Integral, não “às riscas” que a definem
em humor gracioso.
Do facebook da Ana, chegou, pois, ao meu
Gmail a referência ao texto infra, para eu ver, se não, desapareceria.
Fui ver.
«Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...
E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu coração.
Deixei-me conduzir
pelas velhas memórias e transpus, da Internet, o pedacinho da «Balada da Neve» do Augusto Gil. Mas o
que fui espreitar foi o texto da Ana, pois que vinha escrito que se apagaria se
o não fizesse rapidinho. E a Ana é de palavra, e a Internet também, para quem
se vê a braços com os “riscadinhos” desta. Digo, das manigâncias televisivas que
me deixam à nora, a ter de telefonar ao Luís para que desfaça o engano e faça
isto deslizar melhor. Digo, a rede.
E li, da Ana:
«Em setembro começo a riscar listas distribuídas por
dias da semana. Pedaços de palavras incompreensíveis, depois de uma certa
distância temporal. “Resp CML”, “Orç CMO”, “Plan MRA”, “Sacar smile”, “Arr.
Papoilas”, “Prep BCS”. Riscas cruéis, espartanas, decididas, que deixam à vista
o que rejeitam, sem apagar. Colocam no passado os termos mais etéreos e os
termos mais mundanos, ideias sagradas e documentos financeiros, todos tratados
por igual.
Setembro traz também dezenas de páginas de cinco
riscas paralelas, também elas espartanas e sagradas à sua maneira. Riscas que
quando saem pelas nossas vozes, dirigidas a outros seres, já não são riscas.
São ondas invisíveis.
Riscas e riscas até chegar a maio. Em maio, as folhas
esvaziam-se. Já está tudo na memória, caminha-se em linha reta. Até voltar
setembro.
As riscas não são ciclos. Seguem a direito, sem fim à
vista. Mas estas riscas específicas, as das camisolas, são entrelaçados bem
redondos, se olharmos de perto. Trabalham-se, aliás, em espiral (nem sempre,
quase sempre). Não riscaram nada. Serviram o propósito de guiar caminhos e
experimentar. De brincar. De vestir. De aquecer.
Fica a promessa de que passarão para o papel, numa
próxima lista de afazeres, provavelmente em janeiro, quando, riscadas,
estiverem as novas resoluções. “Fazer receita camisola riscas”. Por agora ainda
seguem livres, apenas nos nossos corpos.
@algodaoselva
«Eugenia Gordinho: Acho piada todos de camisolas quase iguais
e tenho saudades de quando também fazia imenso tricô.
Um bjinho
»
«Ana Margarida Lacerda: Eugenia
Gordinho oh, tem de voltar a fazer!
Ana Margarida
Lacerda»
E o retrato da Ana sobressai, “affairée”,
no seu tricot contínuo, os gémeos agarrados a ela, que os atende, tricotando em
simultâneo, o Pedrito, mais velho, por vezes com ciúme de aparente
marginalizado, e a Ana falando e tricotando e atendendo, e agora escrevendo, e
dando dicas…
Uma graça, de competência e atenção. À
vida, afinal. Que ela bem sabe descrever. Ainda que em espiral, manipulando,
sempre atenta…
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