Revelam os textos de distinção de Jaime Nogueira Pinto, um “honnête homme” dos nossos tempos, cujo
pensamento nos enriquece, e bem devia ser estudado e seguido, para uma formação
actual menos demagógica e mais elucidada da nossa sociedade, engasgada de parcialidade
na virtude.
Maus e bons pastores: da justiça e do assassinato
moral
Entre a justiça a que as vítimas têm
direito e o risco de assassinato moral de um inocente, bem podemos e devemos
pedir luz e sabedoria.
JAIME NOGUEIRA
PINTO Colunista do Observador
OBSERVADOR, 01
abr. 2023, 00:1523InstalarCharacter Assassination and
Reputation Management – Theory and Application (Routledge, 2021), é um
livro de Sergei A. Samoilenko, Martijn Icks, Jennifer Keohane e Eric Shiraev
que estuda o chamado “assassinato moral”, prática que os autores definem como a
destruição deliberada da reputação ou credibilidade de uma pessoa ou de um
grupo.
O assassinato moral tem de ser deliberado e tem de concentrar-se numa
percepção que se pretenda impor à opinião pública. O alvo é
a imagem do outro, da sua pessoa, na avaliação e percepção da comunidade, mas
pode também ser a imagem e a reputação de um colectivo – uma categoria política
ou social, um grupo étnico ou religioso.
Para
os autores, os quatro
elementos essenciais do processo são o alvo, o meio, o público e o
contexto.
Para
o assassino, o
assassinato moral tem sobre o assassinato físico a vantagem de poder ser
anónimo, de só dificilmente ser investigável e de ficar quase sempre impune. Pode praticar-se em vários graus, meios e
escalões: na conversa social, de sala ou de mesa de café, em que, num exercício
retórico de confidência, se calunia alguém – um adversário político, um rival
social ou sentimental, um concorrente profissional; nas redes sociais, sob um
nome de guerra; ou até nos grandes media, em campanhas discretamente
encomendadas pelos poderosos deste mundo.
A receita é antiga e o espírito e a
prática são os de sempre; mas a tecnologia,
o meio através do qual o agente ataca o alvo, muda. Com a imprensa, a rádio, a multiplicidade e
rapidez da comunicação e o acesso global e anónimo aos seus meios, as
sociedades contemporâneas oferecem novas condições para esta forma de
eliminação de pessoas ou grupos. No século XX, o assassinato moral foi
praticado não só contra pessoas, mas contra comunidades étnicas e religiosas,
contra grupos sociais, contra movimentos ou partidos políticos. E até contra
produtos e empresas.
Na Antiguidade
Cícero, advogado, orador, pensador político e político, ficou
famoso pelos seus talentos polémicos. Nasceu rico e casou rico, foi questor em
75 AC, pretor em 66 e cônsul em 63. Contra Catilina
e os seus partidários, não hesitou em
recorrer às artes da agressão retórica, conseguindo que Catilina fosse
considerado um hostis de Roma,
o equivalente ao inimigo estrangeiro, e que fosse tratado como tal. Conseguiu
também a execução sem julgamento de alguns cúmplices do conspirador. Mas
estas suas artes retóricas viraram-se contra ele quando apoiou o assassinato de
César e atacou Marco António. No final, Marco António, triúnviro em
ascensão depois da morte de César, enfurecido com os ataques de Cícero a ele
e à mulher, Fulvia, mandou matá-lo: um legionário cortou-lhe a cabeça quando
ele a pôs de fora da liteira.
A
palavra e a retórica, de que dependia a fama, contavam muito na Roma
republicana; quem detinha a palavra tinha o poder de fazer e desfazer
reputações. Suetónio, por exemplo, retrata como autênticos monstros
quase todos Os Doze Césares. Mas não será o seu relato um subproduto do ódio da
classe senatorial aos césares, que lhe tinham tirado privilégios? Suetónio vinha,
por família, da classe dos equites, ligada à classe senatorial, e poderia aqui
duvidar-se da sua independência: havia que fazer a “história do historiador”,
como sugeria Marx.
Na
sua crónica, Suetónio repetia anedotas e maledicências sobre os primeiros
imperadores, acrescentando-lhes contornos ainda mais negros – a pedofilia de
Tibério, em Capri, as paranoias de Calígula, a imbecilidade de Cláudio, a
monstruosidade narcísica e megalómana de Nero. Verdade? Mentira? O
historiador escrevia já no tempo dos Antoninos e fora secretário do “bom”
imperador Adriano (o das Memórias de Margueritte Yourcenar): teria ele, deliberadamente, tornado os doze
césares moral e humanamente repugnantes biografando-os sem aparentemente
exprimir juízos de valor, ou seja, através de uma falsa neutralidade?
Se os pagãos eram assim, a verdade é que os cristãos também não eram
muito melhores. Depois de
perseguidos pelos imperadores, de Nero a Diocleciano e a Licínio, e quando,
passada a sua libertação por Constantino e já no tempo de Teodósio, se acharam
numa posição de poder, passaram a ser eles os perseguidores. Na
Idade Média, cristãos como Vincent de Beauvoir, no Speculum historiale,
pintaram Maomé como um aventureiro, um anti-Cristo de segunda classe, um homem
de origens plebeias que seduzira uma viúva rica e decidira fazer-se profeta,
por pura ambição.
São também tremendas as
retóricas de assassinato moral no século XVI, a partir da Reforma e das guerras
religiosas; retóricas, de que humanistas críticos, como Erasmo ou Thomas More,
são as raras excepções.
Tempos Modernos
Modernamente, refinou-se a consciência do alcance e eficácia da
calúnia como forma de neutralizar alguém, atingindo-o na reputação, matando-o
moralmente. Assim, em 1775,
Simon Linguet publicou uma Théorie du Libelle ou l’art de calomnier avec fruit:
“Um
libelo lançado a tempo e a propósito, pode causar uma revolução, mudar e
dominar os espíritos e levar um homem à perdição, sem apelo ou remissão, o que
traz grandes vantagens.”
Já
Francis Bacon, no século
anterior, sublinhava a força da calúnia, escrevendo: “Caluniai, caluniai.
Fica sempre alguma coisa”.
A
frase foi repetida por Beaumarchais e Voltaire. Voltaire, conhecendo bem o ofício, também dizia
que os caluniadores eram como o fogo que, mesmo quando a madeira era verde e
não podia queimá-la, não deixava de a chamuscar.
Em
França, em 1769, no auge das polémicas entre homens e mulheres de letras, em
que fervilhava a calúnia, o autor de Traité sur la Calomnie escrevia que o caluniador
que manchava a honra e a reputação de alguém merecia menos perdão que “o
bandido que tirava a vida à sua vítima”; a calúnia era “maior mal do que o
punhal de um assassino”, porque atingir a honra e o bom nome de alguém era
decretar a sua morte civil ou social.
Na
França do século XVIII, com a expansão da filosofia e da leitura, com os
jornais, com as academias e uma sociedade de Corte onde o favor do Rei – e dos
seus ministros, favoritos e cortesãos – era decisivo para a ascensão ou para a
ruína social, a calúnia era uma arma terrível. E a ideia de que, da difamação, sempre ficava alguma
coisa era até explicitamente atestada na Encyclopedie no verbete “cicatriz”,
em que o autor comparava as marcas deixadas na carne pelas feridas aos
“efeitos da calúnia”.
De perseguidores a perseguidos
Se
de perseguidos, os cristãos tinham passado a perseguidores, voltariam,
modernamente, a perseguidos. Durante a Revolução Francesa, no Terror,
foram mortos aos milhares. Na Vendeia houve um quase genocídio, promovido em
nome do Progresso e das Luzes pelas colunas infernais do general Turreau de
Liguières. A Esquerda ganhou aí o costume de matar bispos e padres, o
que faria em modesta quantidade na Comuna de Paris, em 1871, e por cá, no 5 de
Outubro de 1910; mas em Espanha fá-lo-ia em grande escala, em 1936, na Guerra
Civil, a maior perseguição desde o tempo de Diocleciano. Para já não falar da
Rússia, do México, da China, do Vietname e do Cambodja do século XX, sob o
comunismo e os comunistas.
Hoje a perseguição acontece sobretudo na Ásia e na África
Subsaariana. Segundo a Open Doors World Watch List,
há 360 milhões de cristãos a viver em países em que são perseguidos, ou seja, 1
em cada 7 no mundo, 1 em cada 5 em África, 2 em cada 5 na Ásia; e até 1 em cada
15 na América Latina. Sempre segundo os números da Open Doors, em 2022,
foram mortos 5.600 cristãos por razões da sua Fé e mais de 2100 igrejas foram
atacadas ou encerradas.
Na Europa, desde o fim do comunismo que os cristãos não são mortos
fisicamente. Mas são, todos os dias, objecto de assassinato moral.
Por
uma espécie de correcção histórica, parece estar pendente um qualquer ajuste de
contas contra aquilo que hoje, na Europa Ocidental, é tratado como se de uma
minoria obsoleta se tratasse, com valores que contrastam ou colidem com o que é
apresentado como cultural, política e socialmente correcto.
E aqui voltamos ao assassinato moral.
Os casos de pedofilia na Igreja –
pecados e crimes da mais repugnante transgressão e subversão dos valores de
Cristo, cometidos por alguns sacerdotes e ocultados por outros – desencadearam
contra a Igreja como um todo uma grande ofensiva. A enormidade do crime, a
traição da confiança, a debilidade das vítimas, a ocultação, a ausência de
medidas ou a aplicação de medidas inadequadas, legitimam a indignação e o
choque. Mas, nalgumas situações, passou-se ao massacre moral generalizado,
misturando casos certos e sérios com meras suspeitas e acusando e caluniando
indiscriminadamente. Em parte, por
imbecilidade e ignorância mediática, mas também por uma raiva e um ódio à
religião católica que, em Portugal, vem de longe, vai-se ao ponto de, em
relação a casos concretos, se acusarem e caluniarem pessoas com base em
denúncias que, no juízo criminal, teriam um não provimento imediato.
O rigor jurídico, a investigação rigorosa, o princípio de presunção
de inocência, a prudência pelos danos morais emergentes, exigidos em relação a
outras ou às mesmas categorias de que beneficiaram e beneficiam outros
suspeitos mais laicos e republicanos noutros casos célebres, parecem aqui
desaparecer. Aqui,
aparentemente, os suspeitos passam quase imediatamente a réus, e daí logo a
culpados e criminosos, aparecendo bruscamente a Igreja, aos olhos dos
desprevenidos e inocentes, como uma associação de pedófilos malfeitores e
respectivos encobridores.
O mal e o bem
Os
casos reais de pedofilia e abuso na Igreja são situações no limite do humano,
em que o Mal encarna e toma conta daqueles que, entre todos, deviam servir o
Bem; e esse Mal encarniça-se contra os mais inocentes, os mais
vulneráveis, atraiçoando a sua entrega e confiança e arruinando-lhes a vida de
um modo quase irremediável. É justa a
indignação, a raiva, a cólera dos homens e de Deus. Não podemos deixar de
pensar nas vítimas que sobreviveram a este horror, na sua coragem de, em nome
de todos os que se calaram ou foram calados, terem exposto os seus casos e, à
custa do seu pudor, destaparem esta ferida de todos nós, os que somos Igreja e
sobre quem cai a mancha, a vergonha, o remorso pelo que alguns consagrados fizeram.
Mas,
exactamente por isto, pela enormidade e dimensão do pecado e do crime, há
também que ver o horror de os imputar a um inocente. Não é fácil, e entre a justiça a que as vítimas têm
direito e o risco do assassinato moral de um inocente, bem podemos e devemos
pedir luz e sabedoria.
O
Cardeal O’Malley, arcebispo de Boston e Presidente da Comissão Pontifícia para
a Protecção de Menores, equacionou bem a questão da responsabilização pela
culpa real e pela culpa por negligência, ao evocar, a propósito, o testemunho
do Papa Bento XVI. No seu encontro com as vítimas, ao expor a sua angústia por
não ter podido prevenir e evitar tais abusos, na qualidade de alguém que teve
grandes responsabilidades na Igreja católica, dizia Bento XVI:
“Uma
vez mais, só posso expressar a todas as vítimas de abuso sexual a minha
profunda vergonha, o meu grande pesar e o meu sincero pedido de perdão”.
E nós, reconhecendo o Mal e o
infinito sofrimento das vítimas – e a sua coragem em vencer interditos por amor
à justiça e à protecção de outros – não podemos deixar também de lembrar que,
por cada um destes degenerados e maus pastores, há, todos os dias, muitos mais
que se dedicam às suas comunidades, ao serviço dos seus irmãos, com heroísmo,
abnegação e risco; não podemos esquecer os padres, os missionários, as irmãs da
caridade, os voluntários católicos que ajudam a fazer um mundo melhor; nem
ignorar o esforço radical – ainda que nem sempre devidamente divulgado – de
reparação e prevenção que está a ser feito na Igreja, através de medidas
concretas e de mudanças estruturais.
E,
pela gravidade do crime e das consequências da acusação de um inocente, não
podemos também pactuar com listas de suspeitos e levianas condenações públicas.
ABUSOS NA
IGREJA IGREJA
CATÓLICA RELIGIÃO SOCIEDADE JUSTIÇA
COMENTÁRIOS:
Jorge Carvalho: Obrigado JNP por mais este excelente artigo que nos dá
ânimo para continuar o caminho da verdade. Francisco
Fraga: Finalmente há quem enquadre, histórica e factualmente, a tentativa de
destruição moral e social de pessoas ou instituições através da divulgação de actos
que põem em causa o seu nome...
Acrescentaria um
facto que deve ser realçado: foi a Igreja Católica que tomou a iniciativa de
promover uma comissão, composta por pessoas totalmente independentes, com vista
a apurar actos praticados por membros do clero que envolvam a prática sexual
com menores. Foi a ÚNICA INSTITUIÇÃO que o
fez! E isto é tanto mais significativo quanto é certo que a percentagem dos
casos atribuídos à Igreja é muito pequena: em França falou-se em cerca de 3,5%.
E em Portugal não será certamente superior.
Isto não desculpa
algum silenciamento de factos conhecidos, bem como a não aplicação das sanções
canónicas e a omissão de participações ao Ministério Público. Mas aqui se vê como é diferente, nos media, o
tratamento quando se trata da Igreja ou quando se trata de outras instituições.
António
Gouveia: Mais outro texto extraordinário de JNP, do que foi a
História de Roma e quase tudo o que nela aconteceu de 753 a.C. a 1453 - é obra
-, e dos seus ensinamentos para a posteridade que, ainda hoje, podemos
recolher, também da força e destempero da calúnia nas maldades de Cícero,
excelso orador, da perseguição às igrejas de qualquer religião e, por fim, dos
problemas da pedofilia, um mal que herdámos de lá longe, para terminar na
loucura dessas hordas de jacobinos que por aí abundam, com mão pesada para
erros e pecados e sem atentarem no que de bom e bem tantas almas ditas
religiosas fazem por aí, condenando sem dó nem piedade, muitas vezes sem
provas. Mas é o que temos ... de há uns tempos para cá até os políticos são
todos maus e a merecerem a guilhotina, só porque alguns são o que são:
arrogantes, negligentes e incompetentes. Maria da
Assunção Gaivão: Calúnia !Insinuação ! São armas perversas usadas
cobardemente para “ limpar” o alegado adversário ,político ou religioso.E como
a Justiça em Portugal não é justa às vezes cumpre os objectivos…Lá fora ,na
Europa do Norte ou nos EUA costuma “sair cara” a quem a lança…
Carminda Damiao: Mais uma vez um excelente
artigo. A Igreja tem sido vítima do
ódio doentio de certas pessoas e isso foi visto de forma implacável, nesta luta
que ela tem levado para erradicar a pedofilia. Senão vejamos: - A pedofilia
existe em todos os sectores da sociedade, mas só a Igreja Católica tomou
medidas de erradicação da pedofilia. - Numa sociedade normal, seria para se agradecer
essa tomada de posição e de incentivar os outros sectores a fazerem o mesmo.
Mas aconteceu precisamente o contrário. Toda a gente caiu sobre a Igreja (mesmo
muitos católicos foram no arrasto), como se a pedofilia não existisse em toda a
sociedade. - Como os casos detectados, foram muito poucos, aí veio o
argumento de que só um caso já é muito. Só que ainda ninguém me explicou,
porque é que os muitos, muitos casos que acontecem na sociedade, se tonam em
nada para eles e deitam-nos para trás das costas. Não se ouve ninguém a pedir
justiça para essas vítimas.
Foi um absurdo
ver muitas pessoas (até da Comissão Independente), pedir para se
afastarem padres por denúncias anónimas. manuel rodrigues: A melhor leitura de todos os
sábados. O texto de hoje é muito adequado aos tempos de hoje e ao tempo
litúrgico. Excelente! Maria Emília
Ranhada Santos: Luz, sabedoria e discernimento dos Espíritos! O
Espírito Santo parece andar fugido, pelo que se tornou normal o mundo pagão
indicar caminhos à Igreja! Rezemos para que tudo se
componha na devida ordem! Alberto
Pereira: A comissão de
investigação de abusos a menores ao aceitar denúncias anónimas e sem
apresentação de provas contaminou todo o trabalho efectuado. Permitiu que se caluniasse este
ou aquele, só por ser amigo do nosso inimigo. Por ter sido incompetente (ou
faccioso) fez um trabalho inaproveitável. TIM DO Á:
Certo, como
sempre. Mas a igreja católica também se tem, ela própria, vergado ao
politicamente correcto e está infiltrada de semi inimigos. E temos um papa
bolivariano. Carlos Grosso:
Viva a lucidez
sobre a fanática calúnia. Graças à Igreja sou ateu, mas não conseguiram
tornar-me fanático.
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