sábado, 9 de março de 2019

E, no labirinto do tempo…



Prova-se que não houve progresso em purificação de costumes. Já a Igreja, por várias vezes, sofreu reveses, acusada de luxo, hipocrisia, corrupção, atamancando, nos séculos clássicos, uma Contra-Reforma defensiva a impor novas regras de mais responsabilização e afecto pelos dogmas de pureza iniciais. Mas os escândalos são contínuos, e ultrapassam hoje – ou talvez não, só que hoje são imediatamente assinalados - as histórias tantas vezes sinistras do passado. Na parte que nos toca de intervenientes no processo acusatório contra a tal corrupção ou contra os fanatismos hipócritas de uma classe a quem, como acentua José Pacheco Pereira se aponta igualmente tanta participação generosa entre as várias sociedades espalhadas pelo mundo, escritores nossos foram assinalando os tais erros, de Gil Vicente a Eça, Garrett, Herculano, Silva Gaio, Júlio Dinis, Pessoa, Aquilino, Vergílio Ferreira… em registos de acusação com mais ou menos seriedade ou ironia. O texto de José Pacheco Pereira refere essencialmente o problema do celibato eclesiástico como causa fundamental dos casos de que o próprio papado se encarregou hoje, nesta era de “transparência” mediática que parece mais acentuar a perversão. E não resisti a transcrever o “Prólogo” de Herculano ao seu “Eurico”, que estudávamos no 4º ano do liceu, na sua retórica de expressão romântica, passadista, mas que releio com aplicação. No tempo da infiltração visigótica na Península Ibérica, o celibato a que Eurico se condenou, ao tornar-se presbítero de Carteia, por desgosto de amor, terá como consequências fatais, no desfecho da intriga, a loucura da inocente Hermengarda e a bravura mortífera de Eurico. Tratava-se de rigor na obediência às regras impostas. Hoje as regras são transgredidas em desmesura e atrocidade e JPP condena o celibato eclesiástico, como causador da corrupção - como Herculano o fez por reacção essencialmente romanesca, de liberal convicto. JPP vem à liça impor um ponto de vista de historiador e humanista. Concordo com ele. Mas não julgo que a liberalização do casamento entre os sacerdotes resolvesse a questão da corrupção, hoje.
OPINIÃO: Os padres têm sexo
É difícil mudar em muitos aspectos a moral sexual da Igreja e as suas consequências institucionais, mas sem uma mudança profunda na atitude da Igreja em relação à sexualidade tudo vai continuar na mesma.
JOSÉ PACHECO PEREIRA     PÚBLICO2 de Março de 2019
Eu não sou católico, nem apostólico, nem romano e sou um ateu que se classifica de agnóstico para não ofender o Popper que há dentro de mim. Mas não sou, em 2019, anticlerical, e reconheço no meu país, também em 2019, o papel muito importante da Igreja, principalmente social e cultural. Não tenho qualquer vezo contra a instituição e reconheço mesmo que numa sociedade sem valores muitos dos valores do cristianismo que transporta a Igreja são positivos para a nossa vida colectiva, mesmo quando a Igreja não dá o exemplo. Num país onde há muita pobreza, muita exclusão, sem a Igreja tudo estaria muito pior, mesmo muito pior e a Igreja é uma poderosa força cultural e intelectual. Até aqui muito bem.
A partir daqui muito mal. Não é por acaso que várias vezes datei o que penso sobre a Igreja no ano de 2019, hoje e em Portugal, porque não queria generalizar para o passado, nem tenho a certeza do que vai ser no futuro. Apenas, hoje. E hoje a crise da Igreja católica, com sucessivos casos de pedofilia e abuso sexual de menores e maiores, é gravíssima, até porque foi ocultada ao mais alto nível. Padres e bispos cometeram crimes de delito comum e encontraram na Igreja e nas suas instituições a mesma protecção que os “soldados” da Máfia tinham na organização criminosa. O Papa actual, que em muitas matérias mostrou bastante coragem, compreendeu a dimensão do problema e parece resolvido a defrontá-lo. Não é fácil.
A razão do que aconteceu é simples e não tem qualquer complexidade: o celibato dos padres, o impedimento de as mulheres acederem ao sacerdócio e a condenação pela Igreja da homossexualidade, ou seja, a moral sexual do cristianismo. Esta moral sexual não data da origem do cristianismo, mas forjou-se em confronto com a moral e costumes pagãos, quando os cristãos começaram a “conquistar” Roma. Na verdade, não é dogma de fé, embora tenha sido, com o fim das primitivas Igrejas cristãs, uma tradição identitária da Igreja quer do Ocidente quer do Oriente.  
Mas nunca foi cumprida à letra e tal está abundantemente documentado, até para Portugal. Na célebre viagem de Frei Bartolomeu dos Mártires, e no que escreveu Frei Luís de Sousa, a regra era os padres estarem “amancebados” e viverem com as suas famílias, sem particular escândalos das populações. Os conventos eram muitas vezes descritos desde o século XVIII quase como sendo lupanares e houve muitos amores de “freiras portuguesas”. Já para não falar das práticas libertinas a que os fiéis se entregavam na ida à missa, como a prática do beliscão nas senhoras, que tinham de ir almofadadas para não serem magoadas e apalpadas. Do mesmo modo, a passagem rápida pelos boletins da censura durante a ditadura do Estado Novo revela como as histórias de padres e freiras violando a regra do celibato ou os votos eram uma permanente fonte de dichotes, denúncias, poemas satíricos, notícias mais ou menos crípticas nos jornais locais, tudo fervorosamente cortado pela censura. E algumas retratavam crimes, então e hoje.
Os conflitos gerados pela moral sexual cristã têm sido uma constante da história da Igreja que se tem agudizado com a crescente laicização das sociedades ocidentais. A Igreja nunca lhes deu uma resposta consistente e agora paga um preço muito elevado em todas as frentes, controlo dos nascimentos, planeamento familiar, papel da mulher, cada vez mais casais com vida em comum sem o casamento, desvalorização da virgindade, marginalização dos homossexuais, e, no limite, abusos sexuais e pedofilia. O tronco é comum: padres e freiras têm sexo e a pressão para não o sentirem é, num certo sentido simplista, antinatura.
Um dos resultados é o risco para a Igreja de ter, em particular nos países anglo-saxónicos, mas não só, cada vez mais homossexuais, num contexto de “armário” de sete chaves, convivendo nas múltiplas instituições de carácter educativo, no serviço da missa, nos coros das igrejas, nos escuteiros, com milhares de rapazes e raparigas que acabam por abusar. Até agora a Igreja protegia-os da denúncia pública, agora presume-se que vai deixar de o fazer. Mas isso não resolve o problema, porque a repressão da sexualidade não gera felicidade. O Diabo já sabia disso há muito tempo, porque era por aí que vinha a maioria das suas mais gráficas tentações.
Não viola a fé cristã, nem os fundamentos do cristianismo, nem sequer é particularmente recusado pelo povo cristão, que não vê grandes problemas em os padres se casarem. É difícil mudar em muitos aspectos a moral sexual da Igreja e as suas consequências institucionais, como os anglicanos perceberam quando decidiram fazer entrar no sacerdócio mulheres. Mas, sem uma mudança profunda na atitude da Igreja em relação à sexualidade, tudo vai continuar na mesma.
Colunista
COMENTÁRIOS
Vieira, 03.03.2019 : PP não é em 2019 anticlerical, e reconhece o papel muito importante da Igreja. Mas foi anticlerical quando passou pelo PCP(ML) de inspiração maoísta, passagem essa pelo maoísmo que PP sistematicamente oculta e de que provavelmente se envergonha (ou não...). Também omite PP o facto de que a organização da qual fazia parte apostava na confrontação física (agressões) a oponentes políticos como forma de luta política. Quem diria que da arruaça juvenil se vá para "o respeitinho é muito bonito" e a este rapapé -'a igreja catolica.
José Manuel Martins, évora 03.03.2019: lembrando-se de tanta coisa, o naturalismo (popper, não olhes agora) de pp esquece como por acaso que o cristianismo lida com um complexo extraordinariamente denso (e paradoxal, tensivo, e dialéctico) de pulsões e de acções, de que p. ex. as 'batalhas espirituais' são palco: assim, por motivos tanto de herança doutrinária como de inerência às próprias práticas, o cristianismo retoma toda a tradição dos ascetismos espirituais (pouco dados a amancebamentos), e no próprio fulcro da vida cristã defrontam-se as dimensões do espírito e da carne (ambos, por isso, tão ambivalentes), da espiritualidade e da matéria, da razão e da vontade, da natureza e da graça. PP, como um laico ignorante q julga deter um entendimento 'histórico' destas coisas, reduz tudo à sensatez do prazer do orgasmo. Patético.
Manuel Brito, LISBOA 04.03.2019: Patético é o seu comentário, que evita cuidadosamente abordar a questão principal que PP discute e as suas implicações, terminando por lhe chamar laico ignorante e referindo o prazer do orgasmo que PP nunca refere. Vai na melhor tradição da antiga e tortuosa tradição jesuítica. O seu segundo comentário continua e insiste na mesma linha. Gostava era que nos explicasse em que é que o casamento dos sacerdotes protestantes durante os últimos 500 anos prejudicou a espiritualidade do Cristianismo.
Catarina Mendes, 03.03.2019: Revela pouco conhecimento sobre as causas. Como explica o esvaziamento da igreja anglicana inclusive com números expressivos de entrada na Igreja Católica? E em 2005 foram ca. de 400.000 fiéis que solicitaram a plena comunhão com a Igreja Católica.
Manuel Brito, LISBOA 04.03.2019: Acha que a causa está no casamento dos padres anglicanos ou na ordenação das mulheres? Gostava que nos esclarecesse melhor a sua opinião. E a Igreja Católica não se tem vindo também a esvaziar no Ocidente e em particular na Europa?
Francis Delannoy, 02.03.2019: Os padres têm também necessidades biológicas como toda a gente. O problema é que ao entrarem nas ordens, fazem juramento de celibato, Ao romperem esse juramento, estão em contradição com o patrão - a Igreja, e o dogma, transmitido pela Igreja. Se são pelo sexo, têm uma solução: casarem-se e continuarem a ajudar a Igreja da forma moderna como existe no norte da Europa, aonde há poucos padres. É mais sincero, menos hipócrita, e mais em acordo com a realidade dos nossos tempos.

II - EURICO, O PRESBÍTERO Alexandre Herculano - Prólogo do autor
Para as almas, não sei se diga demasiadamente positivas, se demasiadamente grosseiras, o celibato do sacerdócio não passa de uma condição, de uma fórmula social aplicada a certa classe de indivíduos cuja existência ela modifica vantajosamente por um lado e desfavoravelmente por outro. A filosofia do celibato para os espíritos vulgares acaba aqui. Aos olhos dos que avaliam as coisas e os homens só pela sua utilidade social, essa espécie de insolação doméstica do sacerdote, essa indirecta abjuração dos afectos mais puros e santos, os da família, é condenada por uns como contrária ao interesse das nações, como danosa em moral e em política, e defendida por outros como útil e moral. Deus me livre de debater matéria tantas vezes disputada, tantas vezes exaurida pelos que sabem a ciência do mundo e pelos que sabem a ciência do céu! Eu, por minha parte, fraco argumentador, só tenho pensado no celibato à luz do sentimento e sob a influência da impressão singular que desde verdes anos fez em mim a idéia da irremediável solidão da alma a que a igreja condenou os seus ministros, espécie de amputação espiritual, em que para o sacerdote morre a esperança de completar a sua existência na terra. Suponde todos os contentamentos, todas as consolações que as imagens celestiais e a crença viva podem gerar, e achareis que estas não suprem o triste vácuo da soledade do coração. Dai às paixões todo o ardor que puderdes, aos prazeres mil vezes mais intensidade, aos sentidos a máxima energia e convertei o mundo em paraíso, mas tirai dele a mulher, e o mundo será um ermo melancólico, os deleites serão apenas o prelúdio do tédio. Muitas vezes, na verdade, ela desce, arrastada por nós, ao charco imundo da extrema depravação moral; muitíssimas mais, porém, nos salva de nós mesmos e, pelo afeto e entusiasmo, nos impele a quanto há bom e generoso. Quem, ao menos uma vez, não creu na existência dos anjos revelada nos profundos vestígios dessa existência impressos num coração de mulher? E por que não seria ela na escala da criação um anel da cadeia dos entes, presa, de um lado, à humanidade pela fraqueza e pela morte e, do outro, aos espíritos puros pelo amor e pelo mistério? Por que não seria a mulher o intermédio entre o céu e a terra? Mas, se isto assim é, ao sacerdote não foi dado compreendê-lo; não lhe foi dado julgá-lo pelos mil fatos que no-lo têm dito a nós os que não juramos junto do altar repelir metade da nossa alma, quando a Providência no-la fizesse encontrar na vida. Ao sacerdote cumpre aceitar esta por verdadeiro desterro: para ele o mundo deve passar desconsolado e triste, como se nos apresenta ao despovoarmo-lo daquelas por quem e para quem vivemos. A história das agonias íntimas geradas pela luta desta situação excepcional do clero com as tendências naturais do homem seria bem dolorosa e variada, se as fases do coração tivessem os seus anais como os têm as gerações e os povos. A obra da lógica potente da imaginação que cria o romance seria bem grosseira e fria comparada com a terrível realidade histórica de uma alma devorada pela solidão do sacerdócio. Essa crónica de amarguras procurei-a já pelos mosteiros quando eles desabavam no meio das nossas transformações políticas. Era um buscar insensato. Nem nos códices iluminados da Idade Média, nem nos pálidos pergaminhos dos arquivos monásticos estava ela. Debaixo das lájeas que cobriam os sepulcros claustrais havia, por certo, muitos que a sabiam; mas as sepulturas dos monges achei-as mudas. Alguns fragmentos avulsos que nas minhas indagações encontrei eram apenas frases soltas e obscuras da história que eu buscava debalde; debalde, porque à pobre vítima, quer voluntária, quer forçada ao sacrifício, não era lícito o gemer, nem dizer aos vindouros: - "Sabei quanto eu padeci!" E, por isso mesmo que sobre ela pesava o mistério, a imaginação vinha aí para suprir a história. Da ideia do celibato religioso, das suas consequências forçosas e dos raros vestígios que destas achei nas tradições monásticas nasceu o presente livro. Desde o palácio até a taberna e o prostíbulo, desde o mais esplêndido viver até o vegetar do vulgacho mais rude, todos os lugares e todas as condições têm tido o seu romancista. Deixai que o mais obscuro de todos seja o do clero. Pouco perdereis com isso. O Monasticon é uma intuição quase profética do passado, às vezes intuição mais dificultosa que a do futuro. Sabeis qual seja o valor da palavra monge na sua origem remota, na sua forma primitiva? É o de - só e triste. Por isso na minha concepção complexa, cujos limites não sei de antemão assinalar, dei cabida à crónica-poema, lenda ou o que quer que seja do presbítero godo: dei-lha, também, porque o pensamento dela foi despertado pela narrativa de certo manuscrito gótico, afumado e gasto do roçar dos séculos, que outrora pertenceu a um antigo mosteiro do Minho. O Monge de Cister, que deve seguir-se a Eurico, teve, proximamente, a mesma origem. Ajuda - novembro de 1843.

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