Que gostamos de reviver, no prazer de
refrescar – e aprofundar - a memória dos “heróis” do próximo passado, surgidos
no espanto de uma estranheza para sempre inapagada, relativamente ao conceito
que os definiu como tais.
Um candidato improvável à direita, três
à esquerda. A história da "eleição mais louca de sempre"
As presidenciais de 1986 são
o tema do novo Podcast Plus, "A Eleição Mais Louca de Sempre". Uma
corrida que teve quatro grandes protagonistas, muita conspiração, reviravoltas
e até violência.
MIGUEL SANTOS CARRAPATOSO: Texto
OBSERVADOR, 04
out. 2025, 21:322
Novembro de 1985. Faltam dois meses para as eleições
presidenciais e Mário Soares é um homem quebrado. As sondagens são aterradoras.
Chamam-lhe “incoerente”, “oportunista”, “mau político”. A característica
pessoal mais vezes citada é “ser mentiroso”. Não passa dos 8% nas intenções de
voto e o país não lhe perdoa o duro programa de austeridade que teve de aplicar
enquanto primeiro-ministro. O círculo de conselheiros mais próximos, que junta
algumas das cabeças mais brilhantes da política nacional, discute formas de o
tentar convencer a desistir. Soares resiste e recusa fazê-lo. Mas a missão que
tem pela frente parece impossível.
No
diário que vai alimentando, Soares não esconde o estado de profundo desalento
em que se encontra. Confessa
estar a perder o “controlo”. Sente-se irritado e desanimado, sem um plano
ordenado para recuperar. Nessa semana, já foi duas vezes ao cinema, num desejo
evidente e assumido de fugir da realidade. É ele quem o escreve naquelas
páginas: “As probabilidades de vitória são quase nulas. A perspetiva (muito
razoável) de não passar à segunda volta é muito dura”.
Esta
é o ponto de partida das eleições presidenciais de 1986, a campanha
mais espectacular de sempre. Aquela que redefiniu o espaço da esquerda e
relançou a direita. As presidenciais decididas pela margem mais curta da
história e as únicas, até hoje, disputadas a duas voltas. São sobre elas
o novo Podcast Plus do Observador, “A Eleição Mais Louca de Sempre” — uma
corrida feita de conspirações, de reviravoltas, de traições e de muito combate
político.
Uma
história que tem como grandes protagonistas um candidato
improvável à direita e três candidatos à esquerda. Todos
com hipóteses reais de vencer. Durante largos meses, Diogo
Freitas do Amaral, Mário Soares, Francisco Salgado Zenha e Maria de Lourdes
Pintasilgo mediram forças
por um lugar na segunda volta. O combate acabou reduzido a dois — Freitas e Soares
—, mas o caminho foi tudo menos linear. Nos bastidores, e não menos
importantes, três figuras apostaram
o futuro político do país nestas presidenciais: António
Ramalho Eanes, Álvaro Cunhal e Aníbal Cavaco Silva.
O
país vai viver a sua primeira campanha verdadeiramente. Mas também com
episódios de enorme violência, como o
caso da Marinha Grande. Vai
assistir a debates que se tornarão clássicos da política portuguesa, sobretudo aqueles
que puseram frente a frente Soares e Zenha e Soares e Freitas. E vai ter momentos que mudaram os equilíbrios de
força, como o sapo monumental engolido por Cunhal. Pelos bastidores,
de forma mais ou menos directa, vão circular figuras tão improváveis como Frank
Carlucci, antigo embaixador dos Estados Unidos em Portugal, Roger Ailes, que
viria a criar a Fox News, Paul Manafort, futuro conselheiro de Donald Trump, ou
Yasser Arafat.
Freitas, o improvável campeão da
direita
ANTÓNIO COTRIM / LUSA
Ser
Presidente da República não é uma ideia estranha a Freitas do Amaral. Francisco
Sá Carneiro tinha-o desafiado logo em 1980, mas decidiu declinar. Anos
depois, Francisco Pinto Balsemão
até chegou a sugerir que, se as coisas entre os dois corressem bem no segundo
governo da Aliança Democrática, seria ele o candidato da direita — mas
as coisas não correram nada bem entre os dois. Afastado da política desde o
momento em que rompeu com Balsemão, Freitas começa o ano de 1985 com uma
convicção: dificilmente terá condições para ser candidato. Chega, aliás, a
dizê-lo ao semanário Expresso, sem qualquer margem para segundas ou terceiras
leituras. Sabe que PSD e CDS, os partidos que tinham construído a vitoriosa
AD, não estavam dispostos a apoiá-lo.
Limita-se
a manter os pratos a girar enquanto a direita não decide o que fazer. Agenda
reuniões e marca almoços conspirativos. Os amigos incentivam-no a avançar,
dão-lhe palmadinhas nas costas. Mas não falta gente na grelha de partida em
melhores condições do que ele. O
PSD chega a ter oito possíveis candidatos ao mesmo tempo, quatro militares e
quatro civis. Ou melhor: oito mais um — o desejo de apoiar Mário Soares
continua bem vivo junto de alguns barões e notáveis do partido. Balsemão, que
nunca perdoou Freitas pela traição de 82’, é um deles.
Mas, em política, as coisas mudam muito rapidamente. Sobretudo quando dois partidos a atravessar crises
existenciais apostam tudo num general de três estrelas, de reconhecido mérito,
mas com três ligeiras questões por resolver: gosta demasiado da carreira
militar para hipotecar tudo; tem horror à conspiração política que se faz
através dos jornais e nos corredores da capital; e, não menos importante, tem
uma mulher que acha tudo aquilo uma loucura.
Apesar de todos os apelos, Mário Firmino
Miguel, antigo
ministro da Defesa, o candidato com que a direita sonhava e que os jornais
davam como certo nas eleições presidenciais, decide não entrar corrida. PSD e CDS
ficam sem plano B.
É
justo dizer-se que se Firmino Miguel tivesse decidido avançar — e tinha condições
políticas para isso — Freitas não teria sido candidato em 1986. E a história teria sido completamente diferente.
Mas, sem o general na corrida, as coisas mudam de figura. O
primeiro líder e fundador do CDS só tem de garantir que mais ninguém se atravessa
no caminho. E
é isso que faz. Assim que
percebe que Daniel Proença de Carvalho, antigo ministro da Comunicação Social e
ex-presidente da RTP, está a pensar avançar, convida-o para um almoço e
propõe-lhe uma aliança: Freitas será candidato à Presidência da República se
Proença de Carvalho aceitar ser o director dessa campanha.
Apesar
de ter reunido, ele próprio, um conjunto interessante de apoios para avançar,
Proença de Carvalho concede que Freitas, um dos pais fundadores da democracia,
está em melhores condições para ser candidato. Os dois, naquele almoço e
naquela tarde, começam a planear uma campanha verdadeira à americana. Só
fica a faltar uma peça fundamental: é preciso convencer o PSD, um partido
entregue a uma liderança interina frágil e estilhaçado em várias tendências,
egos e sensibilidades, a patrocinar aquela aventura. E é aí
que entra uma figura que vai mudar a história do partido e do país: Aníbal
Cavaco Silva.
Enquanto
Freitas do Amaral pondera as suas hipóteses, o antigo ministro das Finanças de
Francisco Sá Carneiro põe em marcha o seu próprio plano. Convida Freitas
para almoçar e diz-lhe que apoiará a sua candidatura presidencial
independentemente da posição oficial do PSD. Eurico de Melo, ex-ministro da
Administração Interna e um peso pesado do partido, também o fará. Dentro de
alguns dias, os sociais-democratas reúnem-se na Figueira da Foz para um
Congresso que decidirá a liderança do partido.
Aníbal
Cavaco Silva mantém, até hoje, que não teve qualquer intenção de se candidatar
à presidência do PSD, e que só ia fazer a rodagem do Citroën BX acabadinho
de comprar. O resultado
prático foi diferente: contra todas as expectativas, o grande apoiante da
candidatura presidencial de Freitas torna-se o novo líder do PSD. A vitória
surpreendente de Cavaco Silva provocará um efeito dominó que vai mudar o curso
político do país e dará a Freitas do Amaral todas as condições para ser o
candidato presidencial da direita. Melhor ainda: Mário
Soares não conseguiu antecipar nada do que estava prestes a acontecer.
Nas
eleições legislativas de 1985, a poucos meses das presidenciais, o PS sofreu
um resultado humilhante: Cavaco
Silva chegou quase aos 30%, os socialistas não foram além dos 20% e o PRD
patrocinado por Eanes, um dos grandes adversários políticos de Soares, ficou a
menos de três pontos percentuais dos socialistas. Em apenas dois anos, o PS tinha perdido quase um
milhão de votos. Os portugueses quiseram castigar Soares. As sondagens para
presidenciais davam-lhe apenas 8%
Soares e a
quase desistência
ANTÓNIO
AGUIAR
Mário
Soares ainda é primeiro-ministro mas já só tem uma coisa na cabeça: perceber
como é que vai chegar a Presidente da República dali a dois anos. No final de 1984, recebe religiosamente
todas as semanas para jantar alguns dos conselheiros mais próximos, como
António Barreto, Vasco Pulido Valente, Alfredo Barroso ou António Campos. Nunca estão mais do que cinco ou seis pessoas à mesa.
Os suficientes para lançar as bases da candidatura presidencial. Mas há um
enorme problema: Soares não está bem a ver o estado de desgraça em que caiu.
Como
primeiro-ministro, executou o exigente programa negociado com o FMI. Há uma
inflação galopante, na casa dos 20%. Os trabalhadores usam bandeiras negras
como símbolo de fome e pobreza e milhares com salários em atraso. Para a
esquerda, é um traidor. Para uma parte da direita, é um político incompetente e
ultrapassado. Só que Soares acredita que ainda tem os ventos a seu favor. Mesmo
à frente de um governo de Bloco Central a desfazer-se, continua a contar com o
apoio dos sociais-democratas nas presidenciais. A aritmética é simples: com os
votos do PS e do PSD, os dois partidos do centrão, a vitória está mais do que
garantida.
Só
que a estratégia de Soares começa a ruir. Carlos
Mota Pinto, o
vice-primeiro-ministro de quem se tinha tornado amigo, demite-se do Governo e
da liderança do PSD. Meses mais tarde, morre subitamente. A família
social-democrata mergulha numa das suas muitas lutas fratricidas e ninguém
consegue antecipar para que lado cairá exactamente o poder. O socialista,
ainda assim, continua convicto de que o partido parceiro de governação não
levantará ondas. Mantém boas relações com João Salgueiro, antigo
ministro das Finanças de Pinto Balsemão, que lhe dá garantias, até à véspera,
de que vai vencer por larga margem o Congresso da Figueira. Mas não é isso que acontece.
Cavaco
Silva, rodeado de
figurões do partido, como Eurico de Melo, Fernando Nogueira e Manuel
Dias Loureiro, e devidamente
municiado pela Nova Esperança de Marcelo
Rebelo de Sousa, Durão Barroso, Pedro Santana Lopes e José Miguel
Júdice, que há
muito conspiravam para derrubar o Bloco Central, rouba o palco do Congresso da
Figueira da Foz e torna praticamente impossível a sobrevivência do governo
de Soares e o apoio do PSD à sua candidatura presidencial.
Aníbal
Cavaco Silva, homem que Soares abertamente despreza, rompe com o Bloco Central
e o socialista demite-se.
Contra a sua vontade, António Ramalho Eanes dissolve a Assembleia da
República e marca eleições antecipadas para outubro de 1985. Vai tentar, a todo
custo, influenciar o resultado dessas legislativas. O PRD – Partido Renovador
Democrático, movimento organizado à sombra e com a bênção do próprio presidente
Presidente da República, terá uma palavra a dizer.
Soares
já não se apresenta a votos nessas legislativas — o objectivo é declaradamente
a eleição presidencial de 1986, agendada para dali a poucos meses. A contragosto, quase arrastado, António Almeida
Santos, um dos nomes mais respeitados do partido, assume a missão de ser o
candidato do PS nessas eleições legislativas, mas sofre um resultado humilhante
que nem os mais pessimistas conseguiram antecipar: Cavaco Silva
chega quase aos 30%, os
socialistas não vão além
dos 20% e o PRD patrocinado por Eanes, um dos grandes adversários
políticos de Soares, fica a menos de três pontos percentuais do PS. Em
apenas dois anos, os socialistas tinham perdido quase um milhão de votos.
Apesar
de Almeida Santos ter sido o rosto oficial deste resultado, não há qualquer
equívoco: o grande
derrotado é mesmo Mário Soares.
O país quis castigá-lo e enviar uma mensagem clara. Pior: o próprio partido
parece ter “desistido” dele. A crise em que o país está mergulhado, o
fim desastroso do Bloco Central e a estrondosa derrota nas legislativas de
outubro de 85 parecem matar em definitivo as aspirações presidenciais. No
diário que alimenta por esses dias, Soares volta a falar da hipótese de
desistir da corrida.
“Ninguém acredita. O meu staff mais próximo desaparece em bicos de pés…
Vou ter, como escreve o Expresso, uma derrota humilhante. Não passo à 2.ª volta
e fico atrás de todos os outros candidatos. Devo então desistir? Essa é a minha
tentação e, ao mesmo tempo, a minha angústia. Vontade não me falta! Mas não
posso: seria uma fraqueza que ninguém entenderia. Sou, pois, obrigado a
continuar. De qualquer modo, se for até ao fim ninguém me pode acusar de nada.
Cumpri. Não é trágico, em democracia, perder uma eleição. O trágico é
abandonar, deixando-se intimidar”, escreve Soares. Para
piorar tudo, a direita está unida em torno de Freitas do Amaral. E, à esquerda,
há uma candidata que parece indomável.
Pintasilgo,
antiga primeira-ministra, tinha óptimas sondagens, aparecia muito à frente de Mário Soares e taco a taco com Diogo Freitas do
Amaral. Numa segunda volta, garantem os estudos de opinião, a Presidência da
República será dela. O entusiasmo da candidata era contagiante. A direita
irritava-se com ela e chamava-lhe “Vasco Gonçalves de saias”. Mas seria Ramalho Eanes, de quem era conselheira e muito próxima, a traí-la.
ANTONIO COTRIM / LUSA
Em setembro de 1984, o plano de Maria de Lourdes Pintasilgo de
concorrer
a Belém é, como o de Soares, um segredo de polichinelo. A ideia tinha nascido no verão, durante um almoço no
restaurante “Dragão de Alfama”, com apenas mais quatro pessoas, que a
convenceram de que tinha tudo para ganhar aquela eleição. O currículo fala por
si. Formou-se em engenharia químico-industrial quando tirar um curso estava ao
alcance de poucas mulheres. Católica progressista, é pioneira na luta pela
emancipação feminina, embaixadora na Unesco, a primeira mulher a liderar um governo
e uma figura com fortes ligações ao eleitorado de esquerda.
Cereja
no topo do bolo: é muito próxima de António Ramalho Eanes, cujo apoio na
corrida presidencial dá como certo. Foi
ele, aliás, quem a nomeou primeira-ministra, em 1979. Só que, desta vez,
o Presidente da República não parece estar alinhado com os interesses da sua
conselheira em Belém. E, como tudo o que acontece na política que se vai
fazendo nos corredores da capital, as movimentações de Pintasilgo chegam aos
ouvidos do Chefe de Estado. E
Eanes decide actuar.
Nesse
setembro de 1984, Pintasilgo é convocada pelo próprio Presidente da República
para uma reunião. Depois dos cumprimentos de circunstância, Eanes permanece em
silêncio. Não quer
ser ele a dizer o que acha tem de ser dito sobre as ambições da antiga
primeira-ministra. Melo Antunes e João Botequilha, homens do Presidente,
tomam a iniciativa e passam longos minutos a tentar convencê-la a não avançar
com a candidatura. Chegam a dizer que é inaceitável que o faça à revelia do
movimento eanista. Magoada, Pintasilgo não cede. Não serão eles a travá-la.
Dias
depois, Ramalho Eanes convida-a para jantar. Desta vez, é ele a conduzir a
conversa. Dramatiza, diz-lhe que nunca terá possibilidades de vencer, que
dividirá o movimento e que se arrisca a entregar o regime em definitivo aos
mesmos partidos que o elegeram como adversário — PS e PSD, que se juntaram, em
1982, para fazer uma revisão constitucional que diminuiu em muito os poderes
presidenciais. Mas, mais
uma vez, Pintasilgo mantém-se firme nas suas intenções.
Três
meses depois, em dezembro, Eanes volta a convocá-la. Está a ficar irritado com
a teimosia de Pintasilgo. Acha tudo aquilo suicida e, desta vez, tem um recado
claro: com os
avanços que está a fazer, começa a perder “margem de manobra” para recuar na
candidatura. Pintasilgo percebe aí três coisas: quem está a perder margem de manobra é o próprio
Presidente; se continuar à espera do apoio de Eanes, nunca será candidata; e se
jogar na antecipação, como pretende fazer, o movimento eanista, que já todos
perceberam que se transformará num partido, ficará sem margem para apoiar outro
candidato.
Quando finalmente apresenta a sua
candidatura, em julho de 1985, no Hotel Ritz, em Lisboa, o impacto é imediato. Está rodeada de gente importante. Militares de
Abril, mas também intelectuais e pessoas das artes e do jornalismo, como Eduardo Lourenço, Emídio Rangel, Natália Correia e
Eduardo Prado Coelho.
Apresenta-se como a candidata
da “unidade” e da “esperança”, contra o “conformismo” e o “fatalismo”. Em nome da “ética” e da “terra da fraternidade”
com que a esquerda tinha sonhado um dia. Escolhe como símbolo o arco-íris, uma
inspiração vinda da América e do Partido Democrata, como prova de que, naquela
candidatura, cabem todos os que vierem por bem.
Tem
razões para estar confiante. Tem ótimas sondagens, aparece muito à frente de
Mário Soares e taco a taco com Diogo Freitas do Amaral. Mais: numa segunda volta, garantem os estudos de
opinião, a Presidência
da República será dela. O
entusiasmo da candidata é contagiante e não há visita que faça que não junte
pequenas multidões, sobretudo mulheres e sobretudo mulheres mais pobres. A
direita irrita-se com ela e chama-lhe “Vasco Gonçalves de saias” ou “socialista
terceiromundista”. Até o
catolicismo assumido é questionado: afinal, em que mundo é que se pode ser
católico e marxista ao mesmo tempo?
Mas
há algo que não bate certo.
Apesar do respeito de que goza, apesar do entusiasmo em torno da candidatura,
apesar das óptimas sondagens e da irritação que provoca nos adversários, Pintasilgo
continua sem contar com o apoio da
figura que lhe pode garantir um caminho mais fácil para a vitória. E tudo se vai agudizar depois do bom resultado do
PRD nas legislativas de outubro: os homens de Ramalho Eanes convencem-se de
que não precisam de Pintasilgo para nada.
A
candidatura de Pintasilgo é um obstáculo para os planos de Ramalho Eanes,
claro. Mas o Presidente da República julga ter encontrado o homem certo para
superar o desafio. Membro
fundador do MFA, um coronel entre capitães no 25 de Abril, primeiríssimo
ministro da Administração Interna em democracia e Alto-Comissário Contra a
Corrupção, Manuel Costa Braz é a escolha de Ramalho Eanes como
candidato à sua sucessão.
A Costa Braz agrada-lhe a ideia. Dez anos antes, esteve quase a ser escolhido como
primeiro Presidente da República no pós-25 de Abril. Mas sete dos nove
Conselheiros da Revolução optaram por Eanes e Costa Braz desencontrou-se da
História. Agora, é a sua vez.
Três homens da estricta confiança do Presidente da República, Miguel Caetano,
João Botequilha e José Rabaça, põem o plano em marcha. Só que Eanes comete
um erro fatal: impor um candidato sem negociar com os
camaradas.
Apesar
do empenho pessoal do Presidente, a candidatura de Costa Braz não arranca. As rivalidades internas no PRD e no círculo de
militares que rodeiam Eanes paralisam tudo. Costa Braz vê-se a braços como
uma protocandidatura que não consegue arranjar sedes, dinheiro, meios técnicos
e estruturas para a campanha. É o primeiro a perceber que está condenado e resta-lhe
a única decisão racional: sair de cena antes que seja demasiado tarde. Eanes,
que tinha descartado uma candidata natural e uma mulher de inteira confiança,
fica agora sem a alternativa que desejava.
Precisa de um plano B. Ou melhor: precisa
de um plano Z.
A candidatura de Zenha foi uma enorme
surpresa.
Apresentou-se ao país como o candidato que vinha para combater
"uma democracia achacada por vários vícios, como o clientelismo, a
irresponsabilidade, a corrupção, o centralismo, a desigualdade perante a lei, a
injustiça social e a miséria".
Prometeu dar uma “nova República”
e uma “nova democracia” ao país. Acabou
por mudar por completo a dinâmica damcorrida.
A surpresa chamada Zenha
ACACIO FRANCO / LUSA
Quando ouve os primeiros rumores, Mário Soares não
quer acreditar. Acha impossível que o seu antigo número dois seja
verdadeiramente capaz de se candidatar à Presidência da República e de
enfrentar o partido que tinha ajudado a fundar. É verdade que a relação entre os dois já conheceu
melhores dias. Os últimos anos ficaram marcados por um distanciamento
progressivo. Mas não deixa de considerar como irmão o homem que escolheu para
ser padrinho da sua filha,
Isabel Soares. É-lhe impossível considerar a hipótese de o ter de enfrentar. Até faz
uma aposta com a mulher: Soares diz que só pode ser mentira, Maria de Jesus
Barroso acredita que vai mesmo acontecer. Estava certa.
[O que realmente se passou nas eleições
presidenciais de 1986, as primeiras e únicas decididas a duas voltas? Uma
história de truques sujos, acordos secretos, agressões e dúvida até ao fim. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador. Uma série
narrada pelo actor Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel
Úria. Ouça o primeiro episódio nosite do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Quando desce da suíte 708 do Hotel Tivoli, em Lisboa, Francisco
Salgado Zenha sabe
bem o que quer dizer ao país. É verdade que é o último dos candidatos a entrar na corrida e que isso
lhe cria naturais dificuldades. Só está a mostrar-se ao país a 15 de novembro de 1985, a pouco mais de três meses das eleições, quando os
adversários já têm milhares de quilómetros de rodagem. Mas Zenha sabe como causar impacto. Apresenta-se como o candidato
que vem para combater “uma democracia achacada por vários vícios, como o
clientelismo, a irresponsabilidade, a corrupção, o centralismo, a desigualdade
perante a lei, a injustiça social e a miséria”. Promete dar uma “nova
República” e uma “nova democracia”
ao país. Na sala, o friso de apoiantes impõe respeito.
O eanismo
assiste a tudo nas primeiras filas. Melo Antunes, Henrique de Barros, Miguel Galvão Teles e Joaquim Letria, que
será porta-voz da campanha, todos homens do Presidente da República, mostram de
que lado estão. Os socialistas António Arnaut e Aquilino Ribeiro Machado não faltam à chamada. E até Luísa Guterres, mulher do futuro primeiro-ministro, o mesmo com quem Zenha tinha
conspirado contra Soares no famoso sótão de Algés, marca presença.
O PCP não envia qualquer dirigente, mas dá um sinal
suficientemente inequívoco para que toda a gente perceba de que lado está o
partido: José Saramago e Urbano Tavares Rodrigues, dois dos grandes
intelectuais do PCP, são convidados de honra de Zenha. Não há
enganos: o PRD, o PCP e uma parte importante do Partido Socialista querem Francisco Salgado Zenha a Presidente. Juntos, os dois partidos
representam quase 2 milhões de portugueses. São cerca de 33% dos votos potenciais.
Com a entrada em cena de um novo nome, passam a
existir três candidatos à esquerda: Maria de Lourdes
Pintasilgo, Mário Soares e agora Salgado Zenha. Além de ser uma luta política, torna-se uma luta profundamente pessoal. Pintasilgo vai sentir-se enganada por
Salgado Zenha. Tinha-lhe proposto uma aliança sem saber que ele já tinha
um plano em marcha. Mas
vai responsabilizar sobretudo Álvaro Cunhal, com quem tinha um relação de
alguma proximidade e afinidade ideológica, e, sobretudo, António Ramalho Eanes,
de quem esperava, no mínimo, neutralidade. Nunca esquecerá a”traição” do Presidente da República.
Mário Soares
sentir-se-á igualmente traído por
Francisco Salgado Zenha. Nunca esperou que fosse capaz
de se aliar aos seus maiores adversários políticos — Cunhal e Eanes — para
o derrotar. A perspectiva de ter de o enfrentar numa campanha necessariamente
fratricida atormenta-o pessoal e politicamente.
Se a passagem à segunda volta já era difícil com Maria de Lourdes Pintasilgo na
corrida, com Zenha como adversário, e tendo o apoio evidente do PRD e do PCP,
torna-se virtualmente impossível.
A candidatura de Zenha, com a bênção de Eanes e Cunhal, vai alterar,
inclusivamente, a própria dinâmica da campanha. Freitas terá de enfrentar
um homem que o acusa de ser o candidato da “União Nacional” e um perigo para a
democracia. Pintasilgo, sem os votos do eanismo e altamente pressionada pelos
comunistas, que a vão combater ferozmente, terá de encontrar formas
de manter viva a sua candidatura. E Soares vai tomar uma decisão que
se tornará determinante para a história destas eleições de 86: fará campanha em
nome da esquerda democrática contra a esquerda totalitária.
COMENTÁRIOS:
Novo Assinante: Dois dos quatro fundadores da primeira e única
democracia portuguesa, iniciada no dia 25 de Abril 1974, a quem o país tanto
deve. Que restem em paz.
Pertinaz: Dois xuxas…
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