terça-feira, 12 de março de 2019

Festança é o que se quer



Uma crónica de excelência, tanto pelo comentário como pela informação. De Helena Matos. Um retrato sobre um país de carnaval, a viver de empréstimos e de arraial contínuos. E não há quem ponha cobro a isso, que os representantes gostam de ter o povoléu contente, e soezmente anulado. Os comentários, contudo, provam que muita gente há conscientemente exigente.
CRÓNICA: O arraial da luta /premium
OBSERVAFOR, 10/3/2019
É a luta feminista. A luta contra o racismo... Há sempre uma luta. A luta é um arraial que políticos vorazes pelo poder montaram nas nossas vidas. O reverso desta encenação vai do fiasco ao crime.
Fiasco. São as chamadas lutas para televisão ver: hoje luta-se. Amanhã já ninguém se lembra.
Zero candidaturas. Nem uma, nem duas, nem três: zero! Foi este o número de adesões à imensamente apregoada linha de crédito para a limpeza de florestas. A história desta linha de crédito começa em Março de 2018, tempo de luta contra o então inimigo público número 1, a saber o eucalipto. O primeiro-ministro, o Presidente da República e vários membros do Governo puseram capacete na cabeça, arrancaram uns raminhos de eucalipto e declararam ufanos que estavam a limpar a floresta e a combater os incêndios. António Costa aproveitou um debate parlamentar para anunciar várias novidades para a floresta. Esta linha de crédito para a limpeza de florestas foi uma delas. O número de adesões que  registou um ano depois – zero – espelha o profundo desconhecimento  da presente classe política sobre esse país que existe para lá da faixa litoral. Em Março de 2019, quem reparou que foram zero as candidaturas à linha crédito? Certamente menos que aqueles que recordam o espalhafato mediático criado em torno da luta pela limpeza das florestas.
Mistificação. O legislador sonha-se libertador mas no caso das mulheres em Portugal a sua vida mudou e muda apesar das leis.
A falta de mão-de-obra nos anos 60 do século passado, as crescentes habilitações escolares das raparigas, o acesso a água canalizada, as redes de  esgotos e a electrificação do país que permitiu a vulgarização de electrodomésticos fizeram mais pela qualidade de vida das mulheres que muitas das leis que se tornou lugar comum incensar como libertadoras. Por muito chocante que tal seja para os ouvidos sensíveis de quem imagina que tudo se deve ao intervencionismo estatal, em matéria de vida das mulheres as máquinas de lavar roupa, os frigoríficos e os supermercados com os seus horários alargados foram mais importantes que os manifestos feministas. O legislador que sonha países criados à força de decretos-lei e os políticos que se vêem libertadores privilegiam o papel das leis. Ou seja o seu papel. A realidade essa não se compadece com esses egos exacerbados e os activismos que os sustentam. Foi assim no passado com a sua legislação repressiva para as mulheres e continua  perturbantemente a ser assim no presente do activismo igualitário: como entender, por exemplo, que os adolescentes de hoje – criados na narrativa dos direitos existentes e a existir – se entreguem a práticas como as relatadas por Laurinda Alves no texto Já te safaste hoje?
A luta do “vai ali ver se chove”. Esta luta varia de objecto ao longo do ano. Nesta época refere-se invariavelmente ao “mau tempo que impediu os tradicionais desfiles de Carnaval”.
O único que há de tradicional neste caso é mesmo o “mau tempo” que não é mau tempo algum mas sim o tempo próprio da estação, a saber o Inverno. Já o resto – desfiles e samba incluídos – são opções para enregelar os corpos, queimar dinheiro e fazer de nós parvos. Experimente-se, por exemplo, fazer uma pesquisa no portal dos ajustes directos pelas palavras Carnaval ou samba e constata-se que são milhares e milhares de euros afectados ao que nos é apresentado como o esforço de uns foliões. Este ano foram cancelados os desfiles de Carnaval em Sesimbra, Ovar (com uns fantásticos 224 389 euros em contratos para  a organização do Carnaval), Estarreja e Funchal, Buarcos/Figueira da Foz. Para o ano o espectáculo do “mau tempo que impediu os tradicionais desfiles de Carnaval” tem regresso marcado. E assim continuará enquanto o contribuinte for ali ver se chove na hora de se pronunciar sobre estes dislates.
Patético. As lutas que entram em luta com as outras lutas para apurar qual luta é a verdadeira luta.
Não deixa de ser patético que as acusações de racismos caiam cada vez mais entre aqueles que se achavam no terreno da luta contra o racismo. O melhor símbolo desta espécie de “luta dentro da luta para apurar quem representa a verdadeira luta contra o racismo” é aquela senhora ministra da Cultura e da Democracia do governo da Suécia, Amanda Lind de seu nome, que acabou a ser acusada de apropriação cultural por usar rastas (a apropriação cultural é assim uma espécie de racismo gourmet-intelectual). A acusação foi formulada por uma artista negra, Nisrit Ghebil, cuja obra por sinal se apropria da cultura europeia sem qualquer problema.
E assim chegámos a este patetismo em que não passa um dia em que não se descubra racismo numa camisola, num anúncio, nuns chinelos… com os acusados de racismo a fazerem penitenciais pedidos de desculpa enquanto os acusadores usufruem do que de melhor e mais interessante existe na cultura que acusam de racismo, apropriação cultural, colonialismo e outros ismos que lhes ocorram no momento.
Crime. As lutas que trazem água no bico ou mais precisamente o Marx do costume.
Alguém sabe explicar porque é que a morte de uma criança pelo pai é noticiada como um crime de violência doméstica enquanto a morte da uma criança pela mãe é apresentada como uma tragédia resultante de uma depressão? A enorme algazarra criada em torno da violência dita doméstica – circunscrita para os demagógicos efeitos à violência exercida por homens contra mulheres – mostra-nos como somos uma espécie de fáceis paus mandados em tempos de indignação. Não duvido que dentro de alguns anos muitos dos activistas da presente luta contra a violência doméstica serão os primeiro a mostrar-se indignados com os absurdos legislativos que agora defendem, como os tribunais especiais para a violência doméstica ou a doutrinação dos juízes. (Recorde-se o espanto e a surpresa dos socialistas com o recurso às escutas telefónicas no processo Casa Pia, escutas essas feitas ao abrigo de legislação aprovada por eles mesmos!)
O que agora se está a aprovar e a defender em matéria de agravamento de penas e de ausência de prova nos casos de violência doméstica a par das  campanhas fulanizadas contra os juízes vai um dia ser-nos atirado à cara. Basta esperar que um ministro ou filho de líder político… de preferência de esquerda sejam investigados e condenados segundo os procedimentos que agora se defendem.
PS. Depois de anos a ouvirmos as candidatas a misses a desejarem a paz no mundo, a Miss Portuguesa 2018,  Carla Rodrigues, perdeu o título porque  apoiou publicamente Juan Guaidó e  fez um apelo à entrada de ajuda humanitária na Venezuela. Quantas feministas se solidarizaram com Carla Rodrigues?

COMENTÁRIOS
Carminda Damiao: Excelente texto.
Jorge Trindade: Absolutamente delicioso. HM em grande como sempre.
Von Galen: Excelente texto. De facto não vi um único título, para além do CM, a noticiar a morte da criança pela mãe. O jornal Público, sempre tão preocupado com a violência doméstica, não colocou essa notícia em capa. É preciso andar-se muito distraído e comer tudo o que nos servem para que ainda acreditemos que a preocupação sincera é mesmo a violência doméstica e não um espirro feminista.  
Francisco Carvalho: Faz bem á ALMA ler as   crónicas de  HELENA MATOS E ALBERTO GONÇALVES e há mais uns poucochinhos !!! Quem lê e gosta tem obrigação de cumprir os serviços mínimos:   PARTILHAR !!! até que o dedo me doa !!!!
Pérolas a porcos: Por falar em lutas "feministas"... Devíamos todos aplaudir (além da Helena) Ricardo Martins Pereira, que denunciou aqui no MAAG, de forma BRILHANTE, algo de completamente absurdo e contrário a todo este arraial, que é o programa da TVI "Quem quer casar com o meu filho"... "...agora vemos em horário nobre de um dos canais mais vistos da televisão um programa que promove tudo o que está errado, que promove a mulher-objecto-sexual, a mulher-fútil, a mulher-criada, a mulher-estúpida, a mulher-dependente, a mulher-submissa." "...ao lado do homem, lá no pedestal, e também a olhar de cima para baixo, está outra mulher, a mãe dele, a candidata a sogra. Quase todas mostraram ser tão ou mais machistas do que os filhos, as primeiras a julgar as “candidatas” pelo aspecto físico, por não saberem cozinhar ou tratar da casa, por já terem filhos, por usarem tatuagens." "Sujeitarem-se a este tipo de julgamento, a serem avaliadas com base em perguntas idiotas, feitas por mãe e filho preconceituosos, com mentalidades trogloditas, diz também muito de quem aceitou participar neste programa. A procura pela fama, os tais 5 minutos, ou 15, ou um mês, faz com que se deixe cair na lama a dignidade."
Lopez Turrillo: não só electrodomésticos. tb a invenção da pílula  abortiva foi uma libertação.
Carlos Sousa: Acredito que milhares de mulheres, nas manifestações dos últimos dias, estavam convictamente a fazer ouvir a sua voz e repúdio à violência doméstica. Mas estão a ser também instrumentalizadas pela extrema esquerda. Lá andava o Jerónimo e a Catarina a ajudar à festa, esquecendo eles que dão suporte a um governo que tinha o dever de melhorar o apoio às vítimas e tornar mais eficaz a justiça nestes casos. Ouvimos também nos últimos dias, Costa a debitar palavras de ordem contra a violência doméstica, quando é ele que tem a maioria e o poder legislativo e executivo.  Cinismo a quanto obrigas! Ouvir as feministas colocarem-se ao lado da Carla Rodrigues é coisa que nunca vamos ouvir, porque a extrema-esquerda está muito de acordo com a penalização dada à Miss. Então ela teve o descaramento de atacar Maduro, o amigo do PCP ?!
Pérolas a porcos > Carlos Sousa Eu acredito que milhares de mulheres, que se manifestaram nos últimos dias, gostariam de ver legitimada a violência doméstica que exercem ou gostariam de exercer sobre os seus companheiros (algumas delas nem sequer têm), mas estão com medo de levar em troca... ou estão a preparar o terreno para ficar impunes. Parece-me que foi sobretudo um "preventive strike"...
Eduardo Lopes: Bom dia! Caríssima HM. É preciso acreditar! que um dia haverá alguém mais inteligente e com mais carácter para nos governar. Sem dúvida que num país onde se sacrificou e continua a sacrificar um povo que trabalha e é confiscado todos dias, se possa assistir a este esbanjamento só porque é Carnaval. Mas, os portugueses gostam de gritar um ano inteiro, para depois com o calor da ressaca esquecer. E, os políticos sabem bem disso.
Quanto ao caso das florestas, é muita tristeza termos que viver com estes políticos sejam de esquerda ou de direita. o que eles querem é dinheiro, dinheiro dos incautos, ou azarados, que quando estão a tratar das limpezas provocam um incêndio. Nunca se ouviu falar da condenação de incendiários por via aérea, mesmo sabendo que eles existem. Contudo, coimas e mais coimas sabem os políticos e AR, criar para arranjarem dinheiro sob a forma coerciva, para justificarem que a culpa é sempre dos outros. A última saiu em Janeiro, que diz que sempre que precisa de queimar os sobrantes das suas árvores de fruto do seu quintal tem que ligar para as autoridades e comunicar que quer realizar o acto. Vivemos num país que governa por impulso, para não perder eleições, mas que na prática nem aquilo que devia fazer sabe e, o exemplo é mesmo o dos eucaliptos que cresceram desordenadamente nas matas depois dos incêndios.
Quanto à violência doméstica, é um caso muito sério que a sociedade está a viver. Nada justifica tirar a vida. Mas que por dá cá aquela palha se anda a fazer um alarido tipo arraial minhoto, anda. …..Quando alguém analisar com cuidado a taxa de adultério em Portugal percebe porque existe a violência doméstica. …
Ana Ferreira: Descrente desde que, pós MRPP, percebeu que a alternativa não era melhor, HM adoptou um estilo, digamos, pragmático. Esse pragmatismo consiste essencialmente num princípio, a absoluta ausência de qualquer benefício da dúvida a crenças de qualquer espécie, atitude essa consubstanciada na aposta total num individualismo feroz. Resulta daí uma amargura permanente, fruto dessa aridez de quem sobrevive no vazio de ideias, uma existência na desesperança. Triste.

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