O raciocínio do autor do texto - JOSÉ
ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO, Coronel "Comando" - a respeito das
fraquezas europeias em termos da importância belicosa que se exigiria, nestes
tempos de estratégias e de tácticas guerreiras, a pedir, antes, armas de ataque
e defesa mais consentâneas com as decisões vividas por esse mundo além, de
mísseis reduzindo os princípios morais a triste nulidade, os apelos às armas de
alguns hinos nacionais, uma pura ironia, os gozos da vida decididamente em
risco de morte, pelas armas dos povos menos teóricos e mais práticos.
Os nossos inimigos têm
mísseis. Nós temos princípios
Quem acredita que o mundo é um condomínio de filósofos
acabará por descobrir, cedo ou tarde, que os filósofos não têm mísseis. E quem
não os tem acaba a discutir ética no idioma de quem os dispara.
JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"
OBSERVADOR, 29
out. 2025, 00:1884
Nos últimos anos, os portugueses
habituaram-se a ouvir falar de mísseis com a mesma naturalidade com que ouvem
falar de futebol. Mísseis
balísticos, mísseis de cruzeiro, mísseis hipersónicos. Há
tempos, uma comentadora televisiva mencionou até um perturbador “míssil basilisco”. Um prodígio
mito-zoológico da ignorância.
Um
míssil balístico é como um foguete das festas populares. Sobe, propulsionado
pela deflagração de uma substância química, atinge um apogeu e depois regressa
à Terra em queda, arrastando consigo apocalipses em miniatura.
Foi inventado na Europa. O
primeiro, o V-2 alemão, criado por Von Braun, foi lançado em 1942 e, dois anos depois,
já caía sobre Londres e Paris semeando destruição e terror. Mais de três
mil desses engenhos voaram nos últimos meses da guerra. Foi, literalmente, o
primeiro objecto humano a tocar o espaço exterior, ao serviço da Alemanha e do
Tio Adolfo.
Os
mísseis balísticos de curto alcance mantêm-se geralmente dentro da
atmosfera terrestre, mas os de maior
alcance viajam para fora dela, alguns vão mesmo para além dos 1500 km de
altitude (a Estação Espacial Internacional orbita a 400 km de altura). Alguns atingem o solo a velocidades
hipersónicas. O maior ataque
de mísseis balísticos da história partiu do Irão, em 2024, com duzentos
lançados de uma vez sobre Israel.
A Europa não tem
nada que se pareça, porque resolveu não ter. Tirando
a França e o Reino Unido, que mantêm uns quantos, mas apenas com ogivas
nucleares, selados sob códigos que ninguém quer usar, o continente praticamente
não tem mísseis convencionais de longo alcance. Mísseis balísticos
terrestres? Quase zero. Mísseis
de cruzeiro com mais de mil quilómetros de alcance? Meia dúzia, e quase todos lançados do mar.
Em contrapartida, o mundo fora do
condomínio europeu parece uma feira de foguetões: Rússia,
Irão, China, Taiwan, Coreias, Hezbollah, Houthis, todos
com arsenais de mísseis capazes de atingir alvos a milhares de quilómetros.
Como chegámos aqui? Tudo
começou com o Tratado INF, assinado em
1987 entre os EUA e a URSS. O
acordo eliminava mísseis terrestres de médio alcance (500 a 5.500 km), e embora
fosse pensado para Washington e Moscovo, congelou as decisões europeias durante
três décadas.
O tratado morreu em 2019, mas a inércia ficou: a Europa afeiçoou-se à ideia de que não
ter mísseis era uma virtude. Aliás, evitar tudo o que fizesse
lembrar a guerra, era virtude. A
dependência, embalada pelo moralismo, tornou-se um modo de estar. Os europeus
deitaram-se à sombra do guarda-chuva nuclear americano e concentraram-se no
conforto de quem acha que já está para lá da História.
O problema é que a dissuasão
terceirizada só funciona enquanto o senhorio, neste caso, os EUA, estiver para
aí virado. Quando começa a olhar de esguelha, como está a acontecer, a coisa
muda de figura. Os EUA fartaram-se. A
Europa pregou, durante décadas, uma espécie de pacifismo aristocrático que
incluía um rotineiro deboche do aliado que lhes assegurava a tranquilidade.
Acreditou que a geopolítica se resolvia com palestras sobre género e
descarbonização. Recusou-se a possuir mísseis de cruzeiro e balísticos de longo
alcance para cargas convencionais. Foi uma opção política e cultural, embalada por idealismos
kantianos e pela reconfortante convicção de que a guerra era um
anacronismo impróprio de pessoas civilizadas. Hoje, essa escolha revela-se não só
ingénua como perigosa e suicida.
Resultado: muitos países, muitos orçamentos, muitas certezas e
nenhuma capacidade terrestre de ataque profundo. A
França, valha a
verdade, tem os seus MdCN. Mísseis de cruzeiro navais com alcance de cerca de
1.400 km. O Reino
Unido mantém
algumas dezenas de Tomahawk em submarinos. E é tudo. De resto, o que existe são mísseis de cruzeiro de curto alcance, lançados
de plataformas aéreas. Storm Shadow,
Taurus, e outros, bons para ataques tácticos, mas dependentes de aviões e de
condições de supremacia aérea. No chão, onde a Rússia, o Irão ou a
Coreia do Norte têm as suas plataformas balísticas, a Europa não tem nada.
Sim, há finalmente, algum despertar. A França, a
Alemanha, a Itália e a Polónia estão
a desenvolver novos mísseis de cruzeiro terrestres com alcances entre 1000 e
2000 km de alcance. Um esforço tardio, mas necessário. A França e o Reino Unido
também trabalham no FC/ASW (Stratus), o sucessor do Storm Shadow e do Exocet.
Do outro lado, a Rússia
dispara regularmente os seus Iskander-M (balísticos) e Khinzal (cruzeiro),
sobre a Ucrânia. Mísseis
hipersónicos, difíceis de interceptar. O Irão tem um catálogo
inteiro: Fateh, Zolfaghar, Shahab, Ghadr, Emad, todos testados e usados, muitos
já com precisão métrica. O Hezbollah tem
mísseis iranianos capazes de cobrir todo o território israelita e chegar a
Chipre. Os Houthis, no Iémen, disparam Burkan e Qiam contra navios e
refinarias a centenas de quilómetros.
A Europa não joga neste campeonato. As consequências de um continente
desarmado são óbvias até para um estudante do secundário. Sem mísseis de longo
alcance, a dissuasão europeia é uma anedota.
Não há como responder a um ataque sem escalar. Quando a Rússia dispara um Iskander
convencional sobre Kharkiv ou quando o Irão lança uma chuva de mísseis a 1 500
km, a Europa limita-se a mandar condolências e declarações e manifestar
profunda preocupação.
Não estamos a falar de teoria: estamos a ver, na prática, quem tem
meios para ferir à distância e quem fica à mercê do tempo, do vento e do
arbítrio do inimigo. Porque a
resposta que alguns países da Europa têm, só pode ser por via aérea. Cara,
exigente, escalatória, dependente de reabastecimentos e vulnerável a defesas
modernas.
Na guerra, quem tem meios impõe o
ritmo. Quem não tem, marca reuniões e fala de
diplomacia. E aqui surge um incentivo perverso: se o agressor sabe que a Europa não pode
retaliar ao mesmo nível, mais provavelmente arriscará a agressão. A ausência
de capacidade de resposta simétrica não dissuade; encoraja. Se um míssil convencional se abate sobre uma
cidade europeia, como se responde? Com
aviões numa operação que exige supremacia aérea e reabastecimentos em voo? Com um comunicado a repudiar o ataque, a
convocar uma cimeira e reafirmar a nossa determinação?
Alguns dizem que possuir certas armas é
imoral, recuperando o conceito de “armas
pouco agradáveis a Deus”, decantado em 1215, no Concílio de Latrão a
propósito da besta. Mas a moralidade, sem meios, é uma flor de estufa num
campo de minas. Nenhum hospital se protege com retórica. Nenhuma cidade
resiste com flores e comunicados.
E há outro efeito perverso: um
general impedido de recorrer a certas armas, mais dificilmente conceberá
respostas criativas e antecipatórias e tenderá a andar sempre um passo atrás do
inimigo O que há que fazer é também óbvio: É tempo de
deixar o romance kantiano na estante e encarar a guerra tal como ela é. A
recusa de possuir certas armas não é virtude, é apenas vulnerabilidade. Virtude é
ter meios e não precisar de os usar. Porque o inimigo sabe que, se nos ferir, não
ficará impune. A dissuasão não se faz com palavras, faz-se com capacidade,
vontade e credibilidade.
A Europa precisa de acelerar
programas de “deep strike” convencionais: mísseis
de cruzeiro que vão até aos 2000 km, e mísseis balísticos de teatro. Lançáveis
de plataformas terrestres, navais e aéreas. E, sobretudo, definir doutrina
clara de resposta: rápida, proporcional e credível.
O mundo mudou e os mísseis voltaram a ser o idioma da força. Os nossos
inimigos falam-no fluentemente e nós ainda estamos a conjugar o verbo “condenar”. Se continuarmos assim, não tardaremos a
perceber que, na guerra, quem só tem princípios e não tem meios, acaba sempre
no papel de figurante moral.
Quem insiste em acreditar que o mundo
é um condomínio de filósofos, acabará por descobrir, mais tarde ou mais cedo,
que os filósofos não têm mísseis. E quem não os tem, acaba a discutir ética no
idioma de quem os dispara.
GUERRA CONFLITOS MUNDO MÍSSEIS ARMAMENTO DEFESA SOCIEDADE EUROPA
COMENTÁRIOS
Censurado pelo observador lápis azul: Muito, muito bom! Vasco
Silveira: Zero, é o que um ballet de
números sem cabeça, em formatura idiota, valem. mas muita, muita, ...
estupidez, claro
José Paulo
Castro: Recordo aqui um filósofo,
Paulo Tunhas, cronista do Observador, que fez um artigo magistral a propósito
do seu visionamento do filme clássico "O homem que matou Liberty
Valance". Na análise da sátira a todo o processo político que o filme
acompanha, passada no velho Oeste, ele chega à conclusão que a liberdade e a
justiça dependem, fundamentalmente, da ponta da arma, corações e coragem dos
homens que efectivamente e de forma anónima, matam os Liberty Valance deste
mundo. Não dos que defendem o princípio que é preciso prender, matar até, os
Liberty Valance deste mundo. Esses políticos até podem ficar para a história
mas a ordem que preconizam depende sempre da arma de outros. E do que esses, no
fundo, pensam sobre a liberdade e a justiça. A lei ? Depende da arma que a
impõe. Até a que regula o uso da arma. Jose Carmo > José Paulo Castro: Muito boa análise MariaPaula Silva > José Paulo Castro: é verdade, muito bem
lembrado! O excelente Paulo Tunhas! José Paulo Castro>
José Paulo Castro: Para os que queiram reler a
crónica do saudoso Paulo Tunhas (é de 2017): https://observador.pt/opiniao/o-homem-que-matou-liberty-valance/ pedro
dragone: Há males que vêm por bem, Trump e a guerra da Ucrânia foram os males que só
fizeram bem à Europa. Foram as ameaças que lhe trouxeram a oportunidade de
deixar de viver "à sombra da bananeira" da protecção alheia. A
protecção do Tio Sam paga com o dinheiro dos contribuintes Americanos. Era tão
bom, não era? Jorge Almeida: Extra! Extra! Fontes 100%
fidedignas e o General Agostinho Costa revelam que a Rússia está a testar uma
nova arma super secreta, nunca antes divulgada, sob estreita supervisão do
Presidente Putin. Esta nova arma vai mudar definitivamente o paradigma da
guerra moderna e vergar os inimigos da mãe Rússia à sua condição de
miseráveis subalternos. Relatórios secretos indicam que se trata de um poderoso
Cotonete Atómico, capaz de operar a velocidades subsónicas e hipersónicas,
guiado pela mais moderna inteligência artificial e dotado de cargas nucleares
de capacidade destrutiva nunca vista. Entre outras inovações, pode inclusive
ser lançado amanhã e atingir o seu alvo anteontem! N do R: Para quem estiver
interessado, esse Cotonete Atómico também está disponível numa variante dildo,
para utilizações mais personalizadas! Nunca pára! Vasco
Silveira: " ... a Europa afeiçoou-se à ideia de que não ter mísseis era uma
virtude. (cobardia) Aliás, evitar tudo o que fizesse lembrar a guerra, era
virtude (cobardia). A dependência, embalada pelo moralismo, tornou-se um modo
de estar. Os europeus deitaram-se à sombra (cobardia) do guarda-chuva nuclear
americano e concentraram-se no conforto de quem acha que já está para lá da História.
"Caro senhor: Tomei a liberdade de transcrever uma frase sua, truncando-a
com um repetido comentário (cobardia), do que lhe peço desculpa. Essa Europa
devastada por duas terríveis guerras (uma, de 30 anos), que nasceram em boa
parte de uma ânsia revanchista francesa, de ser o mês de Agosto, e de muita,
muita falta de estatura dos, todos talvez, líderes europeus. A União europeia,
em que a única voz grossa que tem (julgo que) vem de um senhor que viveu com a
Mãe, ou lá o que é ... , julgou que a garantia dos EUA, como se fora o filho
crescido e forte, durasse para sempre. E assim está desde há ... um século e?
Oitenta anos? Os Pétain passaram a de Gaulle, e passaram a Macron, e assim em
redor, com uma extraordinária figura, ex ministra sem sucesso da ...Defesa, e
afastada para onde não faria diferença da fraca(?), péssima (?), chanceler
Merkel ( só o soubemos depois
Vasco Silveira > Vasco Silveira: ...ainda a tempo: ... determinado o seu, longo,
mandato) E o engrossar (???) de voz europeu
da Europa começa nos sítios e pessoas referidos como tendo sido o culminar do
acobardamento militar europeu. Receio o pior. Cumprimentos. João
Barreira: Quem quer paz, prepara-se para a guerra. Quase Famoso:
Eu pergunto se os balneários e as casas
de banho já são todas inclusivas e neutras? a neutralidade carbónica não poderá
ser conseguida mais cedo? as tampas das garrafas de plástico não poderão estar
mais bem presas? Ainda outro dia abri uma e fiquei com a tampa na mão, foi dos
maiores sustos da minha vida. A Europa tem coisas mais importantes em que
pensar, do que andar a brincar às guerras.
Manuel Magalhaes: Muito bom e necessário artigo, pois a realidade é
muito dura e ela é neste momento a prova da imbecilidade dos incautos
governantes europeus que nos têm conduzido ao perigosíssimo estado em que nos
encontramos. José B Dias > Pedro Fernando: Os empenhados
"combatentes pela muito amada liberdade de opinião e sua pública
expressão" não resistem a usar o velhinho processo da denúncia, da censura
e do cancelamento ... A hipocrisia é tremenda e a necessidade sentida de sinalizar virtudes é transparente
de óbvia. Pedro
Fernando > José B Dias: Tem razão, meu caro, e o que
descreve até já tem um nome: wokismo de direita. Nuno Teixeira: Brilhante, meu caro Watson ! 😉 A FJ: Que grande título. Anos de
parvoíce resumidos numa frase. E pagaremos caro. A FJA FJ: Excelente artigo. António
Alberto Barbosa Pinho: Certíssimo. S
N: excelente
crónica sobre um assunto tão importante e urgente. joao lemos: que tal uma
profunda investigação a toda a actividade da sra Merkel? Francisco
Almeida > joao lemos: E à senhora que durante 12
anos foi sua ministra?
graça Dias > joao lemos: Sobre a personagem Merkel,
cujo pensamento ideológico foi bem
moldado na ex-RDA durante a liderança do traidor Ulbricht (cujas políticas que
impôs na RDA foram as de Staline), a " sinistra" nunca o criticou,
antes pelo contrário. Enquanto jovem sempre o admirou. Ângela Merkel sempre foi
uma admiradora da URSS. Oxalá num futuro haja algum historiador de
pensamento independente e com disponibilidade, para pesquisar o percurso de
Ângela Merkel, que com o seu amigo do
Kremlin( com o qual chegou a ter contactos enquanto este viveu em
DRESDEN...), planearam muito do que foi a governação desta mulher, dotada das
tácticas e armadilhas para afastar todos
os que pudessem impedir as suas políticas (de notar, foi esta mulher que
afastou aquele que foi um dos grandes ESTADISTAS DA EUROPA - CHANCELER HELMUT
KOHL, e entre muitos outros, afastou há alguns anos o actual chanceler FIEDRICH
MERZ). A dependência da Europa em termos
energéticos, não foi uma circunstância, foi todo um plano bem pensado pelo Kremlin, tal como a construção dos PAIPLANES. joao lemos: nem mais nem menos. Miguel Macedo: A esquerdalha nojenta destruiu
a Europa! É capaz de ser irreversível! Uma desgraça! Paradigmas
Há Muitos!: Como
habitualmente muito bem pensado e escrito. Quanto à interpretação os leitores
terão a tendência a pensar que a "culpa é dos políticos" mas em
democracia estes são eleitos ou pelo menos pode-se escolher entre alguns e pode-se
demitir outros. Por isso a escolha que tem sido feita é a favor dos que
aumentam o salários da FP, aumentam as reformas, "fazem obra", são
muito bonzinhos com subsídios para tudo, financiam a música pimba mas também as
artes e as letras e as ONGs, perdoam as dívidas dos PALOPs, etc, etc e
naturalmente para a defesa e investimento a sério em armas avançadas sobra
pouco. Resumindo, a mensagem do Coronel Rodrigues do Carmo é fundamentalmente
dirigida a cada um de nós. Sobre os "filósofos", eu acrescentar-lhes-ia
e destacaria até os "activistas do ISCTE" e os "gurus das
redacções" pois estes sabem falar a línguagem comum e com as suas
manipulações esquerdistas anestesiar a vontade natural de defesa dum povo.
Quanto aos verdadeiros "filósofos" eles pairam numa nuvem tão elevada
que por um lado dificilmente cairão em manobras de propaganda maniqueísta e por
outro mesmo que o tentem fazer a sua linguagem, pelo baixo volume e pelo código
complexo usados, não é perceptível pelo comum dos mortais e por isso a sua
influência, mesmo nos políticos, será sempre comparativamente menor do que a
dos novos mensageiros da "boa nova" do esquerdismo e "pacifismo". Jose Carmo > Paradigmas Há Muitos!: Certíssimo. Filósofos entre
aspas é a ideia.
CONTINUA
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