domingo, 26 de outubro de 2025

É bom lembrar


E sobretudo da forma aparentemente serena, e sempre enriquecedora, como é a de JAIME NOGUEIRA PINTO, entre os poucos que restam, todos esses factos respeitantes à destruição e aos destruidores de um país -  decididamente este que enxergamos, já sem binóculos.

Os homens do sistema

Como Afonso Costa foi o símbolo da Primeira República e Salazar do Estado Novo, o grande símbolo do regime e do sistema, para o bem e para o mal, foi e é o Dr. Mário Soares.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 25 out. 2025, 00:1850

Os sistemas políticos têm os seus valores, as suas instituições, as suas retóricas, as suas práticas e os seus símbolos. E acabam também por encarnar nos políticos que os dominam e moldam.

Afonso Costa e a Primeira República

Na Primeira República, a grande figura do sistema, o homem do regime, foi, incontornavelmente, AFONSO COSTA; um livre-pensador ao modo dos radicais franceses, inimigo jurado do Catolicismo e fiel à Maçonaria. Costa era um político com sentido de poder, inteligente, bon-vivant. Dizia-se que a República não podia viver com ele nem sem ele. Do mesmo modo que perseguiu os monárquicos e católicos, reprimiu, à esquerda, proletários e sindicalistas. Criou um sistema em que as eleições se ganhavam na secretaria, através da legislação eleitoral. Havia liberdade, em princípio, mas os jornais monárquicos e católicos eram assaltados “pelo povo”, sempre que se excediam.

Foi o criador do sistema e depois do sidonismo viu, com lucidez, que o sistema criado já não tinha grande viabilidade. Nomeado representante português às negociações de Versalhes, foi ficando por Paris, exercendo advocacia de negócios, e ali viria a morrer, em 1937, eterno conspirador contra a Ditadura Militar e o Estado Novo.

Os novos regimes têm geralmente na sua génese o descontentamento com a disfuncionalidade do que está em vigor: a generalidade dos cidadãos não se preocupa muito com os princípios ideológicos do poder, enquanto o poder garantir lei e ordem e uma economia em que possam viver, criar os filhos e melhorar de vida.

Quando os sistemas não garantem isto e se fecham, como a Primeira República se fechou nos anos Vinte, entram em acção forças de fora do sistema político. E no Portugal de há cem anos, num país com um império colonial africano, os militares, as Forças Armadas, Exército e Marinha, eram politicamente importantes. Pode até dizer-se que eram os principais agentes, por acção ou inacção, das mudanças políticas, desempatando o sistema quando o sistema bloqueava. Ora em 1926 havia esse bloqueio: havia a força dominante do sistema. os “democratas”, já sem Afonso Costa, sucedido por António Maria da Silva, o “engenheiro das revoluções”; havia uma oposição conservadora, com católicos, monárquicos e republicanos, críticos dos “democratas” e do seu sistema; e havia uma “esquerda radical” sindicalista, proletária e proto-revolucionária. Estas três forças não se aliavam nem se entendiam entre si para governar.

Salazar e o Estado Novo

Quando o que está já não tem credibilidade nem capacidade para continuar e o que se apresenta como alternativa ainda não tem força para se impor, a força de desempate é quase sempre a força. Aqui, foi a força das armas, foram os militares. E os militares arrancaram de Braga, numa conspiração de capitães e tenentes, alguns medalhados da Flandres, como o capitão José da Luz Brito, que deu a voz inicial da revolta pelo Regimento de Infantaria 8, levando Gomes da Costa, para garantir a respeitabilidade do generalato.

Os militares criaram as raízes do novo sistema e o “tecnocrata” António de Oliveira Salazar, ministro das Finanças da Ditadura a partir de Abril de 1928, equilibrou as finanças públicas. A partir daí, criou um sistema político nacional-conservador e autoritário que duraria até ao penúltimo quartel do século XX. Salazar tinha pensamento político – como lembrou Manuel de Lucena, terá sido talvez o único pensador político português do século XX que governou. O pensamento político de Afonso Costa era uma adaptação do radicalismo jacobino francês a Portugal; e depois o de Cunhal, que nunca governou, era também uma adaptação do marxismo-leninismo ao nosso país.

Salazar era um pessimista antropológico augustiniano, com raízes na terceira via católica dos Papas Sociais e na crítica racionalista da democracia de Charles Maurras. Era, sobretudo, um pensador com convicções, que considerava a nação portuguesa, a sua integridade e identidade, o valor principal a defender.

Ao mesmo tempo, não é um doutrinário, era um realista ou, quando necessário, mesmo um pragmático. Por isso não quis restaurar a monarquia nem revogar a Lei de Separação do Estado e da Igreja vinda da Primeira República e explicou porquê. Além disso, era cerebral, frio, nada emocional, nada retórico. Era também um homem de sínteses, cujos discursos ocupam vinte centímetros de biblioteca. E tinha um humor sarcástico, às vezes cortante.

Foi também, no início dos anos trinta, protagonista de uma solução centrista, no quadro dos poderes reais em Portugal, entre os fascistizantes nacionais sindicalistas de Rolão Preto e os republicanos conservadores à Cunha Leal. O Regime foi autoritário, antipartidário e com uma clara abertura aos valores católicos e à trilogia “Deus Pátria, Família”. Apanhou um país paupérrimo, com uma das maiores taxas de iliteracia da Europa e quase sem obras públicas desde 1890.

Claro que era mais fácil governar e fazer obra sem oposição activa, do que em democracia partidária. E o Estado Novo foi, em parte, um Estado de obras – barragens, escolas, a segunda industrialização. Nos últimos anos do Estado Novo aproximámo-nos, em capitação, dos países ricos da Europa, como recentemente esclareceu Nuno Palma e já constava das séries estatísticas.

Mas à força de durar e mandar, Salazar criou e moldou um regime e um sistema que só funcionavam com ele e que só muito dificilmente lhe poderiam sobreviver. E não sobreviveram. A guerra de África gerou um progressivo descontentamento nos quadros médios do Quadro Permanente de Oficiais e o espírito do tempo mostrava-se contrário ao “exotismo” do império português. Depois, Marcelo Caetano, o líder da comissão liquidatária do regime salazarista, era alguém a quem não faltava inteligência, mas a quem faltava decisão.

Mário Soares e a Terceira República

Resolvida a questão da guerra de África com uma “descolonização exemplar”, feita a contenção do radicalismo comunista no 25 de Novembro, os militares retiraram-se para uma vigilância mais ou menos simbólica da “jovem democracia”, via Conselho da Revolução. E com a Constituinte e a Constituição de 1976, o país, regressado ao rectângulo pré-Expansão, criou o seu sistema.

O político e símbolo por excelência deste sistema foi Mário Soares. Começara por ser comunista, mas o “golpe de Praga” abalou as suas convicções. Integrou-se na oposição democrática ao Estado Novo e, nessa qualidade, foi o primeiro político não-comunista a pronunciar-se, em 1965, pela entrega do Ultramar.

Beneficiou da política norte-americana de identificar e apoiar (aqui e noutros países) opositores não-soviéticos ao regime e em 1968, bem apoiado internacionalmente, divulgou na Europa o escândalo conhecido por “Ballet Rose. Depois desta sua iniciativa, a PIDE conseguiu vencer a relutância de Salazar em dar importância aos adversários políticos que não pertencessem ao Partido Comunista e levou-o a fixar-lhe residência em São Tomé e Príncipe, ao abrigo da legislação da Primeira República. O exílio causou perturbação no então governador de São Tomé que, receando que o desterrado “armasse confusão”, pediu aos interesses capitalistas na ilha que lhe arranjassem uma ocupação.

Com Marcelo Caetano, Soares voltou à então Metrópole e tornou-se o líder da oposição democrática. Outra vez, foi penalizado com o exílio; e quando foi proibido de voltar a Portugal, uma alta figura do marcelismo, em nome do Presidente do Conselho, pediu a um homem do petróleo, também banqueiro e com um banco em Paris, para dar um lugar de consultor ao exilado político.

Em 1973, com o regime agonizante, fundou-se, em Bona, com o patrocínio da Internacional Socialista, o Partido Socialista. E em 1974, depois do 25 de Abril, o Dr. Soares voltou ao país e  foi para o governo. Foi particularmente activo na entrega do Ultramar, como toda a nova classe política – salvo o Prof. Adelino da Palma Carlos, que não quis colaborar na “descolonização exemplar” e, patrioticamente, se demitiu. Soares não parece ter-se incomodado muito com os custos humanos da descolonização, nem tão pouco com o facto de, depois do 28 de Setembro de 1974, haver mais presos políticos em Portugal do que nas vésperas do 25 de Abril.  Só se começou a incomodar no princípio de 1975, quando percebeu que a marcha da revolução, a continuar, marcharia sobre ele e sobre os dele como já tinha marchado sobre os “fascistas”. E foi então um resistente às forças comunistas e da esquerda radical.

Era, pessoalmente, uma pessoa civilizada, com coragem física e capacidade de diálogo e discussão com adversários falo à vontade, porque fui sempre seu inimigo político. Mas foi e será sempre, junto aos capitães do MFA, o símbolo da descolonização. E o símbolo acabado do regime, do sistema e do que tem de compadrio.

Como Afonso Costa foi o símbolo da Primeira República e Salazar do Estado Novo, o grande símbolo do regime e do sistema, para o bem e para o mal, foi e é o Dr. Mário Soares. Pelo que tê-lo por modelo e pretender emergir como anti-sistémico parece-me ou desprovido de toda a lógica ou mais um exemplo dos perigos e armadilhas da retórica. Mas uma coisa é certa: não deixa de ser esclarecedor.

HISTÓRIA      CULTURA

COMENTÁRIOS (de 50)

Afonso Moreira: Para aqueles que, desde há décadas, nunca leram mais nada além das pequenas cartilhas que lhes impingiram e se agarraram a narrativas simplistas ou a slogans do tipo: "25 de Abril sempre" têm aqui um artigo tão sucinto quanto sublime, sobre o nosso Portugal do último século. Felizmente, e só passados 50 anos é que começa a ser possível falar das consequências dramáticas, com tanta pobreza e até milhares de mortos no ultramar pelo facto de o Poder ter caído na rua, sem rumo nem horizontes (só o PCP "soviético" os tinha com Mário Soares ao lado).                       Silva: CAVACO SILVA Lamento discordar de Jaime Nogueira Pinto, de quem aconselho que se leia a sua excelente e vasta bibliografia, mas a grande figura do regime pós-25 de Novembro é Cavaco Silva, à frente mesmo de Sá Carneiro, o que por si só diz tudo o que há por dizer. A Mário Soares devemos quase tudo: pós-25 de Abril, 25 de Novembro, normalização democrática, entrada na CEE, etc, e até dou de barato a forma por assim dizer excêntrica (à esquerda da esquerda) como geriu o final da sua vida política. Mas Cavaco Silva ... São 4 maiorias absolutas. Único primeiro ministro com 2 maiorias absolutas. Em democracia é um score de meter medo em qualquer parte do mundo e que nunca mais ninguém alcançará em Portugal (nem mesmo os inacreditáveis Sócrates e Costa se concorressem a presidente não o alcançariam) Estadista ímpar, decidiu sempre pela sua cabeça, e fez em cada momento o que tinha que ser feito, custasse o que custasse e independentemente das instituições e dos media, o que lhe valeu o "ódio" e o ostracismo da bolha para sempre (vamos fazer aqui a lista de perseguições e de ódios de estimação a Cavaco? por onde querem que eu comece? à direita ou à esquerda ?) Acresce que Cavaco Silva veio do povo e não das elites (como Mário Soares) bem pensantes e auto proclamadas donas da democracia, o que lhe confere um posicionamento político inultrapassável, algo parecido socialmente com Salazar. Por não ser um "one of us" o seu feito político tem o dobro do valor porque ele teve precisamente que fazer o dobro para ter os mesmos resultados. Como teve o dobro dos resultados poderemos considerar que acabou por fazer 4 vezes mais do que os outros! É isso que as pretensas proto elites políticas e jornalísticas da bolha não lhe perdoam. Ter sido melhor, muito melhor, sem deles depender. Todos nas nossas vidas familiares, profissionais e sociais já presenciámos a reacção das pessoas de esquerda em relação a Cavaco Silva. É o único político de centro-direita com o qual ficam fora de si, perdendo toda e qualquer postura e tino. É precisamente esse "ódio" político da esquerda e da bolha a Cavaco que o confirma como o melhor estadista Português em democracia            Manuel Magalhaes: Sendo Mário Soares o símbolo do actual regime/sistema, fica bem demonstrada a decadência deste pobre país!            Tim do A > Afonso Moreira: Exactamente. Só acrescento a nova censura e falta de liberdade de expressão e de opinião pós 25 de Abril, do politicamente correcto, atenuada pela entrada do furacão partido Chega.            Américo Silva: Gouveia e Melo quer ser um irmão mais novo de Mário Soares, ambos filhos da maçonaria, muita sorte tem em que Marques Mendes é candidato fraco associado a Marcelo, Ventura é um candidato sectorial, e Seguro é rejeitado por parte do PS.                    Nuno Abreu: Sim. Tinha um humor sarcástico, às vezes cortante, muitas vezes cínico. Trabalhei para ele cerca de um ano, tratando da sua correspondência particular. Sem dúvida foi o homem que deu um rumo ao país após a bagunça dos 28 após a implantação da República. Só que, com o início das guerras coloniais, ficou só contra o mundo.                       António Dias: Excelente, serviço público.                José Fernandes: Uma lição de história.      MariaPaula Silva: Muito bom, adorei! Excelente, JNP, só não vê quem não quer. A mim, nunca me encantou, nem com a seringa, quanto mais sem seringa e até que enfim que não é mais um texto sobre o Balsemão. Já chega. Se falassem de Sá Carneiro, fariam melhor.           Francisco Almeida: Mais uma grande lição, mais de um século político interpretado em meia dúzia de parágrafos. Mas o último foi surpreendente e, para mim inesperado. Um libelo, aliás justo, contra o candidato Gouveia e Melo, sem apoio ou menção a nenhum outro.                  Fernando ce: Muito bem. Soares, à sua maneira, foi um pequeno “ditador”. Só o PS era dono da verdade, tinha legitimidade para governar e distribuir sinecuras e tachos.               vitor gonçalves Silva: Muito bem ! E um pouco o que aconteceu com Passos Coelho apelidado pela elite esquerdoida, de patego de Massamá. Quando não se vem da elite canhota tudo serve para humilhar.              joão Melo > João Floriano: Posso dizer-lhe, afirmar talvez seja o mais correcto, por testemunhos de pessoas que lidaram directamente com MS, que o homem não era flor que se cheirasse, e era um pouco torto no que à ética diz respeito. Muito trabalho de bastidores, e como dizia Kant, aquilo que eu faço às escondidas normalmente não se recomenda... Era homem para espetar uma "faca" (sentido figurado, para que não me processem) não só nos adversários políticos, como naqueles que o apoiavam politicamente, dentro do próprio partido, gente que o servia até ao momento em que ele decidia que era melhor ver-se livre deles. Neste sentido era um escroque, e por isso muito me admira que glorifiquem o homem como uma espécie de salvador da pátria. É raro encontrarmos homens rectos e justos, mas MS não era um deles, Deus me perdoe.                       António Costa e Silva > joão Melo: Como fiz um comentário que foi directamente para moderação, uma vez que neste jornal é proibido escrever em português de gente, vou tentar outra vez, com as palavras de que o Observador gosta. Esta semana, um militar a quem a inteligência não brilha no olhar e que não é muito amigo do seu povo, disse que após dez anos em Portugal um bangladesh era igual a um português e que Soares era o seu modelo de presidente.                  Fernando Soares Loja: JNP continua a incomodar e ainda bem.

 

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