sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O Comentário certo



Encontrei hoje o comentário de Adriano Lima ao texto de Salles da Fonseca que me servira de introdução a duas crónicas do Observador, aplicando as definições de valor e importância definidos, para exemplificar ou contestar determinadas actuações ou pontos de vista de gente nacional. O comentário de Adriano Lima é antes, uma argumentação do mesmo teor abstracto, como, de resto, o texto pedia. Por isso volto a transmiti-lo, com o comentário adequado, de Adriano Lima.
Sem filosofia, ou análise da teoria exposta, e apenas com recurso, sem “peneiras”, contudo, ao “saber do experto peito” como o do nosso “Velho” camoniano, tantas vezes usado para ironizar competências retrógradas, eu apenas lembro quanto os meios mediáticos – para além do papel da cunha ou do compadrio, tão usados no nosso posicionamento social – quanto os meios mediáticos, repito, usam e abusam do processo de catapulta para a importância a atribuir a cada um, com entrevistas frequentes, meio poderoso de chamar a atenção para as figuras humanas que assim se “valorizam” ganhando “importância” – o que não deixa de ser justo e simpático, para tantas figuras de mérito injustamente esquecidas.
Mas reconheço que estas observações nada têm a ver com a análise filosófica do ser. Ou do “nada”, que tudo é, afinal, vazio, já o informara o “Eclesiastes”.
 HENRIQUE SALLES DA FONSECA
A BEM DA NAÇÃO, 10.01.1
O valor individual é um conceito endógeno, de medida subjectiva pelo próprio na razão inversa da humildade, na razão directa da vaidade e tem carácter estruturante, perene.
A importância é exógena, de medida objectiva pelos circundantes próximos ou longínquos, sem obrigatória relação directa com a realidade, frequentemente caduca, raramente perene, medida na razão inversa da inveja alheia e na razão directa dos favores esperados pelos observadores.
Como seria a sociedade se o valor individual fosse reconhecido externamente e a importância medida pelo próprio com humildade?
Não tenho uma resposta curta para a questão assim definida, apenas posso concluir que a ordem dos factores não é arbitrária e que a importância de cada um é apenas a que os outros lhe atribuem.
COMENTÁRIO
 ADRIANO LIMA  10.01.2019  
Uma pertinente reflexão sobre uma questão cada vez mais central nas sociedades contemporâneas. A meu ver, a análise suscita a intervenção de dois campos distintos, o filosófico e o científico. O valor individual, que cada um constrói para si conforme a bitola da sua vaidade ou presunção, prende-se directamente com a natureza ontológica do ser, logo, suscita o campo da filosofia ou metafísica. A importância será um problema mais do campo social, logo, científico. No entanto, não é assim tão nítida essa diferenciação se o carácter do homem é sempre influenciado pelo meio social e se este é, por sua vez, produto do homem e do seu comportamento, com as suas virtudes e com os seus defeitos e imperfeições de toda a espécie. Portanto, julgo que há uma interdependência, uma pescadinha de rabo na boca. Um ser humano mais perfeito é algo realizável por si só, no cadinho da sua natureza, fruto de uma metamorfose natural e conforme uma lei determinista? Ou é algo dependente do arbítrio da sociedade, ou seja, do exterior?
Não sei responder mas ouso pensar que a mente humana é o resultado de uma complexa interacção de variáveis exteriores. Estas teriam um efeito benéfico na formatação da mente se os valores da Ética e da Moral (kantianas) sobrevivessem às tempestades que abalam constantemente as sociedades humanas. Hoje, apesar dos recursos da modernidade, não estamos melhores do que há cem anos.
Desculpe se fiz uma pequena deriva, mas quis apenas dialogar. Parabéns pelas reflexões que constantemente nos oferece. 

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