Mas só escondem as
cabeças, protegendo-as, para mais, dos sóis e até das chuvas – mais no caso dos
homens, contudo, que eles são espertos e fazem copas e abas abrangentes e devidamente
duras e protectoras. Lenços, mantilhas, burcas, maleáveis e passíveis de se ensoparem,
apontam mais para a fragilidade, mas também para o recato, que se pretende na
mulher. Para a sua sonsice igualmente, esperta que é, gostando de ver sem ser
vista, usando o lenço para poder espreitar melhor o que se passa em redor, e mantendo
a sua aparente inocência na questão da curiosidade coscuvilheira. Tudo na vida tem
o seu objectivo, e os lenços das cabeças, na sua maleabilidade, são de alcance
importante nas vidas femininas, permitindo o disfarce na curiosidade, repito. Mas
admito estar enganada, tanto mais que os lenços na cabeça usam-se mais nas
aldeias, por baixo dos cestos que as mulheres carregam… Costumes! As burcas são
outra coisa, uma constante imposta pelo homem que se pretende bom macho,
zelador das suas fêmeas, igualmente boas.
De pé, ó vítimas do fim das
vítimas da burca!
Segundo o candidato a Presidente, António Filipe, “não compete ao Estado
definir o que as pessoas vestem ou deixam de vestir”. Para o PCP, tudo compete
ao Estado, menos evitar o avanço da barbárie.
Tiago Dores Colunista do Observador
OBSERVADOR, 22 out. 2025, 00:1634
Até há escassos dias, se me
perguntassem qual a notícia mais improvável que podia imaginar, talvez
optasse por algo do género: “Bloco de
Esquerda e Livre emitem comunicado, lido a meias em jeito de musical por
Mariana Mortágua e Rui Tavares, em que confirmam que um homem não pode
tornar-se uma mulher e uma mulher não pode tornar-se um homem.”
Esta era a notícia mais improvável
que podia imaginar até há escassos dias. Porque, há escassos dias, deparei-me com o seguinte título, aqui no Observador:
“Gangues suecos violentos ajustam contas
à luz do dia no sul de Espanha.” Confesso ter pensado: “Alto. Tu queres ver que o Magnusson, o
Schwartz e o Thern foram de férias para o sul de Espanha, entusiasmaram-se com
as cañas, o Mats esborrachou todas as espreguiçadeiras
onde assentou o rabo para tentar fazer uma sesta e armou-se para lá uma grande
confusão?!”
Mas não, parece não ter sido
exactamente isso. Os tais gangues de
suecos teriam mais em comum com aquele grupo de portugueses vítimas do acidente
de aviação na Índia, do que com os nórdicos que pontificaram no Sport Lisboa e
Benfica na virada dos anos 80 para os 90. “Suecos” e “portugueses” — tais como “racista”, “fascista”, “homem”, “mulher”, ou tantíssimas
outras palavras — fazem agora parte do vasto leque de palavras cujo
significado vem sendo incansavelmente esvaziado de sentido, naquela que é
apenas mais uma prova de que a extrema-esquerda destrói tudo aquilo em que toca.
Ainda assim, e logo quando eu estava convicto que já
tínhamos decidido — pelo menos os adultos na sala — que um menino será sempre
um menino e uma menina será sempre uma menina, rebenta a polémica sobre o que
fazer com uma tradição religiosa que impõe às mulheres andarem de cara tapada
em público. E agora? Que fazer? Deve a lei de um país ocidental do
século XXI conformar-se com uma primitiva, grotesca e humilhante tradição? Ou deve a
lei de um país ocidental do século XXI conformar-se com os ideais
civilizacionais que, ao fim de séculos, garantiram aos seus cidadãos um
conjunto de direitos que mais nenhuma civilização, em tempo algum, foi capaz de
garantir? Hum…
Difícil, esta, hein?! Quase
tão difícil como confrontar o lunático argumento apresentado como uma qualquer
versão d’ “o
mais provável é que, sem burca, as mulheres sejam impedidas de sair de casa e
se vejam ainda mais isoladas num contexto de fanatismo religioso.”
Como é que é? Portanto, as mulheres
vivem num ambiente opressivo de fanatismo religioso, certo? O que
fazer em relação a isso, então? Tirá-las desse ambiente opressivo de fanatismo religioso? Alguma
vez?! Nem pensar. A resposta certa é “deixar que os opressores as tirem de casa
da forma repugnante que mais lhes aprouver!” Para esta malta, é como
se canta no clássico tema: um tapinha
islâmico não dói.
Tanto
não dói que o PCP, por exemplo, levava alguns com imenso gosto, se isso
significasse levar as democracias ocidentais ao tapete. Segundo
o candidato a Presidente de Portugal, e súbito descobridor dos méritos da
liberdade individual, António Filipe, “não
compete ao Estado definir o que as pessoas vestem ou deixam de vestir”.
Uau. Clap, clap, clap. Temos António Filibertário. A
ver se eu percebi. Portanto,
para o PCP, tudo, mas absolutamente tudo!, compete ao Estado. Tudo menos,
claro, evitar o avanço da barbárie, porquanto esta permite arrasar com o nosso
estado de direito. É isso, não é? É reconfortante, saber sempre com o que
contar do PCP.
Com o que eu não contava,
confesso, era com o discurso de Rui Rocha sobre este tema da burca.
Justiça seja feita ao ex-líder-ex-molinho da Iniciativa
Liberal: as
suas últimas intervenções, com destaque para esta sobre as vestimentas de
Batman, provam que Rui Rocha pode ter perdido a liderança do partido, mas
ganhou um par de jóias de família. Se serão as jóias que foram furtadas do
museu Louvre, em Paris, não sei, mas desconfio que não. Mais provável é, daqui
a uns dias, sair a notícia de que o roubo foi antes responsabilidade de um
gangue de suecos.
EXTREMA
ESQUERDA POLÍTICA ISLÃO RELIGIÃO SOCIEDADE
COMENTÁRIOS (de 34)
GateKeeper: Top 10. Ana Luís da Silva: Excelente artigo! Como mulher e mãe de duas jovens mulheres (e
de um jovem homem respeitador das mulheres) agradeço este desassombrado,
assertivo, lúcido manifesto de Tiago Dores contra a burka (escrevo com
kapa de propósito, para não a normalizar nem sequer pela linguística) e a sua
inteligente e acutilante crítica aos argumentos e posicionamento da Esquerda,
sobretudo da insanável contradição do candidato do PCP a Presidente da
República. Gostaria de citar aqui alguns trechos desta brilhante crónica, mas
vou ficar apenas por um que quanto a mim estraçalha qualquer argumento da
Esquerda… ou dos “partidários da libertinagem” que
não-respeitam-as-mulheres-e-que-se-dizem-“liberais”-para-disfarçar: “ (…) rebenta a polémica sobre o que fazer com uma tradição religiosa
que impõe às mulheres andarem de cara tapada em público. E agora? Que fazer? Deve a lei de um país ocidental do século XXI
conformar-se com uma primitiva, grotesca e humilhante tradição? Ou deve a lei
de um país ocidental do século XXI conformar-se com os ideais civilizacionais
que, ao fim de séculos, garantiram aos seus cidadãos um conjunto de direitos
que mais nenhuma civilização, em tempo algum, foi capaz de garantir? Hum…”
Sublime uso da ironia! Bem-haja Tiago Dores! Rui Lima: Tiago muito bem apanhado, António Filipe
acha que o Estado não deve dizer o que vestimos. Nos países comunistas, é
justamente isso que acontece… mas parece que ele já se esqueceu. É um candidato
de memória curta esquece o controlo total do Estado sobre a vida e a morte do
cidadão nos regimes comunistas Maria Cordes > Moises Almeida: Não são mulheres, são mulheres
lobomotizadas pela esquerda, nem o Prof. Egas Moniz conseguiria tal êxito, se a
direita pede o fim das burkas, elas vestem burka, e acabou-se. É um fenómeno de
estudo. Para mim, era mandá-las para a Arábia Saudita, assistir à degolação de
uma mulher, não, um saco de gritos, saco preto, onde nada se distingue, depois
de um julgamento sumário. Moises
Almeida: Muito bom, sobre este
tema a mim (se calhar sou eu que não entendo alguma coisa) deixa-me atónito ver
que a maioria dos opositores desta lei são mulheres, não consigo perceber...
este tema a meu ver, deveria ser algo que as mulheres nem deveriam admitir
qualquer discussão, tal é o significado pesado da burca. Paulo
Luis da Silva: Bem!!! Tantos
tiros certeiros! Com
excelente ironia, a colocar o dedo na ferida infectada que os esquerdoidos
abriram. João
Floriano > Rui Lima: Exactamente. Ainda nos lembramos da riqueza de indumentária na China
maoista. E então na Coreia do Norte nem se fala. João Floriano > Américo Silva: A imaginação é tramada. Uma mulher de
burka é sempre bela, nunca tem os dentes tortos, buço generoso ou rugas. Pode
ser o que cada um de nós quiser. José B
Dias: Importante
relembrar a peça aqui publicada, assinada pelo jornalista Tiago Caeiro, onde o
acento tónico é ostensivamente colocado no facto de os meliantes serem de
"nacionalidade sueca" e não na de serem "suecos" de
arribação ... Também os "de nacionalidade britânica",
"francesa", "belga", "holandesa",
"espanhola" e ... "portuguesa", são presença habitual nas
páginas dos jornais, incluindo este, e nas notícias das rádios e televisões! AndradeBG: Há um
par de anos foi divulgado um tiroteio a partir de uma carrinha com uma família
sueca que, veio a saber-se pouco depois, tinha de suecos o mesmo que esses
gangues em serviço cívico no Sul de Espanha. A Suécia está a receber os frutos
do que semeou. Manuel
Gonçalves: O RAP devia aprender com o Tiago o que é o
humor politicamente incorrecto. Ainda bem que, juntamente com o JDQ, não se
deixaram aprisionar pelo sistema. Miguel
Macedo: Muito
bom! Américo
Silva: Os
gangues suecos foram realmente criados por políticos suecos loiros, alemães e
da união europeia em geral, que os importaram voluntariamente. Américo
Silva: A
burka tem tudo para artigo de Sexshop, dizia Raul Brandão: É um traje misterioso e atraente. Quando saem, de negro, envoltas
nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do
olhar, mais vivo no rebuço tem outro realce. Desaparecem e deixam-nos
cismáticos.
Carminda Damiao: Excelente artigo.
Maria João Pestana: Eu compreendo que os bloquistas queiram a burca. Ex, se o pai das
Mortágua exercesse as funções que exerceu de burca safava-se bem e a culpa até
ia para as mulheres Islâmicas. Tomazz
Man: Muito
bom 😃 João Floriano: Esta crónica de Tiago Dores teve o efeito
de me suscitar dúvidas que até agora não me tinham tirado o sono. Será que a
lei da burqa vai ser o fim do Batman, Spiderman, Tartarugas Ninja e pior do que
todos estes, o Zorro? é que todos eles são justiceiros que tapam o rosto. Como
se vai explicar às crianças que andar de burqa é proibido mas que estes heróis
nunca mostraram o rosto em público e a geração dos seus avós e dos seus pais
cresceu com eles? Escapa o Superman mas aí a Lois Lane é tão parvinha que não
percebe quem é de facto o Superman, nem pelo cheiro do aftershave. Rosa Graça: Grande, como sempre. Pedro
Correia: Ironicamente,
muito bom!!!
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