Traz abertura. E indiferença, também. E aproveitamentos. E espantos. E sobressaltos.
Mas os sorrisos não faltam, de espécie vária, caricatos alguns. Helena Garrido
historia, com bom saber, tempos de agora, que vários comentadores analisam,
para o prazer dos que os lêem..
A Europa entre flotilhas, drones e Trump
Sob ataque em todas as frentes, a
Leste, Oeste e Sul, dividida e desestabilizada internamente, a União Europeia
enfrenta um dos mais graves testes à sua sobrevivência.
HELENA GARRIDO Colunista
OBSERVADOR, 07
out. 2025, 00:222
A
Hungria não deve adoptar o euro uma vez que a União Europeia se está a
desintegrar e o país não deve ligar o seu destino ao bloco europeu. As
palavras são do primeiro-ministro húngaro VIKTOR ORBAN aqui citadas pela Reuters. Independentemente das opiniões que
tenhamos sobre Orban e o papel que pode estar também a ter nos problemas da UE,
a realidade é que a construção europeia vive hoje ameaças em todas as
frentes, não se mostrando capaz de as enfrentar, ou por falta de entendimento
político interno, ou por falta de ferramentas, nomeadamente ao nível da defesa,
ou ainda pelos interesses externos que pretendem desestabilizá-la. Com a agravante de um dos seus pilares, a
FRANÇA, parecer viver uma crise sem fim à vista, com a demissão
de mais um primeiro-ministro.
Tudo o que se passa a Leste, Oeste e
a Sul da Europa parece convergir para a sua desestabilização. A Oeste, por demais explorado, temos um presidente dos Estados Unidos que nos parece errático e em quem podemos confiar
muito pouco num eventual conflito a Leste com a Rússia.
Sabendo disso, a Rússia optou agora
pela “guerra cinzenta”, com caças MIG russos a entrarem no espaço aéreo da Estónia, ciberataques a infraestruturas como aeroportos, onde
vão aparecendo também drones, assim como drones a entrarem no espaço de países europeus como a
Alemanha, sobrevoando uma região onde existe uma central de electricidade, uma
refinaria e uma fábrica de produção de armas do grupo Thyssen, como se pode ler aqui citando
como fonte o Der Spiegel.
A Rússia nega obviamente e de forma dúbia que seja sua a autoria destas
iniciativas que desestabilizam as infra-estruturas europeias e lançam o medo
nos países da União Europeia, com espacial relevo para os mais activos na
defesa da Ucrânia. E do lado europeu a imagem de incapacidade é absoluta, com a última cimeira a aprovar mais um roteiro para a defesa
e a dar “amplo apoio” à aceleração da
tecnologia de drones. A própria cimeira, mostrando como os tempos são
outros, teve um inédito dispositivo de segurança, com um navio de guerra
alemão em águas da Dinamarca, helicópteros franceses e ajuda de equipamentos
suecos para bloquear frequências.
Perante isto, a União Europeia está bloqueada, sem capacidade de
decidir em conjunto. O que é um
convite a que cada um comece a tratar da sua vida ou, na melhor das hipóteses,
a actuarem em grupos de países de geometria variável. Mas enquanto
nada acontece estamos expostos à ameaça que vem da Rússia, uma espécie de terrorismo da era
tecnológica, e que é capaz de desestabilizar a nossa vida em comunidade.
A Sul a esperança tem de estar no
sucesso do plano de paz de Trump, porque também dali sopram ventos de desestabilização dos países europeus.
Olhemos para o caso da flotilha
que ia levar ajuda humanitária a Gaza. Se avaliarmos as acções pelas suas
consequências, o que essa iniciativa produziu realmente foram manifestações nos
países europeus, com algum grau de agressividade no Reino Unido, em Itália e
até em Portugal.
O apoio ao povo palestiniano, que
estes movimentos em geral pretendem separar do apoio ao Hamas, tem sido, na
prática, mais um elemento de desestabilização das democracias europeias. A vida dos palestinianos em nada
melhorou, não é um contributo para a paz e a imagem com que ficamos é que os
horríveis acontecimentos de 7 de Outubro – que aconteceu há dois anos – são
desculpabilizados. O pecado original está no que fez o Hamas,
expondo o seu povo a uma guerra que é sempre injusta e terrível para os mais
desprotegidos. Estamos,
consciente ou inconscientemente, a dar ao Hamas o poder de desestabilizar as
democracias europeias.
Finalmente o outro lado do Atlântico,
que acaba por ser onde podem estar as nossas maiores esperanças. Donald Trump é errático, gosta de ser adorado e tão depressa é isolacionista como
não é. Na tentativa de dar uma racionalidade ao que diz e faz, vale a
pena olhar para o que se está a passar com o apoio dos Estados Unidos à
Argentina de Javier Milei, e como isso dá sinais de mudança em relação à
política europeia de ajuda externa. Aparentemente, e como se pode ler neste artigo da The
Economist, Trump parece querer entrar
numa estratégia mais à chinesa, retirando o poder que Pequim tem por causa dos
empréstimos que tem concedido a vários países.
A
esperança que nos resta a olhar para Oeste é que ainda não tenhamos percebido
bem a estratégia de Trump em relação à Europa, embora
quanto à União Europeia parece claro que pensa que foi construída para destruir
a América. Mas face à nossa incapacidade de decidir, essa é
ainda a nossa boia de salvação.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, disse que a Europa não está em
guerra, mas também já não está em paz. É
essa ameaça à paz que temos, desde a segunda guerra mundial, que pode
igualmente ser a nossa aliada para evitarmos a guerra. Mas não será
fácil, numa Europa já desestabilizada pela batuta de interesses externos. A
Europa da União sempre conseguiu ultrapassar as suas crises, o problema é que
desta vez pode mesmo ser diferente.
UNIÃO EUROPEIA EUROPA MUNDO RÚSSIA DONALD TRUMP ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA MÉDIO ORIENTE EXTREMISMO
SOCIEDADE
COMENTÁRIOS:
Rui Lima: A Europa está mal, mas ainda possui a empresa mais importante
do mundo a ASML, única e impossível de reproduzir, dado o seu avanço
tecnológico. Sem as suas máquinas, o mundo atrasar- se-ia. É o trunfo
tecnológico da Europa, e isso devemos à decisão de Trump em 2019; sem essa sua
iniciativa, a China já estaria no comando. A ASML opera com segurança NATO e
licencia suas máquinas ao preço de um grande avião. Hoje, se alguém quiser
tomar a Europa, será por esta empresa. A China quer invadir Taiwan por causa da
TSMC, 2.ª empresa mais importante do mundo, mas há um problema - ASML mantém o
poder de desligar as máquinas que licencia, ou seja, a segurança da ilha está
na Holanda. Falta mencionar a terceira
empresa mais importante do mundo: a Nvidia, nos EUA. A Europa não soube
aproveitar a oportunidade de ter a fábrica Alfa em todo o processo da
inteligência artificial, devido a leis e regulamentações restritivas. Uma pena
. Um dia a Europa será turismo e a ASML. António
Soares: A desgraça da Europa é o excesso de imigração, sobretudo a seguidora de
Maomé. Alexandre
Barreira: Pois. Caríssima Helena, Com o devido respeito. Com "mil perdões". Depois deste seu "relambório". No fundo o que V.Exª...quer
dizer: "É que iste tá mesme tude fedide".....!
Paulo Alves: A comunicação social também devia ser mencionada porque
tem muita culpa no actual estado de coisas. Hoje foi o dia em que Israel e os
seus cidadãos foram barbaramente assassinados por terroristas e ao ver as capas
de jornais fiquei estarrecido com o que transmitem, o JN parece ser mesmo um órgão
de comunicação do Hamas, com nenhuma referência ao que historicamente aconteceu
e usando a cartilha dos criminosos a repetir "genocídio" em caixa de
texto e a colocar uma imagem obviamente manipulada. Só o CM faz tímida alusão
ao que aconteceu, mas é mais importante "o Benfica" e um acidente
causado por um criminoso bêbado. Para termos jornalismo assim, mais valia
falirem e fecharem os jornais todos, parece que odeiam a nossa civilização e o
nosso modo de vida. António DuartePaulo Alves: Por mim subscrevo totalmente o
que diz e de compulsivo leitor de jornais passei a leitor do Observador
(premium) e de títulos gratuitos na net dos poucos que ainda se publicam (por
enquanto, pois cada vez mais vejo a Netflix e a HBO e um ou outro, poucos, muito
poucos, programas de actualidade na televisão e o Observador cada vez me agrada
menos). Manuel Gonçalves: A Europa está assim porque
renegou as suas origens. Carlos
Chaves: Caríssima Helena Garrida, excelente crónica esta a sua, só tenho pena do
pessimismo (mesmo que fundamentado), no epílogo da mesma: “A Europa da União sempre conseguiu ultrapassar as suas crises, o problema
é que desta vez pode mesmo ser diferente.” Também pode não ser, as
adversidades, tal como a história mostra, podem funcionar como aglutinadoras de
vontades na resolução desta enorme crise que nos afecta. Não esqueçamos é que
foram os partidos tradicionais de centro-esquerda e centro-direita, que nos
trouxeram até aqui! Américo Silva: A França continuará pelo declive iniciado em 68,
agravado pela perda importante de soberania a favor da união europeia contra
vontade dos franceses, sabotada pelos seus políticos e parceiros, e tudo isto
tem pouco que ver com imigração. GateKeeper > Américo Silva: Tem tudo a ver. Tem que descer
à Terra.
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