Vivências. Sentimentos. Simpatia e franqueza, características
transparentes. De Maria João
Avillez. Condicionada pelos seus valores próprios, naturalmente, de
repulsa pelo de que discorda.
Momentos de revelação
Chamar-lhe-ão (bem) “ossos do
oficio”, eu acrescento apenas que tais ossos balançaram durante horas num
trapézio sem rede. Foi assim que aquele bocado de noite se transformou num
longo “momento único"
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista
do Observador
OBSERVADOR, 29 out. 2025, 00:22
Ao Ricardo, ao Bernardo, ao Henrique, ao Rodrigo Guedes de Carvalho.
1Às vezes penso como é possível a vida, o
destino (Deus, muito provavelmente) encenarem tão bem as coisas. De uma forma
tão acertada e talvez seja essa a palavra exacta. Vivi o absoluto “acerto” de
uma despedida que (me) “calhou” a uma terça-feira e me fez ouvir, no corredor junto ao estúdio da SIC, onde deveria entrar
pouquíssimos minutos depois, o tom de voz carregado de urgência de Ricardo Costa,
de telemóvel na mão, “morreu o
Francisco Balsemão.”
Um mundo de várias décadas desabou
subitamente em cima de mim. Mais de
cinquenta anos disparados pela vertigem daquela notícia chegavam-me agora
incólumes à passagem do tempo, e tão nítidos como se os estivesse a viver
naquele momento e de certo modo estava. Espantei-me: solitariamente
espantei-me com o modo como tudo o que
ocorria naqueles escassos metros quadrados e no espaço temporal de alguns,
poucos minutos, tinha afinal a ver muito comigo própria, apanhando-me tão
emocionalmente desprevenida. Estava alterada e surpresa, “aquilo” fora comigo. E tanto
fora. Mas era preciso estar à altura dessa espécie
de traço de união que subitamente ali ligava um dia de Setembro de 1974 quando
entrei no Expresso e aquela noite de Outubro de 2025 e foi o que meti na cabeça
e me obriguei a fazer. Chamar-lhe-ão – e bem – “ossos do oficio”, eu acrescento
apenas que tais ossos balançaram durante horas num trapézio sem rede.
2Seis
minutos depois a informação passou a prioritaríssima, não permitindo o atraso
ou o erro e dispensando estados de alma. Levando-me também a mim a aboli-los
por participar ao vivo e em directo na despedida de alguém que fundara a casa e
a marca, tornando-as nacionais durante mais de meio século.
E foi assim que aquele bocado de
noite se transformou automaticamente num momento absolutamente inesquecível. Guardei a sete chaves – coleccionando-os –
alguns “momentos únicos” que a minha vida profissional me proporcionou e o que
vi e ouvi naquela noite, primeiro com Ricardo Costa e o pivot Rodrigo Pratas –
a que se juntaram depois Bernardo Ferrão, José Gomes Ferreira e João Vieira
Pereira – foi um longo “momento único”. Comigo sempre presa à memória de
dias e anos projectados a grande velocidade num écran à minha frente mas que só
eu via. Inesquecível, sim. E em certo
sentido um grande, imenso privilégio. O que pode não ser incompatível com a
partida. A partida de alguém sem o qual nenhum de nós estaria naquele estúdio,
naquela noite.
3“Toda a gente” falou de Francisco de
Balsemão, escreveu, disse, gravou, filmou, transmitiu, publicou.
Podia também fazer o mesmo e abrir agora
um enorme, enormíssimo, leque de imagens, diálogos, situações, acontecimentos,
em diversas circunstâncias e muitíssimos lugares.
Ficará para outro dia, quem sabe. Hoje
deixo apenas uma memória impressivíssima que me ficou, para além – obviamente!
– da certeza que, se sou a jornalista que sou, foi por ter sido
profissionalmente formada e “ampliada” por Francisco Balsemão, mas isso é outra
história.
O que quero deixar aqui é que aquele jovem
playboy, filho de família com dinheiro, golfista e bem parecido, que nos idos
de sessenta do outro século andava pela “Ronda” e pelo “Palm Beach”, com loiras
estonteantes e conduzindo um Porsche, não era apenas mais um jovem bem parecido
e bem cotado. Era
isso mas infinitamente mais: era o jornalista sério e a sério, que soubera
agarrar o Diário Popular, dirigi-lo e inová-lo. Transformando-o de um vulgar
vespertino para um jornal que ele quis novo e criativo, “abrindo-o” por exemplo a intelectuais da oposição e que já conhecia
e pondo a cultura em relevo; ao mesmo tempo que “inventava” Vera Lagoa e as colunas sociais, nesse tempo uma novidade ali
produzida com um espírito delicioso e uma ironia irresistível.
Mais
tarde, quando víamos Francisco Balsemão aqui e ali em casas de amigos e ou nos
verões em barcos e praias – igual a ele mesmo, conversador, leve, com humor,
bon vivant – a verdade é que poderia ter estado na véspera sentado na fila da
Ala Liberal na então Assembleia Nacional, ao lado de Francisco Sá Carneiro. A
“mostrar” a Marcelo Caetano como as coisas por aqui poderiam ser de outra
maneira, mais parecida com o que sabíamos ocorrer nas Europas de que
gostávamos. Ou poderia no dia seguinte ir a Caxias não para tomar um copo à
beira mar no “Mónaco”, mas para visitar presos políticos na prisão ali perto;
ou ter estado ali mais um articulado da Lei da Imprensa de que foi autor e
acabou chumbada no antigo Parlamento.
Ou seja: trazendo a “joie de vivre “ dentro de si e nunca desistindo nem
da “joie”, nem da vida, dava o melhor de si mesmo àquilo que achava que lhe
competia fazer pelo país. Sem também nunca ter desistido da vontade política e
da tenacidade com que o fazia.
Era só isto que queria dizer. Para mim que, embora mais nova,
testemunhei um bom bocado do que conto, foi simplesmente admirável. E trazia em
si a revelação do resto.
4Andando de roda de papéis por causa do
livro que fiz sobre Sá Carneiro e que será agora reeditado a convite da D.
Quixote-LeYa, dei comigo a pensar em
vencedores e perdedores (admito também que foi por acima ter escrito
sobre um vencedor).
Coisa tão fascinante quanto
misteriosa, isto de vencedores e perdedores. A História não gosta dos segundos
e ainda menos se compadece com eles e no entanto… pode ser muito interessante
quando alguém escolhe um vencido e decide ressuscitá-lo.
Vem
tanto ao de cima da vida e do destino do ser humano que é ou foi um perdedor,
quando ele nos é contado…Foi o que aconteceu quando alguém me sinalizou um
livro sobre um rei português que não reinara. Gosto de
história , interessei-me. Chama-se justamente “O Rei que Não Reinou” – a breve vida de D. Luís Filipe de Bragança (“Oficina
do Livro”), foi escrito por Isabel
Lencastre, já autora de outras obras de história e seria – será? – um
pseudónimo.
(Entre parêntesis a propósito: outro
fascínio, um pseudónimo. Que levará alguém a necessitar, preferir, escolher, um
pseudónimo? Timidez, insegurança, piscadela de olho, pura graça? Não sei, mas
gostava de conhecer a génese ou razão de algo que seria incapaz de fazer).
Voltando ao livro conta-nos a história
de D. Luís Filipe, filho de D. Carlos, último
monarca de Portugal. Alguém que, segundo
ouvi um dia já longínquo ao historiador Rui
Ramos, foi
injustamente apagado da História de Portugal, como se não tivesse existido
(cito de memória).
Mas existe nestas páginas, quase em
carne e osso e melancólico espirito, através
de uma escrita ágil, assente numa muito considerável investigação histórica e
por isso de leitura interessante e sedutora. Um livro que acima de tudo
redime a vitima inocente de um regicídio e um homem que se desencontrou com a
História: era príncipe e por morte do pai assassinado, poderia ter reinado mas
não reinou. Um perdedor, portanto, agora resgatado da penumbra do esquecimento
e do facto letal que é a ignorância. Uma revelação. Teria
gostado de trocar duas palavras com a autora, mas nestas coisas de pseudónimos
acaba-se numa valsa de “gato e rato” que pode ser exasperante. Não quis. Li o livro. Eis porque posso recomendá-lo
com inteira segurança aos que gostam de ler; aos que gostam de História; aos
que não sabem tudo dos nossos novecentos anos de existência.
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