Vê-se que AG perdeu a esperança no
tecido social português. Julgo que tem razão. No dia das eleições do CDS, Passos Coelho, certamente que por proposta alheia, de
alguém que quereria, com força, salvar a nação, apareceu, em discurso fugaz, a oferecer
o seu apoio. Foi como um sonho de que se despertou para o vazio. Esse programa
não colheu entusiasmo. Continuamos, pois, em palhaçada. Sim, AG perdeu a
esperança. Duvido que alguém a tenha, mesmo esses comentadores que
desclassificam hoje AG.
A direita castradora contra a direita
castrada /premium
Nas “presidenciais” do ano que vem, além
de dois ou três exotismos leninistas, é provável que a direita-capacho, ou
castrada, enfrente a direita-carrasco, ou sedenta de castrar.
ALBERTO GONÇALVES
OBSERVADOR, 01 fev 2020
Foi
impressionante o número de portugueses interessados nas eleições internas do
PSD e do CDS: quase nenhuns. Foi pena, visto que os respectivos resultados
mostram com relativo rigor as atitudes assumidas pelas actuais “direitas”. O
PSD reelegeu o dr. Rio, e com ele a convicção de que o poder não existe à
revelia do PS e de que o PSD existe para prestar vassalagem ao PS. Quanto ao
CDS, elegeu um rapaz conhecido por “Chicão”, que nas horas vagas é amigo do
filho do dr. Costa e no expediente levou para a direcção um sujeito que é
salazarista, antissemita e autor de um método para curar a homossexualidade.
Em
suma, uma parte da direita tem vergonha de ser direita e subjuga-se à esquerda.
A parte que sobra orgulha-se de ser direita e decidiu competir com a esquerda
em matéria de grunhice. E o jovem “Chicão”, que admira Thatcher e frequenta
casórios de socialistas, está em todas. Perante isto, uma pessoa pergunta-se se
não haverá vida inteligente algures entre os extremos. E uma pessoa responde-se
que com certeza, embora seja menos abundante do que a quantidade de dirigentes
desportivos presos na sequência do Football Leaks.
É
evidente que a direita traumatizada que o dr. Rio representa e a direita
envergonhada representada por nomes sortidos do PSD e do CDS são uma das causas
do domínio que o PS estendeu sobre o Estado e, dado que mal se distinguem, o
país. Não sei se o PS ainda é um partido democrático ou sequer se o chegou a
ser. Sei que as condições em que hoje manda nisto têm muito pouco de
democráticas, e que a reverência ou no mínimo a tolerância de supostos
opositores constituem a legitimação do processo de subversão do regime
consagrado em finais de 2015. Para criaturas com um pingo de decência, o PS
merece a distância suscitada pela peçonha: gente civilizada não colabora com aquilo,
não dialoga com aquilo, não toca naquilo. Gente civilizada, e que possua uma
réstia de esperança, combate aquilo.
Convinha
é que se combatesse aquilo de modo civilizado, e não através da descida ao
buraco em que habitam os socialistas e os estalinistas, maoistas, trotskistas,
carreiristas, terroristas e vigaristas seus aliados. Infelizmente, enquanto
espera o desabrochar do antissemita do CDS, versão “escandalosa” dos
antissemitas admissíveis à esquerda, a direita rija, musculada e viril decidiu
abraçar, a título de epifania, os ensinamentos de um moço que comenta futebol
num dos canais do “sistema”, um campeão da moralidade preso por um emaranhado
de fios às trapalhadas obscuras de um clube da bola. Repito o que escrevi há
tempos: André Ventura tem a virtude de conseguir irritar os espécimes que dá
gosto de ver irritados.
A
chatice é não ter mais nada, excepto lábia de taberna, cujo conteúdo é o exacto
reflexo da arrogância marxista e cuja forma é a exacta imitação. Ao primarismo
da esquerda, André Ventura contrapõe o primarismo de certa direita. Se a
esquerda puxa a carta do “racismo”, o chefe do Chega lança uma graçola racista.
Se a esquerda belisca a adorada pátria, sai bazófia patriótica. Se a esquerda
teima na cretinice da “identidade de género”, leva com uma atoarda sobre os
mariconços. Se a esquerda acarinha tudo o que é bandidagem, promete-se enfiar
multidões na choça até ao Segundo, ou Terceiro, Advento. Etc.
Boçalidade e demagogia versus
boçalidade e demagogia. É possível
que a técnica convença os cidadãos impacientes e cansados da docilidade da
direita tradicional. Porém, é pena que a reacção ao socialismo se faça
através de aproximações ao fascismo que a esquerda sempre agitou como insulto e
estratégia defensiva. O fascismo, ou posições susceptíveis de confusão com o
fascismo, não é o oposto do socialismo: é a sua natureza, que os socialistas
procuram colar aos adversários para efeitos de distinção e propaganda. Por
regra, os “fascistas” que a esquerda inventa nunca o são. André Ventura e principalmente
diversos seguidores de André Ventura parecem às vezes pouco empenhados em
demarcar-se do epíteto.
Não
me entendam mal (ou entendam, que me é indiferente): a “normalização” do
totalitarismo de esquerda, de que já não podemos excluir o PS, é um aspecto
particularmente repugnante da nossa experiência colectiva, e uma explicação
válida do atraso em que vivemos. Também não me esqueço das culpas que uma
direita com propensão para capacho possui nessa “normalização”. Apenas acho que
a alternativa à direita-capacho não é a direita-carrasco, movida pelos
princípios discriminatórios, ressabiados, proibicionistas e primários que
definem a essência da esquerda. Arriscando passar por excêntrico, gosto da
liberdade, leia-se o direito a arruinar os meus dias à conta das minhas
escolhas, que são minhas e não de entidades míticas ou terrenas, do Estado à
Nação, às quais não passei procuração para me salvar. Se calhar, estou para
aqui a sonhar com um produto sem procura em Portugal.
Nas
“presidenciais” do ano que vem, além de dois ou três exotismos leninistas, é
provável que a direita-capacho, ou castrada, enfrente a direita-carrasco, ou
sedenta de castrar. De um lado, o prof. Marcelo, perito em “afectos” e
fotografia amadora, íntimo do dr. Salgado, parceiro do dr. Costa e o pioneiro
que puxou o dr. Louçã a conselheiro de Estado. Do outro, a voz do Benfica que
costuma debater ao nível da ex-deputada do Livre. O compadrio contra a
brutalidade, habilidosos contra oportunistas, pantomineiros contra
pantomineiros. No meio, palpita-me que não haverá vivalma. Se houver, não
haverá vivalma para votar aí. Neste canto esquecido do mundo, a liberdade é um
lugar solitário.
COMENTÁRIOS
Zacarias Bidon: Contrariamente
ao que diz o Berto Careca, André Ventura não é racista mas se fosse, não havia
mal nenhum. Quantos dos que acusam — sem explicação, naturalmente, pois a
acusação não tem ponta por onde se pegue — o Ventura de ser racista fogem dos
_iganos e dos _retos como da peste. Tenho a certeza de que, se
observarmos a vida quotidiana de qualquer escrevinhador que agora brada contra
o "racismo" de Ventura, veremos atitudes e escolhas muito mais
"racistas" do que as do fundador do chega. Quando vão no metro e
passa um _igano, deitam a mão à carteira, como qualquer nazi. CHEGA de ditadura, vota Ventura!
Paulo Morisson:
Ao contrário de alguns
admiradores hoje discordantes, eu hoje volto a concordar com AG. André Ventura
é necessário para combater/irritar a hegemonia mediática da esquerda. Ideias
políticas actuais para um país a sério?! Só não nomeou a Iniciativa Liberal ...
ou nomeou nas entrelinhas?
Glorioso SLB Se calhar, estou para aqui a sonhar com
um produto sem procura em Portugal. Isso. Já somos dois.
pressinhas 69: Hoje
caiu de redondo... Para irritar o sistema é preciso “conversa de taberna”,
farto de intelectuais e vigaristas ando eu.
Jorge Dias: A
andradite aguda do AG baralha-lhe a cabeça. Um inconseguimento, o artigo de
hoje. Há dias assim.
Jorge Maria Soares Lopes de Carvalho: Estás a ficar baralhado e sem a habitual correção de raciocínio,
ou bebeste uns copos fora de horas? Confundes o Ventura com a Joacine!!! Ou
falta de honestidade intelectual ou tibiezas de quem apesar de ter tomates já
está “castrado “ no pensamento!
Manuel Pinto: Sou
seu leitor assíduo, concordando com muito, muito, muito do que escreve. Hoje,
passo à frente, lamentando a falta de oportunidade no que expõe. A bola está a
mais e, quanto a opções para o desastre governativo que a Nação enfrenta,
estamos conversados. O seu artigo é "encorajador"!!!
Servus inutilis "até ao Segundo, ou Terceiro, Advento.
Etc.": O artigo está óptimo, mas
tem uma frase enigmática que resiste ao Dictionnaire de Théologie Catholique e,
naturalmente, a qualquer dicionário de símbolos. Que quererá dizer o bom do
cronista com tão maiúscula frase? Queira fazer o obséquio.
Maria Alva: Uma
crónica muito "snob beneton" para o meu gosto. Um
"inconseguimento" do AG. Hoje não está de parabéns.
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