quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Nomenclaturas

 

Para pessoas de fé no intervencionismo político, que lhes dá renome, pese embora a fraca densidade da sua participação, mais centrada em divagação, de moralidade fácil… Uma excelente análise de JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO, Coronel "Comando".

Lenine e os santos da causa: activistas e idiotas úteis

O activista e o idiota útil são, como Lenine descrevia, um utensílio descartável, não particularmente esperto, entusiasmado no apoio a causas que mal compreende e que o esmagariam se vencessem.

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO, Coronel "Comando"

OBSERVADOR, 15 out. 2025, 00:18136

Lenine tinha um talento singular: conseguir que pessoas aparentemente inteligentes fizessem coisas estúpidas ao serviço de uma causa estúpida. O próprio usava um termo bastante conciso e preciso para designar tais criaturas: idiotas úteis.

O conceito é simples: cidadãos medíocres, mas bem-intencionados, normalmente bem instalados no conforto burguês, convencem-se de que apoiando causas e regimes duvidosos, estão a servir o “progresso” e o “bem”. A sua motivação é a vaidade moral e uma fé inabalável na sua própria superioridade ética.

Imagine-se um sujeito banal, licenciado às três pancadas no ISCTE, incapaz de alinhavar uma frase com mais de seis palavras, que leu meio livro no secundário e é ignorado até pela pouco exigente vizinha do 2.º esquerdo. O que fazer com tanta frustração?

Aderir a uma causa. E, por via disso, transformar-se instantaneamente num ser indignado, e convicto de ser moralmente superior.

Funciona com o clima, com o capitalismo, com o planeta, com Gaza, e com todas as “fobias” e “causas” da moda.

Incidentalmente serve também para tentar engatar alguém na próxima manifestação. Desde as manifes “frifripalestine” até às erupções da Climáximo, passando pelos sunsets de ganza e jambé nos conveses das flotilhas, a libido revolucionária é uma constante antropológica dos activistas e dos idiotas úteis.

In ilo tempore, a fauna era preenchida por artistas de artes duvidosas, que celebravam a Revolução Russa enquanto os camponeses morriam à fome. Depois vieram os intelectuais de Cambridge, que achavam Estaline e a ditadura do proletariado, vias necessárias para os amanhãs que cantam. Hoje o modelo é o mesmo, mas o alvo imediato da “intifada global” é o judeu, como via privilegiada para a Revolução.

O idiota útil contemporâneo já não cita Lenine, de resto nem sabe quem é, mas decora os títulos do The Guardian, do Haaretz e do New York Times, dos “relatórios” da ONU e das ONGs activistas financiadas pelo Qatar e pelos contribuintes europeus. Já não ergue o punho pelo modelo soviético, mas berra pelo clima, grita pelo Hamas,  ou por qualquer “oprimido” de ocasião, desde que convenientemente distante. Não corre nenhum risco, mas sente-se heróico. Acredita que o Hamas é um movimento de “resistência”, que Israel é “colonialista” e que a opressão é sempre ocidental.

Se a realidade insiste em contradizê-lo, tanto pior para a realidade. A fórmula é bastante simples: o inimigo é o Ocidente, o culpado é o capitalismo e o “sionismo”, a vítima é sempre o “outro”, seja ele quem for, desde que do outro lado da equação esteja o “heteropatriarcado” ocidental e/ou os judeus. O resto (a verdade, a lógica, os factos) é apenas ruído burguês.

É com naturalidade que o activista berra substantivos tremendos e cita os sagrados números do “Ministério da Saúde de Gaza” , de forma mais reverente que os versículos do Corão numa madrassa, ou os discursos de Francisco Louçã numa reunião do BE.

Jura que luta pela paz, mas chora de raiva quando alguém a propõe, sobretudo se for Trump. Na verdade, a paz é-lhe insuportável, porque não dá selfies, nem manifs, nem subsídio, nem permite sinalizar virtude.

Note-se que não existe activismo anti-chinês pela ocupação do Tibete, nem activismo anti-russo pela ocupação da Ucrânia. Porquê? Porque só o judeu como alvo, confere prestígio moral e nenhum risco físico.

Desiludidos com a classe operária, que prefere o iPhone e o futebol à sua missão histórica de derrubar o capitalismo, os activistas transferiram a fé para várias “minorias oprimidas”, sobretudo para os jihadistas e extremistas islâmicos, que são consistentemente violentos e sinceramente antijudaicos.

As contradições não importam. É por isso que há os “gays pela Palestina” e Mariana Mortágua não hesitou em navegar pela causa, ao lado de quem a atiraria sem pestanejar do alto de um telhado.

Não é incoerência. As “causas” (Palestina, clima, género, raça) são apenas bandeiras descartáveis, pretextos de mobilização emocional para quem precisa de se sentir útil, mas sofre da síndroma do impostor.

Tanto o activista como o idiota útil (diferentes, mas por vezes indistinguíveis), acham-se supinamente informados. Repetem convictamente o que ouviram na bolha da “resistência”, citam “fontes das Nações Unidas” e de obscuras ONG, partilham frases do X e vídeos do Tik Tok, tudo isto com a solenidade e falta de sentido de humor de quem descobriu os segredos do Universo.

Não percebem sequer que são apenas a versão recente do mesmo espécime que Lenine descrevia: um utensílio descartável, não particularmente esperto, entusiasmado no apoio a causas que mal compreende e que o esmagariam se vencessem.

O idiota útil, também movido por uma espécie de culpa burguesa, é basicamente alguém que se odeia a si mesmo.

Como lhe falta coragem para se castigar, renunciar ao iphone, ao ipad, ao Cerelac e ao conforto, procura expiar a culpa apoiando tiranos estrangeiros, terrorismo, ou ideologias falidas, tudo o que seja contra aquilo em que ele prospera, como revolucionário de sofá.

A criatura milita sempre na bolha exígua da esquerda urbana, particularmente em certos campus universitários onde se estudam coisas como Justiça Climática, Género e Libertação Pós-Sionista na Palestina”, “Epistemologias Interseccionais:  Raça, Clima e Identidade nas Fronteiras de Gaza”, etc. Esta esquerda esquizofrénica tem uma admiração patológica por movimentos que, no fundo, a desprezam.

Lenine precisava dos idiotas úteis para dar verniz moral à brutalidade bolchevique. Hoje os aiatolas do Irão, o Hamas em Gaza, os Irmãos Muçulmanos, o Emir do Qatar, ou a nomenklatura de Pequim, precisam deles pelo mesmo motivo: para que a violência pareça virtude e o terror pareça justiça.

E, como há um fornecimento inesgotável de idiotas ansiosos por mostrar virtude, aparecer na televisão e sentir-se do lado certo da História (vejam-se por exemplo os casos de Sofia Aparício e da Greta), o truque continua a florescer.

A simbiose entre a extrema-esquerda e o fanatismo islâmico seria até cómica, se não fosse trágica. De um lado, feministas que marcham ao lado de quem apedreja mulheres; do outro, ecologistas financiados por regimes sustentados pelo petróleo, do outro antissemitas doutrinados por narrativas primárias e antigas. Uns e outros unem-se na mesma cruzada moral: destruir o único sistema político e económico que lhes permite existir.

Ao longo do tempo, os slogans mudam, os cadáveres mudam, mas o mecanismo é o mesmo: alguém mata, alguém justifica, alguém aplaude, e todos dormem tranquilos.

Por cá, a colónia prospera. Houve tempos em que usavam “t-shirts” com o Che Guevara e boina revolucionária. Nos dias que correm, apresentam-se, elas de marrafa, eles de rastas ou capuchos, gritam “frifripalestine”, tomam banho de mês a mês, e usam kufyas no pescoço e iPhone na mão, os símbolos gémeos da sua “coerência” moral.

No fundo, é fácil reconhecê-los: aparecem sempre em magotes quando há um assassino a justificar e um inocente a culpar. A diferença entre o idiota útil de Lenine e o de hoje é apenas tecnológica. O primeiro usava cartazes, o segundo usa selfies e hashtags. Mas ambos servem o mesmo propósito: dar um ar respeitável à estupidez.

Quando tudo acabar, quando os horrores que defendem lhes baterem à porta, irão jurar que não sabiam. E, tal como os de 1917, serão lembrados não pelo mal que combateram, mas pelo mal que ajudaram a crescer.

EXTREMA ESQUERDA       POLÍTICA

COMENTÁRIOS (de 136)

Luis Silva: "O activista e o idiota útil são, como Lenine descrevia, um utensílio descartável, não particularmente esperto, entusiasmado no apoio a causas que mal compreende e que o esmagariam se vencessem" Não tem nada a ver com o quadrante político, o cronista encaixa na perfeição nessa definição, embora eu presuma que ele é apenas patrocinado para fazer essa figura.          Liberales Semper Erexitque: Não existe activismo anti-russo??? Mas o próprio colunista e todo um sortido de Rambos espalhados pelo Ocidente não fazem outra coisa a partir 2022!                 José B DiasJose Carmo: Imagine-se um sujeito banal, licenciado às três pancadas no ISCTE, incapaz de alinhavar uma frase com mais de seis palavras, que leu meio livro no secundário e é ignorado até pela pouco exigente vizinha do 2.º esquerdo. O que fazer com tanta frustração? E o tal sujeito será "banal e incapaz de alinhavar uma frase com mais de seis palavras" por ter frequentado o ISCTE ou apesar disso?

José B Dias: Os seguintes são todos ex alunos do ISCTE ... quais são mesmo os que a vizinha do 2° andar, amiga do cronista, não respeita?

Ana Maria Alves Directora do Gabinete de Compliance da CGD

António Barreira Administrador na West Global SGPS

António Morgado Administrador ANA

António Quitério Paulo Partner da TTI Success Insights

Aurora Baptista Fundadora Cumprir Metas

Carlos Fontão de Carvalho Responsável pelo escritório de Luanda, Advisory Services Coordinator, na BDO

Dulce Cardoso Mota membro do Conselho de Administração da Fundação Millennium BCP

Fernando Teles Presidente do Conselho de Administração e Presidente do Conselho Executivo do Conselho de Administração do Banco BIC, SA

Gonçalo Salazar LeitePresidente da Comissão Executiva do Grupo SECIL

Guilherme Collares Pereira Director de Responsabilidade Social da Fundação EDP e Vice-Presidente da Direção da SUN AID

Hélder Braz Presidente do Conselho de Administração do Grupo RHmais

Joana Rego Partner GPW

João Braz Frade CEO da MyBrand

Jorge Tomé Presidente do Banif

José Alberto Antunes Director de Marketing da Coca-Cola Portugal

José Pena do Amaral Ex-administrador do BPI, Vogal da Comissão Executiva do Conselho de Administração do Banco BPI

José Serrano Gordo Vice-Presidente do Conselho de Administração Executivo da Infraestruturas de Portugal, SA

Luís Cecílio Ex-CFO Odebrecht Moçambique

Luís Justino Administrador da Proóptica

Luís Todo Bom Gestor e professor da IBS

Miguel Pina Martins CEO da Science4you

Miguel Sales Dias Ex-Director do Microsoft Language Development Center

Nuno Amado Presidente do Millennium bcp

Nuno Miguel Teixeira Brand Manager da Montblanc

Paulo Trezentos CEO da Aptoide

Pedro Moreira Presidente Fundo Turismo

Pedro Norton de Matos CEO da Commit

José B Dias  > António Soares: Como em toda e qualquer outra universidade portuguesa?

Francisco Carrapatoso: Uma peça para imprimir e espalhar nas paredes da redacções da CS, incluído o Observador. Muito obrigado pelo seu texto.

Paulo Silva: Na mouche. A invasão do Tibete pela China comunista é contemporânea do conflito israelo-árabe, mas como bem diz o articulista…‘não existe activismo anti-chinês pela ocupação do Tibete.’ Pequim conduz um silencioso processo de sinização do Tibete há décadas sem qualquer oposição - mais eficaz que qualquer colonato israelita na Cisjordânia ou qualquer raide das IDF na faixa de Gaza - que os mentecaptos de lenço ao pescoço olimpicamente ignoram. A pergunta que se impõe à menina Marxiana e à Sofia desperdício é: Para quando uma flotilha, (ou uma caravana), pelo martirizado e subalternizado povo tibetano? No dia de são nunca à tarde, não é, ilustres hipócritas úteis?...

SDC Cruz: Uma crónica mordaz e corrosiva que é a melhor definição da esquerdalha urbana. Para emoldurar em lugar de destaque no ISCTE, no ISEG, nos Estudos Qualquer Coisa de Coimbra e em outros que tais, que proliferam no nosso ensino "superior".

(CONTINUA)

 

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