quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Criticar

 

É o que mais nos destaca como seres inteligentes. Refiro-me, é claro, a comentadores especialistas nisso, não a M.J. Avillez, que é sóbria, espirituosa e séria, no que escreve.

Revisão da última matéria

As vitórias não são de borla: responsabilizam ainda mais o mérito pessoal e político do chefe do PSD. Mas pergunto: como pensa o Primeiro Ministro pôr o governo a fazer render a vitória de domingo?

MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador

OBSERVADOR, 15 out. 2025, 00:2251

1Sem surpresa, e com o olhar mais ou menos brilhante, todos os partidos ganharam estas autárquicas (não tem importância, o país percebeu muito bem o que ocorreu e os sinais que lhe foram transmitidos pela noite eleitoral.)

2Luís Montenegro ganhou com a segurança de quem sabia que pisava um chão mais firme do que diziam as oposições e o ar do tempo quase sempre mediaticamente adverso ao PSD.

(É uma tradição que conta meio século: o PSD nunca é favorito, vive pré-eleitoralmente envolto em dúvidas, vaticínios errados, sondagens desfavoráveis, mesmo quando se sabe que há outras e veja-se a falsa duração do “empate” de Moedas contra Alexandra Leitão, bom exemplo do que digo.)

3O PSD teve, sim, uma enorme vitória não só em algarismos – e é isto que é muito interessante – mas sobretudo pela natureza das conquistas obtidas. Em que a primeira é obviamente a vitória de votos e autarquias obtidos; a conquista dos maiores concelhos urbanos do país; a presidência da Associação de Municípios e Freguesias mas isto, já sabemos. O que talvez se recorde menos e não fosse má ideia abolir é aquele espartilho onde ciclicamente se fixa o PSD, o chamado “ruralismo”. Usado e lembrado como uma condenação eterna: PSD, partido rural. Agora, exit rurais e ruralismo. Abram um mapa de Portugal, coloquem lá o PSD e desapertem o espartilho.

4Se Luís Montenegro “sabia” muito bem o terreno que ia pisando e o que dele eleitoralmente poderia resultar, cabe-nos a nós agora saber o que vai ele fazer desta vitória. Só isso conta. As vitórias não são de borla: responsabilizam ainda mais o mérito pessoal e político do chefe do PSD. Mas pergunto: como pensa o Primeiro Ministro pôr o governo a fazer render a vitória de domingo? Qualquer pessoa que lhe tenha dado o seu voto, mesmo que apenas autárquico e não legislativo, não está senão à espera de um executivo que governe acima da meia coisa, contentando-se em somar mais benesses e agrado a clientelas, do que reformas que agilizem, desenvolvam e enriqueçam Portugal. Face à dimensão dos votos obtidos, dos concelhos conquistados, dos sinais emitidos pelos resultados globais do PSD, ninguém acreditará que o Primeiro Ministro não aumente a velocidade e a substância do governo. A caminho de algumas reformas indispensáveis, mesmo sabendo – como todos nós – que os seus frutos talvez já não sejam colhidos por si. Para ver se nos habituamos a contar connosco – se experimentamos contar connosco! – e não a viver das esmolas do costume, ouvindo perguntas vexatórias como um humilhante “já posso ir ao Banco?” do então chefe do governo António Costa para a Presidente da Comissão; ou há dias o Presidente da República a avisar-nos que “este era o nosso último dinheiro e que o aproveitássemos bem” (cito de memória) referindo-se aos milhões da aplicação do Plano de Recuperação e Resiliência.

5Pergunto: que ideia, projecto, desígnio, vontade há para o país? Acenam-nos felizes com o generoso mealheiro do “turismo”, mas que pela sua especificidade pode um dia abalar e partir para outra.

E pior: abalaria e quase nada deixaria para trás. Claro que o turismo é uma indústria, sim, cria riqueza, sim, mas assenta em mão de obra pouco qualificada. Tem alcance modesto.

O que quero significar é que o país pede mais ambição e sopro que o que tem havido. O melhor mealheiro que conheço é o da criação de riqueza de onde depois tudo decorre. Ouve-se pouco falar dela, de empresas, empresários e exportações que também mereciam mais amparo e atenção: nada disto porem parece ser a grande prioridade.

Tentou-se já, é certo, “mexer” na Lei do Trabalho com o pouco sucesso que se conhece e o parlamento consentiu. Atrairia muito bom investimento estrangeiro e criaria riqueza. Tal como a Justiça cujos prazos, conclusões, processos, etc., afugentam qualquer investidor normalmente constituído. E também é certo que o ambiente contra os governos de direita e centro-direita sempre foi mau -uma menorização com 50 anos. A sulfúrica polarização politica e um debate público adulterado dificultam acordos.

Mas… ou se tenta, contra ventos e marés, ir ao fundo do que há que fazer, ou o país vai avançando, levemente, devagarinho, sem pressa nem destino. Como um caracol, encostado ao oceano.

A menos que se trate de um estilo político muito próprio e da opção – ou melhor, da escolha – de ir governando sem maçar muito. E sem desinstalar demasiado os portugueses mais instalados. Será?

6Pequena sinfonia com algumas notas:

Não foi só a muito notada demora no anúncio da vitória de Carlos Moedas. Foi a própria vitória: Moedas esteve três semanas sob suspeita e a ser mediaticamente julgado e por vezes tratado quase como um cão, só faltou acusarem-no de ter cortado o cabo do elevador da Gloria naquele dia de tragédia e luto. Não se trata de saber se tem ou não “jeito” para a política, ou se deveria ter gerido (?) politicamente melhor o acidente. Trata-se de decência nos comportamentos.

Dias antes das eleições evoquei na SIC o que me parecia ser um político algo diferente do “chinfrim” da campanha, referindo-me a Pedro Duarte para sublinhar algumas virtudes na política. A resiliência, a compostura, a força política silenciosa. Foi com elas que percebi que iria ganhar o Porto.

Quem diria há meia dúzia de anos que Ricardo Leão viria a assumir um “papel” desta envergadura? Não é por ter ganho Loures de novo – não podia senão ganhar. É porque passou a referência exemplar no PS. Em todo o PS. Será muito interessante ver como se comportará o partido daqui em diante face à tremenda questão da emigração. Mas uma coisa o PS pode e deve agradecer ao autarca: a porta que sem alarde mas com muito tino ele já (lhes) abriu nesta questão.

Do sorriso arrogante de João Torres, ao seu tom despeitado, e à atitude paternalista, estava ali, estampado no rosto e na atitude deste socialista, o ressentimento desabrido contra Alexandre Poço (vice presidente do PSD e da sua bancada parlamentar) devido à derrota autárquica da véspera. Foi como se João Torres fosse o dono absoluto da democracia, ditasse regras, arbitrasse democratas; e Alexandre Poço um pobre diabo neófito, sem direito à palavra e sem direito de cidade. Impossível não tomar nota do que vi na SIC Notícias uma noite destas.

PS: De facto já chegaram as presidenciais: Marques Mendes fez uma escolha que se poderá vir a traduzir numa óptima aposta política: o seu mandatário, ontem conhecido, chama-se Rui Moreira. Três pontos a favor: não é “daqui”, sabe e gosta de política e cria uma empatia natural com o mundo. E também já não era sem tempo: aquilo que sabíamos há meses é agora oficial: o (muito paciente) José António Seguro já tem nas mãos o selo do PS. Tardou mas arrecadou.

AUTÁRQUICAS 2025       ELEIÇÕES       POLÍTICA       PSD       GOVERNO       LUÍS MONTENEGRO

COMENTÁRIOS (de 51)

Hugo Silva: Continuam a tratar os eleitores como burros... A generalidade dos eleitores consegue ver a diferença entre as autárquicas, legislativas e presidenciais. O resultado das autárquicas assim o disse. Montenegro que comece a tomar medidas importantes para o país. Os problemas que o PS deixou, mantêm -se.... O tuga tem uma característica muito estranha, esquece-se rapidamente do mal que lhe fizeram. Não tarda nada, teremos os bancarroteiros novamente no poder.                 Tristão: Este governo nem 6 meses tem, tomou posse em junho, há quem pense que foi há muito tempo. Vivemos numa tal histeria que um mês já nos parece um ano, tal o bombardeamento quotidiano a que somos sujeitos. Este é o primeiro orçamento, já contempla a descida do IRC para 19% (estava a 21) e a descida mais uma vez do irs, entre outras propostas. Já mexeu na lei da imigração, ainda falta aprovar a lei final (não esquecer que foi parar ao constitucional), vai mudar a lei da nacionalidade ainda antes do ano. Tem um pacote de reforma laboral pronto para apresentar na AR, outro ndq habitação, e um ministro que está a dedicar-se à mãe de todas as reformas: a do estado. Vamos pelo menos dar algum tempo, talvez um aninho não seja má ideia, até porque “cadela apressada pare cães cegos”.        Mario Figueiredo: A questão das reformas em Portugal passou à dimensão de cultura política, fruto de um pragmatismo eleitoralista que António Costa demonstrou ser eficaz. A Helena Matos perguntava-se no Contra Corrente de ontem se não seria o caso de as vitórias do PSD serem uma forte motivação para não reformar e manter tudo como está. Para mim, estava absolutamente certa. O PSD apresentou-se a eleições sem nunca levantar o tema da Reforma do Estado durante a campanha eleitoral. Era também totalmente omisso no seu programa eleitoral. Quando os jornalistas questionavam sobre o assunto, ou contornava a pergunta, ou dava respostas repletas de vagas intenções. Claramente Montenegro não tinha qualquer pensamento reformista. Aliás, não deixa de ser relevante que o partido se apresentou às eleições com o lema do "Deixem o Luís trabalhar" --o mesmo Luís que na legislatura anterior fugiu de qualquer tentativa reformista. E já agora, no programa eleitoral do PSD, cada tema começava com o ponto "Porque É Preciso Continuar". São 280 páginas de um programa de continuidade, não de um programa reformista. E fomos assim para eleições. O comentariado nacional era praticamente unânime na urgência de reformar o país e na crítica que fazia à falta de qualquer intuito reformista no programa do PSD. Depois veio o domingo das eleições. E algo mudou. Que fique muito claro, foi a dimensão dos resultados do Chega, não a vitória magra do PSD, que levaram o governo recém-eleito a tirar um coelho da cartola e anunciar com bastante surpresa um novo Ministério, e o nome de Gonçalo Matias. Para qualquer pessoa que ainda acredita que tudo isto estava planeado apesar de nunca se ter falado sobre o assunto em campanha ou existir qualquer referência no programa eleitoral, aconselho umas férias e muito repouso. Não existe, portanto, qualquer plano reformista para o país por parte do PSD, nem tão pouco a convicção de que é essencial reformar o país. O traçado histórico do PSD desde a demissão de António Costa assim o demonstram, incluindo também o discurso público e a sua acção política. O novo Ministério da Reforma do Estado mais não é do que um Ministério para a Gestão do Estado, onde a palavra Reforma é usada para classificar o que não passam de planos para simplificação de processos e optimização de custos. Para manter a ilusão, falam-se em fases no plano de reformas. "A primeira fase já acabou", diz-se.  "Agora é a segunda fase", também se diz. Mas sabe Deus quantas fases mais virão, porque o tal plano nunca nos é mostrado em toda a sua dimensão e em todas as suas "fases". Que projecto reformista é este que navega à vista? Claramente, nenhum projecto deve ser desenhado assim, pelo que este também não foi. Não foi, porque o PSD não tem um plano de reformas para o nosso país. Estamos entendidos, ou vamos continuar todos a fingir que ainda não percebemos? O grave problema nacional é que não estamos a conseguir encontrar no sistema partidário políticos de primeira linha com a capacidade de orientar os seus aparelhos partidários (em vez de se deixar orientar por eles) e com a coragem de assumirem as despesas de se ter um projecto para o país em vez de um projecto de poder. Não temos políticos de qualidade e ao serviço do país, é o que quero dizer. E no actual panorama político fragmentado e polarizado (duas coisas diferentes), qualquer maioria absoluta será muito mais difícil e fruto do acaso. Não poderá nunca ser condição para se fazerem reformas e desculpa para não se fazerem. Montenegro não é esse político.

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