá a ver as 50 temporadas de "Friends" com duas grandes embalagens de coxas de frango frito e uma embalagem XXXL de gelado do Santini. Já o Carneiro deu uns valentes pinotes de felicidade e anda a celebrar a sua sobrevivência política no meio das moitas com champanhe de bolota. O Raimundo está a pensar juntar-se à Mortágua na Dinastia Ming. A Mariana Leitão é uma nova heroína da Marvel ainda por descobrir e encontrar: A Mulher Invisível. Só sabemos que existe. Ventura viu um Sapo, um grande Sapo, no meio da horta com a boca torta. Viu o Sapo e comeu-o, sem espinhas. Azar, o Sapo ficou entalado. Montenegro é o galo do casino. Com a crista levantada lá vai apostando na roleta e ganhando a sorte dos dados. Falta algum? Sim, Tavares que quer criar uma rede de transportes aéreos para levar as crianças para os infantários e assim evitar o trânsito rodoviário dos centros urbanos. Já a Inês Sousa Real foi devorar duas bifanas e dois pastéis de nata para mostrar que é tuga e que não confunde os torresmos com flan. Por último, as Marias Castelos Pretos encontraram um especial conforto na derrota do CH para disfarçar a amargura da derrota do PS. Amanhã na Rádio Observador, os socialistas encapotados de serviço só vão falar na derrota do CH, a sua grande vitória nestas eleições. Vamos à próxima. Vemo-nos livres de Marcelo será a narrativa de vitória de todos os candidatos presidenciais, à excepção de Mortágua perdida na campanha da Dinastia Ming. Nota: o Gonçalo Ribeiro Teles, com costela socialista e sem vestígios de monarca nem de inteligência, avisou que os portugueses estão fartos de eleições todos os anos, culpa de Montenegro em grande parte, e, por isso, com os níveis de abstenção esperados, estas eleições não eram comparáveis a nenhumas outras. Falhou como as notas de mil. A abstenção desceu. Os eleitores portugueses gostam de eleições.             Manuel Lisboa: Importante: a abstenção geral baixou. Em eleições locais essa percentagem genérica poderá ter menos relevância, contudo não é de forma alguma despicienda. Portanto, os eleitores portugueses votaram em número razoável e daí inferir-se da plena legitimidade popular da maioria dos autarcas eleitos ontem. E foram eleitos de forma genuína, independentemente da quantidade de votos obtidos, pois as respectivas eleições resultaram da expressão livre das pessoas com direito a voto em Portugal. Constatação óbvia, que revela a naturalidade como tudo se desenrolou, sendo de assinalar e felicitar, neste domínio, o trabalho da imensa gente, que por esse país fora esteve nas mesas de voto e assegurou a fluidez da votação. Ganhou o maior partido parlamentar; e os socialistas conseguiram não perder por muito, tendo até obtido nalguns casos vitórias saborosas (por exemplo, Coimbra e Viseu). Todos os restantes agrupamentos partidários saíram derrotados, mesmo considerando a persistência do partido governamental minoritário ou espírito de luta de luta dos liberais. Aumentará, no futuro, a tendência de candidaturas ditas independentes? No balanço contabilístico evidencia-se a vitória clara do centro-direita e a derrota da esquerda. Apesar dos cerca de 600 mil votos, a noite correu bastante mal para o histriónico líder do partido da direita radical, o qual, com a sua constante verborreia, teve, como é habitual, tempo exagerado de antena, incluindo a disparatada ida ao Entroncamento. As coligações com grupos de extrema-esquerda só prejudicaram o partido socialista, como se comprovou de maneira inapelável em Lisboa, mesmo tendo em conta a má escolha da candidata e os comunistas, felizmente, decaem em cada eleição. Trataram-se de longas transmissões de televisão e se não fossem os múltiplos canais a cores, a panóplia de quadros electrónicos e as muitas intervenções (a maior parte inúteis) de repórteres fora dos estúdios, reviveu-se, até pela incerteza de resultados, as gloriosas noites eleitorais dos anos setenta e início dos oitenta do passado milénio.         

            

Vitor Batista > Ruço Cascais: Não creio que o CH tenha saído derrotado, para um partido com 6 anos e que concorre pela segunda vez, ganhar 3 câmaras e um grande número de vereadores não é coisa pouca, ganhou no Entroncamento que é a minha câmara, e foi por mérito do candidato e penso que em Albufeira também, e não fosse a campanha negra que tem sido feita contra o partido desde sempre, o CH teria chegado às 30 câmaras facilmente.

JOHN MARTINS. ...e entretanto verificou-se o fenómeno do Entroncamento. Onde Ventura se viu obrigado a explicar que à moda do Entroncamento, das 30 câmaras de que falava... Afinal eram só 3, incluindo a do Entroncamento... Parece mentira, mas é verdade. As outras evaporaram-se...

Silva: ENGOLIR UM SAPO: Ontem, depois de percorridas as capelinhas familiares e amigos confirmei que quase toda a gente tinha acabado por votar Moedas. Mas de graúdos a miúdos, a convicção político-partidária essa era nenhuma. O voto tinha sido totalmente útil e o argumento igual entre todos: a esquerda tresloucada não podia voltar à capital Existia a sensação de que o que tinha movido esse voto útil não foi o apelo esganiçado e desesperado de Moedas, foi a flotilha e a sua cobertura mediática histriónica que pôs todo o tabuleiro político em evidência. O mesmo em relação ao sentimento político desse voto útil: Moedas, apesar da oposição desleal da esquerda e extrema-esquerda que enfrentou na Câmara, não tinha feito os mínimos em prol de uma cidade e de um eleitorado que, manifestamente, ele e este PSD virado a Norte, parecem desconhecer. Mais, ao longo do seu mandato e nesta campanha algumas das posições de Moedas em relação a várias matérias não são percebidas como sequer de centro político, quanto mais de centro-direita ou direita: são esclarecidamente de esquerda, politicamente correctas e alinhadas com as dos media falidos de quem Moedas tem pavor. Contrariamente ao que andei aqui a postar em dezenas de comentários, também eu acabei por votar Moedas e foi a primeira e última vez na vida que engoli um sapo político. Da próxima vez voto mesmo em branco, o que será uma estreia. Por isso, eu se fosse o PSD tinha cautela: a tolerância dos Lisboetas de centro, centro-direita e direita com Moedas vai ser muito baixa, principalmente com o seu posicionamento católico-esquerdista e a total ausência de medidas que o seu primeiro mandato revelou relativamente:

- à habitação, à especulação imobiliária

- ao custo de vida pornográfico em Lisboa que os salários não acompanham

- ao turismo desenfreado que os habitantes não querem mais

- à cidade e suas infraestruturas lotadas com estrangeiros e uma imigração descontrolada. É que os Lisboetas de centro/direita são democráticos e de bom senso, mas não estão para andar a engolir sapos 2 vezes.                   

Rosa Silvestre. O Chega teve um resultado muito bom. Veja-se o número de vereadores que conseguiram eleger. Localmente, vota-se na cara conhecida, nos que já deram provas, naqueles que se sente conhecerem e estarem comprometidos com a cidade, nos filhos da Terra em que se reconhece mérito. Os candidatos do Chega eram, maioritariamente, desconhecidos das populações locais, sem propostas concretas, mostrando um conhecimento superficial da realidade local e que só tinham como recomendação a etiqueta Chega. Mesmo assim, conseguiram eleger grande número de vereadores. Na realidade, um resultado surpreendente.                 Maria Tubucci: Muito bem Sr. JMF. Hoje estou com depressão autárquica. Na minha cidade o PS ganhou outra vez a câmara, ou mais correcto, o maior centro de emprego socialista da região, onde cada emprego traz associado 1/2 dúzia de votos. E as restantes juntas de freguesia são meras sucursais do PS. Eu aqui só sirvo para pagar o IMI mais caro, do continente e ilhas… Ainda tive esperança que fossem de vela, mas é numericamente impossível quando é o ganha-pão de muita gente…😞                      Luís Rodrigues Silva: Totalmente de acordo. O PSD--Moedas teve muita sorte em estar a concorrer contra uma troupe alucinada que representava a geringonça de má memória, no seu pior.                  Jorge Cerqueira Lopes: Caro Zé Manuel, não se pode tirar conclusões destas eleições, especialmente quem diz que o movimento ascendente do CH foi travado. Não foi. A rede local de simpatizantes, e os 50 anos de história, e os quadros autárquicos, impedem que novos partidos possam ultrapassar esse telhado de vidro. P.ex. o PS teve 3x mais votos que o CH, mas teve 42x mais câmaras !!! Como explicar? É simples. As autárquicas são como votos por círculos uninominais, qq partido que esteja em 3º, 4º etc.. lugar, não tem quaisquer hipóteses de ganhar uma câmara ( excepto o caso do CDS que tem o voto histórico muito concentrado em poucas câmaras...). No entanto, o CH tem hoje uma rede de vereadores, e membros na assembleia, que vão funcionar como auditores dos executivos camarários. vai ser interessante.          Paulo Almeida: Vota-se muito na pessoa em si, mas sobretudo no que a câmara ou a junta dá. Se alguém dá casas, se dá empregos, as pessoas vão continuar a votar nesses. Estão presas. E o PS é perito nisso. A discrepância entre as legislativas e as autárquicas em 5 meses mostra isso.  + PERDEDORES: PS, PCP, IL, BE E LIVRE Existem outros perdedores eleitorais que JMF não menciona suficientemente: Desde logo o PS de Pedro Nuno Santos, António Costa e Augusto Santos Silva que vê aqui a sua estratégia da Geringonça II ser chumbada de vez em Lisboa e Porto. Depois o PCP, cuja derrota é significativa para um partido que já teve 50 câmaras e que iniciou a sua caminhada autárquica como todos nos lembramos com a ocupação política de câmaras municipais durante o PREC, câmaras que não mais largou. Confesso que esperava uma derrocada que não aconteceu e parece ter encontro marcado com história para 2029. Depois os media darling dos media saloios, a IL, Livre e BE em relação a quem mais uma vez ficou provado que fora de Lisboa e Porto, e da bolha, não existem. A IL é mesmo uma desilusão, e resta saber o que é que teria acontecido em Lisboa e Porto com o voto útil se tem concorrido sozinha. O BE acabou eleitoralmente e até os incautos de esquerda que neles andaram a votar perceberam finalmente ao fim de 20 anos o que é e quem é o BE (UDP+FP25). O Livre, as viúvas do BE, vai continuar a ser levado ao colo pelos media até ao dia em que alguns deles fecharem ou tiverem que mudar drasticamente de projecto editorial.                    Ruço Cascais > Vitor Batista: Caro Vítor, André Ventura anunciou resultados muito altos e elevou demasiado as expectativas do CH nestas eleições. Como os resultados não foram os esperados (razão muito bem explicada neste artigo do Manuel Fernandes), os adversários do CH podem cantar vitória, ou melhor, que o CH foi um dos derrotados nestas eleições. Até Ventura reconheceu ter ficado aquém do esperado. Uma coisa é certa, autárquicas não são legislativas, e quem comparar resultados e previr uma rescisão eleitoral do CH, poderá depois ter uma nova surpresa.                António Duarte: Faltou ao JMF concluir o óbvio: com esta derrota do PS desaparece o costismo da vida pública (e de seguida morrerá o próprio socialismo).

Nenhum comentário: