domingo, 5 de outubro de 2025

Prazer

 

A leitura de textos como este, de análise clara e definitiva a respeito das políticas há tanto tempo seguidas por nós, submissos, por indiferença ou ignorância ou fraqueza na dissidência, aos privilegiados ocupantes dos sucessivos governos desses novos governos, segundo os seus méritos ocupacionais - que não se libertam, contudo, de um endividamento avidamente aceite, desde o tal movimento descolonizador que nos afundou nesse processo de perpetuidade endividada, sem reversão.

De que falamos quando falamos de “sistema”?

O sistema é o regime instaurado a 25 de Abril e realinhado a 25 de Novembro; um regime de um Centrão “rigorosamente ao centro” em política, mas bem à esquerda em mecanismos culturais e mediáticos.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 04 out. 2025, 00:1838

O Sistema da Primeira República

Em Portugal, na Primeira República, os “democráticos” do Partido Republicano Português ganhavam quase sempre as eleições. Para isso tinham criado leis eleitorais que davam vantagem às grandes cidades (Lisboa e Porto) sobre o campo. Tinham também tirado o voto aos analfabetos (dos cerca de um milhão de eleitores dos finais da Monarquia passou-se aos cerca de 350.000 da República) e não o deram às mulheres (que diziam vulneráveis à manipulação do clero). E tinham milícias e braços mais ou menos armados – a Formiga Branca e os Carbonários – que “orientavam” ou até “corrigiam”, oportunamente, o voto popular.

O Sistema do Estado Novo

Uma das razões do triunfo da Ditadura Militar, em 28 de Maio de 1926 (faz para o ano um século), foi a falta de verdade e a arrogância com que Afonso Costa manipulou o sistema, a partir de uma ideia de superioridade moral e intelectual da esquerda republicana e livre pensadora (logo, boa) sobre a direita monárquica, católica e reaccionária (logo, má).

O Estado Novo, construído a partir dos confrontos de correntes na Ditadura Militar, foi o resultado do pensamento e da obra de Salazar, que se soube impor aos militares e negociar com o Exército um pacto de regime, criando um modelo híbrido de nacionalismo conservador e autoritário. Nos anos 30, com a Europa dividida entre as monarquias constitucionais e liberais inglesa e nórdicas, as para-ditaduras da Europa Oriental, o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão, o autoritarismo do Estado Novo aparecia como um regime “normal” e, em certa medida, até centrista, entre a esquerda republicana e conservadora e os radicais fascistizantes.

O sistema adaptou-se a seguir à Guerra, quando Portugal e Espanha ficaram como únicos regimes autoritários de direita numa Europa de democracias liberais e ditaduras comunistas. E a geopolítica da Guerra Fria, com os americanos a priorizarem a luta anticomunista, levou a que os regimes peninsulares fossem vistos por Washington como “males menores” perante os riscos do triunfo de uma oposição onde os comunistas eram dominantes. Por isso Portugal foi membro fundador da NATO, e a Espanha, a partir dos anos 50, aliada dos Estados Unidos.

O sistema funcionou com eleições que o governo também ia ganhando sempre (embora, ao contrário do Partido Republicano Português, a União Nacional não pretendesse ser democrática) e foi durando apesar da falta de liberdades políticas. Porquê? Primeiro, porque subsistia a memória das fraudes dos democráticos e da instabilidade e violência permanentes da Primeira República; e depois, pelos melhoramentos trazidos pelas grandes obras públicas, coisa rara entre 1890 e 1930, pela diplomacia de guerra de Salazar e pelos anos da segunda industrialização que trouxeram, sobretudo a partir das décadas de 50 e 60, desenvolvimento económico. O regime conseguiu ainda aproveitar a importância que os comunistas tinham na “oposição democrática” para, à semelhança do que fizera com os aliados da NATO, aparecer como única alternativa ao comunismo.

Em 1958, a eleição presidencial com Humberto Delgado mostrou, pela primeira vez, uma oposição com algum significado. E em 1961 foi o início da guerra de África, que acabaria com o Império pela dissidência dos capitães do MFA, mas que, no início, permitiu uma certa renovação, também pela solidariedade ultramarina da oposição democrática no apoio à política de Salazar.

A Esquerda, o Centrão e este sistema

O actual sistema vive da memória trabalhada e repisada dos malefícios e malfeitorias do regime anterior, e de ter procedido à homogeneização institucional com a Europa democrática. É o resultado dos 18 meses do PREC e anti-PREC que, depois do 25 de Novembro, deram o poder ao Centrão – PS-PSD –, deixando o poder cultural e mediático à “esquerda antifascista”.

O sistema é isto e esteve mais ou menos fechado até há poucos anos, porque os partidos à direita do Partido Socialista e os seus líderes nunca tiveram a inteligência e a coragem de defender, em democracia, valores nacional-conservadores que soassem remotamente aos que o Estado Novo defendera autoritariamente.

Foi o cansaço popular perante o atavismo, as insuficiências e incapacidades do sistema que forçou a abertura. E também o espírito do tempo, o movimento nacional-conservador e nacional popular que, na Euro-América, contesta uma velha ordem enquistada, alheada e ineficaz.

Assim, o sucesso do Chega não é fruto de uma misteriosa conspiração “cripto-nazi-fascista de extrema-direita”; é antes a consequência de uma notória surdez ao “povo” dos “donos do sistema” e dos seus arautos mediáticos.

E é já quase irreversível a contestação que o dito sistema tem procurado travar com uma barragem de argumentos e pretextos cada vez mais patéticos. A começar pela táctica da amálgama ideológica, em que tudo o que é mau, tudo o que não é correcto, tudo o que não é conveniente é de “extrema-direita. “Fascista”, por exemplo, tornou-se um insulto avulso que pode ser arremessado com convicto à vontade contra alguém que seja “ultra-liberal” em economia. Ora quem tenha um mínimo de conhecimento de História, sabe que o fascismo, que se queria uma terceira via entre o capitalismo e o socialismo, nunca foi liberal, nem em política, nem em economiamas o conhecimento histórico, político e ideológico há muito que abandonou estas paragens. Também o anti-semitismo e o racismo não foram características de raiz do fascismo mussoliniano; vieram marginalmente com a aliança e a progressiva dependência da Alemanha de Hitler. O nacional-socialismo hitleriano, esse sim, foi um nacionalismo etnocêntrico que, pela sua ideologia de racismo biológico, praticou grandes atrocidades. Como, de resto, as praticou o comunismo. Mas essas não existem ou é como se nunca tivessem existido porque a Esquerda, por um fenómeno mágico, continua a ser julgada pelasboas intenções” do Manifesto Comunista e não pelos regimes concentracionários que criou – na Rússia de 1917 a 1991, na China maoísta, no Camboja de Pol Pot e noutros “paraísos terrestres”.

É este o sistema que a Esquerda criou e que soube perpetuar no regime aqui instaurado em 25 de Abril de 1974 e realinhado a 25 de Novembro; um regime ocupado por um Centrão “rigorosamente ao centro” em política, mas bem à esquerda em ideias e mecanismos culturais e mediáticos.

Onde é que está o povo?

Por isso há a abominação da Direita, sempre associada ao “fascismo de Salazar-Caetano”, à PIDE, ao Tarrafal, ao colonialismo, à contra-revolução, ao miguelismo, à inquisição, ao obscurantismo.

Dá-se, porém, que hoje a “extrema-direitanão vem da mais que enterrada Alemanha de Hitler, nem de conspirações militares, golpes palacianos, ou conluios da alta burguesia e da alta finança com a reacção ultramontana. Vem da ainda pior América de Trump, da inqualificável Itália de Meloni, da abjecta Hungria de Orbán – que, infelizmente, parece que provêm do voto do povo, fruto da sua escolha em eleições livres e justas. E vêm apesar de toda a máquina de propaganda do sistema e dos seus dependentes.

Um sistema que já começa a mostrar sinais de incapacidade para cumprir a sua proverbial função: gerar um estado de coisas capaz de garantir que os donos do poder permaneçam no poder.

A SEXTA COLUNA     HISTÓRIA     CULTURA     POLÍTICA     DEMOCRACIA     SOCIEDADE

COMENTÁRIOS (de 40)

José B Dias: Excelente resenha dos últimos regimes que nos foram sendo impostos. E da hipocrisia do actual ...                  Ana Luís da Silva: Excelente artigo, muito bem fundamentado a explicar o que é o “sistema” em Portugal, quem dele faz parte e o que pretende. Dou razão a André Ventura: é necessário derrubar este sistema que só pensa em se alimentar a si próprio e aos seus arautos e inevitáveis sequazes oportunistas, que não se preocupam nem com a nação nem com o povo português. Eu acrescentaria a esta descrição, com todo o respeito por Jaime Nogueira Pinto, o significado da palavra “elites”. Quando a Comunicação Social fala de “elites” refere-se aos que progrediram dentro do sistema, mas com a condição sine qua non de estarem necessariamente alinhados com o posicionamento e pensamento político do Centrão, numa das suas vertentes, socialista ou social-democrata, e com o pensamento de esquerda na cultura, na arte e no ensino. Deste modo, “os donos disto tudo” garantem que nunca haverá pessoas de mérito dentro da sociedade portuguesa que apoiem ou se alinhem com o CHEGA. Porque se o fizerem saltam da bolha, convertem-se em dissidentes e em não-alinhados com o politicamente correcto, as suas qualidades e sucesso passam a ser defeitos, a sua intervenção pública é desqualificada e os comentadores de serviço encarregam-se de os isolar e enterrar o mais fundo possível… por isso odeiam André Ventura e o CHEGA, que todas as vezes que tentam afundar na lama ressurge com mais força e, pior, com o apoio das pessoas comuns. Dentro de pouco tempo os do sistema passarão a odiar os eleitores portugueses e a recrutar cada vez mais apoiantes entre as comunidades/guetos de imigrantes que não se integram… e a ceder lugares de poder a esses focos de instabilidade social, pois como sabemos, não há almoços grátis, nem na economia e muito menos na política.                   Rui Medeiros > Ana Luís da Silva: Excelente comentário que vem complementar também o excelente artigo!          José Menezes > Ana Luís da Silva: Estou de acordo consigo.                      Rui Lima: A ideologia dominante, mistura de centro extremo e esquerda radical. Os governantes repetem fórmulas ocas sempre com a palavra ‘democracia’ todos têm de rezar como eles se não é-se acusado de ‘discurso de ódio’. O grande perigo está no próprio sistema, que já não tolera sequer ser questionado.       António Costa e Silva: Com a internet e as redes descentralizadas, o sistema está a perder a exclusividade da informação e da comunicação, que funcionaram como poderosos instrumentos de propaganda. O controle total da moeda, que pretendem com o euro digital, copiando o modelo chinês, (que não por acaso já foi rejeitado nos Estados Unidos de Trump) e o rendimento mínimo garantido a todos, seria um passo decisivo na construção do modelo burocrático/totalitário que é a obsessão da EU. Quando falham os outros argumentos, há ainda o recurso aos serviços de informação e aos tribunais, de que se multiplicam os exemplos, aqui como por toda a Europa. Estão a fazer esforços desesperados para continuarem a controlar o pão e o pau, mas o circo, que não é menos importante, está-lhes a fugir da mão, já ninguém acha graça aos palhaços               José Tomás: O fim do sistema decorre do fim do seu monopólio na mediação e manipulação da informação. A capacidade de circular informação sem mediadores do sistema, expôs e ridicularizou essa manipulação e potenciou um reacção contrária.             José Tomás: A título de exemplo compare-se o tratamento mediático dado ao “cerco” do debate no Capitólio por manifestantes da polícia, o ano passado, e aquele dado agora a uma acção absolutamente idêntica por manifestantes da extrema-esquerda no debate do MUDE.                   João Floriano: «........ um regime de um Centrão “rigorosamente ao centro” em política, mas bem à esquerda em mecanismos culturais e mediáticos.» Aqui reside um dos grandes inconvenientes do Sistema. A CS e outros meios ditos culturais como o teatro e o cinema que muito poucos vêem, os pirosos reality shows, são deixados na mão da esquerda que os transforma em canais de propaganda. Veja-se só o desfile dos recentes Globos de Ouro: um clube privado só para amigos, uns Jardins Proibidos não do Paulo Gonzo, mas de quem a esquerda aprova. E Jaime Nogueira Pinto esquece a Educação desde os primeiros anos até às universidades onde a direita não pode entrar. O sistema vai sendo corroído com a Economia que também funciona mal a ser censurada pela outra parte do sistema, que vive muito bem parasitando a outra parte. Parece que já não está a ter sucesso dados os sinais de alarme e falência de grupos como a Impresa. Em vez de «Formiga Branca» e «Carbonária», temos avençados na CS que têm procurado inutilmente educar as massas incultas, fazer voltar as ovelhas ranhosas ao redil, indicar onde se mete a cruz. Têm falhado em toda a linha porque cada vez são mais os que votam no CHEGA. E aqui pergunta-se a razão de se votar cada vez mais num partido «diabólico» e num líder como Ventura. E que alternativa temos? Para quem é de direita e conservador, não há escapatória: à esquerda certamente que não vota. O PSD está cada vez mais um PS2. Cada cavadela uma minhoca, sendo que a última foi o reconhecimento do Estado da Palestina. As reformas são remendos tal como no caso de Costa, a política de controlo de imigração é tímida e não resolve o essencial. Os excedentes são anunciados com pompa e circunstância como no caso dos governos PS. A ministra Balseiro é tão woke como qualquer bloquista ou elemento do LIVRE. O PSD bloqueia a revisão constitucional. Não censuro o governo na Saúde, na Habitação, na Educação. Herdou uma pesadíssima herança do PS e milagres não se fazem. Mas pelo menos podia lançar sinais de que não está ao lado da esquerda. Assim sendo vota-se CHEGA, pelo menos para demonstrar o nosso desagrado com o rumo que isto leva.             Carlos Chaves: Caríssimo Jaime Nogueira Pinto muito obrigado por esta resenha do nosso sistema político desde Afonso Costa, ou melhor das estratégias que foram e vão encontrando para os partidos (correntes políticas), se manterem no poder! O povo que se lixe!                      José Menezes: Brilhante e certeiro. Leitura obrigatória para quem quiser ainda conhecer melhor porque é que Portugal tem o atraso que tem. Passei esta semana por dois aeroportos secundários na Turquia e tive vergonha qdo aterrei em Lisboa (aeroporto principal). A ineficiência e provincianismo de tudo, da passagem nos passaportes até àquela porta de saída por onde passam os 34 milhões de pessoas que desembarcam no Aeroporto de Lisboa. Tudo muito parado no tempo. Passaram 50 anos e o país continua à espera de desenvolvimento com ‘D’. Melhor uso de dinheiros públicos (vide escândalo da frota automóvel para o Banco de “Fomento”), mais meritocracia, mais ambição e muito mais atitude. Este artigo traz esclarecimento e esperança. É possível fazer muito mais e muito melhor por Portugal.         Antonio Melo: Excelente artigo. Só espero que o que aí vem, não seja pior do que aquilo já temos.         Américo Silva: O sistema vem da economia mundo, tanto Salazar como de Gaulle resistiram quanto puderam, a França caiu em 68 e Portugal em 74.                   maria santos: Exacto. É este sistema PS/PSD alinhado com os mecanismos do PCP que as classes médias querem ver arredado dos comandos governamentais e legislativos, saturadas da avassaladora incompetência da Administração Pública pejada de afilhados, gente preguiçosa e ignara que vive das auto-estradas partidárias e do nosso Orçamento. As classes médias não respiram, obrigadas a sustentar este sistema. É imperioso nas autárquicas reiterar no sentido de voto do 18/28/Maio, correr com o PS e levar o PSD/Montenegro à tangente dos mínimos. O problema é deles. Nós, classes médias trabalhadoras e empreendedoras, sabemos o que não queremos e o que queremos.                   João Floriano > António Costa e Silva: «Estão a fazer esforços desesperados para continuarem a controlar o pão e o pau, mas o circo, que não é menos importante, está-lhes a fugir da mão, já ninguém acha graça aos palhaços.» É mesmo isso.            João Floriano > José Menezes: Não sei se conhece o aeroporto de Samarcanda no Uzbequistão: linda arquitectura, fachada em forma de livro sobretudo quando chega à noite e o vê iluminado , moderníssimo, eficiente. Levou dois anos a construir. Estamos a falar de uma ex-república soviética.          Manuel Magalhães: Muito bom!

 

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