Sobre
comportamentos da nossa composição política, sempre numa expectativa de
melhoria governativa mais saudável, mas que embate por vezes contra as outras
expectativas – o que se não espanta, numa democracia que se preze, qual a nossa,
que admite, naturalmente, também a grosseria vistosa de réplicas, orientadas
pelas virtudes do Chega, ou assim.
Coisas sérias
A indignação ia fazendo as paredes do
Congresso irem pelo ar: em nome de quê e com que autoridade política e
ideológica é que o Governo se propunha rever “aquela” disciplina (de
Cidadania)?
MARIA JOÃO AVILLEZ Jornalista, colunista do
Observador
OBSERVADOR, 23
out. 2024, 00:2447
1 Se um destes dias o Chega, por um destes recentes
fenómenos de um planeta irado se sumisse da face da terra, o PS ficava sem
argumentos. Ou melhor, sem argumento, no singular. O próprio
Chega já de si não os tem, mas o PS
parece órfão de oposição. Até
hoje o país não sabe o que os socialistas pensam do Orçamento de Estado e a não
ser duas linhas, a que o seu líder chamou vermelhas, pouco mais se vislumbrou
no horizonte em matéria de propostas (ou contra propostas) com substância e
proveito. Chega-lhes o Chega.
O Chega como vazadouro para onde o PS
absurdamente insiste e persiste em atirar o PSD; o Chega
como uma obsessão segunda a qual Luís Montenegro no fundo, no fundo, quereria
ser como eles, adoptá-los na clandestinidade de si mesmo, roubar-lhes slogans e
diatribes.
Tão pobrezinho e tão estafado tudo isto.
Não haverá melhor?
2 O
mais extraordinário é que a nenhum deles – PS ou Chega – ocorra a importância
de ser e fazer oposição com inteligência e utilidade: ninguém joga sozinho no
tabuleiro partidário nem o poder reside numa ilha sem acesso. Ou que
nenhum dos dois se dê conta que só uma oposição politicamente forte e
fortemente norteada contribui para uma saudável vida democrática; e só um sério jogo democrático entre os
parceiros partidários e o poder, eleva o debate público – sonho por realizar –
e com isso a qualidade cívica, política e cultural de um país – triplo sonho
por realizar. Ou seja: quanto
mais errática, inoperante, desfasada da realidade for a oposição, mais entregue
a si mesmo permanece um Governo.
Tudo se exige audivelmente aos
governos, tudo se lhes critica – sobretudo se não forem de esquerda – e pouquíssimo às oposições. Quem lhes
pede – também audivelmente – responsabilidade, seriedade ou critério na sua
vigilância democrática sobre a acção governamental? Em vez de amuos
desconfiança e estados de alma?
3
Não passou despercebido a ninguém, da rua às elites, à classe política,
decisores, patrões, sindicatos, media, o caminho de pedras percorrido ate à
viabilização do Orçamento de Estado: toda plateia do país olhou para esse palco. Seria
porém o cúmulo da ilusão pensar que o
Governo chegou finalmente a bom porto (não entrou sequer no porto)
com esta viabilização. Mais:
seria um erro não perceber que corrido o pano sobre o primeiro acto, ele voltará a subir (porventura
com mais animosidade e maior irracionalidade), para um remake dos quadros vivos de comportamento pessoal e político
a cujo testemunho fomos convocados no primeiro acto. Falo da
espinhosa e (dispensavelmente) longa caminhada da negociação do orçamento.
Por outras palavras, temo esse remake. É
que se, na história parlamentar dos orçamentos em Portugal, este OE figura
já como um marco do “como não negociar”, não se excluiu que um “caminho de
pedras 2” traga a surpresa de uma, digamos, excessiva, descaracterização na
“especialidade”.
Dizem-me que exagero. Não há-de ser
nada. Admito. Mas este hábito de ir à natureza humana quando não compreendo
comportamentos e atitudes tem-me afinado a observação. Se as coisas são como
são, as pessoas também.
4 Surpreendi-me
com a antecipação tão convictamente unânime de que a notícia da viabilização
socialista do OE iria “esvaziar” o Congresso do PSD. Se não
fosse tão absurdo, era anedótico: ter-se-ia preferido um congresso transformado
em mais um episódio – desta feita de longa duração – da telenovela “O Orçamento”? E não é que o Congresso foi “morno”
porque já se sabia o fim da novela? De onde virá tão estranho
“entendimento” do que é um congresso, do que é a relação entre partidos, do que
é a política, do que é a democracia?.
O congresso foi classificado como
“morno” porque simplesmente destoou, falhando em todos os requisitos com que
se constrói e de que se alimenta o tempo político de hoje: ávido
de “novidades”, consumidor de controvérsia, necessitado de surpresa, amante da
intriga, produtor de fake news. E como não consta que tenha havido, foi uma
“maçada”. Mas a política esteve lá, e distraídos ou entediados estariam os que
não deram por ela. E quando deram – tardiamente – foi para logo “fundir” a
razão de ser de uma das sete prioridades governativas de Luís Montenegro (a
revisão da disciplina de Cidadania) na “ideologia” do Chega (e onde haveria de
ser?). Ora aí estava uma “noticia”. E com jeito ainda se lhe atrelava um subentendido: ah
afinal o Montenegro entende-se
com eles, etc. O primeiro
ministro entende-se sobretudo com o bom senso. Sabendo que há
uma considerabilíssima parte de pais de alunos que discorda – e não é de hoje –
do teor da disciplina; que rejeita a absurda desadequação entre idades e
conteúdos de parte do currículo da mesma disciplina; que se indigna com alguns
dos textos recomendados ou com a forma que assumiram os debates já havidos na
escola pública em torna desta questão, o primeiro ministro falou apenas numa
“revisão”. A indignação ia fazendo as
paredes do Congresso irem pelo ar: em nome de quê e com que autoridade política
e ideológica é que o Governo se propunha rever “aquela” disciplina?
E
assim estamos. Descobrindo aliás que vale mais perder mais tempo nos écrans com
a indignação de uma minoria militante, radical e insensata do que com a fundamentação
de alguém cujos votos lhe permitem pelo menos conjecturar sobre o todo nacional
com sensatez e serenidade políticas. Mas no pavilhão do PSD em Braga o efeito
foi de contágio: ninguém desafinou na expedita assimilação do PSD com o Chega.
5 A “Europa” sempre tão invocada, citada,
admirada, defendida, louvada – e ainda bem – está a usar de mão de ferro, e sem sombra de dúvida, na questão da
imigração. Cito apenas
três casos que conheço menos mal, a Alemanha, França e Dinamarca. Muito
pouco se alude a isto entre nós. Contam-se mal ou enviesadamente as tristes
histórias que vão ocorrendo entre nós e que há 4, 5 anos diríamos impossíveis
de acontecer em Lisboa à luz do dia, ou mesmo no breu da noite. Não se contam bem as histórias, porque
isso agradaria ao Chega, dando-lhe razão?
O pior porém é que ninguém do actual PS,
nem as suas amadas extremas-esquerdas, compreenderam que é exactamente o
contrário: o Chega “fez-se” e cresceu porque ninguém – e muito principalmente o
PSD – souberam antecipar o que já estava a caminho. Não era difícil de ver
mas não estava na moda nem na agenda deles; e a seguir também não foram capazes
de tratar ou lidar com tão tremenda, delicada, complexa questão, quando ela já
tinha uma existência real entre nós. Nunca
o fizeram, saem pouco do centro de Lisboa, não se aventuram pelas “periferias”,
ignoram o que é ter medo de as atravessar ou o morar paredes meias com seres
humanos capazes de uma súbita alteração da ordem para o susto ou a violência
(tenham a cor, a nacionalidade ou o credo que tiverem).
Com inconcebível atraso, vai começar-se a agir. Honra seja feita a este governo, mas
atenção: esperam-se informações, sinais, acções concretas, medidas, serviço.
E obviamente energia, eficácia,
organização. Sim, é
muito para um país que pratica pouco qualquer destas três últimas (grandes)
“virtudes”. Mas que Luís
Montenegro está a pôr as mãos nalguma massa, ficou muito claro este domingo.
Fê-lo com inteligência política, capacidade de elencar prioridades, vontade de
agir, senso comum. E no tom certo, o que não é despiciendo por ser hoje um bem
quase em extinção.
Ficamos
a espera de ver que pão sairá da massa.
COMENTÁRIOS (de
47)
JOHN MARTINS: Desde que o Presidente do PSD passou a ser eleito
directamente pelos militantes, o Congresso electivo para os restantes
dirigentes deixou de ser vibrante como era antes. Natural. Mas daí até ser
considerado morno por alguns analistas! da nossa praça, vai uma distância muito
grande. Bem pelo contrário. Foi um Congresso muito bem organizado, sem
crispação; e notou-se uma grande serenidade entre todos os ministros do Governo
e muito especialmente em Montenegro, donde saiu aclamado. Boa continuação. João
Floriano: Continuo a
não encontrar o caminho que me leve de volta à identificação que já tive com as
crónicas de Maria João Avillez . O CHEGA é o protagonista central da nossa
política. Toda a discussão vai lá parar seja à esquerda, seja à direita.
Mais uma vez podemos ler uma crónica a enaltecer a sagacidade, o faro vulpino
de Montenegro para a política caseira de corredores. Só que os
desacatos nos bairros periféricos da grande Lisboa nada têm a ver com as
intrigas no eixo elegante Belém/S. Bento. Têm a ver com o país real,
o tal que o CHEGA conhece muito melhor do que políticos de elite metidos numa
bolha. O que Montenegro fará em relação a isto vai marcar o seu percurso
político: ou resolve e mostra uma autoridade de Estado que a esquerda nunca
cultivou, ou vai-se arrastar de caso em caso até 2026. Quanto ao Congresso
foi de facto morninho. O discurso inicial de Montenegro foi aplaudido q.b. e
esperava-se mais entusiasmo para ouvir um PM que tinha acabado de
garantir a viabilização do orçamento e fazer o lider da oposição engolir um
sapalhão daqueles. O alegado candidato a PR foi também recebido de forma
morna. Ainda tive medo de o ver desaparecer sufocado contra as mamas de
Margarida Balseiro, mas lá entrou recebido com aplausos mornos ( novamente)
pela assistência. Aposto sem medo de perder que muitos pensaram: «Não se
arranja melhor do que isto?» Só vi um aplauso mais caloroso e até quem se
tivesse levantado quando se falou na revisão da famosa disciplina de lixo
ideológico que tão apreciada é pela extrema-esquerda. Não vi indignação no
Congresso. E ainda teria visto mais gente a aplaudir se Montenegro tivesse
anunciado a revisão do Não é Não. E que falta que neste momento faz a
Montenegro o apoio do CHEGA, um partido sem medo da extrema-esquerda! estou
como Maria João Avillez á espera de ver que pão vai sair da fornada que
Montenegro ainda nem sequer meteu no forno. Arriscamo-nos a comer o pão
cru ou mal cozido. E já agora o que pensa Maria João Avillez do chilique de
Paulo Rangel? V M Batista > Jorge Pereira: Você discorda, e eu concordo com a MJA é chato
não é? é a democracia a funcionar, ou ela pertence a certos grupinhos
maquiavélicos? F. Mendes: Artigo lúcido, e que confirma o que aqui tenho escrito
repetidamente, há mais de dois anos: o PSD assistiu, impávido e sereno à
explosão brutal da imigração não qualificada, à corrupção florescente e ao
consequente medrar do CH; agora, corre atrás do prejuízo eleitoral e
concomitante impossibilidade de obter uma maioria na AR. Espero que Montenegro e companhia actuem nesta
matéria, de forma decidida, começando por restabelecer o SEF, suspender o
acordo de livre circulação com a CPLP e rever profundamente a lei da
nacionalidade. Tenho dúvidas de que o façam, mas fica o registo, provavelmente
inútil. O que hoje acontece na grande Lisboa deveria servir de empurrão a
medidas desta natureza, sempre polémicas, mas absolutamente necessárias. bento guerra: Esta tia, por ser obcecadamente anti Chega, tem lugar na redação do Observador,
mesmo aos oitenta anos. Nem ela, nem a maioria dos escrevinhadores tem
noção do que é movimento Chega, um grande estarmos fartos desta tropa fandanga que
nos governa há 50 aos e que com os panegíricos destes serventuários , nos
trouxeram à cauda da Europa. Hugo
Silva: No que esta
sr.a se transformou... Deve ser da idade, já Ribeiro e Castro padece do mesmo. Jorge Ferreira: Como habitual brilhante propaganda politica! De alguém com os pergaminhos conhecidos esperava
mais.... Muito
mais..... GateKeeper:
Já se desconfiava. Mas MJA, definitivamente,
vestiu a camisola com as cores do centrão ps+ps2d. Na mais recente
"fase" da sua decadência junta-se aos diversos "grupos
folclóricos" que espalham indiscriminadamente ódio vs 2,2 milhões de
Portugueses que votaram Chega! Triste figura...! Mas, tempo não nos falta,
contrariamente à dita. De certa forma é penoso assistir a isto. Mas enfim...
Cada um(a) escava o seu destino como entende, né?!
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