sábado, 30 de março de 2019

Tragédia antiga



Terá a ver com o fado, com as cantigas de amigo, de ambiente rústico, com o nosso “sol que em vez de criar seca”, com a inapetência para o trabalho, no “ai que prazer não cumprir um dever”, com oportunismo arrivista compensador das carências intelectuais, com o mimo prestado na infância em demonstrações de ruído e arrebatamento palavroso e vão, substituto de seriedade e racionalidade. Somos, de facto, os da cauda e, por vezes, temos consciência disso. Alberto Gonçalves tem-na sempre. Há quem não se importe. Ou não dê por isso. E o ridículo atroz do Presidente, posto em destaque por Ricardo Araújo Pereira, é aproveitado por Alberto Gonçalves no seu fundo ataque, a propósito do “somos os melhores” vexatório do PR. Maria João Avillez especifica o seu ataque, dirigindo-o sobretudo à esquerda, do discurso da banalidade carismática para povinho desleixado e interesseiro, a cuja raiz pertencemos.
Penso que fundamentalmente somos bons, bonzinhos, coitadinhos, daí uma exuberância afectiva pouco esclarecida e que tem hoje, como figura representativa da nossa parolice, o PR do  nosso repúdio. Para trás, temos figuras recentes de outro tipo de energia, que M. João Avillez defende, como Cavaco Silva e Passos Coelho. Nem tudo nos envergonha, no nosso percurso, mau grado as figuras queirosianas imortalizantes, que não representam caracteres individuais, mas tipos sociais que nos definem. Mas para trás, na história, outras ficaram, de diferente carisma. José Hermano Saraiva soube separar o trigo do joio, e ele próprio foi grande exemplo de frontalidade e nobreza que admiramos.
I - GOVERNO:   Os melhores dos melhores /premium
ALBERTO GONÇALVES    OBSERVADOR, 30/3/19
A opinião publicada não contesta o pagode socialista, na medida em que: a) acha que o pagode é normal; b) acha que o pagode é benéfico; c) espera vir a beneficiar do pagode; d) já beneficia do pagode.
O poder das ilusões é uma coisa maravilhosa. E sobretudo patética. Para não admitir o que de facto são, os portugueses fingem-se convictos de que são “os melhores dos melhores”, citando a ladainha humilhante do prof. Marcelo. O método é repetirmos com maníaca insistência que somos insuperáveis nisto e naquilo, da bola aos chouriços, das peúgas ao azeite. De tanto entoarem o mantra, alguns, coitados, chegam a acreditar nele. Muitos, porém, permanecem ligeiramente cépticos: embora proclamem a superioridade pátria nos “sectores” – sei lá – do mobiliário ou da saúde, receiam no fundo estar errados e a fazer o que os clássicos da Antropologia designavam por figura de urso. A conversão dos cépticos dispõe da propaganda oficiosa, os “telejornais” que se encarregam, dia após dia, de entrevistar governantes nas imediações de uma inauguração, ou estrangeiros nas imediações dos Jerónimos, todos dispostos a confirmar as incontáveis virtudes deste abençoado país. Se um casal de belgas gosta disto, quem somos nós para discordarmos?
Quase literalmente, não somos ninguém. É a nossa sorte. Dado que o mundo mal dá pela existência de Portugal, Portugal costuma escapar ao escrutínio do mundo. Ambos beneficiam do arranjo. Excepto às vezes. Às vezes, um acontecimento fortuito ou um tique exagerado desperta atenções alheias e indesejadas. Às vezes, as notícias escapam ao controlo, ou aos objectivos editoriais do falecido DN. Às vezes, a realidade espreita e perturba as patranhas que nos oferecem e o idílio em que vivemos. A título de exemplo recente, sugiro o documentário sobre o desaparecimento de Maddie McCann, estreado na Netflix. Ali não há turistas seleccionados a louvarem a comida e a hospitalidade e as “startups”: há ingleses que olham para Sul e descobrem um território entregue a bárbaros, onde a polícia se destaca pela espectacular inépcia e a corrupção genérica serve de cenário para apaixonantes enredos. Em meia-dúzia de horas de programa, o mito do paraíso à beira-mar afoga-se com esmero. Mas nada afoga as ilusões dos portugueses, os quais, bem amestrados, tomam a crítica por um ataque movido a inveja. Não importa que, no caso, a “inveja” seja tão fundamentada quanto a da banca suíça face à estabilidade do BES.
Uma outra história actual e digna da estupefacção “externa” é a endogamia governamental. Na sua infinita ingenuidade, o povo garante que a família não se escolhe. A sério? O PS escolhe os familiares que pode e, não satisfeito, nomeia-os para os cargos públicos que não deve. Sendo engraçado que um dos argumentos contra a monarquia consista em impedir a ascensão automática de mentecaptos, também é verdade que a situação desta peculiar república, absolutamente trivial em exotismos marxistas, não é, vá lá saber-se a razão, comum nas democracias civilizadas. É aliás inédita a ponto de impressionar a imprensa espanhola, que habitualmente nos dedica a quantidade de páginas que reservamos às Berlengas: o “ABC” fala numa “rede de nepotismo sem precedentes em toda a Europa”, lembra a “rede de 27 pessoas com vínculos familiares no exercício do poder” e refere que “a indignação tomou conta do país vizinho”. Escusado dizer que se trata de uma série de calúnias, a desmentir com urgência.
A primeira calúnia é considerar que pertencemos à Europa, presunção que apenas funciona no momento de receber, com maus modos, dinheiro alemão. Fora isso, uma fotografia colectiva do governo basta para exibir não só os perigos da consanguinidade como uma tropa fandanga que, na aparência e no conteúdo, dificilmente se sentaria na assembleia estadual do Maranhão.
A segunda calúnia são os 27 parentes, proverbialmente caídos na lama. O Observador já desenterrou quarenta e tal, e não duvido que uma pesquisa distraída pelas subsecretarias e chefias de gabinete alcance os 150. Além de que amanhã é um novo dia, e uma nova oportunidade profissional para dezenas de filhos, esposos, genros, primos e enteados dos vultos que nos guiam.
A terceira calúnia é a indignação que alegadamente nos assola. Qual indignação? Salvo por umas dúzias de excêntricos, a famosa “opinião pública” e a famosíssima opinião publicada não contestam o pagode socialista, na medida em que: a) acham que o pagode é normal; b) acham que o pagode é benéfico; c) esperam vir a beneficiar do pagode; d) já beneficiam do pagode. Entre a cretinice e o oportunismo, compreende-se a tendência do cidadão médio para a opinião informada. Se o “ABC”, o “El País” e os jornais que calhar realizassem com competência o seu trabalho, perceberiam que a notícia não é a rompante promiscuidade no governo: é a complacência de uma sociedade em peso perante a promiscuidade e perante o resto. O espantoso, na hipótese de ainda sobrar alguém que se espante, é a jovialidade com que os portugueses se permitem ser enxovalhados e roubados às mãos de uma legião de rústicos que nem possuem em manha metade do que lhes falta em vergonha.
Haverá, nos confins da Terra, populações mais oprimidas. Ou mais ridicularizadas. Ou mais burladas. Não haverá nenhuma que o aceite com este simulacro de orgulho. Nisso, e não nas peúgas ou no azeite, somos mesmo os melhores dos melhores. Ou uma desgraça sem remédio, consoante a perspectiva.
Nota de rodapé
O prémio “Uma Rotunda Em Cada Cruzamento, Dois Multiusos Em Cada Esquina, Três Sacos Azuis Em Cada Mandato” da semana vai para António Costa, com a frase: “O mundo seria muito melhor se fosse governado pelos presidentes de câmara”
II - Os imutáveis /premium
MARIA JOÃO AVILLEZ    OBSERVADOR, 27/3/2019
Nunca ocorre à esquerda avaliar o adversário pelo mérito, a responsabilidade, a iniciativa, o currículo, mas sempre só pelo insulto político ou o acinte pessoal. Caramba.
1. Que se abrigará de tão raro na cabeça das pessoas que opinam sobre a direita para não acertarem uma? E insistirem em não acertar? É um mistério: não podem ser todos assim tão pouco dotados, era coincidência forte demais (ou numa versão mais optimista era too good to be true); também não pode ser falta de informação e ninguém nasceu ontem: nem os que opinam nem os que são opinados. Só se for assim mesmo, de propósito… Senão como explicar erros de, como dizer?, “análise” tão grosseiramente desfocados? Às vezes pensa-se que será simplesmente, banalmente, trivialmente a preguiça: há um guião feito de clichés fora de prazo e toca a aviá-lo e escrevê-lo vezes sem conta. Não dá trabalho e há gente que a tudo se presta, da deficiente prestação televisiva à crónica ácida. Lembram-me até uma peça teatral que está em Londres há mais de oitenta anos, “A Ratoeira” que deve ser baratíssima: o mesmo teatro, o mesmo autor, o mesmo cenário, e os actores passando de geração em geração ou de pais para filhos como no governo socialista , sempre a dizerem o mesmo, o mesmo, o mesmo. Coitados.
2. Dizem-me que o ressentimento tudo explica e indo – como se deve ir – à natureza humana, ele está lá bem inscrito, em “gordas”, como nos jornais. Mas a verdade é que custa a crer que mesmo um grande, um imenso ressentido – alguém que tenha por exemplo sonhado ser o inspirado e inspirador guru intelectual de alguém e tenha afinal ficado longe disso, trocado por suposta (mas só suposta) menor figura – não se importe de, mais que ressentido, passar sobretudo por pouco sério ou por politicamente inverosímil, o que pode ser mau para quem tanto tempo, afinco e afã dedica à análise (?) dos comportamentos políticos dos outros. Contudo, é o que aí anda e o que aí está: as mesmas insinuações de péssimo gosto, falsidades disparadas como certezas, clichés mal alinhavados sem sombra de sentido e ainda menor conexão com a realidade. Ouve-se este realejo sobre a direita, ou as direitas, e tanto faz que passem dias ou anos: que ela é o que não é; que quer o que nunca disse querer; que aspira ao que já mostrou renegar, etc, etc. Espantoso que nenhum dos arautos se canse de si mesmo ou do guião, como os tais actores a repetirem há décadas a mesma peça. E é triste que nunca no debate político ocorra à esquerda avaliar o adversário pelos valores do mérito, da responsabilidade, da iniciativa, do currículo, mas sim pelo insulto político ou o acinte pessoal (caramba).
3. Vem isto a propósito dos desastrosos comentários sobre o Movimento 5.7. Nuns casos a idade mental explicará o desastre, noutros a indigestão provocada pela grosseria analítica terá aguda responsabilidade em tão patética empreitada. Já me habituara a esta má fé como reacção quase exclusiva a qualquer ideia, medida, proposta, intervenção, contributo do PSD ou do CDS, da Aliança ou de outro qualquer “alguém” fora do perímetro da geringonça, logo chutado para fora da área consentida pelas esquerdas. O mau gosto e a arrogância têm porém subido de grau, desqualificando obviamente os seus autores mas com isso desqualificando o país e o seu regime e os seus políticos.
Agora com o Movimento 5.7 a coisa ficou talvez com ainda pior cara. Não é que tenha muita importância mas aguça a curiosidade: porque se incomodam tanto — a ponto de terem de ser inexactos — com uma gente que mal conhecem? Porque os atemoriza que entre em cena uma nova geração que não está atarrachada ao domínio da esquerda, não se comove com os seus mandamentos culturais, não pertence ao grupo dos consentidos pelo grupo dos vigilantes consentidores, não pratica o Estado como único pulmão, nem depende “do” partido para respirar na vida? Outro mistério. Sucede porém — e este para mim é o ponto – que o comportamento de muitos destes protagonistas, actores principais ou segundas e terceiras figuras, pode ser fatal (já está a ser). É que ao nivelar o debate político por tão baixa exigência, usando de manipulação e fazendo do poder uma coisa própria e privada, inviabiliza-se qualquer diálogo politicamente racional com a oposição. Em não havendo, há o que há: um regime exausto, improdutivo e malsão. O nosso.
4. Se virmos a obsessão non stop com Passos Coelho (além de lhes ter ganho as eleições têm assim tanto medo que volte?); se ouvirmos a falsíssima narrativa que a esquerda não desiste de impor na opinião publicada sobre os anos da coligação PSD/CDS e que qualquer ser normalmente constituído em Portugal sabe ser isso mesmo, falsíssima; se atentarmos nos esforços ciclópicos para reduzir a fortíssima herança reformista de Cavaco e o próprio Cavaco ao puro esquecimento — o único lider, em 43 anos de regime democrático, com quatro maiorias absolutas no país — já devíamos ter aprendido: a esquerda não olha a meios para refazer a história e ter o exclusivo de tudo. Do poder, do Estado, do império do seu partido sobre o resto dos partidos, do funcionalismo público, da cultura, dos costumes, das narrativas. E agora do pensamento que ela quer único (e por este andar da nossa alma).
Nada disto é novo? Não. Mas a razão hoje é espantar-me — desculpem a insistência — com a confrangedora argumentação escolhida pela esquerda contra a direita de que as atoardas contra o desafio cultural e político que o Movimento 5.7 encarna são a mais nítida radiografia. E, claro, com a falta de respeito que obviamente não pode deixar de suscitar quem assim prefere comportar-se politicamente: nada consentindo apenas insultando, nada contra-propondo, antes mentindo. Faz pena, mas isso é o menos. O mais é o que dá que pensar.
5. Ricardo Araújo Pereira passou há dias umas imagens embaraçantes (e em certo sentido destrambelhadas) de Marcelo Rebelo de Sousa, que eu inteiramente desconhecia. Em cada uma dessas imagens Rebelo de Sousa, embora em circunstâncias diferentes, diz sempre só uma coisa: “os portugueses são os melhores do mundo”, quer fossem bombeiros ou professores ou já não me lembro o quê. Uma pessoa distraída dirá que é um tique, um observador razoável acertará: o homem precisa de ser amado, amado até à exaustão, mimado, louvado. Senão, perde o pé. E por isso ama também, e louva e mima; para ter a certeza que lhe devolvem, se possível intacto, o “afecto”.
Deixo uma pergunta: se os portugueses são assim de uma penada e em tudo, os melhores e logo “do mundo”, porque é que atrás de nós só há, numa União Europeia que conta vinte e oito pátrias, dois países a crescer menos que Portugal (e daqui a pouco só haverá um, visto já ser certo que a Grécia nos ultrapassará)? Mais: e porque é que dos cinco países que a partir de 2011 foram sujeitos a duros programas de ajustamento – Grécia, Irlanda, Espanha, Portugal e Chipre –, os outros quatro crescem saudavelmente e a olhos vistos e nós não? E ainda por cima “estando a economia a andar tão bem” como há pouco tempo nos lembrou solicitamente o Presidente dos “portugueses todos os melhores do mundo?
6: Ninguém tem vergonha? Mesmo sendo muito difícil escolher qual a vergonha, alguém tem alguma?    
 PS. Um dia ainda me hei-de entreter a rever a herança de Cavaco. Aquela sobre a qual as esquerdas se têm afanosamente ocupado em passar um rolo compressor por cima. Infelizmente para elas é facílimo fazer essa lista, além de que parte dessa boa herança está até muito à vista.

Nenhum comentário: