É o que dirá Trump nesse dia do prémio. Também
nós diremos felizes o mesmo, embora trocando o advérbio referente ao
destinatário, o lá em vez do cá, dependendo do referente emissor, é claro, mas igualmente
felizes ao pronunciá-la, a tal frase: “Já lá canta”, atentos e justos que somos
e mergulhados no prazer do reconhecimento pela justiça que por cá se pratica
ainda, graças sejam dadas a DEUS por tal, e aos HOMENS também, que são gente
justa na coisa dos prémios.
O plano de Trump, o Nobel e o estranho Estado da Palestina
Muito é complicado no conflito na
Palestina, mas é simples de perceber que, entre Trump e os activistas
marítimos, a paz em Gaza depende mais do primeiro do que dos segundos.
BRUNO CARDOSO REIS Historiador e especialista
em segurança internacional
OBSERVADOR, 03 out. 2025, 00:1613
Donald Trump não esconde que quer o
Prémio Nobel da Paz. É uma ambição legítima. Ela mostra também que a velha Europa ainda tem poder de atracção na
nova América trumpista, muito nacionalista, mas, apesar disso, aparentemente
desejosa de validação externa. Convinha, no entanto, que alguém
informasse Trump que o Comité Nobel é nomeado pelo Parlamento da Noruega, e
não há almoços grátis, nem prémios sem condições. É pouco provável que Trump obtenha o ambicionado Nobel se continuar
a ameaçar a Gronelândia ou se deixar a Ucrânia e vários outros países da Europa
à mercê do imperialismo russo. Isso viola a norma central da
Carta da ONU que ilegaliza a guerra de conquista, além de que a Dinamarca é um
país vizinho e amigo da Noruega, e esta última tem uma fronteira a norte com a
ameaçadora Rússia putinista. Veremos se
o Nobel será suficiente para evitar
uma retirada da garantia de segurança americana para a Europa Ocidental em que
tem assentado a ordem regional desde 1945.
E se terá a virtualidade de manter a Casa Branca empenhada em
usar o enorme poder económico e militar dos EUA para mediar e travar guerras.
A paz no Médio Oriente avançará
graças a Trump e o seu desejo de obter o prémio Nobel? Tenho mantido algum cepticismo quanto aos
múltiplos anúncios de cessar-fogo em Gaza, e tenho insistido que a Palestina é
só um dos focos de conflito numa região onde eles abundam. Este cepticismo
tem-se revelado geralmente acertado. Desta vez estamos a falar de um plano
muito mais ambicioso que pretende acabar com a guerra em Gaza e não de um mero
cessar-fogo. É um plano que, provavelmente, só um
presidente dos EUA impossível de acusar de ser hostil a Israel, como Trump, poderia fazer
o actual governo israelita aceitar. A ambição é
de saudar, até porque a situação dos reféns israelitas e dos civis em Gaza é
cada vez mais desesperada. Mas também significa que se trata de um
plano complexo, com muitas etapas e muitas frases equívocas. Isso seria
provavelmente inevitável, mas esta complexidade também significa que é vulnerável
a múltiplos problemas de interpretação e de implementação. É normal
ser-se a favor da paz, mas não ganhamos
nada em alimentar ilusões de que tudo está resolvido.
É especialmente bizarro e problemático
ver um plano de paz em que um
dos lados – o dos palestinianos – não esteve directamente envolvido.
Lembram-se do tal Estado da Palestina reconhecido por mais de 150
Estados? Aparentemente os negociadores deste plano é que não se
lembraram. A
Autoridade Palestiniana não parece ter tido um papel relevante na negociação, e
também não é garantido de forma clara que a sua independência virá a ser o
ponto final deste processo. Apesar disso, os mesmos Estados
que reconhecem esse suposto Estado da Palestina – de Portugal até à França, da
Turquia até à Indonésia e ao Brasil, apoiaram o plano. Deve ser extraordinário para quem levou
esta conversa a sério verificar que, dias depois de a Palestina ser reconhecida, com estrondo, em Nova
Iorque, como um Estado, por mais Estados do que nunca no passado, os líderes palestinianos estão,
hoje, mais marginalizados do que nunca em negociações cruciais para o seu
futuro.
Sou céptico de que o acordo como está
possa funcionar. Mas isso é irrelevante. O que é relevante é que teremos dois testes fundamentais da
viabilidade mínima do plano nos próximos dias e semanas. O primeiro é o da aceitação integral do texto pelo
que resta do Hamas e por outros actores palestinianos, bem como por todo o
governo de Israel. Começámos já a ouvir rumores de que ambos os lados querem mais garantias ou
mais revisões. Se esta dificuldade inicial for ultrapassada teremos de ver
se a primeira fase concreta do plano será efectivamente cumprida, nomeadamente
a libertação de reféns israelitas e prisioneiros palestinianos. Se estes importantes obstáculos iniciais
foram ultrapassados, começam outros mais difíceis. Como se
garantirá o desarmamento de uma força irregular como o Hamas? Quem irá arriscar
enviar tropas para o terreno? Trump irá manter-se envolvido caso surjam
dificuldades sérias? Quem pagará a tarefa colossal de limpeza, reconstrução,
criação de emprego em Gaza? As
monarquias do Golfo têm, potencialmente, milhares de milhões de petrodólares
disponíveis, mas irão abrir os cordões à bolsa e isso será suficiente para
tornar Gaza, não na Riviera, mas pelo menos numa economia minimamente
sustentável? Quem é que realmente vai mandar em Gaza, qual será o
papel da tutela internacional e quem irá desempenhar essas funções além de Tony
Blair? Por fim, que
papel será reservado aos palestinianos, e que palestinianos? Como se irá
reformar a Autoridade Palestiniana e quem irá avaliar isso? Haverá, no final, o
tal Estado soberano da Palestina que, apesar de cada vez mais países o reconhecerem
formalmente, teima em não existir na realidade?
Em suma, muito pode correr muito mal,
muito depressa. Este pode
vir a ser mais um plano a juntar-se a muitos outros no grande cemitério de
propostas de paz para o Médio Oriente em geral ou para a Palestina em
particular, desde 1948. Há até o risco de que o fracasso
deste plano seja usado para justificar uma escalada ainda mais perigosa no
conflito. Dito isto, reconheço que a grande questão é: qual
é a alternativa melhor em cima da mesa? Aqueles que afirmam que estamos a
assistir a um genocídio propõem exactamente o quê? Confiar na flotilha de activistas com ajuda urgente que foi
progredindo a passo de caracol no Mediterrâneo? É isso que vai mudar alguma
coisa? Muito é complicado no conflito na Palestina, mas é simples de perceber que, entre Trump e os activistas marítimos, a paz em
Gaza depende mais do primeiro do que dos segundos.
DONALD TRUMP ESTADOS
UNIDOS DA AMÉRICA AMÉRICA MUNDO PALESTINA MÉDIO ORIENTE
COMENTÁRIOS (de 13)
Meio Vazio: Ou seja, e como tem sido claro, os premiados com o Nobel (concretamente na
paz e na literatura) raramente o são pelo que de meritório teve a sua obra,
antes pela conveniência ou inconveniência "estratégica" da mesma. DF: O plano de Trump ao menos não
é uma fantasia cor-de rosa como a "primavera árabe" que só conduziu a
mais massacres e ajudou a dar cabo do sistema político europeu. Tony Blair
antes de ir a Gaza meter-se no vespeiro, deve tomar cuidado e lembrar-se do que
aconteceu a Sérgio Vieira de Melo. É pouco provável que a região mude. Manuel Almeida Gonçalves: O Observador é todo um enorme
lápis azul, subordinado à seguinte táctica, coloca-se em moderação, durante o
dia da leitura, um comentário que é irrepreensível, mas contrário aos
interesses do articulista, neste caso o Rui Ramos, useiro e vezeiro neste
procedimento; depois quando já ninguém lê repõe-se e com isto o jornal está
radicalizado à extrema-direita e sem contraditório.
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