sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Razões variadas


Conforme as lentes com que cada um interpreta a realidade. Daí, a indefinição, e tantas vezes a baralhação nas soluções e também nas resoluções, tanto mais que «o próprio «coração» também «tem razões que a razão desconhece”, segundo se disse e essas divergências de points de vue, duplicando as nossas fontes erráticas, bem que nos tramam, por vezes.

Putin, Gaza, Trump e as lentes com que lemos o mundo

Compreender é sempre um acto de visão. Cada época constrói as suas lentes. As nossas, temo, estão partidas. Basta ligar a televisão: dezenas de especialistas a “verem” coisas opostas no mesmo cenário.

JOSÉ ANTÓNIO RODRIGUES DO CARMO,  Coronel "Comando"

OBSERVADOR,  23 out. 2025, 00:1616

Há ideias que funcionam como instrumentos ópticos do espírito. Usamo-las e, através delas, vemos o mundo.

Claude Lévi-Strauss, o antropólogo que descobriu que o selvagem e o civilizado têm a mesma estrutura mental, dizia que, para interpretar o mundo, uma época, uma nação ou uma guerra, é preciso usar uns óculos especiais. Não falava de vidro e armação, mas de uma metáfora: a teoria como instrumento de visão e prótese da mente. O homem sem teoria sobre a realidade é como o míope que confunde vultos com demónios; reage, mas não compreende.

Estes óculos, dizia Lévi-Strauss, são indispensáveis, mas distorcem. Toda a lente é também um véu. E o drama contemporâneo consiste talvez nisto: já não sabemos que lentes usar. O excesso de imagens, o rumor incessante das redes, a saturação de notícias e de interpretações, tudo nos ofusca e baralha. O homem actual não é cego: é deslumbrado. Vive numa feira de ópticas: tem muitas lentes e não sabe qual usar

A ideia de ler o presente através de uma lente não é nova. Em meados do século XIX, Alexis de Tocqueville via a história como um rio de democracia: lento, majestoso, inevitável. Karl Marx, mais impaciente, via o mesmo panorama através de um outro cristal: um rio de sangue proletário, destinado a purificar o mundo. A revolução proletária, inelutável, que dissolveria as classes e instauraria a justiça.

Durante dois séculos, sucessivas gerações olharam e “compreenderam” o mundo através dessas lentes. Com elas fizeram guerras, revoluções, tratados e telenovelas políticas. Estarão gastas? Ter-se-ão partido sem que déssemos por isso?

No fim do séc. XX, Samuel Huntington apresentou um novo par de óculos:  o mundo como um mosaico de civilizações em atrito, a ranger nas fronteiras das suas placas tectónicas. Foi, talvez, o último a tentar um olhar panorâmico. Parecia um geólogo com alma de profeta. Mas as suas lentes foram rejeitadas por muitos. Zapatero, Erdogan, Jorge Sampaio, etc. Depois dele, regressámos à fragmentação, à miopia, ao microscópio das redes sociais. Hoje, temos numerosos míopes e falar como se tivessem telescópios.

E nos laboratórios académicos da actualidade, voltou uma moda vintage: os óculos de Carl Schmitt, fabricados nos anos trinta, com ares de militar e cheiro a pólvora. A sua biografia, de sombra espessa, não apaga a lucidez desconfortável das suas ideias. Schmitt dizia que a política não é o debate entre direita e esquerda, mas o confronto entre amigo e inimigo. As colectividades só se unificam quando se reconhecem contra alguém. Não há sociedade sem ódio partilhado, nem povo sem inimigo. O cimento da política não é o amor, mas a hostilidade organizada.

A fórmula é brutal, mas tem poder explicativo. Mourinho e Pinto da Costa compreenderam isto sem nunca lerem Schmitt: nenhuma equipa prospera sem adversário odiado. Os extremos, na política, vivem da hostilidade a tudo o que detestam.

O mesmo sucede às nações. Portugal nasceu contra o mouro, contra o castelhano e, às vezes, contra si próprio. Até a ideia de “palestiniano”, inexistente há meio século, floresceu da oposição a Israel. Nada une mais do que o outro

Olhemos Putin. O seu programa não é apenas a reciclagem de uma velha doutrina geopolítica, é sobretudo um reflexo imperial: reforçar o poder, unificar as hostes e definir o inimigo. Putin é schmittianopor instinto e desagua tranquilamente nas lentes de Huntington: o inimigo é o Ocidente encarnado, na circunstância presente, pela Ucrânia. Essa designação anestesia o povo. Produz coesão, obediência, fé.

Xi Jinping repete, em mandarim, o mesmo guião: o Ocidente como ameaça, a dissidência como traição. Schmitt sorri do túmulo: tinha razão.

Mesmo Trump, que dificilmente terá lido uma linha de filosofia política, age como se tivesse nascido schmittiano. O seu programa é uma lista telefónica de inimigos nomeados. O inimigo é o eixo do seu pensamento. E resulta.

Na Europa, velha e tonta senhora, à deriva entre o enfarte woke, a amnésia liberal, e as memórias de antigos faustos, permanece a ideia da democracia liberal, que Schmitt julgava arcaica, porque hesitante. O parlamentarismo, dizia ele, é uma conversa prolongada enquanto o mundo arde. A última performance da orquestra do Titanic. A sua crítica tinha uma lucidez sinistra: num mundo em convulsão, o poder que discute é devorado pelo poder que decide e age.

Se Schmitt tem razão, ou parte dela, a velha dicotomia direita e esquerda é já arqueologia política. A verdadeira escolha é entre duas formas de organizar a energia humana: a que precisa de um inimigo e a que procura um projecto comum. A primeira é eficiente; a segunda é civilizada. Por isso, talvez, o liberalismo pareça frágil: não sabe odiar com método e não identifica prontamente o inimigo

É verdade que a história confrontou Schmitt com uma refutação tardia. Foram as democracias liberais (os Estados Unidos, a Europa Ocidental) que, com o velho parlamentarismo e o tédio das assembleias, venceram os impérios totalitários. Foi um triunfo lento, inseguro e talvez efémero, mas um triunfo. O liberalismo, que parecia condenado, acabou por derrotar o seu inimigo não porque o designou, mas porque o entendeu. Porque usou as lentes adequadas.

Os liberais, ingénuos crónicos, acreditaram durante demasiado tempo que se podia negociar com monstros, até compreenderem que era preciso lutar. Hoje repetem o mesmo erro com Putin, com o islamismo político e talvez com o Celeste Império. Schmitt pode ter-se enganado no fim da história, mas raramente se engana no princípio.

Voltemos, então, a Lévi-Strauss. É preciso pois usar óculos, mas saber quais. Precisamos de lentes mais subtis, mais complexas, que nos permitam ver o outro sem o transformar numa caricatura, como alguém que compreende o poder de modo diverso: não como relação, mas como domínio.

Ler Schmitt é como ler Maquiavel: perigoso, mas indispensável. Maquiavel ensinou os príncipes a governar sem culpa e os súbditos a desconfiar sem esperança. Rousseau viu nele, paradoxalmente, um democrata que advertia o povo contra os príncipes. Talvez Schmitt mereça igual paradoxo: o maior inimigo da sua própria teoria.

No fim, compreender é sempre um acto de visão. E cada época constrói as suas lentes. As nossas, temo, estão partidas. Basta ligar a televisão: dezenas de especialistas a “verem” coisas opostas no mesmo cenário.

O problema do nosso tempo não é a falta de visão: é o excesso de olhares. Cada um construiu o seu universo a partir das suas lentes e chama-lhe verdade. E a verdade é simples, quase vulgar: quem não vê com as lentes certas, está perdido, e arrasta o mundo consigo.

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COMENTÁRIOS (de 84)

José B Dias > Jose Carmo: Vejo que tem seguidores que partilham o seu desconforto com opiniões que não a sua ... a censura é o resultado certo!                    José B Dias > Antonio Rodrigues: Já o fui há muitos anos e há muitos anos que o deixei de ser ... e a gota de água foi a direcção do caderno de economia pela actual presidente da RTP e antigo presidente da Lusa. A sabujice em Portugal rende! E a veia denunciante e censória ainda hoje parece fazer escola ... Em moderação (ver regras da comunidade)                 José B Dias > Jose Carmo: E o mais curioso é o facto de, com ou sem as "lentes certas", o aqui cronista parece não se aperceber ... PS: suscitam-se-me também duas questões: quem e como estabelece qual a efectivamente correcta "graduação das lentes" - atendendo a que nunca nenhuma ideologia ou religião se assumiu senão como a que providenciava as "lentes certas" - e como é que a democracia e a liberdade se coadunam com a limitação dos "olhares" que não são outra coisa senão perspectivas e opiniões? Fica pois a ideia de que o cronista é um claro apologista da ortodoxia dogmática e da consequente imposição das "lentes certas" por aqueles que restringiram os diversos "olhares" a apenas um, o oficialmente sancionado. Onde é mesmo que já vimos e vemos isto no mundo? Em moderação (ver regras da comunidade)                 José B Dias > Jose Carmo: Nenhum regime dictatorial/totalitário ou qualquer teocracia iriam alterar uma vírgula no seu texto ... Apreciei sobremaneira o pormenor da "estrutura psicológica normal" ... mais uma vez os sistemas de "saúde mental" dos regimes totalitários lhe prestariam, sem hesitar, os seus mais respeitosos agradecimentos pelo reconhecimento de que quem não pensa como é suposto só pode estar doente 😉 É que assim é mesmo muito fácil como já ficou muitas vezes provado ... e veja-se o medo que existe de ser visto a não sinalizar virtudes! Em moderação (ver regras da comunidade)                     José B Dias > Jose Carmo: Quando num grupo humano um número significativo de indivíduos é hostil ao grupo ... o regime muda e o grupo permanece com outra dinâmica e princípios fundadores! Se tiver alguma dúvida revisite os processos revolucionários começando pela Independência norte-americana, passando pelas revoluções inglesa, francesa e russa e acabando nos 25 de Abril e de Novembro em Portugal. Não são e nunca foram as maiorias que mudaram o rumo das sociedades ... Em moderação (ver regras da comunidade)                   Carlos Costa: Embora tenha razão em muita matéria... Esse não é o tal que afirmou na TV que não havia fome em Gaza?! Critica tudo e todos, menos a si próprio.        José B Dias > Pedro Fernando: E o mais curioso é o facto de, com ou sem as "lentes certas", o aqui cronista parece não se aperceber ...  PS: suscitam-se-me também duas questões: quem e como estabelece qual a efectivamente correcta "graduação das lentes" - atendendo a que nunca nenhuma ideologia ou religião se assumiu senão como a que providenciava as "lentes certas" - e como é que a democracia e a liberdade se coadunam com a limitação dos "olhares" que não são outra coisa senão perspectivas e opiniões? Fica pois a ideia de que o cronista é um claro apologista da ortodoxia dogmática e da consequente imposição das "lentes certas" por aqueles que restringiram os diversos "olhares" a apenas um, o oficialmente sancionado. Onde é mesmo que já vimos e vemos isto no mundo?                        José B Dias > Nuno Pinho: Não partilho da sua opinião ... e mesmo que o debate por aí faltasse ainda assim, seria incomensuravelmente mais que o que os "amantes da liberdade na Ucrânia" por aqui praticam com a sistemática denúncia do que os incomoda!          Manuel Lisboa: Crónica interessante. Fica-se sem se saber, exactamente, o que o autor pensa. Espero que não se incline para o alemão e nazi Carl Schmitt, a propósito dos variados e contraditórios autores há confusões; porém, talvez resultem da necessidade de síntese. Também não sei qual a teoria, se alguma, inspirou e influencia a prática dos líderes chinês, russo e actual norte-americano. Todavia, algo ressalta de imediato, sejam elas quais foram, não se recomendam.                      José B Dias > Antonio Rodrigues: E nem todos os leitores do Observador sabem escrever ... 🤭       Alexandre Barreira > Ruço Cascais Pois. Caro Ruço, Muito bem. E se a minha avó. Não morresse. Ainda hoje....era viva.....!  

(CONTINUA)

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