domingo, 26 de outubro de 2025

Porque hoje é domingo

 

Leiamos com a curiosidade sobre o que se pede, nessas terras tão plenas de tragédias, hoje.

Leão XIV e o Jubileu da Ordem do Santo Sepulcro

“Penso na ajuda notável que prestais, sem alarde nem publicidade, às comunidades da Terra Santa, apoiando o Patriarcado latino de Jerusalém nas suas várias actividades.”

P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA Colunista

OBSERVADOR, 25 out. 2025, 00:172

“Viestes a Roma de várias partes do mundo, e isto lembra-nos que a prática da peregrinação está na origem da vossa história. Com efeito, nascestes para tutelar o Santo Sepulcro, para cuidar dos peregrinos e para sustentar a Igreja de Jerusalém. Ainda hoje o fazeis, com a humildade, a dedicação e o espírito de sacrifício que caraterizam as Ordens equestres.” Foi com estas palavras que o Papa Leão XIV, na passada quinta-feira, 23 de Outubro, se dirigiu aos 3.700 Cavaleiros e Damas da Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém (OCSSJ), por ocasião da sua peregrinação jubilar a Roma. Para este efeito, recordou o que, em circunstância similar, tinha dito São João Paulo II a propósito do carisma desta instituição milenar da Igreja católica, cuja missão específica é prestar “um testemunho constante de fé e de solidariedade para com os cristãos residentes nos Lugares Santos” (São João Paulo II, Discurso aos participantes no Jubileu da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém, 2 de Março de 2000).

A OCSSJ é uma milícia de carácter religioso, que presta um efectivo serviço aos fiéis e às entidades católicas da pátria de Jesus de Nazaré. “Penso” – disse Leão XIV – “na ajuda notável que prestais, sem alarde nem publicidade, às comunidades da Terra Santa, apoiando o Patriarcado latino de Jerusalém nas suas várias actividades: o seminário, as escolas, as obras de caridade e assistência, os projectos humanitários e formativos, a Universidade, a ajuda às Igrejas, com intervenções particulares em momentos de maior crise, como aconteceu durante a Covid e nos dias trágicos da guerra.”

Segundo o Santo Padre, esta Ordem pontifícia, mais do que se ocupar com monumentos e espaços, embora dignos da maior consideração, cuida de pessoas que, pela sua maior vulnerabilidade, mais precisam dessa ajuda: “Em tudo isto, mostrais que tutelar o Sepulcro de Cristo não significa simplesmente preservar um legado histórico-arqueológico ou artístico, por mais importante que seja, mas sustentar uma Igreja feita de pedras vivas (cf. 1 Pd 2, 4-5), que em volta dele nasceu e ainda hoje vive, como autêntico sinal de esperança pascal.”

Esta peregrinação jubilar congregou, em Roma, membros da OCSSJ de todo o mundo. Para além da audiência com o Santo Padre, o Cardeal Grão-Mestre, Fernando Filoni, presidiu à celebração da Eucaristia na Basílica de São Pedro, concelebrada por uma dúzia de Bispos e várias dezenas de sacerdotes da Ordem. A Lugar-Tenência portuguesa fez-se representar pelo seu Lugar-Tenente, por um seu antecessor, aproximadamente 25 leigos e dois sacerdotes.

A peregrinação jubilar teve o seu início a 21 de Outubro, com a passagem pela porta santa, na Basílica de São Paulo Extramuros, onde depois se celebrou a Santa Missa, que foi presidida pelo Cardeal Grão-Mestre da OCSSJ.

No dia seguinte, a Eucaristia teve lugar na Basílica de São João de Latrão, cuja porta santa deu entrada a todos os presentes, para assim lucrarem a indulgência plenária jubilar. Como o número de participantes excedeu as previsões, a celebração inicialmente prevista foi desdobrada em duas Missas consecutivas. Pela parte da tarde, os peregrinos da OCSSJ foram convidados a transpor a porta santa da também basílica patriarcal de Santa Maria Maior, onde descansam os restos mortais do Papa Francisco, em singela sepultura.

Leão XIV, na sua alocução, propôs aos membros da OCSSJ três especiais dimensões do Jubileu da esperança.

A primeira é a da espera confiante. Sim, permanecer diante do Sepulcro do Senhor significa renovar a própria fé em Deus, que mantém as suas promessas, cujo poder nenhuma força humana pode derrotar. Num mundo em que a prepotência e a violência parecem prevalecer sobre a caridade, sois chamados a testemunhar que a vida vence a morte, que o amor derrota o ódio, que o perdão vence a vingança e que a misericórdia e a graça derrotam o pecado. O vosso ‘presídio’ nos Lugares Santos seja, antes de tudo, um ‘presídio de fé’ que ajude os homens e as mulheres do nosso tempo a parar com o coração diante do túmulo de Cristo, onde a dor encontra resposta na confiança e onde, para quem sabe ouvir, continua a ressoar o anúncio: ‘Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, o crucificado. Não está aqui. Ressuscitou […] como tinha dito’ (Mt 28, 6). E isto podereis fazê-lo, alimentando o coração com uma intensa vida sacramental, com a escuta e a meditação da Palavra de Deus, com a oração pessoal e litúrgica, com a formação espiritual, tão cuidada na Ordem.”

Esta referência à intensa vida espiritual e formação doutrinal, a que são chamados todos os que integram a OCSSJ, evoca a origem desta instituição, quando os cavaleiros eram também monges. Os actuais membros, embora maioritariamente leigos, comprometem-se a viver, com especial intensidade, a sua condição cristã, prestando um generoso auxílio ao Patriarcado latino de Jerusalém e às comunidades paroquiais e diocesanas de que fazem parte.

Segundo o Papa, “a segunda dimensão da esperança sobre a qual gostaria de refletir podemos vê-la encarnada no ícone das mulheres que vão ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus (cf. Mc 16, 1-2). É o rosto do serviço, para o qual nem sequer a morte do Mestre impede que Maria de Magdala, Maria mãe de Tiago e Salomé cuidem d’Ele. Já vos manifestei a minha gratidão pelo bem que praticais, seguindo a antiga tradição de assistência que vos distingue. Em quantas ocasiões, graças ao vosso trabalho, se reabre uma fresta de luz para pessoas, famílias, comunidades inteiras, que correm o risco de ser assoladas por dramas terríveis, a todos os níveis, especialmente nos lugares onde Jesus viveu. A vossa caridade sustenta-os, vislumbrando nas suas necessidades aqueles ‘sinais dos tempos’ que o Papa Francisco nos convidou a fazer nossos, para os transformar em ‘sinais de esperança’.

Na devoção e serviço das santas mulheres e no corajoso testemunho de Nicodemos e de José de Arimateia – os quais pediram, a Pôncio Pilatos, o Corpo de Jesus, para o depositarem no santo sepulcro – se inspira o que se pede a todas as Damas e Cavaleiros desta Ordem de Cavalaria. Com efeito, ninguém é admitido na Ordem se o único que procura é uma satisfação pessoal, porque só pode ser recebido na OCSSJ quem esteja disposto a prestar um serviço efectivo à Igreja, nomeadamente à que subsiste, em circunstâncias por vezes dramáticas, na Terra Santa.

A este propósito, enunciou o Santo Padre a “terceira dimensão da esperança à qual desejo referir-me: aquela que nos leva a olhar para a meta. A imagem que podemos evocar é a de Pedro e João que correm rumo ao Sepulcro (cf. Jo 20, 4-10). Na manhã de Páscoa, depois de terem ouvido as mulheres, partem imediata e apressadamente, numa corrida que os levará, diante do túmulo vazio, a renovar a sua fé em Cristo à luz da Ressurreição. São Paulo usa a mesma imagem, quando fala da sua vida como de uma competição no estádio, não desprovida de um objetivo, mas voltada para o encontro com o Senhor (cf. 1 Cor 9, 24-27). É isto que expressa o gesto da peregrinação, como símbolo da busca do sentido último da vida.”

Já na conclusão da sua intervenção, Leão XIV lançou um repto a todos os presentes, numa muito feliz conjugação da especificidade do Jubileu da esperança e dos ideais da Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém: “convido-vos a viver o vosso estar aqui não como ponto de chegada, mas como etapa a partir da qual recomeçar a marcha rumo à única meta verdadeira e definitiva: a da plena e eterna comunhão com Deus no Paraíso. Fazei disto também um testemunho para os irmãos e as irmãs que encontrardes: um convite a viver as realidades deste mundo com a liberdade e a alegria de quem sabe que está a caminho do horizonte infinito da eternidade.”

PAPA LEÃO XIV      IGREJA CATÓLICA      RELIGIÃO      SOCIEDADE

COMENTÁRIOS:

Alexandre Barreira: Pois. P. Gonçalo, Muito bem. E quem dá o que tem. A mais não é.....obrigado....!                 Francisco Almeida: Um excelente relato sobre a Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém. Ordem que não tem "glamour" da Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, vulgo Ordem de Malta. Impressiona sobretudo o quase anonimato em que cumprem a sua vocação contrastando com o estardalhaço mediático dos "militantes de causas" que, sem excepção relevante, nada fazem pelas pessoas das suas causas.

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