sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O tema clássico


Da “mudança”, naturalmente como ponto de partida… Um excelente estudo, centrado em Viena de Áustria, no seu significado de preponderância imperial que se desmorona no tempo, como mais um exemplo de passagem por cá…

Die alte Keiserstadt: apontamento sobre a decadência europeia

Daí que o medo reine como o sentimento supremo e configure a verdadeira base das causas públicas e privadas, invariavelmente medidas como diversas formas do seu antídoto — a “segurança”.

NUNO LEBREIRO Investigador académico, membro do podcast Linhas Direitas

OBSERVADOR, 02 out. 2025, 00:1537

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Na passagem para o Século XX, VIENA era ainda conhecida como “die alte Keiserstadt”, a velha cidade imperial. Depois de séculos como sede do trono mais poderoso da Europa, apesar de permanecer como a morada da prestigiada casa imperial dos Habsburgo, a velha cidade vivia com cada pé em dois tempos muito distintos: no passado, ainda se vendo como um alicerce da civilização europeia e legítima herdeira de Roma; no futuro, perante novos ideais e adversários, pressentindo um iminente desmoronar do seu mundo conhecido.

Após Napoleão e, mais tarde, as revoluções nacionalistas de 1848, Viena viu-se progressivamente incapaz de manter a ordem na qual havia reinado. A pouco e pouco, os reveses sucediam-se e, na sua área de influência, em especial na Alemanha, na Itália e nos Balcãs, uma nova Europa começava a formar-se. A perda sucessiva das províncias italianas após 59, a unificação alemã sob a égide de Bismarck em 71, o mesmo ano em que se completa o Risorgimento italiano, configuravam evidências empíricas dessa decadência política. O pêndulo do mundo afastava-se da velha cidade imperial e, mais importante, toda a gente o sabia, desde logo os seus habitantes.

A reacção social foi, como habitual na espécie humana, a negação. Centro cultural de excelência, berço da ópera e expoente máximo do teatro, a Viena continuavam a acorrer o dinheiro, o fausto e o talento. Uma mescla de intelectuais e artistas, desde génios musicais, como Mahler e Brahms, a uma multitude de escritores, pintores, arquitectos, juntava-se pelos cafés, vivendo o declínio do velho império num ambiente de requinte, alta cultura e profunda alienação. Um exemplo paradigmático ocorreu em 1873, com a exposição mundial de Viena. Pretendendo afirmar o triunfo cultural e civilizacional austríaco, esse entusiasmo traduziu-se, primeiro, num boom urbanístico que edificou toda uma nova parte da cidade ao longo do Ringstrasse com o intento de ofuscar a moderna Paris construída ao estilo de Haussman e, depois, num outro boom, este financeiro, que decorreu das grandes expectativas geradas. Infelizmente, ao invés de afastar prenúncios de tragédia, a realidade acabou confirmando-os: primeiro, com a Sexta-Feira negra de 9 de Maio de 1873, meros nove dias após a abertura do certame, que certificou o colapso da Bolsa de Viena, a falência abrupta de 125 bancos e enviou ondas de choque pela Europa inteira, gerando uma depressão económica que duraria anos; depois, com uma oportuníssima epidemia de cólera que, ao longo da exposição, mataria cerca de 3,000 pessoas.

Em lento, mas inexorável declínio, a catástrofe da queda foi então interiorizada como natural, enterrando-se, paradoxalmente, os seus efeitos de longo prazo na negação: por um lado, intuíam-se como inevitáveis; pelo outro, desvalorizavam-se como inacreditáveis. O declínio e a tragédia eram assim diluídos numa inércia burocrática que oscilava entre a rotina e o absurdo na medida em que se tornava evidente o esforço de negação a cada sucessão de crises. Estas, quer na realidade política e geo-estratégica internacional, quer na própria identidade social, bem como nos hábitos entretanto alterados, nomeadamente na novel obsessão com a “repressão” e “libertação” sexuais, acabaram incorporadas numa espécie de “nova normalidade”. Ao lado, acompanhando, triunfava o hedonismo ao som da nova grande moda que comandaria os salões de baile europeus a valsa vienense, um género que, emergido dos bairros mais populares, conquistou a classe alta de Viena e pôs a Europa, por uma última vez, a dançar ao seu ritmo. Nesse estertor final, enquanto o velho mundo ruía, Viena entretinha-se com a opereta, a valsa e os grande bailes de máscaras.

No entanto, o manto negro da tragédia ia envolvendo todos, em crescendo, desde logo a própria família imperial e o longuíssimo reinado de Francisco José. Primeiro, em 1889, com o pacto de homicídio-suicídio do seu único filho, e herdeiro, Rudolfo, em conluio com a namorada. Depois, em 1898, com o assassinato da Imperatriz Isabel, mais conhecida como Sissi, considerada a mais bela mulher do mundo, na realidade, uma perturbada narcisista, anoréxica, melancólica, fascinada pela doença mental e o sanatório, então morta aos 60 anos, esfaqueada no peito às mãos de um fanático que, querendo matar um qualquer aristocrata, por acaso, a apanhou à beira do Lago de Genéve. Finalmente, o culminar da tragédia ocorreria poucos anos depois, em 1914, quando o segundo herdeiro, Francisco Fernando, é também ele assassinado em Sarajevo, desencadeando de forma abrupta os acontecimentos que acabariam levando a Europa inteira para uma guerra de dimensões até aí desconhecidas. Nesse momento final, o velho mundo estava de facto enterrado, e a velha Viena perderia para sempre o seu carácter imperial.

Eis o cenário histórico onde o pensamento Ocidental haveria de sofrer uma revolução profunda. É no contexto daquela negação de um mundo exterior que ruía, junto com a convicção fatalista de que nada poderia ser feito para o evitar, que se dá uma viragem intelectual rumo ao mundo interior dos pensamentos e das emoções. Como lembra Bruno Bettelheim, não será à toa o lema, original de Vergílio, com que FREUD lança a sua obra-prima A Interpretação dos Sonhos: flectere si nequeo superos, Acheronta movebo — “se não posso dobrar os deuses, moverei o Aqueronte”, o rio que separa o inferno de Hades do reino dos vivos. Ou seja, em não podendo mudar o mundo consciente, Freud atirava-se a conquistar a interioridade do inconsciente. Daí, alavancado no trabalho percursor de autores como Joseph Breuer, seu mentor, ou Krafft-Ebing, cujo trabalho abrira caminho para toda uma nova abordagem face à “perversão” sexual, Freud irromperia por todo um novo mundo agarrado à ligação psicológica entre as duas grandes forças motrizes do inconsciente — a morte e o sexo.

Em boa verdade, essa nova interioridade representa uma segunda vaga face àquilo que, cerca de outros 100 anos antes, já havia ocorrido no pensamento filosófico europeu. Então, aquando da queda do Ancien Régime, como reacção a um liberalismo que se propunha “iluminar” toda a Europa, uma paroquial, rural, Alemanha, dividida e isolada face ao fausto triunfante da ostentação francófona, intelectualmente derrotada, virou-se também ela para dentro, para a sua religiosidade, espiritualidade e interioridade. Aí, por oposição à geometria geral e abstracta secular da razão iluminista, germinou então o Sturm und Drang, a raiz do romantismo, a reacção intelectual que se baseava na fé por oposição à razão, na interioridade face ao espaço público, na individualidade face ao colectivo, na subjectividade face ao objectivo universal. É, aliás, dessas sombras caóticas, estranhas, obscuras — uma dança selvagem, descreveria Johann Georg Hamman —, mas profundamente humanas, pelas penas de autores como Goethe, por exemplo, que o mundo interior, emocional, de cada indivíduo também se ergueu na Europa moderna como realidade alternativa de explicação filosófica do sentido da vida humana.

Parece haver, portanto, e seguindo o motto de Vergílio, uma certa tendência nos momentos de crise civilizacional, ou pelo menos social, em ambiente de fatalismo, para uma maior preocupação intelectual com a interioridade do ser humano. Se no dealbar do século XIX, essa viragem para a interioridade acabou gerando o “idealismo absoluto” que, a seu tempo, com, entre outros, Maimon, Fichte e Hegel haveria de intentar ultrapassar a subjectividade humana para o mundo racional das ideias e da especulação, já no final desse mesmo século, em chegados a Viena e aos anos de 1900, a nova viragem para dentro do Eu parece ter complementado esse mesmo movimento, desta feita desaguando o indivíduo num mar tormentoso de anseios, traumas e desejos que, esses sim, então se intuiu, controlam o curso dos acontecimentosquer os lá de fora, no mundo para lá das muralhas seguras da cidade que ainda protegia da adversidade, quer os de cá de dentro, os da sociedade que então pressentia o colapso iminente.

O idealismo sonhou a superação do Eu face ao caos do mundo através da ideia e da razão; o psicanalismo fez exactamente o mesmo, apenas que através da racionalização, e materialização, das emoções. No final, apesar das descobertas e dos seus respectivos ricos legados intelectuais, porque todas as tentativas de descobrir a redenção divina e universal dentro do pequeno e subjectivo homem estão fadadas ao fracasso, o resultado prático de ambas as tentativas acabou sendo o oposto dos objectivos iniciais a desresponsabilização do Eu face a forças exteriores poderosas demais. No primeiro caso, com o advento do materialismo, Marx, pervertendo Hegel, acabaria explicando que o indivíduo não passa de uma vítima oprimida pela sua circunstância histórica económica e social; no segundo, deu-se o advento de todo um novo mundo onde deuses e demónios, virtudes e defeitos, são reduzidos à circunstância emocional, também ela material, de “doença”, “trauma” ou “condição”, portanto “coisas” tratáveis e controláveis científica e quimicamente, assim se justificando todas as fraquezas, não como obstáculos a ultrapassar pela força do carácter, mas desequilíbrios químicos que a ciência e a tecnologia se propõem a resolverenfim a base da nova moral contemporânea, desta feita externa ao indivíduo, sob a forma de um comprimido.

Estas viragens para o Eu, para o interior, em particular neste contexto de fatalismo e decadência civilizacional, parece-me, trazem consigo muitos paralelismos com a nossa época. De facto, se na passagem para o Século XX Viena corporiza o símbolo da decadência política e económica, tal destino parece ser partilhado hoje pela Europa como um todo. Apesar da negação, apesar de todas as “feiras” e anúncios de grandes feitos futuros, apesar de todas as festas, festivais, movidas e exuberantes formas de hedonismo social, em boa verdade, há muito que o “velho continente” deixou de ser um actor fundamental e próspero na geopolítica mundial. A Europa hoje, como Viena há 100 anos atrás, reduz-se ao seu prestígio cultural, à sua riqueza decadente e à irrelevância política, isto enquanto os seus líderes e cidadãos, tragicamente, continuam agindo como se nada se passasse, mais importante, como se fosse possível, ou desejável, que as coisas simplesmente pudessem continuar de forma tranquila como habitualmente.

É, curiosamente, numa sociedade que não se reproduz que também, como na Viena de Freud, se resolveu obcecar com o sexo, ora promovido à forma suprema de identificação pessoal e organizado maniacamente por cores e iniciais alfabéticas. Depois, vivemos num mundo igualmente em crise de identidade existencial, que assume a sua decadência como inevitável, senão mesmo como algo saudável. É, aliás, uma civilização que, afundada no materialismo extremo, abandonou progressivamente todas as suas tradições e valores, que se abandonou, aliás, a si mesma, em particular enquanto farol civilizacional, agora auto-flagelando-se por pecados imaginários cometidos em tempos onde, ao contrário de hoje, de facto, comandava o mundo. Ainda assim, e tal como em Viena, dança-se, canta-se e festeja-se como nunca, discutindo-se o pormenor burocrático com que se trata, de forma rotineira, os assuntos públicos, ora reduzidos à minúcia da rubrica orçamental.

Entretanto, a segurança colectiva, a maior preocupação dos burocratas que gerem o declínio, tornou-se o valor máximo, reduzindo-se a inovação política à segurança do Eu face a qualquer forma de ofensa, mau-trato, ou mesmo incómodo exterior. Eis, pois, a etapa final da viragem para o Eu interior — o safe space —, simultaneamente, o fim do processo de preocupação interior, bem como o analgésico máximo que nega a realidade do caos iminente do lado de fora da bolha em que, como refúgio, nos resolvemos esconder.

A preocupação com a interioridade, com o íntimo, representa, portanto, hoje, como antes em Viena, o abrigo face ao colapso civilizacional que se pressente no exterior. Daí que o medo, ainda que inconscientemente, reine como o sentimento supremo e configure a verdadeira base das causas públicas e privadas, invariavelmente medidas como diversas formas do seu antídoto — a “segurança”. Veja-se, por exemplo, como é assim no âmago das duas grandes batalhas das primeiras décadas do Século XXI: o tal “espaço seguro” de ofensas, visto agora como o expoente máximo da liberdade individual; e a tradução dessa temeridade interior para a ideia — absurda, aliás — de que o mundo inteiro vai, literalmente, acabar envolvido numa bola de fogo causada pelos gases das vacas e dos tubos de escape dos automóveis. Ambas as ideias, obviamente, não passam de excrescências mitológicas deste medo existencial que, para seu apaziguamento, exige aos pobres de espírito a convicção — impossível, no plano do real — de ter o controlo absoluto do mundo, assim compensando imaginariamente a intuição de que a ordem existente ameaça desaparecer.

Paradoxalmente, é no apogeu desta ansiedade por controlo colectivo que os burocratas políticos aplicam com afinco que, logo precisamente em nome da segurança, se perverte todo e qualquer tipo de segurança. Desde logo, em nome da segurança económica e da manutenção do famoso “estado-social”, imaginou-se que uma forma de manter o que está é mudar tudo o que há, abrindo as portas da cidade ao internacionalismo migratório na crença que os que chegam virão por bem e, claro está, aparecerão para resolver todos os nossos problemas — cavando e plantando na agricultura, aparafusando e montando nas fábricas, parindo na demografia. Incrivelmente, tal como na Viena dos finais do Século XIX, também aqui a negação triunfa no absurdo da indiferença face a cada tragédia que nos demonstra empiricamente a estupidez da “solução” — no nosso caso, a cada ataque terrorista, atentado, violação, a cada nova estatística que demonstra o declínio na segurança dos europeus, em particular das mulheres, cuja condição representa uma das nossas supremas conquistas civilizacionais.

Depois, essa ânsia de controlo absurdo e irresponsável advoga agora a perversão de todos os princípios que julgámos fundamentais para a nossa própria segurança política: a igualdade perante a lei pervertida por quotas protectoras dos “oprimidos”, a liberdade de expressão pervertida pelo “direito” à não-ofensa, a liberdade do mercado pelo dirigismo centralizado de Bruxelas, o direito à vida pelo direito à “escolha” ilimitada da mãe, ou mesmo a conveniência do controlo absoluto sobre si próprio ao poder finalizar o safe space de forma inclusiva, segura e eficaz, sem sofrimento, por marcação, através da eutanásia, etc., etc.. No final, aquilo que parece é que à velha civilização imperial, além do hedonismo control-freak, não resta nada para oferecer ao mundo além da negação de si própria, dos ideais e princípios que a formaram, rumo a um fim que, vendo como inevitável, acaba inconscientemente, a cada nova política, contribuindo para que chegue mais depressa.

Nesse sentido, comprova-se a mitologia Freudiana onde a Eros, o espírito do desejo, da vida, se opõe Thanatos, o inconsciente desejo de morte que faz tender todas as coisas para a sua própria dissolução, o nada que promete libertação das agruras e dificuldades da vida. Na Europa, hoje, o cansaço existencial, o relativismo moral e a estúpida e ignorante indiferença fatalista alimentam-se todas de um Thanatos que, à solta, configura a verdadeira ameaça existencial à ordem europeia — a eutanásia civilizacional. Depois de gerações na abundância, no remanso confortável do topo do mundo, à realização de que para se manter o mundo erigido por nossos pais e avós se exige esforço, combate, suor e sofrimento, assim os ingratos e diletantes encolhem os ombros — quem vier atrás que feche a porta — e escolhem a salvação prometida pelo vazio. Seguindo-os, hipnotizados, inconscientes, os irresponsáveis acorrem a propor as loucuras que aceleram, e provocam, a tragédia. E no fim do pelotão, na torrente igualmente inconsciente que inunda o espaço mental europeu, a multidão cega pela alienação e a negação completam o coro.

No final, resta apenas a esperança que esse anseio pela auto-destruição seja derrotado pelos homens e mulheres que, acordados do sono dogmático auto-imposto por décadas de confortável desresponsabilização, resgatem o gosto e o prazer da vida, e com ele a coragem, a vontade da conquista e o sonho da virtude, valores que, apesar de por ora esquecidos, configuram a única forma saudável de enfrentar cá dentro, na ordem da pólis, a tragédia iminente que invariavelmente sentimos ocorrer lá fora, no mundo do desconhecido e do caos.

EUROPA      MUNDO      UNIÃO EUROPEIA

(COMENTÁRIOS de 37)

Maria Melo: Não será “Kaiserstadt”???                   Carlos Chaves: Excelente texto, onde é impressionante a similaridade na comparação da decadência a que estamos todos a assistir nesta velha Europa! Caríssimo Nuno Lebreiro, parabéns e muito obrigado por este pedaço de conhecimento que aqui nos trouxe.                      isabel ferreira: O homem sem valores e virtude, partilhados em comunidade, tende para a decadência e para o vazio. Obrigada pelo artigo.               GateKeeper: Top 10.               Filipe F: Muito bom, obrigado                     Meio Vazio: Excelente leitura da actual Europa. Uma nota: Antes da unificação alemã levada a cabo por Bismark - que fez questão de deixar a Áustria de fora, injustiça que 60 anos depois um austríaco de bigode à Chaplin trataria de corrigir - é impróprio opor "Áustria" a "Alemanha", já que esta não existe como entidade política, sim como multissecular agregado de estados, reinos, cidades livres, ducados, de que faz parte a Áustria - de resto, com a Baviera quase a par, o reino mais relevante do Sacro Império Romano-Germânico, que a ventania napoleónica tratou de desfazer - antes do advento da hegemonia militar do reino da Prússia.         Paulo Cardoso: Muito bem. Realista e fundamentado.                  Manuel Magalhaes: A UE foi criada e cresceu de uma forma que sem o querermos dizer, permitirá a sua destruição por apenas um dos membros, neste caso actual são dois (Hungria e Eslovénia), mas veremos se mais alguns se seguem… esta é a realidade e caso ela não se enfrente de frente com máxima urgência, estará consumada a nossa decadência total!!!


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