E sobretudo da forma aparentemente
serena, e sempre enriquecedora, como é a de JAIME NOGUEIRA PINTO, entre os
poucos que restam, todos esses factos respeitantes à destruição e aos
destruidores de um país - decididamente
este que enxergamos, já sem binóculos.
Os homens do sistema
Como Afonso Costa foi o símbolo da Primeira República e Salazar do
Estado Novo, o grande símbolo do regime e do sistema, para o bem e para o mal,
foi e é o Dr. Mário Soares.
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista
do Observador
OBSERVADOR, 25 out. 2025,
00:1850
Os sistemas políticos têm os seus
valores, as suas instituições, as suas retóricas, as suas práticas e os seus
símbolos. E acabam também por encarnar nos políticos que os dominam e moldam.
Afonso Costa e a Primeira República
Na Primeira República, a grande
figura do sistema, o homem do regime, foi, incontornavelmente, AFONSO COSTA;
um livre-pensador ao modo dos radicais
franceses, inimigo jurado do Catolicismo e fiel à Maçonaria. Costa
era um político com sentido de poder, inteligente, bon-vivant. Dizia-se
que a República não podia viver com ele nem sem ele. Do mesmo modo que perseguiu os
monárquicos e católicos, reprimiu, à esquerda, proletários e sindicalistas. Criou um sistema em que as eleições se
ganhavam na secretaria, através da legislação eleitoral. Havia liberdade, em princípio, mas os
jornais monárquicos e católicos eram assaltados “pelo povo”, sempre que se
excediam.
Foi
o criador do
sistema e depois do sidonismo viu, com lucidez, que o sistema criado já não tinha
grande viabilidade. Nomeado
representante português às negociações de Versalhes, foi ficando por Paris,
exercendo advocacia de negócios, e ali viria a morrer, em 1937, eterno conspirador contra a Ditadura
Militar e o Estado Novo.
Os novos regimes têm geralmente na
sua génese o descontentamento com a disfuncionalidade do que está em vigor: a
generalidade dos cidadãos não se preocupa muito com os princípios ideológicos
do poder, enquanto o poder garantir lei e ordem e uma economia em que possam
viver, criar os filhos e melhorar de vida.
Quando os sistemas não garantem isto e se fecham, como a Primeira
República se fechou nos anos Vinte, entram em acção forças de fora do sistema
político. E no Portugal de há cem anos, num país com um império colonial
africano, os militares, as Forças Armadas, Exército e Marinha, eram
politicamente importantes. Pode
até dizer-se que eram os principais agentes, por acção ou inacção, das mudanças
políticas, desempatando o sistema quando o sistema bloqueava. Ora em
1926 havia esse bloqueio: havia a força dominante do sistema. os “democratas”,
já sem Afonso Costa, sucedido por António Maria da Silva, o “engenheiro das revoluções”; havia uma oposição conservadora, com
católicos, monárquicos e republicanos, críticos dos “democratas” e do seu
sistema; e havia uma “esquerda radical” sindicalista, proletária e
proto-revolucionária. Estas três
forças não se aliavam nem se entendiam entre si para governar.
Salazar e o Estado Novo
Quando o que está já não tem
credibilidade nem capacidade para continuar e o que se apresenta como
alternativa ainda não tem força para se impor, a força de desempate é quase
sempre a força. Aqui, foi a força das armas, foram os militares. E os militares arrancaram de Braga, numa conspiração de capitães e tenentes, alguns medalhados da Flandres, como o capitão
José da Luz Brito, que deu a voz inicial da revolta pelo Regimento de Infantaria 8, levando Gomes da
Costa, para
garantir a respeitabilidade do generalato.
Os militares criaram as raízes do novo
sistema e o “tecnocrata” António de Oliveira Salazar, ministro das
Finanças da Ditadura a partir de Abril de 1928, equilibrou as finanças
públicas. A partir daí, criou um sistema político
nacional-conservador e autoritário que duraria até ao penúltimo quartel do
século XX. Salazar tinha pensamento político – como
lembrou Manuel de Lucena, terá
sido talvez o único pensador político português do século XX que governou.
O pensamento político de Afonso Costa era uma adaptação do radicalismo
jacobino francês a Portugal; e depois o de Cunhal, que nunca governou, era
também uma adaptação do marxismo-leninismo ao nosso país.
Salazar
era um pessimista antropológico augustiniano, com raízes na terceira via
católica dos Papas Sociais e na crítica racionalista da democracia de Charles
Maurras. Era, sobretudo, um pensador com convicções, que considerava a nação
portuguesa, a sua integridade e identidade, o valor principal a defender.
Ao mesmo tempo, não é um doutrinário,
era um realista ou, quando necessário, mesmo um pragmático. Por isso não quis restaurar a monarquia nem revogar a
Lei de Separação do Estado e da Igreja vinda da Primeira República e explicou
porquê. Além
disso, era cerebral, frio, nada emocional, nada retórico. Era também um homem
de sínteses, cujos discursos ocupam vinte centímetros de biblioteca. E tinha um
humor sarcástico, às vezes cortante.
Foi também, no início dos anos
trinta, protagonista de uma solução centrista, no quadro dos poderes reais em
Portugal, entre os fascistizantes nacionais sindicalistas de Rolão Preto e os
republicanos conservadores à Cunha Leal. O Regime foi autoritário, antipartidário
e com uma clara abertura aos valores católicos e à trilogia “Deus Pátria, Família”. Apanhou um país paupérrimo, com uma
das maiores taxas de iliteracia da Europa e quase sem obras públicas desde
1890.
Claro que era mais fácil governar e
fazer obra sem oposição activa, do que em democracia partidária. E o
Estado Novo foi, em parte, um Estado de obras – barragens, escolas, a segunda
industrialização. Nos
últimos anos do Estado Novo aproximámo-nos, em capitação, dos países ricos da
Europa, como recentemente esclareceu Nuno Palma e já constava das séries
estatísticas.
Mas à força de durar e mandar,
Salazar criou e moldou um regime e um sistema que só funcionavam com ele e que
só muito dificilmente lhe poderiam sobreviver. E não sobreviveram. A guerra de África gerou um progressivo
descontentamento nos quadros médios do Quadro Permanente de Oficiais e o
espírito do tempo mostrava-se contrário ao “exotismo”
do império português. Depois, Marcelo Caetano,
o líder da comissão liquidatária do regime salazarista, era alguém a quem não
faltava inteligência, mas a quem faltava decisão.
Mário Soares e a Terceira República
Resolvida a questão da guerra
de África com uma “descolonização exemplar”, feita a contenção do radicalismo
comunista no 25 de Novembro, os militares retiraram-se para uma vigilância mais
ou menos simbólica da “jovem democracia”, via Conselho
da Revolução. E com a
Constituinte e a Constituição de 1976, o país, regressado ao rectângulo pré-Expansão, criou o seu
sistema.
O político e símbolo por excelência
deste sistema foi Mário Soares. Começara por ser comunista, mas o
“golpe de Praga” abalou as suas convicções. Integrou-se na oposição
democrática ao Estado Novo e, nessa qualidade, foi o primeiro
político não-comunista a pronunciar-se, em 1965, pela entrega do Ultramar.
Beneficiou da política norte-americana
de identificar e apoiar (aqui e noutros países) opositores não-soviéticos ao
regime e em 1968, bem apoiado internacionalmente, divulgou na Europa o
escândalo conhecido por “Ballet Rose”. Depois desta sua iniciativa, a PIDE
conseguiu vencer a relutância de Salazar em dar importância aos adversários
políticos que não pertencessem ao Partido Comunista e levou-o a fixar-lhe
residência em São Tomé e Príncipe, ao abrigo da legislação da Primeira
República. O exílio causou perturbação no então governador de São Tomé que,
receando que o desterrado “armasse confusão”, pediu aos interesses capitalistas
na ilha que lhe arranjassem uma ocupação.
Com Marcelo Caetano, Soares voltou à
então Metrópole e tornou-se o líder da oposição democrática. Outra vez, foi penalizado com o exílio; e
quando foi proibido de voltar a Portugal, uma alta figura do marcelismo, em
nome do Presidente do Conselho, pediu a um homem do petróleo, também banqueiro
e com um banco em Paris, para dar um lugar de consultor ao exilado político.
Em
1973, com o regime agonizante, fundou-se, em Bona, com o patrocínio da
Internacional Socialista, o Partido Socialista. E em
1974, depois do 25 de Abril, o Dr. Soares voltou ao país e foi para o
governo. Foi particularmente activo na entrega do Ultramar,
como toda a nova classe política – salvo o Prof.
Adelino da Palma Carlos, que não quis colaborar na “descolonização
exemplar” e, patrioticamente, se demitiu. Soares não parece ter-se incomodado muito com os
custos humanos da descolonização, nem tão pouco com o facto de, depois do 28 de
Setembro de 1974, haver mais presos políticos em Portugal do que nas vésperas
do 25 de Abril. Só se começou a incomodar no princípio de 1975,
quando percebeu que a marcha da revolução, a continuar, marcharia sobre ele e sobre
os dele como já tinha marchado sobre os “fascistas”. E foi então um resistente
às forças comunistas e da esquerda radical.
Era,
pessoalmente, uma pessoa civilizada, com coragem física e capacidade de diálogo
e discussão com adversários – falo à
vontade, porque fui sempre seu inimigo político. Mas foi e será sempre, junto aos
capitães do MFA, o símbolo da descolonização. E
o símbolo acabado do regime, do sistema e do que tem de compadrio.
Como
Afonso Costa foi o símbolo da Primeira República e Salazar do Estado Novo, o grande símbolo do regime e do sistema, para o bem
e para o mal, foi e é o Dr. Mário
Soares. Pelo que tê-lo por modelo e pretender
emergir como anti-sistémico parece-me ou desprovido de toda a lógica ou mais um
exemplo dos perigos e armadilhas da retórica. Mas uma coisa é certa: não deixa
de ser esclarecedor.
COMENTÁRIOS (de 50)
Afonso Moreira: Para aqueles que, desde há décadas, nunca leram mais
nada além das pequenas cartilhas que lhes impingiram e se agarraram a
narrativas simplistas ou a slogans do tipo: "25 de Abril sempre" têm
aqui um artigo tão sucinto quanto sublime, sobre o nosso Portugal do último século.
Felizmente, e só passados 50 anos é que começa a ser possível falar das
consequências dramáticas, com tanta pobreza e até milhares de mortos no
ultramar pelo facto de o Poder ter caído na rua, sem rumo nem horizontes (só o
PCP "soviético" os tinha com Mário Soares ao lado). Silva:
CAVACO SILVA Lamento discordar de Jaime
Nogueira Pinto, de quem aconselho que se leia a sua excelente e vasta
bibliografia, mas a grande figura do regime pós-25 de Novembro é Cavaco Silva, à frente mesmo de Sá
Carneiro, o que por si só diz tudo o que há por dizer. A Mário Soares devemos quase tudo: pós-25 de
Abril, 25 de Novembro, normalização democrática, entrada na CEE, etc, e até dou
de barato a forma por assim dizer excêntrica (à esquerda da esquerda) como
geriu o final da sua vida política. Mas Cavaco Silva ... São 4 maiorias absolutas.
Único primeiro ministro com 2 maiorias absolutas. Em democracia é um score de
meter medo em qualquer parte do mundo e que nunca mais ninguém alcançará em
Portugal (nem mesmo os inacreditáveis Sócrates e Costa se concorressem a presidente
não o alcançariam) Estadista ímpar, decidiu sempre pela sua cabeça, e fez em cada momento o
que tinha que ser feito, custasse o que custasse e independentemente das
instituições e dos media, o que lhe valeu o "ódio" e o ostracismo da
bolha para sempre (vamos fazer aqui a lista de perseguições e de ódios de
estimação a Cavaco? por onde querem que eu comece? à direita ou à esquerda ?) Acresce que Cavaco Silva veio
do povo e não das elites (como Mário Soares) bem pensantes e auto proclamadas
donas da democracia, o que lhe confere um posicionamento político
inultrapassável, algo parecido socialmente com Salazar. Por não ser um "one of
us" o seu feito político tem o dobro do valor porque ele teve precisamente que
fazer o dobro para ter os mesmos resultados. Como teve o dobro dos resultados
poderemos considerar que acabou por fazer 4 vezes mais do que os outros! É isso que as pretensas proto
elites políticas e jornalísticas da bolha não lhe perdoam. Ter sido melhor,
muito melhor, sem deles depender. Todos nas nossas vidas familiares, profissionais e
sociais já presenciámos a reacção das pessoas de esquerda em relação a Cavaco
Silva. É o único político de centro-direita com o qual ficam fora de si,
perdendo toda e qualquer postura e tino. É precisamente esse "ódio" político da
esquerda e da bolha a Cavaco que o confirma como o melhor estadista Português
em democracia Manuel
Magalhaes: Sendo Mário Soares o símbolo do actual regime/sistema, fica bem demonstrada
a decadência deste pobre país! Tim do A > Afonso Moreira: Exactamente. Só acrescento a nova censura e
falta de liberdade de expressão e de opinião pós 25 de Abril, do politicamente
correcto, atenuada pela entrada do furacão partido Chega. Américo Silva: Gouveia e Melo quer ser um irmão mais novo de Mário
Soares, ambos filhos da maçonaria, muita sorte tem em que Marques Mendes é
candidato fraco associado a Marcelo, Ventura é um candidato sectorial, e Seguro
é rejeitado por parte do PS.
Nuno Abreu: Sim. Tinha um
humor sarcástico, às vezes cortante, muitas vezes cínico. Trabalhei para ele
cerca de um ano, tratando da sua correspondência particular. Sem dúvida foi o homem que deu um rumo ao país após a
bagunça dos 28 após a implantação da República. Só que, com o início das
guerras coloniais, ficou só contra o mundo. António
Dias: Excelente,
serviço público. José
Fernandes: Uma lição de
história. MariaPaula
Silva: Muito bom,
adorei! Excelente, JNP, só não vê quem não quer. A mim, nunca me encantou, nem
com a seringa, quanto mais sem seringa e até que enfim que não é mais um texto
sobre o Balsemão. Já chega. Se falassem de Sá Carneiro, fariam melhor. Francisco Almeida: Mais uma grande lição, mais de
um século político interpretado em meia dúzia de parágrafos. Mas o último foi
surpreendente e, para mim inesperado. Um libelo, aliás justo, contra o
candidato Gouveia e Melo, sem apoio ou menção a nenhum outro. Fernando
ce: Muito bem. Soares, à sua maneira, foi um pequeno “ditador”. Só o
PS era dono da verdade, tinha legitimidade para governar e distribuir sinecuras
e tachos. vitor
gonçalves Silva: Muito bem ! E um pouco o que aconteceu com Passos
Coelho apelidado pela elite esquerdoida, de patego de Massamá. Quando não se
vem da elite canhota tudo serve para humilhar. joão Melo
> João Floriano: Posso dizer-lhe, afirmar
talvez seja o mais correcto, por testemunhos de pessoas que lidaram directamente
com MS, que o homem não era flor que se cheirasse, e era um pouco torto no
que à ética diz respeito. Muito trabalho de bastidores, e como dizia
Kant, aquilo que eu faço às escondidas normalmente não se recomenda... Era
homem para espetar uma "faca" (sentido figurado, para que não me
processem) não só nos adversários políticos, como naqueles que o apoiavam
politicamente, dentro do próprio partido, gente que o servia até ao momento
em que ele decidia que era melhor ver-se livre deles. Neste sentido era um
escroque, e por isso muito me admira que glorifiquem o homem como uma espécie
de salvador da pátria. É raro encontrarmos homens rectos e justos, mas MS não
era um deles, Deus me perdoe. António
Costa e Silva > joão Melo: Como fiz um comentário que foi
directamente para moderação, uma vez que neste jornal é proibido escrever em
português de gente, vou tentar outra vez, com as palavras de que o Observador
gosta. Esta semana, um militar a quem a
inteligência não brilha no olhar e que não é muito amigo do seu povo, disse que
após dez anos em Portugal um bangladesh era igual a um português e que Soares
era o seu modelo de presidente.
Fernando Soares Loja: JNP continua a incomodar e
ainda bem.
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