segunda-feira, 6 de outubro de 2025

É isso!


“Pouco lhe importa a opinião alheia”. Um pobre herói condizente, talvez, com o espaço terreno do seu – e nosso -actual encaixe, em exibição de um posicionamento paralelo, afinal, ao dos vitoriosos da tal flotilha. Mas já o derrotado Camões traçara o caminho derrotista desse nosso estofo espiritual, de “apagada e vil tristeza” generalizado hoje, a uma sórdida banalidade exibicionista, buscadora, todavia, do reconhecimento alheio, como a perfeitamente descrita por JOÃO TIAGO PROENÇA», que não só, todavia, MRS protagoniza, ai de nós:

Uma desgraça

Talvez Marcelo tenha assegurado os votos necessários, mas os países que votarem em Portugal atirar-lhe-ão o lugar no Conselho de Segurança como quem atira um osso a um cão faminto e servil.

JOÃO TIAGO PROENÇA, Crítico

OBSERVADOR, 06 out. 2025, 00:141

O Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa discursou na Assembleia Geral das Nações Unidas. Não foi bem um discurso. Tratou-se antes de uma acção de campanha eleitoral. Portugal candidatou-se a um mandato de membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Bem ensaiado, Marcelo desfiou o rosário das qualidades portuguesas. Enalteceu as capacidades de diálogo, louvou a prática da mediação, gabou a construção de pontes entre culturas e povos, teceu loas ao multilateralismo e, nunca pode faltar, falou do mar. De caminho, picou o ponto quanto à língua, referiu a CPLP e anexou a América Latina, de que, garantiu no seu tão querido nível dos afectos, nos sentimos irmãos. Vulpino, falou ainda dos impérios e da sua efemeridade, e bateu no peito e especificou apenas os coloniais e europeus; discretamente, para os destinatários acolherem com ingenuidade natural e inclinação benevolente a confissão do mal, julgando-se inocentes – lisonja bem arrebicada. A todos se deu, à espera da paga em votos.

Fez praça do dom de línguas e falou em português, inglês, francês e espanhol. África e América já somam muitos votos. Mas eram precisos mais uns quantos. A coreografia progride e Marcelo lança a rede outra vez. Marcelo fala da paz e Marcelo fala da guerra. E dá o passo fatal e canalha. Invoca o reconhecimento do Estado da Palestina por Portugal. Afinal foi para isto.

Em conluio com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel (se com o Primeiro-Ministro ou não, ficar-se-á a saber quando Rangel for demitido – ou não for… até lá sobram dois comunicados contraditórios), o plano estava traçado: arrebanhar mais uns votos. Marcelo não hesita no cumprimento da táctica e prossegue com a intrujice. Atira a pedra e esconde a mão. Avança com o cessar-fogo, a libertação dos reféns e a assistência humanitária. A ordem não é aleatória. Subscreve assim a hierarquia estabelecida pela propaganda do Hamas, meticulosamente organizada e executada. O cessar-fogo vem em primeiro lugar para tornar a tomada dos reféns um acto de resposta, de resistência, um acto resultante de um conflito iniciado anteriormente. Desta maneira exime-se o Hamas da iniciativa da agressão e simula-se equidistância entre as partes. Isto para começar. Em seguida, a tomada dos reféns passa já por uma desesperada operação de defesa, o que – continua o raciocínio implícito posto em circulação pela organização terrorista – não é difícil de provar, basta apontar para a disparidade das forças no terreno, onde o Hamas filma e divulga o que quer e como quer, com a cumplicidade de muitos meios de comunicação social no Ocidente. Desta forma matam-se dois coelhos de uma cajadada só: Israel é o agressor, e essa agressão é um genocídio − cá esta ele, sempre ele, o genocídio. A monstruosidade da coisa é inequívoca; não faz mal, rende votos.

Poder-se-ia pensar que Marcelo, ardiloso, julga ludibriar toda a gente. Um erro. Marcelo sabe que não ilude ninguém, mas segue à risca o esquema orquestrado para não expor o flanco: nada lhe poderá ser formalmente censurado. Obedece à letra para melhor trair o espírito. Significa isso que já pouco lhe importa a opinião alheia, perdeu todo o pudor no espectáculo. Não olha a meios para alcançar os fins que crê serem os do país: o lugar no Conselho de Segurança.  Mas engana-se. Mostrou a venalidade do processo: o que tem preço não tem valor. Com o reconhecimento do Estado da Palestina no decurso de uma guerra iniciada por um grupo terrorista com actos da mais pura barbárie contra militares e civis, e ao não fazer da libertação dos reféns a condição primeira de um cessar-fogo, Portugal atraiçoou os princípios que afirma defender e que justificariam o bem fundado da sua candidatura a membro do Conselho de Segurança – e, imprudente, atraiçoou aliados. Talvez Marcelo Rebelo de Sousa tenha assegurado os votos necessários, mas os países que votarem em Portugal atirar-lhe-ão o lugar no Conselho como quem atira um osso a um cão faminto e servil, a que depois se dá um pontapé. Ficaram a saber que a voz de Portugal é a de quem dá mais. Toda a farsa terá servido exclusivamente para alimentar um délire de grandeur que se exibirá no palco do mundo. O Presidente da República Portuguesa compactuou com isto – rasca, tornou rasca o país; inútil, apostou tudo a troco de nada.

MARCELO REBELO DE SOUSA      PRESIDENTE DA REPÚBLICA      POLÍTICA      NAÇÕES UNIDAS      MUNDO

COMENTÁRIOS

Jorge Barbosa: Excelente artigo. Pois. MRS sempre assim foi. O seu único ideal nunca foi, é ou será, servir. Acontece que a sua alegada inteligência poderá ter sido brilhante mas o que é um facto é que ela não deu para chegar a ser um estadista. MRS passará à história como esperto e hábil, mas também como um patológico narcisista, com uma personalidade forjada designadamente por gaffes.

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