“Pouco
lhe importa a opinião alheia”. Um pobre herói condizente, talvez, com o
espaço terreno do seu – e nosso -actual encaixe, em exibição de um
posicionamento paralelo, afinal, ao dos vitoriosos da tal flotilha. Mas já o
derrotado Camões traçara o caminho derrotista desse nosso estofo espiritual, de
“apagada e vil tristeza” generalizado
hoje, a uma sórdida banalidade exibicionista, buscadora, todavia, do
reconhecimento alheio, como a perfeitamente descrita por
JOÃO
TIAGO PROENÇA», que não só, todavia, MRS
protagoniza, ai de nós:
Uma desgraça
Talvez Marcelo tenha assegurado os
votos necessários, mas os países que votarem em Portugal atirar-lhe-ão o lugar
no Conselho de Segurança como quem atira um osso a um cão faminto e servil.
OBSERVADOR, 06 out. 2025, 00:141
O Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa discursou na Assembleia Geral das Nações
Unidas. Não foi bem um discurso. Tratou-se antes de uma acção de
campanha eleitoral. Portugal candidatou-se a um mandato de membro não
permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Bem ensaiado, Marcelo desfiou o rosário
das qualidades portuguesas. Enalteceu as capacidades de diálogo, louvou a
prática da mediação, gabou a construção de pontes entre culturas e povos, teceu
loas ao multilateralismo e, nunca pode faltar, falou do mar. De caminho, picou o ponto quanto à
língua, referiu a CPLP e anexou a América Latina, de que, garantiu no seu tão
querido nível dos afectos, nos sentimos irmãos. Vulpino, falou ainda dos impérios e da sua efemeridade, e bateu no
peito e especificou apenas os coloniais e europeus; discretamente, para os destinatários
acolherem com ingenuidade natural e inclinação benevolente a confissão do mal,
julgando-se inocentes – lisonja bem arrebicada. A todos se deu, à espera
da paga em votos.
Fez praça do dom de línguas e falou
em português, inglês, francês e espanhol. África e América já somam muitos
votos. Mas eram precisos mais uns quantos. A coreografia
progride e Marcelo lança a rede outra vez. Marcelo fala da paz e Marcelo
fala da guerra. E dá o passo fatal
e canalha. Invoca o
reconhecimento do Estado da Palestina por Portugal. Afinal foi para isto.
Em conluio com o ministro dos Negócios
Estrangeiros, Paulo Rangel (se com o Primeiro-Ministro ou não, ficar-se-á a
saber quando Rangel for demitido – ou não for… até lá sobram dois
comunicados contraditórios), o
plano estava traçado: arrebanhar mais uns votos. Marcelo não hesita no cumprimento da táctica
e prossegue com a intrujice. Atira a pedra e esconde a mão. Avança com o
cessar-fogo, a libertação dos reféns e a assistência humanitária. A ordem
não é aleatória. Subscreve assim a hierarquia estabelecida pela propaganda do
Hamas, meticulosamente organizada e executada. O cessar-fogo vem em primeiro lugar para tornar a
tomada dos reféns um acto de resposta, de resistência, um acto resultante de um
conflito iniciado anteriormente. Desta maneira exime-se o Hamas da
iniciativa da agressão e simula-se equidistância entre as partes. Isto para começar. Em seguida, a tomada dos reféns passa já por uma desesperada
operação de defesa, o que – continua o raciocínio implícito posto em circulação
pela organização terrorista – não é difícil de provar, basta apontar para a
disparidade das forças no terreno, onde o Hamas filma e divulga o que quer e
como quer, com a cumplicidade de muitos meios de comunicação social no
Ocidente. Desta forma matam-se dois coelhos de uma cajadada só: Israel é
o agressor, e essa agressão é um genocídio − cá esta ele, sempre ele, o
genocídio. A monstruosidade da coisa é inequívoca; não faz mal, rende votos.
Poder-se-ia pensar que Marcelo, ardiloso, julga ludibriar toda a
gente. Um erro. Marcelo sabe que não ilude ninguém, mas segue à risca o esquema
orquestrado para não expor o flanco: nada lhe poderá ser formalmente censurado.
Obedece à letra para melhor trair o espírito. Significa
isso que já pouco lhe importa a opinião alheia, perdeu todo o pudor no
espectáculo. Não olha a meios para alcançar os fins que crê serem
os do país: o lugar no Conselho de Segurança. Mas engana-se. Mostrou a
venalidade do processo: o que tem preço não tem valor. Com o reconhecimento do
Estado da Palestina no decurso de uma guerra iniciada por um grupo terrorista
com actos da mais pura barbárie contra militares e civis, e ao não fazer da
libertação dos reféns a condição primeira de um cessar-fogo, Portugal atraiçoou
os princípios que afirma defender e que justificariam o bem fundado da sua
candidatura a membro do Conselho de Segurança – e, imprudente, atraiçoou
aliados. Talvez Marcelo Rebelo de Sousa tenha assegurado os votos necessários,
mas os países que votarem em Portugal atirar-lhe-ão o lugar no Conselho como
quem atira um osso a um cão faminto e servil, a que depois se dá um pontapé.
Ficaram a saber que a voz de Portugal é a de quem dá mais. Toda a farsa terá
servido exclusivamente para alimentar um délire de grandeur que se exibirá no palco do mundo. O Presidente da
República Portuguesa compactuou com isto – rasca, tornou rasca o país; inútil,
apostou tudo a troco de nada.
MARCELO
REBELO DE SOUSA PRESIDENTE DA
REPÚBLICA POLÍTICA NAÇÕES UNIDAS MUNDO
COMENTÁRIOS
Jorge Barbosa: Excelente artigo. Pois. MRS sempre assim foi. O seu único ideal nunca foi, é ou será, servir. Acontece que a sua alegada inteligência poderá ter sido brilhante mas o que é um facto é que ela não deu para chegar a ser um estadista. MRS passará à história como esperto e hábil, mas também como um patológico narcisista, com uma personalidade forjada designadamente por gaffes.
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