De um Homem ponderado que se debruça
sobre o mundo actual, o europeu em evidência, “homem de sempre”, afinal, político
irrequieto, que se repete nas leis que impõe sem ter muito em conta o problema preocupante
do espaço verde.
O pior é o mundo lá fora
Esta é a penosa realidade política no
segundo país da União Europeia, parte integrante do rol de desgraças que se
abate sobre o mundo e sobre os seus habituais comentadores e pivots noticiosos.
JAIME NOGUEIRA PINTO Colunista do
Observador
OBSERVADOR, 11 out. 2025, 00:1853
“Era
em circunstâncias idênticas” – escrevia Eça de Queirós nas ”Cartas de
Inglaterra” – que Granville,
“olhando…para todos os lados do horizonte político e social e não vendo senão
presságios negros de revolta, guerra, crises e perigos para a pátria, dizia,
banhado em júbilo, quase em êxtase: – Meu Deus! Que deliciosas noites se vão
passar no Club”.
Hoje, as circunstâncias voltaram a
ser idênticas. Ainda que o mundo lá fora não esteja para júbilos e um rol de
desgraças se abata sobre “o sistema”, vamos certamente poder continuar a contar
com “deliciosas noites” nos nossos “clubes de jornalistas” de referência.
Da República Checa ao Japão
Que
dizer das eleições parlamentares na República Checa, de 3 e 4 de Outubro, ganhas pelo ANO, um partido de
“extrema-direita” com um programa de realismo
em política externa, de baixa de impostos, aumento de pensões, controle de
imigração e poucas ou nenhumas preocupações verdes? É que o
partido dos “cidadãos descontentes”, com 35% do voto popular e 80
deputados eleitos, não deve ter grande dificuldade em fazer governo com o apoio
de mais dois partidos de uma direita ainda mais extrema – o Partido da Liberdade e Democracia Directa e o chamado Partido
dos Motoristas.
E das eleições para a liderança do partido
da direita que está no governo no Japão, no passado Sábado? Quem as ganhou foi Sanae
Takaichi, uma “hard-line conservative”, segundo o New York Times, que assim
se torna a primeira mulher indigitada para chefe do Executivo
no Japão.
França: Macronia e carnificina
eleitoral
Em França a crise da tripolarização continua, sob a agitada regência de Macron, em
permanente gesticulação internacional e marcial para abafar a cacofonia
doméstica. O desfile dos candidatos a primeiro-ministro prossegue. Agora foi
a vez de Sébastien Lecornu, o
primeiro-ministro que permaneceu 27 dias no cargo, renunciar, da noite para o
dia, à chefia de um governo que durou 14 horas – das 19h40m de Domingo, 5 de
Outubro, às 9h45m de Segunda-Feira, 6 de Outubro.
Por
umas horas, o governo ainda conseguiu juntar macronistas de várias orientações
e algumas personalidades de Les Républicans, compreendendo a “direita
civilizada”. Mas foi dessa “direita civilizada” que chegou a ruptura,
quando Bruno Retailleau,
de Les Républicans (ex-ministro do Interior e considerado da “linha dura”)
manifestou o seu descontentamento perante um
governo, cuja “composição não reflectia a ruptura prometida”.A crítica foi publicada na rede social X
menos de duas horas depois do anúncio do governo. Assim, na noite de Domingo,
caía ainda antes de ser submetida ao parlamento a solução Lecornu, cozinhada
pelo Centrão, ignorando as oposições à direita e à esquerda (do Rassemblement
National e dos Insubmissos).
Na Quarta-Feira, 8 de Outubro, o Figaro
publicava os resultados de um inquérito à opinião pública. Quem era o principal responsável pela crise política, em França? O
resultado não surpreendia: para 57% dos inquiridos, era Macron. E como sair da crise, que paralisava o país, há vários
meses? Para a maioria dos inquiridos (60%) só com uma
dissolução da Assembleia Nacional e novas eleições legislativas. Sempre
segundo as sondagens do Figaro, 7 em
cada 10 franceses queria a demissão de Macron, sendo que, desses 70%, 48% se
diziam “muito favoráveis” à demissão do Presidente e 22% apenas “favoráveis”.
Dizia ainda ao Figaro um observador
próximo de Les Républicains que, “se houvesse uma dissolução, ia ser uma carnificina
eleitoral”. E como a “carnificina” atingiria, sobretudo, o centro
macronista e os seus partidários, o Presidente francês vai multiplicando os
gestos belicistas, procurando aparecer como o grande campeão da russofobia. Para a França da V República, com instituições criadas
por De Gaulle, que fizerem do Presidente a chave constitucional de todo o
sistema, a agitação de um chefe do executivo internamente fraco, hesitante e
ambíguo e internacionalmente estridente não augura nada de bom.
Levados por este clima, e não querendo
deixar para a Direita Nacional o papel de impulsionadores da iniciativa, 104
parlamentares de esquerda, na maioria do La
France Insoumise, apresentaram
à Assembleia Nacional uma proposta de destituição do Presidente da República.
Na apreciação prévia, o secretariado do parlamento chumbou a moção, com
a abstenção dos deputados do Rassemblement National.
A
França vive um momento político complicado, de tripolarização,
com três blocos político-partidários fortes: a direita do Rassemblement National de
Marine Le Pen e Jordan Bardella, o centro de Emmanuel Macron e Gabriel Attal e
a Esquerda Radical dos Insubmissos de Mélanchon e dos Socialistas. Três blocos só capazes de se entenderem a
dois para bloquear o terceiro. Restam a “direita moderada” de Les
Republicains, e a Reconquête de
Zémmour.
Na sondagem Toluna Harris Interactive
para a RTL, de 8 de Outubro, numa primeira volata, os candidatos presidenciais Le Pen e Bardella ficariam
largamente à frente, com 34% e 35% dos votos, respectivamente; isto é,
com mais 12 pontos do que na primeira volta de 2022 (23%). O mais bem
classificado do centro alargado à direita moderada seria Edouard Philippe
(15/16%) de Les Republicains, e, à esquerda, Jean-Luc
Mélanchon teria 14%. Contando com o tradicional apelo a uma “frente
anti-fascista” na segunda
volta, resta saber qual deles passaria; e se o número de centristas e
centro-direitistas a votar por Mélanchon seria suficiente para colmatar o deficil face
ao Rassemblement, ou se os esquerdistas de Mélanchon votariam em Edouard
Philippe – para muitos deles, um perigoso protofascista.
Mas
pior ainda para a Esquerda e o Centrão é o cenário das eleições parlamentares. Uma
sondagem da Opinium Way para CNEWS dá o Rassemblement
National à frente, com 33%, e 4% para a Reconquête. A Esquerda Unida, do Nouveau
Front Populaire, ficaria pelos 25% e, ao centro, o macronismo cairia para 15% e
Les Republicains subiriam para 13%.
Na esquerda há uma “guerrilha” dos
Verdes e dos Socialistas contra os Insubmissos. Ou seja, em
França, há, neste momento, uma
“Extrema-Direita” (RN, Reconquête, Debout la France, Divers Droites) que soma
41% das intenções de voto; uma “Direita moderada” (Les Républicains) com 13%; o
centro macroniano com 15% e a Esquerda e a Extrema Esquerda com 25%.
Esta é a penosa realidade política no
segundo país da União Europeia, parte integrante do rol de desgraças que se
abate sobre o mundo e sobre os seus habituais comentadores e pivots noticiosos.
A
última gota foi quando, na noite de Quarta-Feira, veio o anúncio de que Trump,
o arqui-vilão dos folhetins comentatórios, tinha conseguido a paz em Gaza.
Nem tudo está perdido
Mas nem tudo está perdido e ainda há lugar para algum júbilo: o facto de Trump não ter conseguido o Nobel
da Paz promete proporcionar “deliciosas noites” televisivas, com imagens em loop
do vilão a pedir o prémio e cortes cirúrgicos naquela parte em que diz “eles
nunca mo vão dar”. Há que encontrar júbilo onde se pode para que a vida
nos clubes de informação continue. A vencedora do prémio, Maria
Corina Machado, tem, pelo
menos, o mérito de não ser Trump… e o facto de ser a líder da resistência
anti-comunista venezuelana pode também ser ignorado.
Estava-se tão bem no Clube se não
houvesse mundo lá fora!
A SEXTA
COLUNA HISTÓRIA CULTURA MUNDO
COMENTÁRIOS (de 53):
Komorebi Hi: A
França de Macron, a Espanha de Sanchez e extrema-esquerda e a UE de von der
Leyen fazem a UE um edifício que cairá com estrondo e com consequências
irreparáveis. O UK seguirá o mesmo caminho. O caso de Portugal com Sócrates,
será pequeno como exemplo do que será irreparável, não haverá BCE ou FMI que
valha ao descalabro social e económico para além da guerra civil que está
instalada com a extrema-esquerda e a imigração descontrolada. Rui Lima: Nos anos 60, a França viveu o seu período de
ouro era uma das economias que mais crescia no mundo e muito disso deveu-se aos
imigrantes portugueses. Gente trabalhadora, séria, incansável, que ajudou a
França. Mas
essa boa imigração acabou, hoje grande parte dos que chegam não traz profissão,
nem vontade de se integrar, são um peso para o sistema e criaram comunidades
fechadas, alheias ao país que os acolheu. O resultado uma França dividida, insegura,
em crise política e social, o custo
financeiro da política de portas abertas
destruiu-o as finanças do país, o país paga agora o preço desta fragmentação. A
França arrisca-se a tornar-se um novo Líbano partida por dentro, sem rumo e sem
identidade comum. Manuel
Magalhaes: O mundo lá fora e
governos dirigidos por gente fraca, o resultado está à vista… saudades de
Ronald Reagan e de Margaret Thatcher! Talvez a Meloni, a ver vamos! José B Dias: E como a “carnificina”
atingiria, sobretudo, o centro macronista e os seus partidários, o Presidente
francês vai multiplicando os gestos belicistas, procurando aparecer como o
grande campeão da russofobia. Para a França da V República, com
instituições criadas por De Gaulle, que fizerem do Presidente a chave
constitucional de todo o sistema, a agitação de um chefe do executivo
internamente fraco, hesitante e ambíguo e internacionalmente estridente não
augura nada de bom. E
não é caso único, como facilmente se pode verificar olhando para o Reino Unido,
a Alemanha ou Espanha ... madalena colaço:
Sexta-feira à noite os jornalistas
em frente ao palácio do Eliseu aguardavam em vão pela promessa de Macron, que
pedira mais 48 horas depois da demissão de Lecornu para eleger um novo 1º
ministro, (o 4º desde a dissolução do ano passado). Mas, mas afinal Macron
nomeia outra vez Lecornu para 1º ministro. É óbvio que os franceses se sentem
gozados e não admira os números de rejeição do mesmo. Macron não se pode
demitir. E não se pode demitir porque no momento não há nenhum lugar disponível
na Europa ou na Nato ou...Tem de aguentar até 2027 até o lugar de comissário
ficar vago. Macron não quer saber dos franceses, mas tudo faz para se preocupar
com os Europeus que pretende governar. O que ainda resta da soberania nacional
é para acabar e vivam os europeus. Franceses, italianos, portugueses...vamos lá
acabar com as bandeirinhas nacionais e pegar na bandeira azul das estrelinhas.
Não admira que a direita esteja a vencer em todo o lado... Francisco Almeida: É impossível não admirar JNP mesmo quando
ele se mostra amargo e, arriscaria eu, descrente de um futuro desejável ou
mesmo aceitável. Partilho
a mesma inquietação mas não a centro tanto em França. Mark Rutte, Alexander
Stubb e Giorgia Meloni, já mostraram que é possível lidar com Trump e a ideia
de a Europa não ser um bloco, não me é desagradável. A minha inquietação maior
é a Alemanha, económica e politicamente. Luis Silva > Kindu: Patético. O
que é que isso tem a ver? É o script do Largo do Rato para bots obsoletos? Kindu: Estas lutas políticas entre governos
desacreditados e as “extremas-direitas” é que interessam a Jaime Nogueira
Pinto. O que aí vem a seguir, a capitulação perante o imperialismo fascista
russo, isso já não o interessa tanto.
Miguel Macedo: Muito
bem! Como sempre! Américo
Silva: Parabéns
pela boa crónica, magnífica comparativamente aos seus colegas, Lecornu é o novo
primeiro ministro anunciado. maria
santos: Entre o ódio desbragado da Mortágua e a sonsice dissimulada de
Sérgio Sousa Pinto, o Clube do Centrão amparado pelo jornalixo selecto das
revistas e pantalla cor-de-rosa (Maria, Corin-Tellado, Expresso, etc.)
lá vai andando. Amanhã
temos autárquicas. O mundo lá fora vai dizer e o Clube irá discorrer. João Floriano: Julgo que quando Jaime Nogueira Pinto escreveu
esta crónica, ainda Macron não tinha reconduzido Lecornu no cargo. Achei a recondução curiosa porque prova que
Macron esgotou as soluções e estará apenas a ganhar tempo. Muito pouco,
possivelmente apenas uns dias. Poderá haver também aqui uma grande fezada que
desta vez por qualquer intervenção de Santa Joana d'Arc, haja entendimento e se
chegue a uma solução. Mas a santa está-se borrifando para o Macron e para
o que ele representa. Kindu: Quando todos esses partidos europeus nacionalistas,
grande parte deles pró-russos, chegarem ao poder, o que parece ser só uma
questão de tempo, chegará o dia da celebração do “Peace in our time”, e veremos
então uma coisa insólita, Jaime Nogueira Pinto e o Partido Comunista Português
como compagnons de route, quem havia de dizer… António Rocha Pinto: Uma das penas na passagem do tempo foi terem
desaparecido os clubes e os cafés. Eça hoje teria de se organizar nas
"redes".
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