Termina o mandato em descanso. De nós,
não seria de esperar senão isso, de resto. Para guerras, bastam-nos as do leste
europeu, a dar destaque aos meios de comunicação. “In pace” é como gostamos de requiescere,
pelo menos nestes tempos de agitações lá fora. As nossas guerras foram mais
dantes, sobretudo as com Castela e mesmo algumas internas para as datas marcantes
da nossa História ilustre, que aprendíamos na escola – da Independência, dos
Restauradores, da fundação de Portugal… mas preferíamos as datas mais amplas de
espaços achados, pelo mar fora – 1498, com a da chegada à Índia, 1500, ao
Brasil, e tantas outras, pelo meio, que decorávamos, ainda na infância, hoje
perdido o seu rasto, preferindo nós as datas mais simbólicas de dias especiais
como o da “Lavagem das Mãos”, segundo leio na Internet, no espanto de tão
extrema amplitude temporal para a tal lavagem. Mas o que interessa é que
Montenegro vá amparando as lavagens deste país em águas suficientemente claras,
como as do rio que ia correndo p’r’ó mar e parece que continua, que os rios não
nos abandonam assim, compreensivos que são, quanto às securas e às sujidades
ambientais…
Orçamento. Os vencedores, os vencidos e
o descansado
TEXTO de ALEXANDRA
MACHADO, MIGUEL PINHEIRO e RUI PEDRO
ANTUNES, ILUSTRAÇÃO de ANA MOREIRA
Montenegro foi vencedor impulsionado
pelo contexto, Miranda Sarmento nem por isso. Carneiro aprendeu com erros e
Ventura tornou-se dispensável. Tal como IL. Marcelo pode terminar mandato
descansado.
OBSERVADOR, 09 out. 2025, 21:379
OS VENCEDORES: LUÍS MONTENEGRO
O
primeiro-ministro teve a proeza de marcar as eleições autárquicas para o day after do
Orçamento, num timing que parecia aparentemente inocente.
Provavelmente, não era. Tenha sido ou não intencional, o que é certo, é que
não só consegue ter um Orçamento do Estado para 2026 em que distribui
dinheiro (o Complemento Solidário para Idosos aumenta, por exemplo) e baixa
impostos (o IRS, por exemplo) em vésperas de eleições. A Lei de Enquadramento Orçamental dava até sexta-feira, dia 10, para a
entrega, mas o Governo antecipou, fazendo com que as medidas (positivas para o
PSD) vivessem mais um dia no período de campanha eleitoral. A juntar a tudo
isto, tem praticamente a garantia de que o Orçamento para 2026 será aprovado
com relativa facilidade.
JOSÉ LUÍS CARNEIRO
Numa
altura em que o país parece estar farto de novelas orçamentais, o líder do PS
não teve problemas em dizer que o Governo correspondeu às exigências dos
socialistas (nas questões laborais, Lei de Bases da Saúde, Segurança Social e
ao deixar matérias fiscais fora do documento). E, como o
Executivo de Montenegro fez cedências, Carneiro garante que vai honrar a palavra e “contribuir para a
estabilidade”. Há um ano o seu antecessor, Pedro Nuno Santos, alimentou
longas negociações e depois acabou por viabilizar o OE. O processo foi
tão desgastante que o então líder do PS foi alvo de críticas internas e isso
nada lhe valeu na longevidade política: acabaria por perder uma segunda vez
para Luís Montenegro e protagonizar um resultado historicamente desastroso para
o PS. Com esta postura, deu
tranquilidade ao Governo, mas também à sua liderança. E ainda afastou a ideia de
o PS se transformar num mero partido de protesto que não conta.
NUNO MELO
Já se esperava que a Defesa viesse a ter
uma subida orçamental, até por via das obrigações estabelecidas ao abrigo dos
compromissos NATO. Claro que há muitas verbas de outros ministérios que podem
entrar no bolo para as contas NATO, mas Nuno
Melo, líder do
partido parceiro de coligação do PSD, consegue um acréscimo relevante no orçamento
da Defesa. E ainda tem
uma verba no orçamento das Finanças reservada relevante. Segundo Miranda Sarmento, há
1,2 mil milhões de euros na reserva das Finanças que podem ir para a Defesa. Muitos ministérios conseguiram
aumentar as suas verbas, mas Nuno Melo não se pode queixar. Um verdadeiro
porta-aviões.
Os vencidos
ANDRÉ VENTURA
André
Ventura é o líder da oposição. André Ventura é o presidente do partido que, no
domingo, mais deve crescer nas autárquicas. André Ventura é o mais temido
candidato das próximas presidenciais. Mas, neste Orçamento do Estado,
André Ventura vai valer tanto quanto a deputada Inês Sousa Real, do PAN, ou
quanto o deputado Filipe Sousa, do JPP. JOSÉ LUÍS CARNEIRO já
garantiu que contribuirá para a “estabilidade política”, o que quer dizer que o
PS assegurará que o Orçamento do Estado passa. Sendo assim, André Ventura pode espernear, pode berrar e pode exigir
— mas o governo só lhe dará aquilo que entender, se é que vai entender dar-lhe
alguma coisa. Até porque já se sabe o que o Chega quer: pretende
aumentar as despesas do Estado ao mesmo tempo que diminui a carga fiscal. Ou seja: quer magia.
JOAQUIM MIRANDA SARMENTO
Até
pode ser estranho o ministro das Finanças figurar como vencido, quando
apresentou um orçamento que comporta contas certas e sem agravamento de
impostos (até há desagravamento em alguns como no caso do IRS) e distribuição
de benesses a alguns públicos. Mas MIRANDA SARMENTO, que sempre
prometeu um orçamento simplex (com
menos medidas, que têm, no entender, e bem, de ser discutidas e aprovadas à
margem orçamental), deixa omissões significativas. Ao simplificar tanto, penaliza a
transparência no exercício. Não se sabe o que vai acontecer ao desconto fiscal no ISP, como vai
contornar o fim do adicional da banca, o que vai render a
privatização da TAP (dizendo o
ministro que não o revelava por haver negociações em curso), quanto vai receber de dividendos da Caixa
e de outras empresas públicas (já depois da publicação do artigo uma
fonte referiu ao Observador que corresponderia à CGD a totalidade dos mil
milhões inscritos como previsão de receita com dividendos de empresas do sector
financeiro incluídos num dos mapas), ou ainda quanto vai custar o IVA reduzido na habitação (que o
ministro justificou não poder quantificar
por estar ainda numa fase recuada de processo legislativo). Embora pela
amostra pareça, simplificação e transparência não são incompatíveis.
Mariana Leitão
A
Iniciativa Liberal concorre coligada com o PSD em dezenas de autarquias
pelo país fora, incluindo nas duas maiores cidades, mas depois não conta para o
totobola na hora de aprovar um dos documentos mais importantes para a
governação do País. Mariana Leitão demorou apenas algumas horas até
arrasar o documento (“pouco
ambicioso”, “não vai no sentido correcto”), em vez de procurar pontes que permitam à IL aprovar alterações na
especialidade. O PCP e o BE aproveitavam a especialidade como
ninguém no tempo da geringonça para conseguir aprovar propostas e ficar bem
vincada a paternidade das mesmas. A IL
diz que o mais importante são as ideias, mas não se consegue sentar à mesa com
o parceiro (no mínimo, autárquico) para materializar as suas propostas. Mariana Leitão diz que tem várias
propostas, no domínio fiscal, para tentar corrigir o Orçamento na
especialidade, mas, para já, não há nenhuma proposta dos liberais que esteja no
actual documento. No máximo, os liberais podem ficar contentes com a
descida de IRC. E pouco mais.
O descansado
MARCELO REBELO DE SOUSA
O
Presidente da República vai conseguir ter, aparentemente, um final de mandato
descansado. O actual chefe de Estado acabou por se tornar no
rei das dissoluções ao definir como regra: sem orçamento, há eleições. Neste caso não podia dissolver a AR (porque
faltam menos de seis meses para o fim do mandato), mas evita
deixar um país entregue aos duodécimos. A
crise orçamental poderia propiciar uma crise política — que daria um poder
quase discricionário ao sucessor do Presidente — o que assim é evitado.
Além disso, vê o PS a viabilizar um Orçamento de PSD e CDS, o que,
para Marcelo, é também um descanso. Há muito
que o Presidente se mostra preocupado com aproximações do PSD ao Chega.
Como o partido de Ventura se torna, neste caso, dispensável, o Presidente
pode respirar de alívio.
(Artigo actualizado no vencido Joaquim
Miranda Sarmento, com justificação da não inclusão de alguns valores no OE)
COMENTÁRIOS (de 9)
GateKeeper: " Fazer
todos os dias as mesmas coisas e esperar resultados diferentes é a melhor
definição da insanidade". Autor desconhecido e uma frase célebre, erroneamente
atribuída a Albert Einstein. observador
censurado > observador censurado: O programa estava a dar mas foi cancelado
a meio para se falar sobre Gaza/Hamas/Palestina. Qual é o interesse disto para
os contribuintes portugueses? Está tudo doido.
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