quarta-feira, 15 de outubro de 2025

A ironia triste

 

De um Homem ponderado que se debruça sobre o mundo actual, o europeu em evidência, “homem de sempre”, afinal, político irrequieto, que se repete nas leis que impõe sem ter muito em conta o problema preocupante do espaço verde.

O pior é o mundo lá fora

Esta é a penosa realidade política no segundo país da União Europeia, parte integrante do rol de desgraças que se abate sobre o mundo e sobre os seus habituais comentadores e pivots noticiosos.

JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do Observador

OBSERVADOR, 11 out. 2025, 00:1853

 “Era em circunstâncias idênticas” – escrevia Eça de Queirós nas ”Cartas de Inglaterra” – que Granville, “olhando…para todos os lados do horizonte político e social e não vendo senão presságios negros de revolta, guerra, crises e perigos para a pátria, dizia, banhado em júbilo, quase em êxtase: – Meu Deus! Que deliciosas noites se vão passar no Club”.

Hoje, as circunstâncias voltaram a ser idênticas. Ainda que o mundo lá fora não esteja para júbilos e um rol de desgraças se abata sobre “o sistema”, vamos certamente poder continuar a contar com “deliciosas noites” nos nossos “clubes de jornalistas” de referência.

Da República Checa ao Japão

Que dizer das eleições parlamentares na República Checa, de 3 e 4 de Outubro, ganhas pelo ANO, um partido de “extrema-direita” com um programa de realismo em política externa, de baixa de impostos, aumento de pensões, controle de imigração e poucas ou nenhumas preocupações verdes? É que o partido doscidadãos descontentes”, com 35% do voto popular e 80 deputados eleitos, não deve ter grande dificuldade em fazer governo com o apoio de mais dois partidos de uma direita ainda mais extrema – o Partido da Liberdade e Democracia Directa e o chamado Partido dos Motoristas.

E das eleições para a liderança do partido da direita que está no governo no Japão, no passado Sábado? Quem as ganhou foi Sanae Takaichi, uma “hard-line conservative”, segundo o New York Times, que assim se torna a primeira mulher indigitada para chefe do Executivo no Japão.

França: Macronia e carnificina eleitoral

Em França a crise da tripolarização continua, sob a agitada regência de Macron, em permanente gesticulação internacional e marcial para abafar a cacofonia doméstica. O desfile dos candidatos a primeiro-ministro prossegue. Agora foi a vez de Sébastien Lecornu, o primeiro-ministro que permaneceu 27 dias no cargo, renunciar, da noite para o dia, à chefia de um governo que durou 14 horas – das 19h40m de Domingo, 5 de Outubro, às 9h45m de Segunda-Feira, 6 de Outubro.

Por umas horas, o governo ainda conseguiu juntar macronistas de várias orientações e algumas personalidades de Les Républicans, compreendendo a “direita civilizada”. Mas foi dessa “direita civilizada” que chegou a ruptura, quando Bruno Retailleau, de Les Républicans (ex-ministro do Interior e considerado da “linha dura”) manifestou o seu descontentamento perante um governo, cuja “composição não reflectia a ruptura prometida”.A crítica foi publicada na rede social X menos de duas horas depois do anúncio do governo. Assim, na noite de Domingo, caía ainda antes de ser submetida ao parlamento a solução Lecornu, cozinhada pelo Centrão, ignorando as oposições à direita e à esquerda (do Rassemblement National  e dos Insubmissos).

Na Quarta-Feira, 8 de Outubro, o Figaro publicava os resultados de um inquérito à opinião pública. Quem era o principal responsável pela crise política, em França? O resultado não surpreendia: para 57% dos inquiridos, era Macron. E como sair da crise, que paralisava o país, há vários meses? Para a maioria dos inquiridos (60%) só com uma dissolução da Assembleia Nacional e novas eleições legislativas. Sempre segundo as sondagens do Figaro, 7 em cada 10 franceses queria a demissão de Macron, sendo que, desses 70%, 48% se diziam “muito favoráveis” à demissão do Presidente e 22% apenas “favoráveis”.

Dizia ainda ao Figaro um observador próximo de Les Républicains que, “se houvesse uma dissolução, ia ser uma carnificina eleitoral”. E como a “carnificina” atingiria, sobretudo, o centro macronista e os seus partidários, o Presidente francês vai multiplicando os gestos belicistas, procurando aparecer como o grande campeão da russofobia. Para a França da V República, com instituições criadas por De Gaulle, que fizerem do Presidente a chave constitucional de todo o sistema, a agitação de um chefe do executivo internamente fraco, hesitante e ambíguo e internacionalmente estridente não augura nada de bom.

Levados por este clima, e não querendo deixar para a Direita Nacional o papel de impulsionadores da iniciativa, 104 parlamentares de esquerda, na maioria do La France Insoumise, apresentaram à Assembleia Nacional uma proposta de destituição do Presidente da República. Na apreciação prévia, o secretariado do parlamento chumbou a moção, com a abstenção dos deputados do Rassemblement National.

A França vive um momento político complicado, de tripolarização, com três blocos político-partidários fortes: a direita do Rassemblement National de Marine Le Pen e Jordan Bardella, o centro de Emmanuel Macron e Gabriel Attal e a Esquerda Radical dos Insubmissos de Mélanchon e dos Socialistas. Três blocos só capazes de se entenderem a dois para bloquear o terceiro.  Restam a “direita moderada” de Les Republicains, e a Reconquête de Zémmour.

Na sondagem Toluna Harris Interactive para a RTL, de 8 de Outubro, numa primeira volata, os candidatos presidenciais Le Pen e Bardella ficariam largamente à frente, com 34% e 35% dos votos, respectivamente; isto é, com mais 12 pontos do que na primeira volta de 2022 (23%). O mais bem classificado do centro alargado à direita moderada seria Edouard Philippe (15/16%) de Les Republicains, e, à esquerda, Jean-Luc Mélanchon teria 14%. Contando com o tradicional apelo a uma “frente anti-fascista” na segunda volta, resta saber qual deles passaria; e se o número de centristas e centro-direitistas a votar por Mélanchon seria suficiente para colmatar o deficil face ao Rassemblement, ou se os esquerdistas de Mélanchon votariam em Edouard Philippe – para muitos deles, um perigoso protofascista.

Mas pior ainda para a Esquerda e o Centrão é o cenário das eleições parlamentares. Uma sondagem da Opinium Way para CNEWS dá o Rassemblement National à frente, com 33%, e 4% para a Reconquête. A Esquerda Unida, do Nouveau Front Populaire, ficaria pelos 25% e, ao centro, o macronismo cairia para 15% e Les Republicains subiriam para 13%.

Na esquerda há uma “guerrilha” dos Verdes e dos Socialistas contra os Insubmissos. Ou seja, em França, há, neste momento, uma “Extrema-Direita” (RN, Reconquête, Debout la France, Divers Droites) que soma 41% das intenções de voto; uma “Direita moderada” (Les Républicains) com 13%; o centro macroniano com 15% e a Esquerda e a Extrema Esquerda com 25%.

Esta é a penosa realidade política no segundo país da União Europeia, parte integrante do rol de desgraças que se abate sobre o mundo e sobre os seus habituais comentadores e pivots noticiosos.

A última gota foi quando, na noite de Quarta-Feira, veio o anúncio de que Trump, o arqui-vilão dos folhetins comentatórios, tinha conseguido a paz em Gaza.

Nem tudo está perdido

Mas nem tudo está perdido e  ainda há lugar para algum júbilo: o facto de Trump não ter conseguido o Nobel da Paz promete proporcionar “deliciosas noites” televisivas, com imagens em loop do vilão a pedir o prémio e cortes cirúrgicos naquela parte em que diz “eles nunca mo vão dar”. Há que encontrar júbilo onde se pode para que a vida nos clubes de informação continue. A vencedora do prémio, Maria Corina Machado, tem, pelo menos, o mérito de não ser Trump… e o facto de ser a líder da resistência anti-comunista venezuelana pode também ser ignorado.

Estava-se tão bem no Clube se não houvesse mundo lá fora!

A SEXTA COLUNA      HISTÓRIA      CULTURA      MUNDO

COMENTÁRIOS (de 53):

Komorebi Hi: A França de Macron, a Espanha de Sanchez e extrema-esquerda e a UE de von der Leyen fazem a UE um edifício que cairá com estrondo e com consequências irreparáveis. O UK seguirá o mesmo caminho. O caso de Portugal com Sócrates, será pequeno como exemplo do que será irreparável, não haverá BCE ou FMI que valha ao descalabro social e económico para além da guerra civil que está instalada com a extrema-esquerda e a imigração descontrolada.                Rui Lima: Nos anos 60, a França viveu o seu período de ouro era uma das economias que mais crescia no mundo e muito disso deveu-se aos imigrantes portugueses. Gente trabalhadora, séria, incansável, que ajudou a França. Mas essa boa imigração acabou, hoje grande parte dos que chegam não traz profissão, nem vontade de se integrar, são um peso para o sistema e criaram comunidades fechadas, alheias ao país que os acolheu. O resultado uma França dividida, insegura, em crise política e social,  o custo financeiro da política de  portas abertas destruiu-o as finanças do país, o país paga agora o preço desta fragmentação. A França arrisca-se a tornar-se um novo Líbano partida por dentro, sem rumo e sem identidade comum.                Manuel Magalhaes: O mundo lá fora e governos dirigidos por gente fraca, o resultado está à vista… saudades de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher! Talvez a Meloni, a ver vamos!                   José B Dias: E como a “carnificina” atingiria, sobretudo, o centro macronista e os seus partidários, o Presidente francês vai multiplicando os gestos belicistas, procurando aparecer como o grande campeão da russofobia. Para a França da V República, com instituições criadas por De Gaulle, que fizerem do Presidente a chave constitucional de todo o sistema, a agitação de um chefe do executivo internamente fraco, hesitante e ambíguo e internacionalmente estridente não augura nada de bom. E não é caso único, como facilmente se pode verificar olhando para o Reino Unido, a Alemanha ou Espanha ...                         madalena colaço: Sexta-feira à noite os jornalistas em frente ao palácio do Eliseu aguardavam em vão pela promessa de Macron, que pedira mais 48 horas depois da demissão de Lecornu para eleger um novo 1º ministro, (o 4º desde a dissolução do ano passado). Mas, mas afinal Macron nomeia outra vez Lecornu para 1º ministro. É óbvio que os franceses se sentem gozados e não admira os números de rejeição do mesmo. Macron não se pode demitir. E não se pode demitir porque no momento não há nenhum lugar disponível na Europa ou na Nato ou...Tem de aguentar até 2027 até o lugar de comissário ficar vago. Macron não quer saber dos franceses, mas tudo faz para se preocupar com os Europeus que pretende governar. O que ainda resta da soberania nacional é para acabar e vivam os europeus. Franceses, italianos, portugueses...vamos lá acabar com as bandeirinhas nacionais e pegar na bandeira azul das estrelinhas. Não admira que a direita esteja a vencer em todo o lado...          Francisco Almeida: É impossível não admirar JNP mesmo quando ele se mostra amargo e, arriscaria eu, descrente de um futuro desejável ou mesmo aceitável. Partilho a mesma inquietação mas não a centro tanto em França. Mark Rutte, Alexander Stubb e Giorgia Meloni, já mostraram que é possível lidar com Trump e a ideia de a Europa não ser um bloco, não me é desagradável. A minha inquietação maior é a Alemanha, económica e politicamente.          Luis Silva > Kindu: Patético. O que é que isso tem a ver? É o script do Largo do Rato para bots obsoletos?                   Kindu: Estas lutas políticas entre governos desacreditados e as “extremas-direitas” é que interessam a Jaime Nogueira Pinto. O que aí vem a seguir, a capitulação perante o imperialismo fascista russo, isso já não o interessa tanto.          Miguel Macedo: Muito bem! Como sempre!          Américo Silva: Parabéns pela boa crónica, magnífica comparativamente aos seus colegas, Lecornu é o novo primeiro ministro anunciado.         maria santos: Entre o ódio desbragado da Mortágua e a sonsice dissimulada de Sérgio Sousa Pinto, o Clube do Centrão amparado pelo jornalixo selecto das revistas e pantalla cor-de-rosa (Maria, Corin-Tellado, Expresso, etc.) lá vai andando. Amanhã temos autárquicas. O mundo lá fora vai dizer e o Clube irá discorrer.          João Floriano: Julgo que quando Jaime Nogueira Pinto escreveu esta crónica, ainda Macron não tinha reconduzido Lecornu no cargo. Achei a recondução curiosa porque prova que Macron esgotou as soluções e estará apenas a ganhar tempo. Muito pouco, possivelmente apenas uns dias. Poderá haver também aqui uma grande fezada que desta vez por qualquer intervenção de Santa Joana d'Arc, haja entendimento e se chegue  a uma solução. Mas a santa está-se borrifando para o Macron e para o que ele representa.              Kindu: Quando todos esses partidos europeus nacionalistas, grande parte deles pró-russos, chegarem ao poder, o que parece ser só uma questão de tempo, chegará o dia da celebração do “Peace in our time”, e veremos então uma coisa insólita, Jaime Nogueira Pinto e o Partido Comunista Português como compagnons de route, quem havia de dizer…         António Rocha Pinto: Uma das penas na passagem do tempo foi terem desaparecido os clubes e os cafés. Eça hoje teria de se organizar nas "redes".

 

Nenhum comentário: