domingo, 19 de outubro de 2025

SIM

 

Seria bom que MARGARET THATCHER nos servisse de exemplo, como serviu sempre de espanto, no seu “reinado”.

A centenária Margaret Thatcher

Nascida há um século, Margaret Thatcher apareceu num momento de descrença como o actual. Nem sempre as ocasiões se repetem, mas houve escolhas que fez que nos podem ajudar ainda hoje.

ANDRÉ ABRANTES AMARAL Colunista do Observador

OBSERVADOR, 19 out. 2025, 00:14

Sabemos o estado em que se encontrava o Reino Unido quando Margaret Thatcher entrou no número 10 de Downing Street pela primeira vez. Estamos a par do estado em que o país se achava quando saiu pela última. Foi notória a dignidade que mostrou, tanto na vitória do primeiro dia como na derrota do último. Conhecemos o legado, temos noção do contexto da época, consciência das dificuldades e da determinação necessárias que tão bem demonstrou para as ultrapassar. Não ignoramos o seu papel para a derrocada do império comunista soviético, numa aliança assumida com os EUA, mais tácita com o Vaticano. Não ignoramos o seu carácter demonstrado no final da guerra das Falklands, mais precisamente no dia 12 de Outubro de 1982, mais especificamente num almoço no Guildhall depois da parada da vitória, um evento tão cheio que os cônjuges dos políticos não tiveram lugar à mesa e foram convidados para uma bebida após a refeição. Charles Moore conta, no final do primeiro volume da extensa biografia sobre a Dama de Ferro, que Thatcher era a única mulher presente. Após os brindes de circunstância, a que se seguiu o seu discurso, a Primeira-Ministra levantou-se novamente e sugeriu: “Meus senhores, vamos juntar-nos às nossas senhoras?” Na última frase deste longo volume, Moore termina dizendo que aquele deve ter sido o momento mais feliz da sua carreira política. A mulher que os dominou a todos num mundo que era o deles, mas que tomou e viveu como seu.

Mas isto, o que é público. O que nem sempre nos apercebemos é de quanto o tempo confirmou as suas escolhas. Fico-me por três que, pela sua actualidade, estão em cima da mesa. A primeira, a necessidade de redução da dívida pública. Ao contrário de Ronald Reagan, Margaret Thatcher conseguiu excedentes orçamentais (os tais que só agora em Portugal encaramos como indispensáveis) e reduziu a dívida pública de 46% do PIB em 1979 para 32% do PIB em 1990. Quanto a este ponto é necessário referir que Thatcher não via a redução da dívida em termos meramente contabilísticos ou sequer económicos. Tinha uma perspectiva moral, ou ética se preferirem, sobre o assunto. Hoje, a antiga Primeira-Ministra ficaria espantada com o estado deplorável em que se encontram as contas e a política britânica, mas não surpreendida com a crise financeira e política francesa. A moral, ou a ética se preferirem, de Thatcher era burguesa, a de um merceeiro de quem era filha, a dos comerciantes que fizeram a Inglaterra. A moral (ou ética) dos números, mas com um alcance muito acima da mera contagem. É a decência ou integridade do indivíduo que acrescenta, que não pesa sobre os outros, que não é um encargo, mas que contribui, que ajuda e é solidário. Tudo sustentado na religião cristã. Porque, por muito que a muitos lhes custe, sem cristianismo não existiria democracia liberal.

A segunda, que está relacionada com a primeira, foi a sua oposição à moeda única europeia. Thatcher considerava a emissão de moeda um acto de soberania de que não queria que o Reino Unido prescindisse. Foi também por isso que usou a política monetária para descer da inflação e conter as contas públicas. Porque uma moeda forte depende da estabilidade dos preços, da previsibilidade fiscal e de contas públicas excedentárias que reduzam dívida pública. É isso que dá confiança, convida ao investimento e cria empregos de alto valor acrescentado, ou seja, empregos que pagam melhores salários. Foi o que lhe deu autoridade para recusar a adesão à moeda única. Porque, ao contrário de Portugal, o Reino Unido não precisou de uma política monetária ditada a partir de Frankfurt e de Berlim para conter a inflação para depois descer os juros. É a soberania numa linha. Não basta falar alto. É preciso rigor nas políticas e isso foi o que Thatcher exigiu. E conseguiu.

Mas a terceira escolha é de todas a que mais precisamos de reter. Margaret Thatcher tinha orgulho no seu país. Era um apreço essencialmente pela Inglaterra, mas que não a impediu de a estender ao Reino Unido. Era um orgulho que não se confundia com nacionalismo porque não nascia do medo, do receio, mas da confiança que tinha nos britânicos, nas instituições, na história e nas tradições. Foi essa confiança ou, se quisermos, fé ou também adesão de espírito ao que considerava verdadeiro que a fez acreditar, ter esperança, em dias melhores e lhe deu a coragem e a determinação política que lhe reconhecemos. Foi também o que a fez acreditar nas vantagens do livre comércio, da liberdade económica sem a qual (como tantas vezes referiu) não há liberdade política nem liberdade social, menos ainda liberdade cultural.

Margaret Thatcher foi bem-sucedida porque, como qualquer político que se preze, sabia falar em público, conhecia os segredos das pausas, cativava, era acutilante e aproveitava qualquer oportunidade para sobressair. Tinha um olho clínico para o efeito. Mas não era só isso. O segredo estava no se interessar por saber e em ter um gosto cultural apurado. Apreciava ópera e conhecia várias peças, conforme o comprovaram pessoas como Charles Powell e o insuspeito John Julius Norwich. Thatcher encontrava-se com frequência com diversos intelectuais e, antes de ser primeira-ministra, alguns deles eram conselheiros do partido liberal, como Leonard Shapiro e Isaiah Berlin. Tinha também um apurado sentido da história, o que lhe dava uma ideia concreta sobre o futuro do Reino Unido, uma curiosidade por saber as razões por trás das decisões de cada um dos estados. Fazia por estar a par dos grandes autores da época, como Hayek, Popper e tantos outros. Foi o gosto pelo saber, associado à confiança e determinação de um animal político que fez dela uma governante que surge muito de vez em quando. Thatcher apareceu num momento de descrença como o actual. Nem sempre as ocasiões se repetem, mas houve escolhas que fez que nos podem ajudar ainda hoje.

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