terça-feira, 7 de outubro de 2025

A modernidade


Traz abertura. E indiferença, também. E aproveitamentos. E espantos. E sobressaltos. Mas os sorrisos não faltam, de espécie vária, caricatos alguns. Helena Garrido historia, com bom saber, tempos de agora, que vários comentadores analisam, para o prazer dos que os lêem..

A Europa entre flotilhas, drones e Trump

Sob ataque em todas as frentes, a Leste, Oeste e Sul, dividida e desestabilizada internamente, a União Europeia enfrenta um dos mais graves testes à sua sobrevivência.

HELENA GARRIDO Colunista

OBSERVADOR, 07 out. 2025, 00:222

A Hungria não deve adoptar o euro uma vez que a União Europeia se está a desintegrar e o país não deve ligar o seu destino ao bloco europeu. As palavras são do primeiro-ministro húngaro VIKTOR ORBAN aqui citadas pela Reuters. Independentemente das opiniões que tenhamos sobre Orban e o papel que pode estar também a ter nos problemas da UE, a realidade é que a construção europeia vive hoje ameaças em todas as frentes, não se mostrando capaz de as enfrentar, ou por falta de entendimento político interno, ou por falta de ferramentas, nomeadamente ao nível da defesa, ou ainda pelos interesses externos que pretendem desestabilizá-la. Com a agravante de um dos seus pilares, a FRANÇA, parecer viver uma crise sem fim à vista, com a demissão de mais um primeiro-ministro.

Tudo o que se passa a Leste, Oeste e a Sul da Europa parece convergir para a sua desestabilização. A Oeste, por demais explorado, temos um presidente dos Estados Unidos que nos parece errático e em quem podemos confiar muito pouco num eventual conflito a Leste com a Rússia.

Sabendo disso, a Rússia optou agora pela “guerra cinzenta”, com caças MIG russos a entrarem no espaço aéreo da Estónia, ciberataques a infraestruturas como aeroportos, onde vão aparecendo também drones, assim como drones a entrarem no espaço de países europeus como a Alemanha, sobrevoando uma região onde existe uma central de electricidade, uma refinaria e uma fábrica de produção de armas do grupo Thyssen, como se pode ler aqui citando como fonte o Der Spiegel.

A Rússia nega obviamente e de forma dúbia que seja sua a autoria destas iniciativas que desestabilizam as infra-estruturas europeias e lançam o medo nos países da União Europeia, com espacial relevo para os mais activos na defesa da Ucrânia. E do lado europeu a imagem de incapacidade é absoluta, com a última cimeira a aprovar mais um roteiro para a defesa e a dar “amplo apoio” à aceleração da tecnologia de drones. A própria cimeira, mostrando como os tempos são outros, teve um inédito dispositivo de segurança, com um navio de guerra alemão em águas da Dinamarca, helicópteros franceses e ajuda de equipamentos suecos para bloquear frequências.

Perante isto, a União Europeia está bloqueada, sem capacidade de decidir em conjunto. O que é um convite a que cada um comece a tratar da sua vida ou, na melhor das hipóteses, a actuarem em grupos de países de geometria variável. Mas enquanto nada acontece estamos expostos à ameaça que vem da Rússia, uma espécie de terrorismo da era tecnológica, e que é capaz de desestabilizar a nossa vida em comunidade.

A Sul a esperança tem de estar no sucesso do plano de paz de Trump, porque também dali sopram ventos de desestabilização dos países europeus. Olhemos para o caso da flotilha que ia levar ajuda humanitária a Gaza. Se avaliarmos as acções pelas suas consequências, o que essa iniciativa produziu realmente foram manifestações nos países europeus, com algum grau de agressividade no Reino Unido, em Itália e até em Portugal.

O apoio ao povo palestiniano, que estes movimentos em geral pretendem separar do apoio ao Hamas, tem sido, na prática, mais um elemento de desestabilização das democracias europeias. A vida dos palestinianos em nada melhorou, não é um contributo para a paz e a imagem com que ficamos é que os horríveis acontecimentos de 7 de Outubro – que aconteceu há dois anos – são desculpabilizados. O pecado original está no que fez o Hamas, expondo o seu povo a uma guerra que é sempre injusta e terrível para os mais desprotegidos. Estamos, consciente ou inconscientemente, a dar ao Hamas o poder de desestabilizar as democracias europeias.

Finalmente o outro lado do Atlântico, que acaba por ser onde podem estar as nossas maiores esperanças. Donald Trump é errático, gosta de ser adorado e tão depressa é isolacionista como não é. Na tentativa de dar uma racionalidade ao que diz e faz, vale a pena olhar para o que se está a passar com o apoio dos Estados Unidos à Argentina de Javier Milei, e como isso dá sinais de mudança em relação à política europeia de ajuda externa. Aparentemente, e como se pode ler neste artigo da The Economist, Trump parece querer entrar numa estratégia mais à chinesa, retirando o poder que Pequim tem por causa dos empréstimos que tem concedido a vários países.

A esperança que nos resta a olhar para Oeste é que ainda não tenhamos percebido bem a estratégia de Trump em relação à Europa, embora quanto à União Europeia parece claro que pensa que foi construída para destruir a América. Mas face à nossa incapacidade de decidir, essa é ainda a nossa boia de salvação.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, disse que a Europa não está em guerra, mas também já não está em paz. É essa ameaça à paz que temos, desde a segunda guerra mundial, que pode igualmente ser a nossa aliada para evitarmos a guerra. Mas não será fácil, numa Europa já desestabilizada pela batuta de interesses externos. A Europa da União sempre conseguiu ultrapassar as suas crises, o problema é que desta vez pode mesmo ser diferente.

 

UNIÃO EUROPEIA      EUROPA      MUNDO      RÚSSIA      DONALD TRUMP      ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA      AMÉRICA      MÉDIO ORIENTE      EXTREMISMO      SOCIEDADE

COMENTÁRIOS:

Rui Lima: A Europa está mal, mas ainda possui a empresa mais importante do mundo a ASML, única e impossível de reproduzir, dado o seu avanço tecnológico. Sem as suas máquinas, o mundo atrasar- se-ia. É o trunfo tecnológico da Europa, e isso devemos à decisão de Trump em 2019; sem essa sua iniciativa, a China já estaria no comando. A ASML opera com segurança NATO e licencia suas máquinas ao preço de um grande avião. Hoje, se alguém quiser tomar a Europa, será por esta empresa. A China quer invadir Taiwan por causa da TSMC, 2.ª empresa mais importante do mundo, mas há um problema - ASML mantém o poder de desligar as máquinas que licencia, ou seja, a segurança da ilha está na Holanda. Falta mencionar a terceira empresa mais importante do mundo: a Nvidia, nos EUA. A Europa não soube aproveitar a oportunidade de ter a fábrica Alfa em todo o processo da inteligência artificial, devido a leis e regulamentações restritivas. Uma pena . Um dia a Europa será turismo e a ASML.                António Soares: A desgraça da Europa é o excesso de imigração, sobretudo a seguidora de Maomé.                      Alexandre Barreira: Pois. Caríssima Helena, Com o devido respeito. Com "mil perdões". Depois deste seu "relambório". No fundo o que V.Exª...quer dizer: "É que iste tá mesme tude fedide".....!                      Paulo Alves: A comunicação social também devia ser mencionada porque tem muita culpa no actual estado de coisas. Hoje foi o dia em que Israel e os seus cidadãos foram barbaramente assassinados por terroristas e ao ver as capas de jornais fiquei estarrecido com o que transmitem, o JN parece ser mesmo um órgão de comunicação do Hamas, com nenhuma referência ao que historicamente aconteceu e usando a cartilha dos criminosos a repetir "genocídio" em caixa de texto e a colocar uma imagem obviamente manipulada. Só o CM faz tímida alusão ao que aconteceu, mas é mais importante "o Benfica" e um acidente causado por um criminoso bêbado. Para termos jornalismo assim, mais valia falirem e fecharem os jornais todos, parece que odeiam a nossa civilização e o nosso modo de vida.      António DuartePaulo Alves: Por mim subscrevo totalmente o que diz e de compulsivo leitor de jornais passei a leitor do Observador (premium) e de títulos gratuitos na net dos poucos que ainda se publicam (por enquanto, pois cada vez mais vejo a Netflix e a HBO e um ou outro, poucos, muito poucos, programas de actualidade na televisão e o Observador cada vez me agrada menos).        Manuel Gonçalves: A Europa está assim porque renegou as suas origens.                   Carlos Chaves: Caríssima Helena Garrida, excelente crónica esta a sua, só tenho pena do pessimismo (mesmo que fundamentado), no epílogo da mesma:     “A Europa da União sempre conseguiu ultrapassar as suas crises, o problema é que desta vez pode mesmo ser diferente.” Também pode não ser, as adversidades, tal como a história mostra, podem funcionar como aglutinadoras de vontades na resolução desta enorme crise que nos afecta. Não esqueçamos é que foram os partidos tradicionais de centro-esquerda e centro-direita, que nos trouxeram até aqui!                      Américo Silva: A França continuará pelo declive iniciado em 68, agravado pela perda importante de soberania a favor da união europeia contra vontade dos franceses, sabotada pelos seus políticos e parceiros, e tudo isto tem pouco que ver com imigração.                GateKeeper > Américo Silva: Tem tudo a ver. Tem que descer à Terra.

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