quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Este vale de lágrimas

 

Glória aos que se esforçam por sofrer na pele, piedosamente, o que tantos já sofreram, embora haja quem descreie disso, neste vale também de desconfiados.

Prisão Ketziot – 5.7 no Booking.com

“De zero a dez, em que zero é “pouco provável” e dez “muito provável”, recomendaria a experiência Sumud aos seus amigos?”

JOSÉ DIOGO QUINTELA Colunista do Observador

OBSERVADOR, 07 out. 2025, 00:1622

Depois de ouvir os activistas da flotilha Global Sumud relatarem os maus-tratos a que foram submetidos enquanto estiveram presos em Israel, espero uma reacção firme. O mínimo que se pede é uma mobilização geral para inundar o Booking, o Trivago, o TripAdvisor e qualquer outra plataforma de turismo com duras críticas às más condições em que decorreu esta viagem. Alojamentos sobrelotados? Pouca e má comida? Percevejos? Estalajadeiros brutos e mal educados? Faz-me lembrar o hostel Dragondoss, em Ljubljana, uma espelunca em que fiquei hospedado quando fiz interrail – talvez seja mais correcto dizer “armazenado”. Roubaram-me o sapato esquerdo. O bufê do pequeno-almoço só tinha corn flakes moles. Os percevejos eram tão grandes que tinham mini-percevejos nas suas carapaças.

Naquele tempo não havia internet, caso contrário aqueles meninos teriam ficado com a caixa de comentários assada, tantas as queixas que lá iam entrar. Felizmente, agora há sites especializados e é bom que os activistas deixem as suas críticas, para servir de aviso aos próximos incautos que se inscrevam nesta excursão. “De zero a dez, em que zero é “pouco provável” e dez “muito provável”, recomendaria a experiência Sumud aos seus amigos?” Malta, tudo corrido a zero, por favor. Se ainda for possível, peçam reembolso. Estes operadores turísticos não podem ficar impunes.

A viagem da flotilha é uma espécie de bootcamp mais radical que o costume. O bootcamp é um acampamento onde a burguesia ocidental paga bom dinheiro para, durante uma semana, viver em desconforto, como as tropas especiais em território inimigo. Fazem um bocadinho de detoxing, um bocadinho de juicing, um bocadinho de mindfulness, um bocadinho de fasting, um bocadinho de crossfiting e depois voltam para casa, mais preparados para enfrentar a maçada do dia-a-dia.

Não pretendo desvalorizar as provações por que os activistas passaram. Tudo indica que foram uns dias horríveis. Mas a verdade é que, depois de tudo o que tem sido dito sobre a maldade dos israelitas, comer má comida, ouvir uns gritos e levar uns safanões, não parece assim tão tenebroso. É chato, mas sabe a pouco.

Vendem-nos as IDF como as hordas de Mordor, orcs que matam indiscriminadamente mulheres, crianças, bebés e velhinhos – aliás, não é indiscriminadamente, uma vez que, pelo que nos contam, fazem pontaria de propósito a mulheres, crianças, bebés e velhinhos. Os israelitas, dizem, são fanáticos sanguinolentos que não respeitam os mais básicos direitos humanos e estão a praticar um genocídio sem precedentes, com especial esmero e gozo. Ora, depois de acastelar a perfídia deste Demónio, as queixas dos activistas desiludem. Obviamente, estar preso em celas lotadas, a pão e água, a ser molestado e insultado, é desagradável. Mas, face ao que foi anunciado, é decepcionante. É a alarvidade normal de uma força policial de brutamontes. Nada de extraordinário, nada que distinga os soldados israelitas de outros militares em tempo de guerra. Se o objectivo da flotilha (além da ajuda humanitária que, infelizmente, ficou esquecida no porto de Barcelona) era denunciar a excepcionalidade da violência israelita, então falhou. É apenas violência banal.

Sempre que prestam declarações, os activistas fazem questão de ressalvar que, apesar de terem passado uns dias difíceis, o que os palestinianos vivem em Gaza é muito pior. Para enaltecerem o seu sofrimento, comparam-no à existência de uma população que vive há dois anos em guerra. Face ao calvário em Gaza, o mini-calvário da Sumud. Só que não há comparação entre as duas experiências, o que os palestinianos vivem não é “muito pior”, não é um grau superior do “mau” que os activistas viveram. Trata-se de uma coisa diferente, não pode sequer ser medida na mesma escala. Sugerirem isso é como eu dizer que, apesar do corte de cabelo que o barbeiro me fez ser mau, a decapitação de Maria Antonieta foi muito pior.

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COMENTÁRIOS:

Rosa Silvestre: Hoje concordo com tudo o que diz. Quem é que vai forçar a entrada numa zona de guerra e se queixa de que foi insultado? Quem é que é detido durante pouco mais de 2 dias e se queixa de que passou fome durante vários dias? Confrangedor ver a recepção feita a estes "heróis" e a cobertura que as televisões fizeram de todo o acontecimento. Confrangedor, sobretudo, a empatia, às vezes a histeria, de alguns repórteres.                    Miguel Aguiar: As prisões Israelitas devem estar ao nível de um Burj Al Arab, o Ritz daquelas paragens... Basta ver como os assassinos do Hamas saem gordinhos na troca por reféns!...                     Fernando Soares Loja: Se estes amigos do Hamas tivessem ido à tropa agora não estranhariam os modos dos militares. Quanto a passarem fome e sede ... alguém acredita nas mentiras dos apoiantes dos terroristas? É tudo propaganda à moda do Goebels. Valem o mesmo que as declarações do "Ministério da Saúde" do Hamas, ou seja, zero.                 Mário Silva: Zé Diogo, toma os comprimidos! Estás a ter demasiados ataques de extrema lucidez, rapaz. Ainda levas um processo por um ataque de acne dos sotores tudólogos por concorrência desleal MariaPaula Silva: Ora aqui está o JDQ que eu adoro! Muito bem, excelente crónica. Esqueceu-se do pormenor fundamental de todos os tlm jogados ao mar:) é preciso eliminar provas das comunicações. Mas depois parece que havia mais tlm... se calhar temos a Nokia ou a Samsung a financiar flotilhas, ai não... espera lá, que os gajos só usam Iphones. Portanto, havia Apples mas não havia maçãs. Qto à Mariana do Alvito, confesso que já há muito tempo desconfiava que havia para ali uns curto-circuitos meio esquizóides, e agora fiquei com a certeza que o diagnóstico não está errado e de mãos dadas com a mentira compulsiva em exercício permanente. Não há ninguém que a interne? Quanto ao bloco de esquerda em breve será o Bloco Extinto. Falta pouco.                     MariaPaula Silva > Rosa Silvestre: Bom dia Rosa, os repórteres, ou pseudo jornalistas, actualmente são quase todos histéricos e/ou histriónicos. Quanto às queixas de que não bebiam e comiam há mais de 48 horas foram feitas ainda estavam lá só há 24h. A Marianita sofre, entre outras coisas, de mentira compulsiva e com a idade está a perder o controle, entra em "looping" e nem se dá conta dos saltos quânticos que faz. É que até para mentir como deve ser tem que se ser um mestre. Não é o caso.                      João Floriano: Ainda não me foi explicado em que língua os insultos foram proferidos. Se foi em hebraico podiam estar a agradecer a simpática visita da flotilha e a pedir para regressarem em breve que eu ficava na mesma: não percebia nada. Sei dizer Shalom e mais nada. Ora se os flotilheiros portugueses pela manhã tomam café em vez de chá, é evidente que os problemas de comunicação começavam logo de manhã cedo. Tortura sem tamanho: obrigaram a Mortágua a beber chá. E até pode ter acontecido que tenham confundido Shalom com chalado. Portanto é bom que se clarifique este problema da língua. Eu do que sentiria mais falta, confesso, era da toalha de banho em forma de cisne. Se eu entro num quarto de hotel e não vejo o cisne de boas vindas, está o caldo entornado e vou logo dar opinião negativa no Tripadvisor.                        J Sal: Para quando cavalheiro José Quintela num programa de televisão a comentar estas actualidades, para nos aquecer a alma e a mente?         MariaPaula Silva > Pedro Matos Cruz: muito bom aspecto e um ar de felicidade irradiante!!            Alexandre Barreira: Pois. Caro Quintela, Deixa lá. Não desanimes. Quando a "Riviera". Estiver pronta. Já a poderás.....visitar....!                JM Azevedo: Óptima crónica!!                    João Floriano > Américo Silva: Vou passar o dia a tentar decifrar o enigma. Eu diria que o Diogo tem o material sempre à mão para o que der e vier.          João Floriano > Américo Silva: OK, percebi. Só achei curioso o escolhido ter sido o descendente da dinastia dos Braganças. É que naquela flotilha devia haver uma falta generalizada desse dito material. Em compensação havia muitas florzinhas.           Pedro Matos Cruz > João Floriano: Para quem esteve preso, até vinham com bom aspecto...

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NOTAS DA INTERNET:

«A Flotilha Global,…….. também conhecida como Flotilha da Liberdade é uma iniciativa marítima internacional liderada por organizações da sociedade civil lançada em 2025 com o objectivo de romper o bloqueio israelense à Faixa de Gaza. Seu nome deriva de ṣumūd, termo árabe que significa 'perseverança' ou 'resiliência'. A iniciativa surgiu em julho de 2025, organizada pela Coalizão da Flotilha da Liberdade, pelo Movimento Global por Gaza, Flotilha Magreb Sumud e pela sociedade civil durante a guerra e ogenocídio na Faixa de Gaza.

A flotilha é composta por mais de 50 embarcações, com milhares de participantes de mais de 44 países. Algumas tentativas de romper o bloqueio israelense tiveram êxito antes de 2010, mas, desde então, os navios têm sido interceptados ou atacados pelas forças israelenses, uma embarcação foi atacada por drones israelenses em maio, bem como em junho e julho de 2025. Em setembro do mesmo ano, os comboios da flotilha relataram três ataques envolvendo drones e, em resposta, navios de guerra foram enviados por Espanha e Itália para prestar assistência à missão humanitária. A flotilha começou a zarpar no final de agosto de 2025, com delegações e comboios partindo de Otranto, Génova e Barcelona, seguidos por Catânia, Siro e Tunes no início de setembro. Algumas embarcações enfrentaram atrasos temporários devido a ventos fortes e tempestades. Em 3 de setembro, o comboio italiano chegou à Sicília e o comboio tunisiano começou a remar para Tunes. Quatro dias depois, uma parte do comboio espanhol chegou ao norte da Tunísia, onde, nas primeiras horas de 9 de setembro, um incêndio deflagrou em um dos navios principais, suspeitando-se de um ataque de drone. Na noite seguinte, um segundo incêndio provocado atingiu outra embarcação. Em 19 de setembro, os comboios espanhóis e tunisianos, já reunidos na Sicília, partiram rumo à Grécia. Em 22 de setembro, o grupo grego deixou Milo com destino a Creta, aportando no dia seguinte. Na noite de 24 de setembro, onze embarcações foram atacadas por drones »

 

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