Para pessoas de fé no intervencionismo político, que lhes dá renome, pese
embora a fraca densidade da sua participação, mais centrada em divagação, de
moralidade fácil… Uma excelente análise de JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO, Coronel
"Comando".
Lenine e os santos da causa: activistas e idiotas úteis
O activista e o idiota útil são, como
Lenine descrevia, um utensílio descartável, não particularmente esperto,
entusiasmado no apoio a causas que mal compreende e que o esmagariam se
vencessem.
JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO, Coronel
"Comando"
OBSERVADOR, 15 out. 2025,
00:18136
Lenine tinha um
talento singular: conseguir que pessoas aparentemente inteligentes fizessem
coisas estúpidas ao serviço de uma causa estúpida. O próprio usava um termo
bastante conciso e preciso para designar tais criaturas: idiotas úteis.
O conceito é simples: cidadãos medíocres, mas
bem-intencionados, normalmente bem instalados no conforto burguês, convencem-se
de que apoiando causas e regimes duvidosos, estão a servir o “progresso” e o
“bem”. A sua motivação é a vaidade moral e uma fé inabalável na sua própria
superioridade ética.
Imagine-se um sujeito banal, licenciado
às três pancadas no ISCTE, incapaz de alinhavar uma frase com mais de seis
palavras, que leu meio livro no secundário e é ignorado até pela pouco exigente
vizinha do 2.º esquerdo. O que fazer com tanta frustração?
Aderir
a uma causa. E, por via disso, transformar-se instantaneamente num ser
indignado, e convicto de ser moralmente superior.
Funciona
com o clima, com o capitalismo, com o planeta, com Gaza, e com todas as “fobias”
e “causas” da moda.
Incidentalmente serve também para
tentar engatar alguém na próxima manifestação. Desde as manifes
“frifripalestine” até às erupções da Climáximo, passando pelos sunsets de ganza e jambé nos conveses
das flotilhas, a libido revolucionária é uma constante antropológica
dos activistas e dos idiotas úteis.
In
ilo tempore, a fauna era preenchida por artistas de artes
duvidosas, que celebravam a Revolução Russa enquanto os camponeses morriam à
fome. Depois vieram
os intelectuais de Cambridge, que achavam Estaline e a ditadura do
proletariado, vias necessárias para os amanhãs que cantam. Hoje o
modelo é o mesmo, mas o alvo imediato da “intifada global” é o judeu, como via
privilegiada para a Revolução.
O idiota
útil contemporâneo já não cita Lenine, de resto nem sabe quem é, mas decora os
títulos do The Guardian, do Haaretz e do New York Times, dos “relatórios” da
ONU e das ONGs activistas financiadas pelo Qatar e pelos contribuintes europeus. Já não
ergue o punho pelo modelo soviético, mas berra pelo clima, grita pelo
Hamas, ou por qualquer “oprimido” de ocasião, desde que convenientemente distante. Não corre
nenhum risco, mas sente-se heróico. Acredita que o Hamas é um movimento de
“resistência”, que Israel é “colonialista” e que a opressão é sempre ocidental.
Se a realidade insiste em
contradizê-lo, tanto pior para a realidade. A fórmula é bastante simples: o inimigo é
o Ocidente, o culpado é o capitalismo e o “sionismo”, a vítima é sempre o
“outro”, seja ele quem for, desde que do outro lado da equação esteja o
“heteropatriarcado” ocidental e/ou os judeus. O resto (a verdade, a lógica, os
factos) é apenas ruído burguês.
É com naturalidade que o activista
berra substantivos tremendos e cita os sagrados números do “Ministério da Saúde de Gaza” , de
forma mais reverente que os versículos do Corão numa madrassa, ou os discursos
de Francisco Louçã numa reunião do BE.
Jura que luta pela paz, mas chora de
raiva quando alguém a propõe, sobretudo se for Trump. Na verdade, a paz é-lhe insuportável, porque não dá
selfies, nem manifs, nem subsídio, nem permite sinalizar virtude.
Note-se que não existe activismo
anti-chinês pela ocupação do Tibete, nem activismo anti-russo pela ocupação da
Ucrânia. Porquê?
Porque só o judeu como alvo, confere prestígio moral e nenhum risco físico.
Desiludidos com a classe operária, que
prefere o iPhone e o futebol à sua missão histórica de derrubar o capitalismo,
os activistas transferiram a fé para várias “minorias oprimidas”, sobretudo
para os jihadistas e extremistas islâmicos, que são
consistentemente violentos e sinceramente antijudaicos.
As contradições não importam. É por isso
que há os “gays pela Palestina” e Mariana
Mortágua não
hesitou em navegar pela causa, ao lado de quem a atiraria sem pestanejar do
alto de um telhado.
Não é incoerência. As “causas” (Palestina,
clima, género, raça) são apenas
bandeiras descartáveis, pretextos de mobilização emocional para quem precisa de
se sentir útil, mas sofre da síndroma do impostor.
Tanto o activista como o idiota útil
(diferentes, mas por vezes indistinguíveis), acham-se supinamente informados. Repetem convictamente o que ouviram na
bolha da “resistência”, citam “fontes das Nações Unidas” e de obscuras ONG,
partilham frases do X e vídeos do Tik Tok, tudo isto com a solenidade e falta
de sentido de humor de quem descobriu os segredos do Universo.
Não percebem sequer que são apenas a
versão recente do mesmo espécime que Lenine descrevia: um utensílio descartável, não particularmente esperto,
entusiasmado no apoio a causas que mal compreende e que o esmagariam se
vencessem.
O
idiota útil, também movido por uma espécie de culpa burguesa, é basicamente
alguém que se odeia a si mesmo.
Como
lhe falta coragem para se castigar, renunciar ao iphone, ao ipad, ao Cerelac e
ao conforto, procura expiar a culpa apoiando tiranos estrangeiros, terrorismo,
ou ideologias falidas, tudo o que seja contra aquilo em que ele prospera, como
revolucionário de sofá.
A criatura milita sempre na bolha
exígua da esquerda urbana, particularmente em certos campus universitários
onde se estudam coisas como “Justiça Climática, Género e Libertação
Pós-Sionista na Palestina”, “Epistemologias Interseccionais: Raça, Clima
e Identidade nas Fronteiras de Gaza”, etc. Esta esquerda esquizofrénica tem uma
admiração patológica por movimentos que, no fundo, a desprezam.
Lenine precisava dos idiotas úteis
para dar verniz moral à brutalidade bolchevique. Hoje os aiatolas do Irão, o Hamas em Gaza, os Irmãos
Muçulmanos, o Emir do Qatar, ou a nomenklatura de Pequim, precisam deles
pelo mesmo motivo: para que a violência pareça virtude e o terror pareça
justiça.
E,
como há um fornecimento inesgotável de idiotas ansiosos por mostrar virtude,
aparecer na televisão e sentir-se do lado certo da História (vejam-se por
exemplo os casos de Sofia Aparício e da Greta), o truque continua a florescer.
A simbiose entre a extrema-esquerda e
o fanatismo islâmico seria até cómica, se não fosse trágica. De um lado, feministas que marcham ao lado de quem apedreja
mulheres; do outro, ecologistas financiados por regimes sustentados pelo
petróleo, do outro antissemitas doutrinados por narrativas primárias e
antigas. Uns e
outros unem-se na mesma cruzada moral: destruir
o único sistema político e económico que lhes permite existir.
Ao longo do tempo, os slogans mudam,
os cadáveres mudam, mas o mecanismo é o mesmo: alguém
mata, alguém justifica, alguém aplaude, e todos dormem tranquilos.
Por cá, a colónia prospera. Houve
tempos em que usavam “t-shirts” com o
Che Guevara e boina revolucionária. Nos dias que correm, apresentam-se,
elas de marrafa, eles de rastas ou
capuchos, gritam “frifripalestine”, tomam banho de mês a mês, e
usam kufyas no pescoço e iPhone na mão, os símbolos gémeos da sua
“coerência” moral.
No fundo, é fácil reconhecê-los:
aparecem sempre em magotes quando há um assassino a justificar e um inocente a
culpar. A diferença
entre o idiota útil de Lenine e o de hoje é apenas tecnológica. O
primeiro usava cartazes, o segundo usa selfies e hashtags. Mas ambos servem o
mesmo propósito: dar um ar respeitável à estupidez.
Quando tudo acabar, quando os
horrores que defendem lhes baterem à porta, irão jurar que não sabiam. E, tal
como os de 1917, serão lembrados não pelo mal que combateram, mas pelo mal que
ajudaram a crescer.
COMENTÁRIOS (de 136)
Luis Silva: "O activista e o idiota
útil são, como Lenine descrevia, um utensílio descartável, não particularmente
esperto, entusiasmado no apoio a causas que mal compreende e que o esmagariam
se vencessem" Não tem nada a ver com o quadrante político, o cronista
encaixa na perfeição nessa definição, embora eu presuma que ele é apenas
patrocinado para fazer essa figura.
Liberales Semper Erexitque: Não existe activismo anti-russo??? Mas o próprio colunista e todo um
sortido de Rambos espalhados pelo Ocidente não fazem outra coisa a partir 2022! José B DiasJose Carmo: Imagine-se um sujeito banal, licenciado às três
pancadas no ISCTE, incapaz de alinhavar uma frase com mais de seis palavras,
que leu meio livro no secundário e é ignorado até pela pouco exigente vizinha
do 2.º esquerdo. O que fazer com tanta frustração? E o tal sujeito será
"banal e incapaz de alinhavar uma frase com mais de seis palavras"
por ter frequentado o ISCTE ou apesar disso?
José B Dias: Os seguintes são todos ex alunos do ISCTE ... quais
são mesmo os que a vizinha do 2° andar, amiga do cronista, não respeita?
Ana Maria Alves Directora do Gabinete de Compliance da
CGD
António Barreira Administrador na West Global SGPS
António Morgado Administrador ANA
António Quitério Paulo Partner da TTI Success Insights
Aurora Baptista Fundadora Cumprir Metas
Carlos Fontão de Carvalho Responsável pelo escritório
de Luanda, Advisory Services Coordinator, na BDO
Dulce Cardoso Mota membro do Conselho de Administração
da Fundação Millennium BCP
Fernando Teles Presidente do Conselho de Administração
e Presidente do Conselho Executivo do Conselho de Administração do Banco BIC,
SA
Gonçalo Salazar LeitePresidente da Comissão Executiva
do Grupo SECIL
Guilherme Collares Pereira Director de
Responsabilidade Social da Fundação EDP e Vice-Presidente da Direção da SUN AID
Hélder Braz Presidente do Conselho de
Administração do Grupo RHmais
Joana Rego Partner GPW
João Braz Frade CEO da MyBrand
Jorge Tomé Presidente do Banif
José Alberto Antunes Director de Marketing da
Coca-Cola Portugal
José Pena do Amaral Ex-administrador do BPI, Vogal da
Comissão Executiva do Conselho de Administração do Banco BPI
José Serrano Gordo Vice-Presidente do Conselho de
Administração Executivo da Infraestruturas de Portugal, SA
Luís Cecílio Ex-CFO Odebrecht Moçambique
Luís Justino Administrador da Proóptica
Luís Todo Bom Gestor e professor da IBS
Miguel Pina Martins CEO da Science4you
Miguel Sales Dias Ex-Director do Microsoft Language
Development Center
Nuno Amado Presidente do Millennium bcp
Nuno Miguel Teixeira Brand Manager da Montblanc
Paulo Trezentos CEO da Aptoide
Pedro Moreira Presidente Fundo Turismo
Pedro Norton de Matos CEO da Commit
José B Dias > António Soares: Como em toda e qualquer outra universidade
portuguesa?
Francisco Carrapatoso: Uma peça para imprimir e
espalhar nas paredes da redacções da CS, incluído o Observador. Muito obrigado
pelo seu texto.
Paulo Silva:
Na mouche. A
invasão do Tibete pela China comunista é contemporânea do conflito
israelo-árabe, mas como bem diz o articulista…‘não
existe activismo anti-chinês pela ocupação do Tibete.’ Pequim conduz um silencioso processo de sinização do
Tibete há décadas sem qualquer oposição - mais eficaz que qualquer colonato
israelita na Cisjordânia ou qualquer raide das IDF na faixa de Gaza - que os
mentecaptos de lenço ao pescoço olimpicamente ignoram. A pergunta que se impõe à
menina Marxiana e à Sofia desperdício é: Para quando uma flotilha, (ou uma
caravana), pelo martirizado e subalternizado povo tibetano? No dia de são nunca
à tarde, não é, ilustres hipócritas úteis?...
SDC Cruz:
Uma crónica
mordaz e corrosiva que é a melhor definição da esquerdalha urbana. Para
emoldurar em lugar de destaque no ISCTE, no ISEG, nos Estudos Qualquer Coisa de
Coimbra e em outros que tais, que proliferam no nosso ensino
"superior".
(CONTINUA)
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