Putin, Gaza, Trump e as lentes com que lemos o mundo
Compreender é sempre um acto de
visão. Cada época constrói as suas lentes. As nossas, temo, estão partidas.
Basta ligar a televisão: dezenas de especialistas a “verem” coisas opostas no
mesmo cenário.
JOSÉ
ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO
OBSERVADOR, 23 out. 2025, 00:1616
Há ideias que funcionam como
instrumentos ópticos do espírito. Usamo-las e, através delas, vemos o mundo.
Claude
Lévi-Strauss, o
antropólogo que descobriu que o selvagem e o civilizado têm a mesma estrutura
mental, dizia que, para interpretar o mundo, uma época, uma nação ou uma
guerra, é preciso usar uns óculos especiais. Não falava
de vidro e armação, mas de uma metáfora: a teoria como instrumento de visão e prótese da mente. O homem sem
teoria sobre a realidade é como o míope que confunde vultos com demónios;
reage, mas não compreende.
Estes óculos, dizia Lévi-Strauss, são
indispensáveis, mas distorcem. Toda a lente é também um véu. E o drama contemporâneo consiste talvez
nisto: já não sabemos que lentes usar.
O excesso de imagens, o rumor
incessante das redes, a saturação de notícias e de interpretações, tudo nos
ofusca e baralha. O homem actual não é cego: é deslumbrado. Vive numa feira de
ópticas: tem muitas lentes e não sabe qual usar
A ideia de ler o presente
através de uma lente não é nova. Em meados do século XIX, ALEXIS DE TOCQUEVILLE via a história como um
rio de democracia: lento, majestoso, inevitável. KARL
MARX, mais impaciente, via o mesmo
panorama através de um outro cristal: um rio de
sangue proletário, destinado a purificar o mundo. A revolução proletária,
inelutável, que dissolveria as classes e instauraria a justiça.
Durante dois séculos, sucessivas
gerações olharam e “compreenderam” o mundo através dessas lentes. Com elas
fizeram guerras, revoluções, tratados e telenovelas políticas. Estarão gastas?
Ter-se-ão partido sem que déssemos por isso?
No
fim do séc. XX, SAMUEL HUNTINGTON apresentou um novo par de óculos: o mundo como um mosaico de
civilizações em atrito, a ranger nas fronteiras das suas placas tectónicas. Foi, talvez, o último a tentar um olhar panorâmico.
Parecia um geólogo com alma de profeta. Mas as suas lentes foram rejeitadas por
muitos. Zapatero, Erdogan, Jorge Sampaio, etc. Depois dele, regressámos à fragmentação,
à miopia, ao microscópio das redes sociais. Hoje, temos numerosos míopes e falar
como se tivessem telescópios.
E nos laboratórios académicos da
actualidade, voltou uma moda vintage: os óculos
de Carl Schmitt, fabricados nos anos trinta, com ares de militar e cheiro a
pólvora. A sua
biografia, de sombra espessa, não apaga a lucidez desconfortável das suas
ideias. Schmitt dizia que a política não é o debate entre
direita e esquerda, mas o confronto entre amigo e inimigo. As colectividades só se unificam quando se reconhecem
contra alguém. Não há sociedade sem ódio partilhado, nem povo sem inimigo. O cimento
da política não é o amor, mas a hostilidade organizada.
A fórmula é brutal, mas tem poder
explicativo. Mourinho e
Pinto da Costa compreenderam
isto sem nunca lerem Schmitt: nenhuma equipa prospera sem adversário odiado. Os
extremos, na política, vivem da hostilidade a tudo o que detestam.
O mesmo sucede às nações. Portugal nasceu contra o mouro, contra o castelhano e,
às vezes, contra si próprio. Até a ideia de “palestiniano”, inexistente há meio
século, floresceu da oposição a Israel. Nada une mais do que o outro.
Olhemos Putin. O seu programa
não é apenas a reciclagem de uma velha doutrina geopolítica, é sobretudo um
reflexo imperial: reforçar o poder, unificar as hostes e definir o
inimigo. Putin é schmittiano
por instinto e desagua tranquilamente nas lentes de Huntington: o inimigo é o
Ocidente encarnado, na circunstância presente, pela Ucrânia. Essa designação
anestesia o povo. Produz coesão, obediência, fé.
Xi Jinping repete, em mandarim, o mesmo guião: o
Ocidente como ameaça, a dissidência como traição. Schmitt sorri do
túmulo: tinha razão.
Mesmo Trump, que dificilmente terá lido uma linha de
filosofia política, age como se tivesse nascido schmittiano. O seu programa é uma lista telefónica de inimigos nomeados. O inimigo
é o eixo do seu pensamento. E resulta.
Na Europa, velha e tonta senhora, à deriva entre o enfarte woke, a
amnésia liberal, e as memórias de antigos faustos, permanece a ideia da
democracia liberal, que Schmitt julgava arcaica, porque hesitante. O parlamentarismo, dizia ele, é uma conversa prolongada enquanto o mundo arde. A última
performance da orquestra do Titanic. A sua crítica tinha uma lucidez sinistra:
num mundo em convulsão, o poder que
discute é devorado pelo poder que decide e age.
Se
Schmitt tem razão, ou parte dela, a velha dicotomia direita e esquerda é já arqueologia
política. A verdadeira escolha é entre duas formas de
organizar a energia humana: a que
precisa de um inimigo e a que procura um projecto comum. A primeira é eficiente; a segunda é civilizada. Por isso, talvez, o liberalismo pareça
frágil: não sabe odiar com método e não identifica prontamente o inimigo
É verdade que a história confrontou Schmitt com uma
refutação tardia. Foram as democracias liberais (os Estados Unidos, a
Europa Ocidental) que, com o velho parlamentarismo e o tédio das assembleias,
venceram os impérios totalitários. Foi um triunfo lento, inseguro e talvez efémero, mas um triunfo. O
liberalismo, que parecia condenado, acabou por derrotar o seu inimigo não
porque o designou, mas porque o entendeu. Porque usou as lentes adequadas.
Os liberais, ingénuos crónicos, acreditaram durante
demasiado tempo que se podia negociar com monstros, até compreenderem que era
preciso lutar. Hoje repetem o
mesmo erro com Putin, com o islamismo político e talvez com o Celeste Império.
Schmitt pode ter-se enganado no fim da história, mas raramente se engana no
princípio.
Voltemos, então, a Lévi-Strauss. É preciso pois usar óculos, mas saber quais.
Precisamos de lentes mais subtis, mais complexas, que nos permitam ver
o outro sem o transformar numa caricatura, como alguém que compreende o poder
de modo diverso: não como relação, mas como domínio.
Ler
Schmitt é como ler Maquiavel: perigoso, mas indispensável. Maquiavel ensinou os príncipes a governar sem culpa e
os súbditos a desconfiar sem esperança. Rousseau
viu nele, paradoxalmente, um democrata que advertia o povo contra os príncipes. Talvez Schmitt mereça igual paradoxo: o maior inimigo
da sua própria teoria.
No fim, compreender
é sempre um acto de visão. E
cada época constrói as suas lentes. As
nossas, temo, estão partidas. Basta
ligar a televisão: dezenas de especialistas a “verem” coisas opostas no mesmo
cenário.
O
problema do nosso tempo não é a falta de visão: é o excesso de olhares. Cada um
construiu o seu universo a partir das suas lentes e chama-lhe verdade. E a
verdade é simples, quase vulgar: quem não vê com as lentes certas, está
perdido, e arrasta o mundo consigo.
FILOSOFIA
POLÍTICA POLÍTICA TELEVISÃO MEDIA SOCIEDADE GUERRA CONFLITOS MUNDO
COMENTÁRIOS (de 100)
José B Dias > Jose Carmo: Vejo que tem seguidores que partilham o seu
desconforto com opiniões que não a sua ... a censura é o resultado certo! José B Dias > Antonio Rodrigues: Já o fui há muitos anos e há muitos anos que o deixei
de ser ... e a gota de água foi a direcção do caderno de economia pela actual
presidente da RTP e antigo presidente da Lusa. A sabujice em Portugal rende! E a veia denunciante e
censória ainda hoje parece fazer escola ... Em moderação (ver regras da comunidade) José B Dias > Jose Carmo: E o mais curioso é o facto de, com ou sem as
"lentes certas", o aqui cronista parece não se aperceber ... PS: suscitam-se-me também duas questões: quem e como
estabelece qual a efectivamente correcta "graduação das lentes" -
atendendo a que nunca nenhuma ideologia ou religião se assumiu senão como a que
providenciava as "lentes certas"
- e como é que a democracia e a liberdade se coadunam com a limitação dos
"olhares" que não são outra coisa senão perspectivas e opiniões? Fica pois a ideia de que o cronista é um claro
apologista da ortodoxia dogmática e da consequente imposição das "lentes
certas" por aqueles que restringiram os diversos "olhares" a
apenas um, o oficialmente sancionado. Onde
é mesmo que já vimos e vemos isto no mundo? Em moderação (ver regras da comunidade) José B Dias > Jose Carmo: Nenhum regime ditatorial /totalitário ou qualquer
teocracia iriam alterar uma vírgula no seu texto ... Apreciei sobremaneira o pormenor da "estrutura
psicológica normal" ... mais uma vez os sistemas de "saúde
mental" dos regimes totalitários lhe prestariam, sem hesitar, os seus mais
respeitosos agradecimentos pelo reconhecimento de que quem não pensa como é
suposto só pode estar doente 😉 É que assim é
mesmo muito fácil como já ficou muitas vezes provado ... e veja-se o medo que
existe de ser visto a não sinalizar virtudes! Em moderação (ver regras da comunidade) José B Dias > Jose Carmo: Quando num grupo humano um número significativo de
indivíduos é hostil ao grupo ... o regime muda e o grupo permanece com outra
dinâmica e princípios fundadores! Se
tiver alguma dúvida revisite os processos revolucionários começando pela
Independência norte-americana, passando pelas revoluções inglesa, francesa e
russa e acabando nos 25 de Abril e de Novembro em Portugal. Não são e nunca foram as maiorias que mudaram o rumo
das sociedades ... Em moderação
(ver regras da comunidade) Carlos Costa: Embora tenha razão em muita matéria... Esse não é o tal que afirmou na TV que não havia fome
em Gaza?! Crtica tudo e todos, menos a si próprio.
José B Dias > Pedro Fernando: E o mais curioso é o facto de, com ou sem as
"lentes certas", o aqui cronista parece não se aperceber ... PS: suscitam-se-me também duas questões: quem e como
estabelece qual a efectivamente correcta "graduação das lentes" -
atendendo a que nunca nenhuma ideologia ou religião se assumiu senão como a que
providenciava as "lentes certas" - e como é que a democracia e a
liberdade se coadunam com a limitação dos "olhares" que não são outra
coisa senão perspectivas e opiniões? Fica
pois a ideia de que o cronista é um claro apologista da ortodoxia dogmática e
da consequente imposição das "lentes certas" por aqueles que
restringiram os diversos "olhares" a apenas um, o oficialmente
sancionado. Onde é
mesmo que já vimos e vemos isto no mundo? José B Dias > Nuno Pinho: Não partilho da sua opinião ... e mesmo que o debate
por aí faltasse ainda assim, seria incomensuravelmente mais que o que os
"amantes da liberdade na Ucrânia" por aqui praticam com a sistemática
denúncia do que os incomoda!
(CONTINUA)
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