Nas opiniões lusas.
Nem todos os revolucionários usam capa
Francisco Pinto Balsemão foi
político, jornalista e empresário, sem contradição. Uma personagem de filme, um
Citizen Kane, numa terra onde se dá pouco disso.
ALEXANDRE BORGES Escritor e argumentista
OBSERVADOR, 23 out. 2025, 00:198
Escrevo com a propriedade de
quem nunca conheceu Francisco Pinto Balsemão ou trabalhou numa empresa dele. Não faço a menor ideia de quem fosse a
pessoa; admiro a figura. Em 60 anos de vida pública, andou sempre a contrariar os lugares-comuns
do maniqueísmo com que tantos insistem em ver a vida (ninguém tão
estarrecedoramente como os marxistas). E o mundo só avança com quem o
contraria. E Portugal precisa,
desesperadamente, de rebeldes.
Quem nasce em berço de ouro, tem a vida feita; gere a herança do pai ou
desbarata a do avô. O status quo nunca afronta o poder. Poder político e jornalismo não se podem
misturar. Poder político,
jornalístico e económico, ainda menos. Portugal não tem dimensão para canais
privados de televisão. Portugal não tem dimensão para canais de notícias 24
horas. Aos 70, um tipo acomoda-se, goza a reforma, dá lugar aos novos.
Pinto
Balsemão meteu-se
na política quando nada o recomendaria a um menino rico, tentou mudar o regime
na Ala Liberal na Assembleia e saiu, com Sá Carneiro,
quando perceberam que não era possível. Criou um
jornal, que se haveria de tornar o mais prestigiado da imprensa nacional, e que
continuava a tentar mudar esse regime, agora a partir de fora. Criou um partido político, que haveria,
alternadamente, de ser o maior do país, superando o PC há décadas no terreno e
financiado por Moscovo, batendo-se ombro a ombro com o PS de Mário Soares, já
tão mais estabelecido na sociedade portuguesa e apoiado do exterior.
Pinto Balsemão não
precisava de se ter metido na política, não precisava de ter sido uma voz incómoda para Marcello
Caetano e para a União Nacional,
não precisava de ter criado o Expresso,
não precisava de ter criado o PSD. Não precisava de nada disto para ter
tido dinheiro, poder, boas relações, influência – e é só quando faz isso que a
humanidade se eleva a qualquer coisa que, verdadeiramente, a distingue dos
bichos: quando vê para além do que precisa.
Foi advogado e professor, chegou a primeiro-ministro, que não estava para ser,
com a pesada missão de carregar a herança do amigo morto no mais funesto
episódio da democracia portuguesa, e ainda teve de suportar insinuações para o
resto da vida. Não foi, certamente, o mais memorável
dos chefes de governo, mas, naqueles dois anos e meio, fez o fundamental: concretizou
o projecto da Aliança Democrática. Se, em 2025, cai o Carmo e a Trindade de cada vez que
se quer tocar num cabelo da Constituição, imagine-se em 1982, quando foi
preciso conduzir o processo da primeira revisão da lei fundamental, que
libertou o país do controlo do Conselho da Revolução, emancipou o poder civil da tutela militar, abriu o
regime à democracia verdadeiramente pluripartidária e o caminho para a futura
adesão à então Comunidade Económica Europeia. Tudo isto
enquanto continuava a ser dono de um jornal. Um jornal que o criticava sempre
que entendia que o devia fazer.
Em 1983, quando deixou São Bento, tinha
46 anos e já tinha sido tudo. Mais
uma vez, não precisaria de fazer mais nada na vida. Então,
começou a trabalhar no projecto do primeiro canal de televisão privado em
Portugal, e depois criou mais uma data deles. E
expandiu um grupo de comunicação social que deteve também, largos anos, títulos
tão importantes, em tantos segmentos diferentes, como a Visão, a
Blitz
ou o Jornal de Letras. Depois, criou o primeiro
canal de televisão de notícias, mais uma vez contra todas as vozes do tradicional coro de carpideiras, aquele para quem, se fosse
possível, toda a informação em Portugal teria sido, até hoje, sempre e só
controlada pelo governo. O do “não vale a pena”, do “isso aqui não funciona”, “mas
então agora vais-te chatear para quê?”, “deixa-te mas é estar quieto”, “isso
vai dar asneira”, “o governo que faça”.
Ninguém ignora que os últimos anos
foram difíceis. As rescisões de contratos, o fecho de
títulos, o passivo acumulado, as negociações para a venda do grupo Impresa. Mas, num mundo em que toda
a comunicação social está em crise, como não tirar o chapéu a um grupo que resistiu 50 anos e que não só veio do tempo da
ditadura e do canal único de televisão para a era dos múltiplos canais,
públicos e privados, generalistas e temáticos, plataformas físicas e digitais,
como foi um dos agentes fundamentais nessa transformação?
E ainda assim, nestes tempos derradeiros, Pinto Balsemão continuou activo, a escrever, a tornar-se estrela de podcast, a dialogar com as novas gerações, ainda e sempre envolvido nos
momentos mais simbólicos da vida do partido de que era o militante n.º1 e
fazendo ouvir as suas preocupações acerca do futuro do país.
Em contraste com o nosso puritanismo
contemporâneo, em que esperamos que todos cheguem hermeticamente selados e
incontaminados ao poder, Francisco Pinto Balsemão foi político,
jornalista e empresário, sem contradição. Uma personagem de filme, um Citizen Kane, numa terra
onde se dá pouco disso. Não
tive o gosto de o conhecer, não faltará quem o critique, eventualmente com
razão. Tinha todo o ar de quem gozou bem a vida – se assim foi, fez muitíssimo
bem. Entre os que falam e os que fazem, não há como hesitar sobre o lado a
escolher.
Os países têm a dimensão dos que o
habitam; uns apequenam-no; outros engrandecem-no. A nossa
liberdade e a nossa democracia deram e receberam muito de Pinto Balsemão.
Venham muito mais rebeldes como ele, qualquer que seja o tamanho da conta
bancária.
FRANCISCO
PINTO BALSEMÃO PAÍS SOCIEDADE
COMENTÁRIO (de 9):
Pobre Portugal: Balsemão pode ter sido um grande democrata. Mas como é que se explica que
uma pessoa tão democrata tenha criado e alimentado os discriminadores e
antidemocráticos SIC e Expresso? Só se ele fosse bipolar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário