Leiamos com a curiosidade sobre o que se pede, nessas terras tão plenas
de tragédias, hoje.
Leão XIV e o Jubileu da Ordem do Santo Sepulcro
“Penso
na ajuda notável que prestais, sem alarde nem publicidade, às comunidades da
Terra Santa, apoiando o Patriarcado latino de Jerusalém nas suas várias actividades.”
P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA Colunista
OBSERVADOR, 25
out. 2025, 00:172
“Viestes a Roma de várias partes
do mundo, e isto lembra-nos que a prática da peregrinação está na origem da
vossa história. Com efeito, nascestes para tutelar o Santo Sepulcro, para
cuidar dos peregrinos e para sustentar a Igreja de Jerusalém. Ainda hoje o
fazeis, com a humildade, a dedicação e o espírito de sacrifício que caraterizam
as Ordens equestres.” Foi com estas palavras que o Papa
Leão XIV, na passada quinta-feira, 23 de Outubro, se dirigiu
aos 3.700 Cavaleiros e Damas da Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de
Jerusalém (OCSSJ), por ocasião da sua
peregrinação jubilar a Roma. Para
este efeito, recordou o que, em circunstância similar, tinha dito São João
Paulo II a propósito do carisma
desta instituição milenar da Igreja católica, cuja missão específica é
prestar “um testemunho constante de fé e de solidariedade para com os
cristãos residentes nos Lugares Santos” (São João Paulo II, Discurso aos participantes no Jubileu da
Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém, 2 de Março de 2000).
A OCSSJ é uma milícia de carácter
religioso, que presta um efectivo serviço aos fiéis e às entidades católicas da
pátria de Jesus de Nazaré. “Penso” – disse Leão XIV – “na ajuda notável que prestais, sem alarde
nem publicidade, às comunidades da Terra Santa, apoiando o Patriarcado latino
de Jerusalém nas suas várias actividades: o seminário, as escolas, as obras de
caridade e assistência, os projectos humanitários e formativos, a Universidade,
a ajuda às Igrejas, com intervenções particulares em momentos de maior crise,
como aconteceu durante a Covid e nos dias trágicos da guerra.”
Segundo
o Santo Padre, esta Ordem pontifícia, mais do que se ocupar com monumentos e
espaços, embora dignos da maior consideração, cuida de pessoas que, pela sua maior vulnerabilidade, mais precisam
dessa ajuda: “Em tudo isto, mostrais
que tutelar o Sepulcro de Cristo não significa simplesmente preservar um legado
histórico-arqueológico ou artístico, por mais importante que seja, mas
sustentar uma Igreja feita de pedras vivas (cf. 1 Pd 2, 4-5), que em
volta dele nasceu e ainda hoje vive, como autêntico sinal de esperança pascal.”
Esta peregrinação jubilar congregou, em Roma, membros da OCSSJ de
todo o mundo. Para além da audiência com o Santo Padre, o Cardeal
Grão-Mestre, Fernando Filoni, presidiu à celebração da Eucaristia na Basílica
de São Pedro, concelebrada por uma dúzia de Bispos e várias dezenas de
sacerdotes da Ordem. A Lugar-Tenência
portuguesa fez-se representar pelo seu Lugar-Tenente, por um seu antecessor,
aproximadamente 25 leigos e dois sacerdotes.
A peregrinação jubilar teve o seu início a 21 de Outubro, com a
passagem pela porta santa, na Basílica de São Paulo Extramuros, onde depois se
celebrou a Santa Missa, que foi presidida pelo Cardeal Grão-Mestre da OCSSJ.
No dia seguinte, a Eucaristia teve
lugar na Basílica de São João de Latrão, cuja
porta santa deu entrada a todos os presentes, para assim lucrarem a indulgência
plenária jubilar. Como o número de participantes excedeu as previsões,
a celebração inicialmente prevista foi
desdobrada em duas Missas consecutivas. Pela parte da tarde, os peregrinos da OCSSJ foram convidados a
transpor a porta santa da também basílica patriarcal de Santa Maria Maior, onde
descansam os restos mortais do Papa Francisco, em singela sepultura.
Leão XIV, na sua alocução, propôs aos
membros da OCSSJ três especiais dimensões do Jubileu da esperança.
“A primeira é a da espera
confiante. Sim, permanecer
diante do Sepulcro do Senhor significa renovar a própria fé em Deus, que mantém
as suas promessas, cujo poder nenhuma força humana pode derrotar. Num mundo em
que a prepotência e a violência parecem prevalecer sobre a caridade, sois
chamados a testemunhar que a vida vence a morte, que o amor derrota o ódio, que
o perdão vence a vingança e que a misericórdia e a graça derrotam o pecado.
O vosso ‘presídio’ nos Lugares Santos
seja, antes de tudo, um ‘presídio de fé’ que ajude os homens e as mulheres do
nosso tempo a parar com o coração diante do túmulo de Cristo, onde a dor
encontra resposta na confiança e onde, para quem sabe ouvir, continua a ressoar
o anúncio: ‘Não tenhais medo!
Sei que procurais Jesus, o crucificado. Não está aqui. Ressuscitou […] como
tinha dito’ (Mt 28, 6). E isto
podereis fazê-lo, alimentando o coração com uma intensa vida sacramental, com a
escuta e a meditação da Palavra de Deus, com a oração pessoal e litúrgica, com
a formação espiritual, tão cuidada na Ordem.”
Esta referência à intensa vida
espiritual e formação doutrinal, a que são chamados todos os que integram a
OCSSJ, evoca a origem desta
instituição, quando os cavaleiros eram também monges. Os actuais membros, embora maioritariamente
leigos, comprometem-se a viver, com especial intensidade, a sua condição
cristã, prestando um generoso auxílio ao Patriarcado latino de Jerusalém e às comunidades
paroquiais e diocesanas de que fazem parte.
Segundo o Papa, “a segunda dimensão da
esperança sobre a qual gostaria de refletir podemos vê-la encarnada no ícone
das mulheres que vão ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus (cf. Mc 16,
1-2). É o rosto do serviço, para o
qual nem sequer a morte do Mestre impede que Maria de Magdala, Maria mãe de
Tiago e Salomé cuidem d’Ele. Já vos manifestei a minha gratidão pelo
bem que praticais, seguindo a antiga tradição de assistência que vos distingue.
Em quantas ocasiões, graças ao vosso trabalho, se reabre uma fresta de luz
para pessoas, famílias, comunidades inteiras, que correm o risco de ser
assoladas por dramas terríveis, a todos os níveis, especialmente nos lugares
onde Jesus viveu. A vossa caridade sustenta-os,
vislumbrando nas suas necessidades aqueles ‘sinais dos tempos’ que o Papa
Francisco nos convidou a fazer nossos, para os transformar em ‘sinais de
esperança’.”
Na devoção
e serviço das santas mulheres e no corajoso testemunho de Nicodemos e de José
de Arimateia – os quais pediram, a Pôncio Pilatos, o Corpo de Jesus, para o
depositarem no santo sepulcro – se inspira o que se pede a todas as Damas e
Cavaleiros desta Ordem de Cavalaria. Com efeito, ninguém é admitido na Ordem se o único
que procura é uma satisfação pessoal, porque só pode ser recebido na OCSSJ quem
esteja disposto a prestar um serviço efectivo à Igreja, nomeadamente à que
subsiste, em circunstâncias por vezes dramáticas, na Terra Santa.
A este propósito, enunciou o Santo Padre
a “terceira dimensão da esperança à qual desejo referir-me: aquela
que nos leva a olhar para a meta. A imagem que
podemos evocar é a de Pedro e João que correm rumo ao Sepulcro
(cf. Jo 20, 4-10). Na manhã de Páscoa, depois de terem ouvido as
mulheres, partem imediata e apressadamente, numa corrida que os levará, diante
do túmulo vazio, a renovar a sua fé em Cristo à luz da Ressurreição.
São Paulo usa a mesma imagem, quando fala da sua vida como de uma competição no
estádio, não desprovida de um objetivo, mas voltada para o encontro com o
Senhor (cf. 1 Cor 9, 24-27). É isto que expressa o gesto da
peregrinação, como símbolo da busca do
sentido último da vida.”
Já na conclusão da sua intervenção, Leão
XIV lançou um repto a todos os presentes, numa muito feliz conjugação da
especificidade do Jubileu da esperança e dos ideais da Ordem de Cavalaria do
Santo Sepulcro de Jerusalém: “convido-vos
a viver o vosso estar aqui não como ponto de chegada, mas como etapa a partir
da qual recomeçar a marcha rumo à única meta verdadeira e definitiva: a da
plena e eterna comunhão com Deus no Paraíso. Fazei disto também um testemunho
para os irmãos e as irmãs que encontrardes: um convite a viver as realidades
deste mundo com a liberdade e a alegria de quem sabe que está a caminho do horizonte
infinito da eternidade.”
PAPA LEÃO XIV IGREJA CATÓLICA RELIGIÃO
SOCIEDADE
COMENTÁRIOS:
Alexandre Barreira: Pois. P. Gonçalo, Muito bem. E quem dá o que
tem. A mais não é.....obrigado....! Francisco Almeida: Um excelente relato sobre a Ordem de Cavalaria
do Santo Sepulcro de Jerusalém. Ordem que não tem "glamour" da Ordem
Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta,
vulgo Ordem de Malta. Impressiona
sobretudo o quase anonimato em que cumprem a sua vocação contrastando com o
estardalhaço mediático dos "militantes de causas" que, sem excepção
relevante, nada fazem pelas pessoas das suas causas.
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