Seria bom que MARGARET THATCHER nos
servisse de exemplo, como serviu sempre de espanto, no seu “reinado”.
A centenária Margaret Thatcher
Nascida
há um século, Margaret Thatcher apareceu num momento de descrença como o
actual. Nem sempre as ocasiões se repetem, mas houve escolhas que fez que nos
podem ajudar ainda hoje.
ANDRÉ ABRANTES AMARAL Colunista
do Observador
OBSERVADOR, 19 out. 2025, 00:14
Sabemos o estado em que se encontrava o
Reino Unido quando Margaret Thatcher entrou no número 10 de Downing Street pela
primeira vez. Estamos a par do estado
em que o país se achava quando saiu pela última. Foi notória a dignidade que mostrou,
tanto na vitória do primeiro dia como na derrota do último. Conhecemos o
legado, temos noção do contexto da época, consciência das dificuldades e da
determinação necessárias que tão bem demonstrou para as ultrapassar. Não
ignoramos o seu papel para a derrocada do império comunista soviético, numa
aliança assumida com os EUA, mais tácita com o Vaticano. Não ignoramos o seu
carácter demonstrado no final da guerra das Falklands, mais precisamente no dia
12 de Outubro de 1982, mais especificamente num almoço no Guildhall depois da
parada da vitória, um evento tão cheio que os cônjuges dos políticos não
tiveram lugar à mesa e foram convidados para uma bebida após a refeição.
Charles
Moore conta, no final do primeiro volume da extensa biografia sobre a Dama de
Ferro, que Thatcher era a única mulher presente. Após os
brindes de circunstância, a que se seguiu o seu discurso, a Primeira-Ministra
levantou-se novamente e sugeriu: “Meus
senhores, vamos juntar-nos às nossas senhoras?” Na última frase deste
longo volume, Moore termina dizendo que aquele deve ter sido o
momento mais feliz da sua carreira política. A
mulher que os dominou a todos num mundo que era o deles, mas que tomou e viveu
como seu.
Mas isto, o que é público. O que nem sempre nos apercebemos é de
quanto o tempo confirmou as suas escolhas. Fico-me por três que, pela
sua actualidade, estão em cima da mesa. A primeira, a necessidade de redução da dívida pública. Ao
contrário de Ronald Reagan, Margaret Thatcher conseguiu excedentes orçamentais
(os tais que só agora em Portugal encaramos como indispensáveis) e reduziu a
dívida pública de 46% do PIB em 1979 para 32% do PIB em 1990. Quanto a este ponto é necessário referir
que Thatcher não via a redução da dívida em termos meramente contabilísticos ou
sequer económicos. Tinha uma perspectiva moral, ou ética se preferirem,
sobre o assunto. Hoje, a
antiga Primeira-Ministra ficaria espantada com o estado deplorável em que se
encontram as contas e a política britânica, mas não surpreendida com a crise
financeira e política francesa. A moral, ou a ética se preferirem, de
Thatcher era burguesa, a de um merceeiro de quem era filha, a dos comerciantes
que fizeram a Inglaterra. A moral
(ou ética) dos números, mas com um alcance muito acima da mera contagem. É a
decência ou integridade do indivíduo que acrescenta, que não pesa sobre os
outros, que não é um encargo, mas que contribui, que ajuda e é solidário. Tudo sustentado na religião cristã. Porque,
por muito que a muitos lhes custe, sem cristianismo não existiria democracia
liberal.
A segunda, que está relacionada com a primeira,
foi a sua oposição à moeda única europeia. Thatcher considerava a emissão de moeda um acto de
soberania de que não queria que o Reino
Unido prescindisse. Foi também
por isso que usou a política monetária para descer da inflação e conter as
contas públicas. Porque uma moeda forte depende da estabilidade dos
preços, da previsibilidade fiscal e de contas públicas excedentárias que
reduzam dívida pública. É isso que
dá confiança, convida ao investimento e cria empregos de alto valor
acrescentado, ou seja, empregos que pagam melhores salários. Foi o que
lhe deu autoridade para recusar a adesão à moeda única. Porque, ao
contrário de Portugal, o Reino
Unido não precisou de uma política monetária ditada a partir de Frankfurt e de
Berlim para conter a inflação para depois descer os juros. É a soberania numa
linha. Não basta falar alto. É preciso rigor nas políticas e isso foi o que
Thatcher exigiu. E conseguiu.
Mas a terceira escolha é de todas a que mais precisamos de
reter. Margaret Thatcher tinha orgulho no seu país. Era um
apreço essencialmente pela Inglaterra, mas que não a impediu de a estender ao
Reino Unido. Era um orgulho que não se confundia com nacionalismo porque não
nascia do medo, do receio, mas da confiança que tinha nos britânicos, nas
instituições, na história e nas tradições.
Foi essa confiança ou, se quisermos, fé ou também adesão de espírito ao que
considerava verdadeiro que a fez acreditar, ter esperança, em dias melhores e
lhe deu a coragem e a determinação política que lhe reconhecemos. Foi
também o que a fez acreditar nas vantagens do livre comércio, da liberdade
económica sem a qual (como tantas vezes referiu) não há liberdade política nem
liberdade social, menos ainda liberdade cultural.
Margaret
Thatcher foi bem-sucedida porque, como qualquer político que se preze, sabia falar em
público, conhecia os segredos das pausas, cativava, era acutilante e
aproveitava qualquer oportunidade para sobressair. Tinha um
olho clínico para o efeito. Mas não era só isso. O segredo estava no se
interessar por saber e em ter um gosto cultural apurado. Apreciava ópera e conhecia várias peças, conforme o
comprovaram pessoas como Charles Powell e o insuspeito John Julius Norwich. Thatcher encontrava-se com frequência com
diversos intelectuais e, antes de ser primeira-ministra, alguns deles eram
conselheiros do partido liberal, como Leonard
Shapiro e Isaiah Berlin. Tinha
também um apurado sentido da história, o que lhe dava uma ideia concreta sobre
o futuro do Reino Unido, uma curiosidade por saber as razões por trás das
decisões de cada um dos estados. Fazia por estar a par dos grandes autores da
época, como Hayek, Popper e tantos outros. Foi o gosto pelo saber, associado à
confiança e determinação de um animal político que fez dela uma governante que
surge muito de vez em quando. Thatcher apareceu num momento de descrença como o
actual. Nem sempre as ocasiões se repetem, mas houve escolhas que fez que nos
podem ajudar ainda hoje.
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