domingo, 3 de março de 2019

“Voyage autour de ma chambre”



Tal como as “Viagens na minha Terra” que começam por justificar-se com o livro de Xavier de Maistre, o tema dos textos que transcrevo – à roda de evolução – bem podia servir-se do mesmo pretexto, de viajar no quarto ou na nossa terra, para partir para outras vias, semânticas que sejam, ou políticas, das que por cá ou pelo mundo se passam.
Assim, é de semântica que trata o curioso tema do passo que Salles da Fonseca transcreve, de Amos Oz, em autobiografia onde este assinala a preocupação de um seu tio, sábio judeu, e o rigor de precisão que este punha nas suas explicações linguísticas. Faz lembrar a palavra “ministro”, inicialmente significando “servidor” e que nos tempos de hoje, constitui lugar meritório que, se alguma relação tem com o sentido primitivo, esse é o de servir bastante bem os detentores do cargo.
Um caso, pois, de aristocratização, tal como o citado “messias”, que de pomada, em judaico, passa a “Ungido” ou Redentor”, especificamente aplicado a Cristo, para o “gentio” cristianizado..
Mas também é de evolução – neste caso política –  que trata o segundo texto, de Ana Sá Lopes, sobre a evolução do BE, que da extrema-esquerda passa a uma espécie de social-democracia, com objectivos ocultos de se pendurar na governação, embora haja quem conteste isso, e dou a palavra aos seus comentadores. O próprio Vasco Pulido Valente, no seu “Diário” também o dá a entender, e por isso o acrescento aqui, para que a “viagem” seja de maior recreio. Mas figuração por figuração, para não ser pedante, adopto antes o paralelo com “Rock around the clock”, definitivamente mais concordante com esta constância de agitação e barulho em que vivemos, a viagem no quarto ou na terra - esta em lento navegar ou em passo de mulinha - sendo demasiado brando, no rodopio destas andanças, com semântica ou sem ela.
HENRIQUE SALLES DA FONSECA
 A BEM DA NAÇÃO02.03.19
Diz o tio ao sobrinho:
- Faz-me o favor de perguntar à tia onde está a pomada para a pele, o meu creme para o rosto. Diz-lhe, por favor, que é o antigo porque o novo não presta para nada. E saberás tu, por acaso, a enorme diferença que existe entre «O Redentor» na língua dos góis e o nosso «messias»? Para nós, messias é apenas alguém que foi ungido com óleo: todos os sacerdotes e reis da Bíblia são messias e em hebraico a palavra «messias» é uma palavra totalmente prosaica e de todos os dias, muito próxima da palavra «pomada» - ao contrário das línguas dos gentios nas quais «messias» é chamado «O Redentor» e «O Salvador».
O tio era Yosef Klausner (1874-1958) - professor de História e Literatura na Universidade de Jerusalém, foi candidato (derrotado a favor de Chaim Weizmann) à presidência de Israel nas primeiras eleições pós-independência, principal redactor da Enciclopédia Hebraica.
O sobrinho era o escritor Amos Oz (1939-2018) de cuja autobiografia romanceada «Uma história de amor e trevas», transcrevi o breve trecho [1] acima.
[1] - Publicações D. Quixote, 1ª edição, Março de 2016, pág.82
II- EDITORIAL: 20 anos de Bloco: da extrema-esquerda à social-democracia
Ao dizer numa entrevista que a expressão “extrema-esquerda até poderia ser ofensiva”, Catarina Martins quebrou um tabu de um partido que, da primeira vez que chegou ao Parlamento, insistiu em sentar-se à esquerda do PCP.
ANA SÁ LOPES  1 de Março de 2019
Uma das mudanças mais interessantes que aconteceram no quadro político português nestes últimos 20 anos foi como dois partidos que acreditavam na revolução popular e um outro que juntava alguns ex-militantes do PCP acabaram a produzir um partido social-democrata, reformista, que já não acredita na revolução como ela era entendida pelos seus pais fundadores, à época da criação do partido. 
O Partido Socialista Revolucionário, PSR, oriundo da LCI (Liga Comunista Internacionalista), na época dirigido por Francisco Louçã, juntou-se à UDP liderada por Luís Fazenda - União Democrática Popular, um partido revolucionário que teve algum impacto nos primeiros anos da democracia - e à Política XXI de Miguel Portas e fizeram o partido que se transformou em algo que os três abjurariam na juventude.
O primeiro fundador a perceber que o Bloco de Esquerda estava destinado a ser um partido social-democrata, a ocupar um espaço às vezes deixado vago pelo PS, mas que deveria trabalhar perto do PS, que defendeu essa linha, foi Miguel Portas, que não viveu o suficiente para ver os resultados.
Ao dizer numa entrevista recente que a expressão “extrema-esquerda até poderia ser ofensiva”, Catarina Martins quebrou um tabu de um partido que, da primeira vez que chegou ao Parlamento, insistiu em sentar-se à esquerda do PCP, precisamente no extremo esquerdo do hemiciclo.
Na época havia uma revolução para fazer – agora, e deixemos de lado o peso simbólico da retórica, o que o Bloco quer fazer são reformas à boa maneira social-democrata, a tendência que modelou os partidos socialistas europeus (embora actualmente alguns hoje não sejam reconhecíveis) no século XX.
Alguma direita não percebe isto, ou não quer perceber, porque lhe dá jeito colar o Bloco ao “estalinismo” e à extinção da democracia. O PCP percebe bem demais. O Bloco não pode falar sobre o assunto: a palavra social-democracia está demasiado colada ao PSD, o partido que em Portugal se chama “social-democrata”, embora seja o PS a pertencer à Internacional Socialista.
A expressão “social-democratizante” foi sempre o ataque que o PCP fez ao Bloco, assim como sempre foi um argumento de todas as tendências minoritárias que são contra a actual direcção – e de muitos dos militantes que abandonaram o partido. É de certa maneira, a expressão tabu dentro do BE, que não pode dizer aquilo que realmente é, sob pena de um tsunami. As questões de identidade partidária sempre foram um mau karma - em quase todos os partidos, na realidade.
Comentários:
José Manuel Martins, Évora: Um pouco mais de perspectiva, e poderíamos enterrar definitivamente essa deriva do hegelianismo de esquerda (mais o mito oitocentista do sistema e da ciência) que deu pelo nome de marxismo-leninismo, hoje reduzido a uma pós-bolsa de pós-intelectuais patéticos. Na verdade, a revolução sempre foi uma barata tonta perdida na história, e a única indicação demonstrativamente segura que soube dar foi o seu próprio repetido óbito: a trajectória exemplar e eloquente do bloco apenas repete o estoiro do bolchevismo, a descolonização do império soviético, a capitalização do pc chinês e a consagração do fim-da-história: o 'desencadeamento das forças produtivas' faz-se do socialismo para o capitalismo, não o contrário. Não há 'esquerda', apenas capitalismo, mas tudo isso já se sabia em 1900. Boa noite.
Não percebo o que tem de espantoso q o portas tivesse descongestionado o cérebro: muito antes de ele 'militar' já lhe poderiam ter dito (à direita) q corria atrás de bolinhas de sabão, daquelas que por vezes sangram (nunca se sabe de que paris nos surge um pol pot). De maneira que essa 'grandeza' de idiotas que deixaram vagamente de o ser, só mesmo 'à esquerda' se poderia festejar, e não sei se a ilusão não será apesar de tudo menos patética que a desilusão, duas variantes da estupidez a correr atrás de miragens. De resto, ASL sabe perfeitamente do que fala: na verdade, este artigo está a autobiografar a sua própria deriva tardia. Quem a leu e quem a lê. Mas preferia a genica crítica de outrora, q envergonha esta recém-conquistada aquietação numa espécie de profissionalismo da moderação.
A. Martins, Almada 01.03.2019: Em 20 anos de Bloco é a primeira vez que vejo alguém apelidá-los de sociais-democratas. Nem os Estalinistas mais ferrenhos ousam classificar como tal um partido que quer: Nacionalizar a Banca; nacionalizar as companhias de Seguros; nacionalizar os CTT; destruir ou retirar apoios às empresas privadas de saúde; retirar apoios aos colégios e Escolas privadas (já aconteceu) ; Quer que o país saia da Nato; é eurocéptico e participa nos comicios dos eurocépticos (Melanchon e quejandos); Faz comicios nos acampamentos da juventude a dizer que a "propriedade é roubo" (Mortagua); Apoia os ditadores como o Maduro, e outros; etc. etc. O BE é um partido comunista/marxista encapotado sob o nome de "esquerda" que, se um dia for poder, conduzirá o país à miséria, tal como fez o Hugo Chavez na Venezuela.
A NON DOMINO: Terra 01.03.2019: A direita percebe muito bem o Bloco: o partido do Estalinismo é o PCP, já o BE é uma mistura de partido albanês, maoísta e outras correntes radicais marxistas-leninistas com tendências para a alucinação, que cavalga qualquer onda de activismo "progressista" para se manter nos telejornais. Se há uma tendência para a social democracia é na atracção pelo emprego político que a liderança do BE tanto almeja. Não há dúvidas que o BE quer muito chegar-se ao Governo para invadir o Estado com os seus quadros, muitos em situação precária após anos a viver de sucessivas bolsas para mestrados, Docs e Pós-Docs sobre assuntos inúteis em "faculdades de teologia" do BE (CES de Coimbra, ISCTE, etc.). Tal como o PS está a fazer actualmente.
Nuno Marco, Lisboa 01.03.2019:  Lúcido.

III - OPINIÃO: Diário
António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa são "dois produtos da Igreja Católica, que sempre se deliciaram a exibir as suas belas almas, nunca conseguiram aceitar verdadeiras responsabilidades. São ornamentos", escreve VASCO PULIDO VALENTE.
PÚBLICO,2 de Março de 2019

24 de Fevereiro
Um documentário da RTP atesta que Ana Gomes é tão idolatrada numa parte qualquer da Etiópia que as mãezinhas do sítio chamam às suas filhinhas Ana e Anagomes. Gostava de saber por que razão a nossa querida inquisidora não emigra para a Etiópia.
25 de Fevereiro
António Guterres continua preocupado e “alarmado”, agora com o “populismo”. Quem se lembra do governo dele, e já lá vão mais de vinte anos, também se lembra das crises semanais por causa do primeiro-ministro não ser capaz de se decidir sobre coisa alguma. Hoje, na ONU, basta-lhe ter estados de alma. Como, de resto, o seu grande amigo, Marcelo Rebelo de Sousa, que da eminência de Belém comenta diariamente a vida política portuguesa. Estes dois produtos da Igreja Católica, que sempre se deliciaram a exibir as suas belas almas, nunca conseguiram aceitar verdadeiras responsabilidades. São ornamentos.
26 de Fevereiro
O governo não quer reconhecer a dívida do Estado aos professores de nove anos, quatro meses e dois dias de serviço. A “oposição”, do Bloco ao CDS, uniu-se para recomendar ao governo negociações, sabendo que a única concessão possível era o “escalonamento”, ou seja, ir pagando a pouco e pouco, em 2020, 2021 e por aí fora. António Costa espera continuar a ser primeiro-ministro nos próximos quatro anos e faz tudo para não se arranjar dificuldades no futuro. A oposição, que não espera governar nos próximos quatro anos, pode empenhar o Estado à sua vontade.
Esta confissão antecipada de impotência e derrota não se esperava tão cedo e tão claramente.
27 de Fevereiro
Nixon caiu por causa da investigação judicial que ficou conhecida por Watergate. O partido democrático tentou inventar contra Reagan um novo Watergate, o Irangate. Mas não pegou. Os republicanos quiseram remover Clinton a pretexto de um negócio imobiliário, o Whitewater, e de Monica Lewinsky. E quase conseguiram. Os republicanos, principalmente Trump, levantaram dúvidas sobre a nacionalidade de Obama. Ultimamente, os democratas julgam que se vão desembaraçar de Trump com uma nova investigação judicial, a de Mueller.
Isto é ilógico. Trump talvez possa ser destituído. Mas o eleitorado dele não é destituível. A elite americana não viu que Trump podia chegar ao poder. Na véspera da eleição ainda se ria dele. Depois chorou. E agora vem entusiasticamente desculpar-se, descobrindo no homem as maiores perversidades da história.
O espectáculo do depoimento de Michael Cohen ao Congresso, como a CNN o apresentou, foi um drama romântico. Michael Cohen teve o papel do traidor arrependido. O presidente da comissão de inquérito teve o do juiz bondoso. Os republicanos e os democratas agatanharam-se, mas com lágrimas e suspiros, declarações de culpa e de amizade eterna, e com a invocação chorosa dos antepassados e dos filhos. Ninguém se conseguiu portar com alguma sobriedade clássica, a que antigamente se chamava dignidade. Compreende-se: no novo mundo global toda a gente ama, ou deve amar, toda a gente.
28 de Fevereiro
Há 20 anos, meia dúzia de jovens da classe média, que não tinham qualquer ligação à sociedade portuguesa, e só tinham em comum o sentimento da sua derrota política e uma mistura de lugares comuns a que eles chamavam marxismo-leninismo, resolveu fundar um novo partido, o Bloco de Esquerda.
Sem perceber, e ainda hoje não percebem, limitavam-se a reinventar mais uma vez o radicalismo urbano. Não tinham, e não têm, um verdadeiro destino. Balançam, e hão-de balançar, entre o seu amor pela igualdade e o seu amor pela ascensão social. É uma maldição histórica.
1 de Março
Guaidó diz que volta à Venezuela segunda-feira. É um homem de coragem. Ainda o matam.

Nenhum comentário: