Da realidade actual, para reviver, com gratidão, uma realidade – BERNARD SHAW
- da nossa lembrança aprazível, com a CRÓNICA de CARLOS MARIA BOBONE:
George Bernard Shaw: há cem anos era distinguido o mais mordaz dos Nobel
CARLOS MARIA BOBONE
OBSERVADOR, 08 out. 2025, 12:34
Na véspera de mais uma entrega
do ilustre prémio literário, Carlos Maria Bobone recorda o dramaturgo irlandês,
que venceu em 1925 — ainda que tenha vacilado em aceitar e recusado o dinheiro.
Custa acreditar que o grande dramaturgo
do século XIX e o grande dramaturgo do século XX tenham nascido com apenas dois
anos de diferença. Não há aqui
um jogo de palavras nem um paradoxo de nenhum tipo: Oscar Wilde nasceu em 1854 e é um escritor do século XIX,
George Bernard Shaw nasceu em 1856 e é um escritor do século XX.
Esta
diferença talvez ajude a perceber Bernard
Shaw; embora um sentido de
oportunidade quase perfeito e um humor condensado em tiradas mortais o
aproxime, de facto, de Wilde, em tudo o resto o mundo de um e de outro são
muito diferentes. Shaw vem
de uma classe média irlandesa – o que, em Londres, o punha uns degraus mais
abaixo na escala social – e a sua reputação intelectual foi-se construindo com
um esforço que horrorizaria Wilde; começou como crítico musical, tornou-se
crítico de teatro, até se tornar, ele próprio, dramaturgo. Há, da parte dele, um longo caminho até chegar ao
teatro, e não apenas no sentido temporal. Qualquer leitor de Shaw
conhece os seus famosos
prefácios, tantas
vezes maiores do que as peças que prefaciam. Como dele diz Chesterton, a filosofia sobre o facto
antecede sempre o facto, e Shaw explica sempre os acontecimentos antes que
estes aconteçam.
Trata-se
de uma curiosa forma de escrever, que denuncia, por um lado, o conflito de
personalidade que existe em Shaw e, por outro, mostra o modo como se foi
criando a arte de intervenção. Shaw é,
claramente, um autor comprometido, a um ponto que hoje parece datado. Foi o
mais famoso membro da Sociedade Fabiana do seu tempo, um socialista empenhado
que escreveu livros didácticos sobre progresso, socialismo e distribuição da
riqueza, e ninguém como ele representa o tipo de progressismo pré-marxista, próprio da viragem do século, fascinado
com todas as prisões do indivíduo: do
darwinismo às teorias de determinação social, do materialismo mais clássico às
amarras psicológicas, ninguém sintetiza tão bem como Shaw a aliança entre as
ciências do fim do século XIX e as esquerdas emergentes, na sua tentativa de
dar um carácter científico à política, às ciências humanas, e à vida.
Shaw
ajudou a perpetuar o snobismo
inglês de que
ele próprio se ria e deu-lhe até uma feição cómica que o próprio mundo adotou. O riso cria uma condescendência que, de alguma
maneira, trava a denúncia. Mas o riso
também pode ser ineficaz no seu propósito crítico e isso, de certa maneira,
explica o êxito de Bernard Shaw num mundo cada vez mais desconfortável para ele.
Tudo
isto se manifesta nas peças de Shaw, e Shaw faz questão de vincar o lado
ideológico das suas peças (é por isso que o seu grande amigo Chesterton lhe
chama Puritano, pela sua incapacidade de tomar um prazer simplesmente
por um prazer); mesmo quando elas parecem ligeiras, Shaw carrega-as de uma
seriedade revolucionária, através de um prefácio ou de um desenlace mais
moralista (mas sobretudo de um prefácio) que não deixe margem para dúvidas
sobre o carácter progressista do que ali se passa.
Este
tipo de comportamento, hoje, parece-nos algo ingénuo; não por algum
tipo de cinismo ou por cansaço, como se o facto de já ter havido muitos
artistas comprometidos invalidasse a atitude, mas simplesmente porque é fácil
de perceber que, numa obra de ficção, o enredo está nas mãos do autor, que o
pode conduzir para onde quer. Justificar acontecimentos
fictícios com forças sociais tem, naturalmente, esta fraqueza, a que tantas
vezes sucumbem os maus romances engajados.
O
teatro de Shaw, contudo, não sofre deste problema; a separação entre o momento
pedagógico e o acontecimento, de alguma maneira, protege as peças deste
determinismo forçado e dá uma pista para aquilo que poderia ser a arte
comprometida: é claro que a divisão não é inteiramente satisfatória, quer
porque ninguém garante que quem vê a peça lê a explicação, quer porque há um lado
de síntese numa obra de arte que não é inteiramente satisfeito quando ela
precisa de ser explicada. No entanto, a verdade é que, assim, Bernard Shaw
tem boas peças e bons ensaios, que não se estragam mutuamente. Mais, assim
conserva-se um dos lados mais interessantes da personalidade de Shaw, que teria
dificuldade em subsistir a partir do momento em que a explicação entrasse de
facto na peça. Ora, isso vê-se diante de algumas das suas peças principais.
▲Shaw
passou os últimos anos da sua vida a ter opiniões cada vez mais absurdas, que o
deviam pôr cada vez mais à margem da sociedade, mas foi cada vez mais
acarinhado por isso - Getty Images
O seu primeiro grande êxito, As Armas e
os Varões, é por ele
explicado como uma peça sobre a inutilidade da guerra. Nas
considerações sobre a peça, todo o azedume cínico, a desconfiança sobre a
natureza humana, aquela estranha mistura entre um progressismo que acredita num
homem que não vê e deplora aquele que vê, estão patentes; cada passo é explicado como num ensaio de
Bertrand Russell, para tudo há explicações sociais, e até o pano de fundo, a
guerra da Bulgária de 1885, parece pesado, como um anúncio dos mundos
soviéticos que virão; no entanto, aquilo que a peça nos mostra, embora
não choque com nada disto, é o contraste cómico entre o idealismo de uma
rapariga e o prosaísmo céptico de um mercenário que transporta chocolates no
lugar das balas, foge da guerra, e se porta como um dos encantadores crápulas
que povoam as peças de Shaw (o pai de
Eliza, em Pigmalião, é um exemplo parecido).
É compreensível a preocupação de Shaw: a leveza com que ele trata os problemas
pode levar a que eles não sejam sequer percebidos como problemas sociais; é
perfeitamente possível passar por Pigmalião concentrado
apenas nas divertidas distinções sociais através do sotaque ou por Homem e
Super-Homem sem ligar
à inversão do mito don juanesco e à sua ligação com o conservadorismo social
que, na verdade, prende os homens, reprimindo os seus instintos sedutores. Há uma
natureza cómica nas suas peças cujo alcance o próprio Bernard Shaw não parece
ter percebido. É claro que o riso ajuda a espalhar a mensagem, e também Bernard
Shaw assim o justifica; mas o riso traz também um problema: é que ele também pode, de alguma forma, neutralizar a crítica.
O riso, e vemo-lo com o snobismo linguístico do professor
Higgins, também desperta simpatia. Shaw ajudou a
perpetuar o snobismo inglês de que ele próprio se ria e deu-lhe até uma feição
cómica que o próprio mundo adoptou. O riso cria uma condescendência que, de alguma maneira,
trava a denúncia. Nesse
sentido, acaba por ser inimigo da luta de classes, não no sentido que se vê em
tantas ditaduras – em que o riso é temido pela sua eficácia – mas no sentido
contrário: o riso também pode ser ineficaz no seu propósito
crítico e isso, de certa maneira, explica o êxito de Bernard Shaw num mundo
cada vez mais desconfortável para ele.
Shaw passou os últimos anos da sua vida a ter opiniões cada vez mais
absurdas, que o deviam pôr cada vez mais à margem da sociedade, mas foi cada
vez mais acarinhado por isso. Em parte, isso deve-se ao mundo teatral que ele próprio criou. Era
uma figura excêntrica, cómica, e que olhava para tudo através de uma lente
risível; o público reagiu sempre mais àquilo que a crítica provocava do que
àquilo que dizia, e por isso saiu sempre mais alegre das denúncias de Shaw ao
modo de vida que levava.
Ora, a manifestação mais clara desta distância entre as intenções de Shaw e
aquilo que o público via nele dá-se precisamente em 1925, quando a Academia Sueca decide entregar-lhe o
prémio Nobel. A
resposta é típica de Shaw: diz que poderia perdoar a Alfred Nobel ter inventado a dinamite, mas nunca
lhe poderia perdoar ter inventado uma aberração como o prémio Nobel; está lá o
humor, está o pacifismo, mas também um público habituado a não tomar a sério o
que ele diz, a ponto de lhe dar um prémio que contraria claramente as suas
convicções. O
mundo das distinções, aliás, volta a ofendê-lo em 1938, altura em que recebe um
Óscar pela adaptação cinematográfica de Pigmalião/Minha Linda Senhora, tornando-o, até ao aparecimento de Bob Dylan, e revelando o
estranho apetite das cerimónias para galardoar quem as despreza, o único
vencedor das duas distinções.
É verdade que, exortado pela mulher, Shaw acabou por aceitar o prémio
Nobel, embora sem aceitar o dinheiro. Pediu que, em vez de lhe ser dado a ele,
o dinheiro fosse usado para traduzir peças de Strindberg para inglês, mas não
se sabe se o seu desejo foi realmente cumprido ou se foi, mais uma vez,
tratado como um louco.
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