quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Parece óbvio


O raciocínio do autor do texto - JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO, Coronel "Comando" - a respeito das fraquezas europeias em termos da importância belicosa que se exigiria, nestes tempos de estratégias e de tácticas guerreiras, a pedir, antes, armas de ataque e defesa mais consentâneas com as decisões vividas por esse mundo além, de mísseis reduzindo os princípios morais a triste nulidade, os apelos às armas de alguns hinos nacionais, uma pura ironia, os gozos da vida decididamente em risco de morte, pelas armas dos povos menos teóricos e mais práticos.

Os nossos inimigos têm mísseis. Nós temos princípios

Quem acredita que o mundo é um condomínio de filósofos acabará por descobrir, cedo ou tarde, que os filósofos não têm mísseis. E quem não os tem acaba a discutir ética no idioma de quem os dispara.

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 29 out. 2025, 00:1884

Nos últimos anos, os portugueses habituaram-se a ouvir falar de mísseis com a mesma naturalidade com que ouvem falar de futebol. Mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro, mísseis hipersónicos. Há tempos, uma comentadora televisiva mencionou até um perturbador “míssil basilisco”. Um prodígio mito-zoológico da ignorância.

Um míssil balístico é como um foguete das festas populares. Sobe, propulsionado pela deflagração de uma substância química, atinge um apogeu e depois regressa à Terra em queda, arrastando consigo apocalipses em miniatura.

Foi inventado na Europa. O primeiro, o V-2 alemão, criado por Von Braun, foi lançado em 1942 e, dois anos depois, já caía sobre Londres e Paris semeando destruição e terror. Mais de três mil desses engenhos voaram nos últimos meses da guerra. Foi, literalmente, o primeiro objecto humano a tocar o espaço exterior, ao serviço da Alemanha e do Tio Adolfo.

Os mísseis balísticos de curto alcance mantêm-se geralmente dentro da atmosfera terrestre, mas os de maior alcance viajam para fora dela, alguns vão mesmo para além dos 1500 km de altitude (a Estação Espacial Internacional orbita a 400 km de altura). Alguns atingem o solo a velocidades hipersónicas. O maior ataque de mísseis balísticos da história partiu do Irão, em 2024, com duzentos lançados de uma vez sobre Israel.

A Europa não tem nada que se pareça, porque resolveu não ter. Tirando a França e o Reino Unido, que mantêm uns quantos, mas apenas com ogivas nucleares, selados sob códigos que ninguém quer usar, o continente praticamente não tem mísseis convencionais de longo alcance. Mísseis balísticos terrestres? Quase zero. Mísseis de cruzeiro com mais de mil quilómetros de alcance? Meia dúzia, e quase todos lançados do mar.

Em contrapartida, o mundo fora do condomínio europeu parece uma feira de foguetões: Rússia, Irão, China, Taiwan, Coreias, Hezbollah, Houthis, todos com arsenais de mísseis capazes de atingir alvos a milhares de quilómetros.

Como chegámos aqui? Tudo começou com o Tratado INF, assinado em 1987 entre os EUA e a URSS. O acordo eliminava mísseis terrestres de médio alcance (500 a 5.500 km), e embora fosse pensado para Washington e Moscovo, congelou as decisões europeias durante três décadas.

O tratado morreu em 2019, mas a inércia ficou: a Europa afeiçoou-se à ideia de que não ter mísseis era uma virtude. Aliás, evitar tudo o que fizesse lembrar a guerra, era virtude. A dependência, embalada pelo moralismo, tornou-se um modo de estar. Os europeus deitaram-se à sombra do guarda-chuva nuclear americano e concentraram-se no conforto de quem acha que já está para lá da História.

O problema é que a dissuasão terceirizada só funciona enquanto o senhorio, neste caso, os EUA, estiver para aí virado. Quando começa a olhar de esguelha, como está a acontecer, a coisa muda de figura. Os EUA fartaram-se. A Europa pregou, durante décadas, uma espécie de pacifismo aristocrático que incluía um rotineiro deboche do aliado que lhes assegurava a tranquilidade. Acreditou que a geopolítica se resolvia com palestras sobre género e descarbonização. Recusou-se a possuir mísseis de cruzeiro e balísticos de longo alcance para cargas convencionais. Foi uma opção política e cultural, embalada por idealismos kantianos e pela reconfortante convicção de que a guerra era um anacronismo impróprio de pessoas civilizadas. Hoje, essa escolha revela-se não só ingénua como perigosa e suicida.

Resultado: muitos países, muitos orçamentos, muitas certezas e nenhuma capacidade terrestre de ataque profundo. A França, valha a verdade, tem os seus MdCN. Mísseis de cruzeiro navais com alcance de cerca de 1.400 km. O Reino Unido mantém algumas dezenas de Tomahawk em submarinos. E é tudo. De resto, o que existe são mísseis de cruzeiro de curto alcance, lançados de plataformas aéreas. Storm Shadow, Taurus, e outros, bons para ataques tácticos, mas dependentes de aviões e de condições de supremacia aérea. No chão, onde a Rússia, o Irão ou a Coreia do Norte têm as suas plataformas balísticas, a Europa não tem nada.

Sim, há finalmente, algum despertar. A França, a Alemanha, a Itália e a Polónia estão a desenvolver novos mísseis de cruzeiro terrestres com alcances entre 1000 e 2000 km de alcance. Um esforço tardio, mas necessário. A França e o Reino Unido também trabalham no FC/ASW (Stratus), o sucessor do Storm Shadow e do Exocet.

Do outro lado, a Rússia dispara regularmente os seus Iskander-M (balísticos) e Khinzal (cruzeiro), sobre a Ucrânia. Mísseis hipersónicos, difíceis de interceptar. O Irão tem um catálogo inteiro: Fateh, Zolfaghar, Shahab, Ghadr, Emad, todos testados e usados, muitos já com precisão métrica. O Hezbollah tem mísseis iranianos capazes de cobrir todo o território israelita e chegar a Chipre. Os Houthis, no Iémen, disparam Burkan e Qiam contra navios e refinarias a centenas de quilómetros.

A Europa não joga neste campeonato. As consequências de um continente desarmado são óbvias até para um estudante do secundário. Sem mísseis de longo alcance, a dissuasão europeia é uma anedota.

Não há como responder a um ataque sem escalar. Quando a Rússia dispara um Iskander convencional sobre Kharkiv ou quando o Irão lança uma chuva de mísseis a 1 500 km, a Europa limita-se a mandar condolências e declarações e manifestar profunda preocupação.

Não estamos a falar de teoria: estamos a ver, na prática, quem tem meios para ferir à distância e quem fica à mercê do tempo, do vento e do arbítrio do inimigo. Porque a resposta que alguns países da Europa têm, só pode ser por via aérea. Cara, exigente, escalatória, dependente de reabastecimentos e vulnerável a defesas modernas.

Na guerra, quem tem meios impõe o ritmo. Quem não tem, marca reuniões e fala de diplomacia. E aqui surge um incentivo perverso: se o agressor sabe que a Europa não pode retaliar ao mesmo nível, mais provavelmente arriscará a agressão. A ausência de capacidade de resposta simétrica não dissuade; encoraja. Se um míssil convencional se abate sobre uma cidade europeia, como se responde? Com aviões numa operação que exige supremacia aérea e reabastecimentos em voo? Com um comunicado a repudiar o ataque, a convocar uma cimeira e reafirmar a nossa determinação?

Alguns dizem que possuir certas armas é imoral, recuperando o conceito de “armas pouco agradáveis a Deus”, decantado em 1215, no Concílio de Latrão a propósito da besta. Mas a moralidade, sem meios, é uma flor de estufa num campo de minas. Nenhum hospital se protege com retórica. Nenhuma cidade resiste com flores e comunicados.

E há outro efeito perverso: um general impedido de recorrer a certas armas, mais dificilmente conceberá respostas criativas e antecipatórias e tenderá a andar sempre um passo atrás do inimigo O que há que fazer é também óbvio: É tempo de deixar o romance kantiano na estante e encarar a guerra tal como ela é. A recusa de possuir certas armas não é virtude, é apenas vulnerabilidade. Virtude é ter meios e não precisar de os usar. Porque o inimigo sabe que, se nos ferir, não ficará impune. A dissuasão não se faz com palavras, faz-se com capacidade, vontade e credibilidade.

A Europa precisa de acelerar programas de “deep strike” convencionais: mísseis de cruzeiro que vão até aos 2000 km, e mísseis balísticos de teatro. Lançáveis de plataformas terrestres, navais e aéreas. E, sobretudo, definir doutrina clara de resposta: rápida, proporcional e credível.

O mundo mudou e os mísseis voltaram a ser o idioma da força. Os nossos inimigos falam-no fluentemente e nós ainda estamos a conjugar o verbo “condenar”. Se continuarmos assim, não tardaremos a perceber que, na guerra, quem só tem princípios e não tem meios, acaba sempre no papel de figurante moral.

Quem insiste em acreditar que o mundo é um condomínio de filósofos, acabará por descobrir, mais tarde ou mais cedo, que os filósofos não têm mísseis. E quem não os tem, acaba a discutir ética no idioma de quem os dispara.

GUERRA     CONFLITOS     MUNDO     MÍSSEIS     ARMAMENTO     DEFESA     SOCIEDADE     EUROPA

COMENTÁRIOS

Censurado pelo observador lápis azul: Muito, muito bom!                 Vasco Silveira: Zero, é o que um ballet de números sem cabeça, em formatura idiota, valem. mas muita, muita, ... estupidez, claro

José Paulo Castro: Recordo aqui um filósofo, Paulo Tunhas, cronista do Observador, que fez um artigo magistral a propósito do seu visionamento do filme clássico "O homem que matou Liberty Valance". Na análise da sátira a todo o processo político que o filme acompanha, passada no velho Oeste, ele chega à conclusão que a liberdade e a justiça dependem, fundamentalmente, da ponta da arma, corações e coragem dos homens que efectivamente e de forma anónima, matam os Liberty Valance deste mundo. Não dos que defendem o princípio que é preciso prender, matar até, os Liberty Valance deste mundo. Esses políticos até podem ficar para a história mas a ordem que preconizam depende sempre da arma de outros. E do que esses, no fundo, pensam sobre a liberdade e a justiça. A lei ? Depende da arma que a impõe. Até a que regula o uso da arma.                 Jose Carmo > José Paulo Castro: Muito boa análise               MariaPaula Silva > José Paulo Castro: é verdade, muito bem lembrado! O excelente Paulo Tunhas!                  José Paulo Castro> José Paulo Castro: Para os que queiram reler a crónica do saudoso Paulo Tunhas (é de 2017): https://observador.pt/opiniao/o-homem-que-matou-liberty-valance/                pedro dragone: Há males que vêm por bem, Trump e a guerra da Ucrânia foram os males que só fizeram bem à Europa. Foram as ameaças que lhe trouxeram a oportunidade de deixar de viver "à sombra da bananeira" da protecção alheia. A protecção do Tio Sam paga com o dinheiro dos contribuintes Americanos. Era tão bom, não era?           Jorge Almeida: Extra! Extra! Fontes 100% fidedignas e o General Agostinho Costa revelam que a Rússia está a testar uma nova arma super secreta, nunca antes divulgada, sob estreita supervisão do Presidente Putin. Esta nova arma vai mudar definitivamente o paradigma da guerra moderna e vergar os inimigos da mãe Rússia à sua condição de miseráveis subalternos. Relatórios secretos indicam que se trata de um poderoso Cotonete Atómico, capaz de operar a velocidades subsónicas e hipersónicas, guiado pela mais moderna inteligência artificial e dotado de cargas nucleares de capacidade destrutiva nunca vista. Entre outras inovações, pode inclusive ser lançado amanhã e atingir o seu alvo anteontem! N do R: Para quem estiver interessado, esse Cotonete Atómico também está disponível numa variante dildo, para utilizações mais personalizadas! Nunca pára!                   Vasco Silveira: " ... a Europa afeiçoou-se à ideia de que não ter mísseis era uma virtude. (cobardia) Aliás, evitar tudo o que fizesse lembrar a guerra, era virtude (cobardia). A dependência, embalada pelo moralismo, tornou-se um modo de estar. Os europeus deitaram-se à sombra (cobardia) do guarda-chuva nuclear americano e concentraram-se no conforto de quem acha que já está para lá da História. "Caro senhor: Tomei a liberdade de transcrever uma frase sua, truncando-a com um repetido comentário (cobardia), do que lhe peço desculpa. Essa Europa devastada por duas terríveis guerras (uma, de 30 anos), que nasceram em boa parte de uma ânsia revanchista francesa, de ser o mês de Agosto, e de muita, muita falta de estatura dos, todos talvez, líderes europeus. A União europeia, em que a única voz grossa que tem (julgo que) vem de um senhor que viveu com a Mãe, ou lá o que é ... , julgou que a garantia dos EUA, como se fora o filho crescido e forte, durasse para sempre. E assim está desde há ... um século e? Oitenta anos? Os Pétain passaram a de Gaulle, e passaram a Macron, e assim em redor, com uma extraordinária figura, ex ministra sem sucesso da ...Defesa, e afastada para onde não faria diferença da fraca(?), péssima (?), chanceler Merkel ( só o soubemos depois                 Vasco Silveira > Vasco Silveira: ...ainda a tempo: ... determinado o seu, longo, mandato) E o engrossar  (???) de voz europeu da Europa começa nos sítios e pessoas referidos como tendo sido o culminar do acobardamento militar europeu. Receio o pior. Cumprimentos.                João Barreira: Quem quer paz, prepara-se para a guerra.                   Quase Famoso: Eu pergunto se os balneários e as casas de banho já são todas inclusivas e neutras? a neutralidade carbónica não poderá ser conseguida mais cedo? as tampas das garrafas de plástico não poderão estar mais bem presas? Ainda outro dia abri uma e fiquei com a tampa na mão, foi dos maiores sustos da minha vida. A Europa tem coisas mais importantes em que pensar, do que andar a brincar às guerras.                    Manuel Magalhaes: Muito bom e necessário artigo, pois a realidade é muito dura e ela é neste momento a prova da imbecilidade dos incautos governantes europeus que nos têm conduzido ao perigosíssimo estado em que nos encontramos.           José B Dias > Pedro Fernando: Os empenhados "combatentes pela muito amada liberdade de opinião e sua pública expressão" não resistem a usar o velhinho processo da denúncia, da censura e do cancelamento ... A hipocrisia é tremenda e a necessidade sentida de sinalizar virtudes é transparente de óbvia.        Pedro Fernando > José B Dias: Tem razão, meu caro, e o que descreve até já tem um nome: wokismo de direita.                 Nuno Teixeira: Brilhante, meu caro Watson ! 😉                  A FJ: Que grande título. Anos de parvoíce resumidos numa frase. E pagaremos caro.                     A FJA FJ: Excelente artigo.              António Alberto Barbosa Pinho: Certíssimo.            S N: excelente crónica sobre um assunto tão importante e urgente.           joao lemos: que tal uma profunda investigação a toda a actividade da sra Merkel?                     Francisco Almeida >  joao lemos: E à senhora que durante 12 anos foi sua ministra?                    graça Dias > joao lemos: Sobre a personagem Merkel, cujo pensamento ideológico foi bem moldado na ex-RDA durante a liderança do traidor Ulbricht (cujas políticas que impôs na RDA foram as de Staline), a " sinistra" nunca o criticou, antes pelo contrário. Enquanto jovem sempre o admirou. Ângela Merkel sempre foi uma admiradora da URSS. Oxalá num futuro haja algum historiador de pensamento independente e com disponibilidade, para pesquisar o percurso de Ângela Merkel, que com o seu amigo do Kremlin( com o qual chegou a ter contactos enquanto este viveu em DRESDEN...), planearam muito do que foi a governação desta mulher, dotada das tácticas e armadilhas para afastar todos os que pudessem impedir as suas políticas (de notar, foi esta mulher que afastou aquele que foi um dos grandes ESTADISTAS DA EUROPA - CHANCELER HELMUT KOHL, e entre muitos outros, afastou há alguns anos o actual chanceler FIEDRICH MERZ). A dependência da Europa em termos energéticos, não foi uma circunstância, foi todo um plano bem pensado pelo Kremlin, tal como a construção dos PAIPLANES.       joao lemos: nem mais nem menos.          Miguel Macedo: A esquerdalha nojenta destruiu a Europa! É capaz de ser irreversível! Uma desgraça!        Paradigmas Há Muitos!: Como habitualmente muito bem pensado e escrito. Quanto à interpretação os leitores terão a tendência a pensar que a "culpa é dos políticos" mas em democracia estes são eleitos ou pelo menos pode-se escolher entre alguns e pode-se demitir outros. Por isso a escolha que tem sido feita é a favor dos que aumentam o salários da FP, aumentam as reformas, "fazem obra", são muito bonzinhos com subsídios para tudo, financiam a música pimba mas também as artes e as letras e as ONGs, perdoam as dívidas dos PALOPs, etc, etc e naturalmente para a defesa e investimento a sério em armas avançadas sobra pouco. Resumindo, a mensagem do Coronel Rodrigues do Carmo é fundamentalmente dirigida a cada um de nós. Sobre os "filósofos", eu acrescentar-lhes-ia e destacaria até os "activistas do ISCTE" e os "gurus das redacções" pois estes sabem falar a línguagem comum e com as suas manipulações esquerdistas anestesiar a vontade natural de defesa dum povo. Quanto aos verdadeiros "filósofos" eles pairam numa nuvem tão elevada que por um lado dificilmente cairão em manobras de propaganda maniqueísta e por outro mesmo que o tentem fazer a sua linguagem, pelo baixo volume e pelo código complexo usados, não é perceptível pelo comum dos mortais e por isso a sua influência, mesmo nos políticos, será sempre comparativamente menor do que a dos novos mensageiros da "boa nova" do esquerdismo e "pacifismo".               Jose Carmo > Paradigmas Há Muitos!: Certíssimo. Filósofos entre aspas é a ideia.

CONTINUA

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