sábado, 11 de outubro de 2025

Revivendo o passado

 

Lembro-me de que, quando vim estudar para cá, em meados do século passado, o quarto que partilhava com mais duas companheiras, num lar para estudantes, dirigido por freiras, ficava muito mais caro do que a renda que os meus pais pagavam num edifício do Estado, em L. Marques. Nunca o esqueci, porque essa recordação me ficou como peso dos sacrifícios que os meus estudos causavam na família, apesar da bolsa que o Estado me concedeu, por via dos resultados finais no liceu. Sim, nunca foram acessíveis os preços das habitações para os que, pela sua situação de dependência material, quer seja de velhos ou de novos por conta dos parentes mais chegados – filhos estudantes sem vencimento próprio, ou pais com breve reforma – dela necessitavam, os primeiros num sentido de formação para o seu futuro, os segundos, num sentido de natural continuidade vivencial. Mas nessa altura, pelo menos, o dinheiro era uma resultante da produção no país, ao passo que hoje vivemos de empréstimos, há meio século, o que me parece absurdo. E vexatório, com a tal nudez do rei.

O Rei Vai Nu – Habitação a preços acessíveis?

O custo de produção de um quarto numa residência para estudantes pode ultrapassar 80.000€, o mesmo que há 20 anos custava um T1. Se for para idosos subirá para 160.000€, o mesmo que um T3 há 20 anos.

FERNANDO SANTO Engenheiro Civil, antigo Bastonário da Ordem dos Engenheiros, Vice-Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa

OBSERVADOR, 10 out. 2025, 00:1537

Os comentários sobre a habitação, causas e soluções, não param de me surpreender.

Apesar de nunca se ter produzido tão pouco como nos últimos 15 anos, cerca de 14% da média entre 1970 e 2011, não faltam especialistas que emitem opinião sem saberem quanto custa produzir uma habitação e do calvário para se obter o licenciamento. As recentes medidas propostas pelo Governo motivaram muitas críticas por causa do conceito de preço moderado, como se esse fosse o problema. Com as actuais exigências para o licenciamento, construção nova, ou reabilitação, não é possível ter produção com custos acessíveis ou moderados, mesmo sem lucro.

Enquanto não perceberem o problema do lado de quem produz, não teremos solução.

A União Europeia (UE) faz parte do problema e não acredito que apresente soluções adequadas, pois não irá reconhecer as consequências do acréscimo dos custos impostos pelas Directivas Comunitárias. A UE, que condicionou a produção industrial neste espaço, levando à importação dos bens produzidos na China a preços reduzidos, não teve em conta que a indústria da construção produz bens imóveis que não podem ser importados e agora está confrontada com uma crise generalizada. Só que ninguém quer assumir.

São muitos os exemplos dessas exigências, mas neste artigo tratarei as do Pacote Energia Limpa, apresentado em 2016, com o normativo para a transição energética na década de 2021-2030 e criação da União da Energia e da Acção Climática na UE.

O Pacote Energia Limpa introduziu alterações à Directiva 2010/31/UE, relativa ao desempenho energético dos edifícios, a qual foi transposta através do DL 101-D/2020, de 7 de dezembro.

Os projectos de arquitectura com data posterior a 1 de julho de 2021 têm de assegurar que as necessidades de energia primária dos edifícios são de, pelo menos, 20% inferiores aos requisitos dos edifícios com necessidades de energia quase nulas.

Nos edifícios novos terá de ser considerada a aplicação do critério específico determinado para os edifícios financiados com verbas do PRR, de cumprimento de critérios de eficiência energética e de procura de energia primária inferior em, pelo menos, 20 % ao requisito NZEB (edifícios com necessidades quase nulas de energia), incluindo a respetiva certificação.

A reabilitação urbana também está sujeita, pois é considerada como “Grande renovação”, quando a estimativa do custo total da obra, compreendendo a totalidade das fracções renovadas, seja superior a 25 % do valor da totalidade do edifício. Para determinar o custo de construção, por metro quadrado, é utilizado o da avaliação patrimonial fixado no Código de Imposto Municipal sobre Imóveis. Como em 2024 o custo de construção foi fixado em 665€/m2, significa que as obras de valor superior a 25% (166€/m2), estão abrangidas pela nova legislação, ou seja, qualquer renovação sujeita a licenciamento.

O acréscimo do custo das novas exigências pode ultrapassar os 30%.

Mas não se pense que este “devaneio”, de quem não se preocupa com os custos, se limita aos imóveis abusivamente classificados por alguns “especialistas” como destinados à especulação imobiliária. Não! As residências de natureza social, para idosos e estudantes, também estão sujeitas às mesmas exigências, como se os rendimentos, ou os orçamentos do Ministério da Segurança Social permitissem pagar a factura. Não está em causa a generosidade de produzir o melhor e o mais eficiente, mas está em causa a falta de bom senso face aos rendimentos das famílias e aos orçamentos de Estado.

O custo de produção de um quarto de uma residência para estudantes pode ultrapassar 80.000€, incluindo o terreno, o mesmo que há 20 anos custava um apartamento T1. Um quarto de uma residência para idosos pode custar mais de 160.000€, o mesmo que um T3 há 20 anos.

O Rei Vai Nu e não adianta ignorar, pois com custos inacessíveis não há preços acessíveis. As exigências da Directiva são apenas um exemplo de muitas outras que entraram em vigor sem avaliar o custo.

HABITAÇÃO E URBANISMO       PAÍS       SOCIEDADE

COMENTÁRIOS (de 37)

JOSÉ B. DIAS h:Todos os que trabalham na área têm perfeita noção de onde reside o problema... mas poucos se arriscam a gritar que o rei vai nu! Obrigado ao aqui cronista.                  Rui Lima: A construção civil é um sector com baixos ganhos de produtividade e, acima de tudo, tem sido muitas vezes instrumento dos governos. Lê-se diariamente que faltam habitações: em Espanha, 700 mil; em França, 1,5 milhões.Afinal, a Europa não estava a perder habitantes, como as elites afirmam para enganar o povo? No passado, a imigração era composta sobretudo por pessoas com experiência em construção civil e obras públicas, que vinham para erguer casas. Hoje, muitos dos que chegam não têm profissão definida e acabam em trabalhos precários e precisam de alojamento. Faltam casas, mas continuam a chegar milhões de imigrantes, mas não para o sector isto só agrava. Quando terminará esta loucura? Assim, podem construir muitas, mas estarão sempre a correr atrás do prejuízo. Precisamos de fronteiras abertas, sim, mas para profissionais qualificados nas áreas das obras.          José B Dias > Antonio Tavares: E sabe onde reside o principal factor gerador de corrupção e compadrio? Na selva legislativa e reguladora, sempre em alteração, alargamento e aprofundamento e sempre pouco clara e aberta a entendimentos, interpretações e pareceres... Quem lhe parece que serão mesmo os malandros ...? 🤔                    António Soares > José B Dias: Ora aí está o dedo na ferida. Fernando Santo é o único (ex) bastonário com eles no sítio. E como ele disse neste artigo, apenas fala de uma legislação em particular. Posso garantir que muitas mais há que só fazem aumentar custos da construção e a factura, como é óbvio, será paga pelo cliente final, o cidadão que precisa de casa.                   António Soares > Antonio Tavares: Tem ideia do monte de idiotices que aqui escreveu?                     Rui Lima > Fernando Matos: Caro Fernando: Na verdade, a tua visão sobre os emigrantes portugueses nos anos 60 e 70 está um pouco distante da realidade. Quem ia para França era, em grande parte, gente do campo, com formação mínima, mas enorme capacidade de trabalho e adaptabilidade. Muitos, apesar de apenas terem feito a 4ª classe, aprenderam ofícios como pedreiro, carpinteiro ou serralheiro … O trabalho na construção naquela época era completamente manual, o cimento era amassado à mão, os blocos feitos à mão em formas (primeiro trabalho do meu pai antes de subir na vida) e a exigência física era enorme. Eram trabalhadores extremamente competentes e resilientes, sem a formação formal que hoje valorizamos, mas com uma perícia prática impressionante. Conheci grandes artistas puros que seguiram esse caminho e que com a sua habilidade e esforço contribuíram de forma significativa para a economia francesa da época, nomes que nunca irei esquecer.

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