quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Chapéus há muitos

 

Mas só escondem as cabeças, protegendo-as, para mais, dos sóis e até das chuvas – mais no caso dos homens, contudo, que eles são espertos e fazem copas e abas abrangentes e devidamente duras e protectoras. Lenços, mantilhas, burcas, maleáveis e passíveis de se ensoparem, apontam mais para a fragilidade, mas também para o recato, que se pretende na mulher. Para a sua sonsice igualmente, esperta que é, gostando de ver sem ser vista, usando o lenço para poder espreitar melhor o que se passa em redor, e mantendo a sua aparente inocência na questão da curiosidade coscuvilheira. Tudo na vida tem o seu objectivo, e os lenços das cabeças, na sua maleabilidade, são de alcance importante nas vidas femininas, permitindo o disfarce na curiosidade, repito. Mas admito estar enganada, tanto mais que os lenços na cabeça usam-se mais nas aldeias, por baixo dos cestos que as mulheres carregam… Costumes! As burcas são outra coisa, uma constante imposta pelo homem que se pretende bom macho, zelador das suas fêmeas, igualmente boas.

De pé, ó vítimas do fim das vítimas da burca!

Segundo o candidato a Presidente, António Filipe, “não compete ao Estado definir o que as pessoas vestem ou deixam de vestir”. Para o PCP, tudo compete ao Estado, menos evitar o avanço da barbárie.

Tiago Dores Colunista do Observador

OBSERVADOR, 22 out. 2025, 00:1634

Até há escassos dias, se me perguntassem qual a notícia mais improvável que podia imaginar, talvez optasse por algo do género: “Bloco de Esquerda e Livre emitem comunicado, lido a meias em jeito de musical por Mariana Mortágua e Rui Tavares, em que confirmam que um homem não pode tornar-se uma mulher e uma mulher não pode tornar-se um homem.”

Esta era a notícia mais improvável que podia imaginar até há escassos dias. Porque, há escassos dias, deparei-me com o seguinte título, aqui no Observador:Gangues suecos violentos ajustam contas à luz do dia no sul de Espanha.” Confesso ter pensado: “Alto. Tu queres ver que o Magnusson, o Schwartz e o Thern foram de férias para o sul de Espanha, entusiasmaram-se com as cañas, o Mats esborrachou todas as espreguiçadeiras onde assentou o rabo para tentar fazer uma sesta e armou-se para lá uma grande confusão?!

Mas não, parece não ter sido exactamente isso. Os tais gangues de suecos teriam mais em comum com aquele grupo de portugueses vítimas do acidente de aviação na Índia, do que com os nórdicos que pontificaram no Sport Lisboa e Benfica na virada dos anos 80 para os 90. “Suecos” e “portugueses” — tais como “racista”, “fascista”, “homem”, “mulher”, ou tantíssimas outras palavras fazem agora parte do vasto leque de palavras cujo significado vem sendo incansavelmente esvaziado de sentido, naquela que é apenas mais uma prova de que a extrema-esquerda destrói tudo aquilo em que toca.

Ainda assim, e logo quando eu estava convicto que já tínhamos decidido — pelo menos os adultos na sala — que um menino será sempre um menino e uma menina será sempre uma menina, rebenta a polémica sobre o que fazer com uma tradição religiosa que impõe às mulheres andarem de cara tapada em público. E agora? Que fazer? Deve a lei de um país ocidental do século XXI conformar-se com uma primitiva, grotesca e humilhante tradição? Ou deve a lei de um país ocidental do século XXI conformar-se com os ideais civilizacionais que, ao fim de séculos, garantiram aos seus cidadãos um conjunto de direitos que mais nenhuma civilização, em tempo algum, foi capaz de garantir? Hum…

Difícil, esta, hein?! Quase tão difícil como confrontar o lunático argumento apresentado como uma qualquer versão d’o mais provável é que, sem burca, as mulheres sejam impedidas de sair de casa e se vejam ainda mais isoladas num contexto de fanatismo religioso.” Como é que é? Portanto, as mulheres vivem num ambiente opressivo de fanatismo religioso, certo? O que fazer em relação a isso, então? Tirá-las desse ambiente opressivo de fanatismo religioso? Alguma vez?! Nem pensar. A resposta certa édeixar que os opressores as tirem de casa da forma repugnante que mais lhes aprouver!” Para esta malta, é como se canta no clássico tema: um tapinha islâmico não dói.

Tanto não dói que o PCP, por exemplo, levava alguns com imenso gosto, se isso significasse levar as democracias ocidentais ao tapete. Segundo o candidato a Presidente de Portugal, e súbito descobridor dos méritos da liberdade individual, António Filipe, “não compete ao Estado definir o que as pessoas vestem ou deixam de vestir”. Uau. Clap, clap, clap. Temos António Filibertário. A ver se eu percebi. Portanto, para o PCP, tudo, mas absolutamente tudo!, compete ao Estado. Tudo menos, claro, evitar o avanço da barbárie, porquanto esta permite arrasar com o nosso estado de direito. É isso, não é? É reconfortante, saber sempre com o que contar do PCP.

Com o que eu não contava, confesso, era com o discurso de Rui Rocha sobre este tema da burca. Justiça seja feita ao ex-líder-ex-molinho da Iniciativa Liberal: as suas últimas intervenções, com destaque para esta sobre as vestimentas de Batman, provam que Rui Rocha pode ter perdido a liderança do partido, mas ganhou um par de jóias de família. Se serão as jóias que foram furtadas do museu Louvre, em Paris, não sei, mas desconfio que não. Mais provável é, daqui a uns dias, sair a notícia de que o roubo foi antes responsabilidade de um gangue de suecos.

EXTREMA ESQUERDA     POLÍTICA     ISLÃO     RELIGIÃO     SOCIEDADE

COMENTÁRIOS (de 34)

GateKeeper: Top 10.                  Ana Luís da Silva: Excelente artigo! Como mulher e mãe de duas jovens mulheres (e de um jovem homem respeitador das mulheres) agradeço este desassombrado, assertivo, lúcido manifesto de Tiago Dores contra a burka (escrevo com kapa de propósito, para não a normalizar nem sequer pela linguística) e a sua inteligente e acutilante crítica aos argumentos e posicionamento da Esquerda, sobretudo da insanável contradição do candidato do PCP a Presidente da República. Gostaria de citar aqui alguns trechos desta brilhante crónica, mas vou ficar apenas por um que quanto a mim estraçalha qualquer argumento da Esquerda… ou dos “partidários da libertinagem” que não-respeitam-as-mulheres-e-que-se-dizem-“liberais”-para-disfarçar: “ (…) rebenta a polémica sobre o que fazer com uma tradição religiosa que impõe às mulheres andarem de cara tapada em público. E agora? Que fazer? Deve a lei de um país ocidental do século XXI conformar-se com uma primitiva, grotesca e humilhante tradição? Ou deve a lei de um país ocidental do século XXI conformar-se com os ideais civilizacionais que, ao fim de séculos, garantiram aos seus cidadãos um conjunto de direitos que mais nenhuma civilização, em tempo algum, foi capaz de garantir? Hum…” Sublime uso da ironia! Bem-haja Tiago Dores!              Rui Lima: Tiago muito bem apanhado, António Filipe acha que o Estado não deve dizer o que vestimos. Nos países comunistas, é justamente isso que acontece… mas parece que ele já se esqueceu. É um candidato de memória curta esquece o controlo total do Estado sobre a vida e a morte do cidadão nos regimes comunistas           Maria Cordes > Moises Almeida: Não são mulheres, são mulheres lobomotizadas pela esquerda, nem o Prof. Egas Moniz conseguiria tal êxito, se a direita pede o fim das burkas, elas vestem burka, e acabou-se. É um fenómeno de estudo. Para mim, era mandá-las para a Arábia Saudita, assistir à degolação de uma mulher, não, um saco de gritos, saco preto, onde nada se distingue, depois de um julgamento sumário.          Moises Almeida: Muito bom, sobre este tema a mim (se calhar sou eu que não entendo alguma coisa) deixa-me atónito ver que a maioria dos opositores desta lei são mulheres, não consigo perceber... este tema a meu ver, deveria ser algo que as mulheres nem deveriam admitir qualquer discussão, tal é o significado pesado da burca.                    Paulo Luis da Silva: Bem!!! Tantos tiros certeiros! Com excelente ironia, a colocar o dedo na ferida infectada que os esquerdoidos abriram.               João Floriano > Rui Lima: Exactamente. Ainda nos lembramos da riqueza de indumentária na China maoista. E então na Coreia do Norte nem se fala.                  João Floriano > Américo Silva: A imaginação é tramada. Uma mulher de burka é sempre bela, nunca tem os dentes tortos, buço generoso ou rugas. Pode ser o que cada um de nós quiser.                        José B Dias: Importante relembrar a peça aqui publicada, assinada pelo jornalista Tiago Caeiro, onde o acento tónico é ostensivamente colocado no facto de os meliantes serem de "nacionalidade sueca" e não na de serem "suecos" de arribação ... Também os "de nacionalidade britânica", "francesa", "belga", "holandesa", "espanhola" e ... "portuguesa", são presença habitual nas páginas dos jornais, incluindo este, e nas notícias das rádios e televisões!                AndradeBG:  Há um par de anos foi divulgado um tiroteio a partir de uma carrinha com uma família sueca que, veio a saber-se pouco depois, tinha de suecos o mesmo que esses gangues em serviço cívico no Sul de Espanha. A Suécia está a receber os frutos do que semeou.          Manuel Gonçalves: O RAP devia aprender com o Tiago o que é o humor politicamente incorrecto. Ainda bem que, juntamente com o JDQ, não se deixaram aprisionar pelo sistema.                  Miguel Macedo: Muito bom!                      Américo Silva: Os gangues suecos foram realmente criados por políticos suecos loiros, alemães e da união europeia em geral, que os importaram voluntariamente.                     Américo Silva: A burka tem tudo para artigo de Sexshop, dizia Raul Brandão: É um traje misterioso e atraente. Quando saem, de negro, envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço tem outro realce. Desaparecem e deixam-nos cismáticos.        Carminda Damiao: Excelente artigo.                      Maria João Pestana: Eu compreendo que os bloquistas queiram a burca. Ex, se o pai das Mortágua exercesse as funções que exerceu de burca safava-se bem e a culpa até ia para as mulheres Islâmicas.          Tomazz Man: Muito bom 😃                 João Floriano: Esta crónica de Tiago Dores teve o efeito de me suscitar dúvidas que até agora não me tinham tirado o sono. Será que a lei da burqa vai ser o fim do Batman, Spiderman, Tartarugas Ninja e pior do que todos estes, o Zorro? é que todos eles são justiceiros que tapam o rosto. Como se vai explicar às crianças que andar de burqa é proibido mas que estes heróis nunca mostraram o rosto em público e a geração dos seus avós e dos seus pais cresceu com eles? Escapa o Superman mas aí a Lois Lane é tão parvinha que não percebe quem é de facto o Superman, nem pelo cheiro do aftershave.         Rosa Graça: Grande, como sempre.                     Pedro Correia: Ironicamente, muito bom!!!

 

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