É o que mais nos destaca como seres
inteligentes. Refiro-me, é claro, a comentadores especialistas nisso, não a M.J. Avillez, que é sóbria, espirituosa e séria, no
que escreve.
Revisão da última matéria
As vitórias não são de borla:
responsabilizam ainda mais o mérito pessoal e político do chefe do PSD. Mas
pergunto: como pensa o Primeiro Ministro pôr o governo a fazer render a vitória
de domingo?
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do Observador
OBSERVADOR, 15 out. 2025, 00:2251
1Sem surpresa, e com o olhar mais ou
menos brilhante, todos os partidos ganharam estas autárquicas (não tem
importância, o país percebeu muito bem o que ocorreu e os sinais que lhe foram
transmitidos pela noite eleitoral.)
2Luís
Montenegro ganhou com a segurança de quem sabia que pisava um
chão mais firme do que diziam as oposições e o ar do tempo quase sempre
mediaticamente adverso ao PSD.
(É uma tradição que conta meio século: o PSD nunca é favorito, vive
pré-eleitoralmente envolto em dúvidas, vaticínios errados, sondagens
desfavoráveis, mesmo quando se sabe que há outras e veja-se a falsa duração do
“empate” de Moedas contra Alexandra Leitão, bom exemplo do que digo.)
3O PSD teve, sim, uma enorme vitória
não só em algarismos – e é isto que é muito interessante – mas sobretudo
pela natureza das conquistas obtidas. Em que a primeira é obviamente a vitória de votos e autarquias obtidos; a
conquista dos maiores concelhos urbanos do país; a presidência da Associação de
Municípios e Freguesias mas isto, já sabemos. O que talvez se recorde
menos e não fosse má ideia abolir é aquele espartilho
onde ciclicamente se fixa o PSD, o chamado “ruralismo”. Usado e lembrado como uma condenação
eterna: PSD, partido rural. Agora, exit rurais e ruralismo. Abram um mapa de
Portugal, coloquem lá o PSD e desapertem o espartilho.
4Se
Luís Montenegro “sabia” muito bem o terreno que ia pisando e o que dele
eleitoralmente poderia resultar, cabe-nos a nós agora saber o que vai ele fazer
desta vitória. Só isso conta. As vitórias não são de borla:
responsabilizam ainda mais o mérito pessoal e político do chefe do PSD. Mas
pergunto: como pensa o Primeiro
Ministro pôr o governo a fazer render a vitória de domingo? Qualquer
pessoa que lhe tenha dado o seu voto, mesmo que apenas autárquico e não
legislativo, não está senão à espera
de um executivo que governe acima da meia coisa, contentando-se em somar mais
benesses e agrado a clientelas, do que reformas que agilizem, desenvolvam e enriqueçam
Portugal. Face à dimensão dos votos obtidos, dos concelhos
conquistados, dos sinais emitidos pelos resultados globais do PSD, ninguém
acreditará que o Primeiro Ministro não aumente a velocidade e a substância do
governo. A caminho de algumas reformas indispensáveis, mesmo sabendo – como
todos nós – que os seus frutos talvez já não sejam colhidos por si. Para ver se nos habituamos a contar
connosco – se experimentamos contar connosco! – e não a viver das esmolas do
costume, ouvindo perguntas vexatórias como um humilhante “já posso ir ao
Banco?” do então chefe do governo António Costa para a Presidente da Comissão;
ou há dias o Presidente da República a avisar-nos que “este era o nosso último
dinheiro e que o aproveitássemos bem” (cito de memória) referindo-se
aos milhões da aplicação do Plano de Recuperação e Resiliência.
5Pergunto: que ideia, projecto,
desígnio, vontade há para o país? Acenam-nos felizes com o generoso
mealheiro do “turismo”, mas que
pela sua especificidade pode um dia abalar e partir para outra.
E
pior: abalaria e quase nada deixaria para trás. Claro que o turismo é uma
indústria, sim, cria riqueza, sim, mas assenta em mão de obra pouco
qualificada. Tem alcance modesto.
O que quero significar é que o país
pede mais ambição e sopro que o que tem havido. O melhor
mealheiro que conheço é o da criação de riqueza de onde depois tudo decorre. Ouve-se
pouco falar dela, de empresas, empresários e exportações que também mereciam mais
amparo e atenção: nada disto porem parece ser a grande prioridade.
Tentou-se já, é certo, “mexer” na Lei do
Trabalho com o pouco
sucesso que se conhece e o parlamento consentiu. Atrairia muito bom investimento estrangeiro e criaria riqueza. Tal
como a Justiça cujos
prazos, conclusões, processos, etc., afugentam qualquer investidor normalmente
constituído. E também é certo que o ambiente contra os governos de
direita e centro-direita sempre foi mau -uma menorização com 50 anos. A
sulfúrica polarização politica e um debate público adulterado dificultam
acordos.
Mas… ou
se tenta, contra ventos e marés, ir ao fundo do que há que fazer, ou o país vai
avançando, levemente, devagarinho, sem pressa nem destino. Como um caracol, encostado ao oceano.
A menos que se trate de um estilo
político muito próprio e da opção – ou melhor, da escolha – de ir governando
sem maçar muito. E sem desinstalar demasiado os portugueses mais instalados.
Será?
6Pequena sinfonia com algumas notas:
Não
foi só a muito notada demora no anúncio da vitória de Carlos Moedas. Foi a
própria vitória: Moedas esteve três semanas sob suspeita e a ser mediaticamente
julgado e por vezes tratado quase como um cão, só faltou acusarem-no de ter
cortado o cabo do elevador da Gloria naquele dia de tragédia e luto. Não se
trata de saber se tem ou não “jeito” para a política, ou se deveria ter gerido
(?) politicamente melhor o acidente. Trata-se de decência nos comportamentos.
Dias antes das eleições evoquei na SIC o
que me parecia ser um político algo diferente do “chinfrim” da campanha,
referindo-me a Pedro Duarte para
sublinhar algumas virtudes na política. A resiliência, a compostura, a força política silenciosa. Foi com
elas que percebi que iria ganhar o Porto.
Quem diria há meia dúzia de anos que Ricardo
Leão viria a
assumir um “papel” desta envergadura? Não é por ter ganho Loures de
novo – não podia senão ganhar. É porque passou a referência exemplar no PS.
Em todo o PS. Será muito interessante ver como se comportará o partido
daqui em diante face à tremenda questão da emigração. Mas uma
coisa o PS pode e deve agradecer ao autarca: a porta que sem alarde mas com
muito tino ele já (lhes) abriu nesta questão.
Do sorriso arrogante de João
Torres, ao seu tom despeitado, e à atitude paternalista,
estava ali, estampado no rosto e na atitude deste socialista, o ressentimento desabrido contra Alexandre Poço (vice presidente do PSD e da sua
bancada parlamentar) devido à
derrota autárquica da véspera. Foi
como se João
Torres fosse o
dono absoluto da democracia, ditasse regras, arbitrasse democratas; e Alexandre
Poço um pobre diabo neófito, sem direito à palavra e sem direito de cidade. Impossível
não tomar nota do que vi na SIC Notícias uma noite destas.
PS: De facto já chegaram as presidenciais: Marques
Mendes fez uma escolha que se poderá vir a traduzir numa óptima aposta
política: o seu mandatário, ontem conhecido, chama-se Rui Moreira. Três pontos
a favor: não é “daqui”, sabe e gosta de política e cria uma empatia natural com
o mundo. E também já não era sem tempo: aquilo que sabíamos há meses é agora
oficial: o (muito paciente) José António Seguro já tem
nas mãos o selo do PS. Tardou mas arrecadou.
AUTÁRQUICAS
2025 ELEIÇÕES POLÍTICA PSD GOVERNO LUÍS
MONTENEGRO
COMENTÁRIOS (de 51)
Hugo Silva: Continuam a tratar os eleitores como burros... A
generalidade dos eleitores consegue ver a diferença entre as autárquicas,
legislativas e presidenciais. O resultado das autárquicas assim o disse.
Montenegro que comece a tomar medidas importantes para o país. Os problemas que
o PS deixou, mantêm -se.... O tuga tem uma característica muito estranha,
esquece-se rapidamente do mal que lhe fizeram. Não tarda nada, teremos os
bancarroteiros novamente no poder. Tristão: Este governo nem 6 meses tem, tomou posse em junho,
há quem pense que foi há muito tempo. Vivemos numa tal histeria que um
mês já nos parece um ano, tal o bombardeamento quotidiano a que somos sujeitos.
Este é o primeiro orçamento, já contempla a descida do IRC para 19% (estava
a 21) e a descida mais uma vez do irs, entre outras propostas. Já mexeu na lei
da imigração, ainda falta aprovar a lei final (não esquecer que foi
parar ao constitucional), vai mudar a lei da nacionalidade ainda
antes do ano. Tem um pacote de reforma laboral pronto para apresentar na AR,
outro ndq habitação, e um ministro que está a dedicar-se à mãe de todas as
reformas: a do estado. Vamos pelo menos dar algum tempo, talvez um aninho não
seja má ideia, até porque “cadela apressada pare cães cegos”. Mario Figueiredo: A questão das reformas em Portugal passou à dimensão
de cultura política, fruto de um pragmatismo eleitoralista que António Costa
demonstrou ser eficaz. A Helena
Matos perguntava-se no Contra Corrente de ontem se não seria o caso de as
vitórias do PSD serem uma forte motivação para não reformar e manter tudo como
está. Para mim, estava absolutamente certa. O PSD apresentou-se a eleições
sem nunca levantar o tema da Reforma do Estado durante a campanha eleitoral.
Era também totalmente omisso no seu programa eleitoral. Quando os jornalistas
questionavam sobre o assunto, ou contornava a pergunta, ou dava respostas
repletas de vagas intenções. Claramente Montenegro não tinha qualquer
pensamento reformista. Aliás, não deixa de ser relevante que o partido se
apresentou às eleições com o lema do "Deixem o Luís
trabalhar" --o mesmo Luís que na legislatura anterior fugiu
de qualquer tentativa reformista. E já agora, no programa eleitoral do PSD,
cada tema começava com o ponto "Porque É Preciso
Continuar". São 280 páginas de um programa de continuidade, não de
um programa reformista. E fomos assim para eleições. O comentariado nacional
era praticamente unânime na urgência de reformar o país e na crítica que fazia
à falta de qualquer intuito reformista no programa do PSD. Depois veio o
domingo das eleições. E algo mudou. Que fique muito claro, foi a dimensão
dos resultados do Chega, não a vitória magra do PSD, que levaram o governo
recém-eleito a tirar um coelho da cartola e anunciar com bastante surpresa um
novo Ministério, e o nome de Gonçalo Matias. Para qualquer pessoa que ainda
acredita que tudo isto estava planeado apesar de nunca se ter falado sobre o
assunto em campanha ou existir qualquer referência no programa eleitoral,
aconselho umas férias e muito repouso. Não existe, portanto, qualquer plano
reformista para o país por parte do PSD, nem tão pouco a convicção de que é
essencial reformar o país. O traçado histórico do PSD desde a demissão de
António Costa assim o demonstram, incluindo também o discurso público e a sua
acção política. O novo Ministério da Reforma do Estado mais não é do que um Ministério para a Gestão do Estado, onde a palavra Reforma
é usada para classificar o que não passam de planos para simplificação de
processos e optimização de custos. Para manter a ilusão, falam-se em fases
no plano de reformas. "A primeira fase já acabou", diz-se. "Agora
é a segunda fase", também se diz. Mas sabe Deus quantas fases mais virão,
porque o tal plano nunca nos é mostrado em toda a sua dimensão e em todas as
suas "fases". Que projecto reformista é este que navega à vista?
Claramente, nenhum projecto deve ser desenhado assim, pelo que este também não
foi. Não foi, porque o PSD não tem um plano de reformas para o nosso país.
Estamos entendidos, ou vamos continuar todos a fingir que ainda não percebemos?
O grave problema nacional é que não estamos a conseguir encontrar no sistema
partidário políticos de primeira linha com a capacidade de orientar os seus
aparelhos partidários (em vez de se deixar orientar por eles) e com a coragem
de assumirem as despesas de se ter um projecto para o país em vez de um projecto
de poder. Não temos políticos de qualidade e ao serviço do país, é o que quero
dizer. E no actual panorama político fragmentado e polarizado (duas coisas
diferentes), qualquer maioria absoluta será muito mais difícil e fruto do
acaso. Não poderá nunca ser condição para se fazerem reformas e desculpa para
não se fazerem. Montenegro não é esse político.
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