terça-feira, 7 de julho de 2020

Os tempos são outros



Bem diversos dos do “Suave Milagre” que nos conta Eça de Queirós: “Ora, entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado sumido na prega de um cerro, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas as mulheres de Israel…” e que termina assim: “Jesus disse à criança: Aqui estou.” Não, não somos desses tempos, mas precisaríamos de um milagre. Só que este não seria suave, mas bem áspero, a merecer correctivo. Não se trata de miséria física, - embora também – mas de miséria nos costumes, que António Barreto mais uma vez bem explicita. Senhor de Israel – nosso também, ao que consta, dá-nos o milagre de uma mudança imprescindível nestes nossos jeitos de sobrevivência, tão estranhamente pindéricos! Mesmo que o teu “Aqui estou!” não seja dito a sorrir.
OPINIÃO: Os valores sumiram
A saga da TAP é um bom exemplo da promiscuidade de interesses, da fraqueza negocial de Portugal e da debilidade das instituições com a missão de fiscalizar e avaliar.
ANTÓNIO BARRETO       PÚBLICO,5 de Julho de 2020
Classicamente, a ideia era “cherchez la femme”. Hoje, já não é assim. Mesmo nos casos em que se sabe que “la femme” anda por ali, essa não é a questão. O verdadeiro problema é “onde está o Eça de Queirós: Edinheiro?”. Assim mesmo. Dito à bruta. Como nos barbeiros, nas redes sociais e nos táxis. “Onde está o nosso dinheirinho”? Em geral, não há resposta. Quem a poderia dar, empresários, governantes e jornalistas, não querem saber, escondem, têm medo de perguntar, receiam desvendar… E os contribuintes são inundados de expressões malditas: vamos investigar “até às últimas consequências”, “doa a quem doer”. Depois, segue-se o silêncio. Ou a confusão criada pelos novos enigmas dos “activos”, das “mais-valias” e das “perdas de valor”. Assim se criou um dos mais opacos universos que se imagina.
Verdade é que não percebemos o que se passa. Há poucas pessoas que nos expliquem com honestidade e clareza. Não há muitos jornalistas que perguntem nem investigadores capazes de esclarecer os “problemas sistémicos” e o “enquadramento”. O universo político financeiro é o mais espesso e o mais censurado que se conhece.
Para mais, quem se envolve nestas questões tem marca. Envolvimento de interesses. Simpatia partidária. Dependência económica e publicitária. Hipoteca ideológica. Se, em muitas matérias de interesse colectivo, é possível encontrar quem preste o serviço de explicar, nestes assuntos financeiros, com ramificações políticas, pessoas nessas condições são quase inexistentes. Quem se aventura a explicar bem, entre outros, o BES, o BPN, a PT, a EDP, a TAP, o BANIF, a REN e oMontepio, assim como as PPP, sabe que, algures, podem ser pesadas as represálias no emprego, na publicidade e na informação.
Vivemos em sociedade muito divida, mais do que parece à primeira vista. As ideias do “caldeirão central” e do “consenso” são geralmente falsas.. Quem tem opinião sobre os bancos e as empresas, sobre os negócios dos privados e do Estado, tem uma visão previsível. E os partidos não ajudam muito À direita, gostam de justicialismo, mas sentem que têm telhados de vidro. À esquerda, está-se sempre pronto a condenar os privados, a fim de desculpar os políticos. À direita, a regra que tudo define é a empresa privada, à esquerda é a nacionalização e o Estado. Qualquer plano de esquerda começa e acaba sempre com a nacionalização. Nos casos mais duros, próprios ao BE e ao PCP, a inspiração é mais radical: liquidar a empresa privada. Em contraste, qualquer plano de direita para a economia e os serviços vive da empresa privada, com recurso ao Estado para os prejuízos, as contingências e os imponderáveis.
Quem ganhou e quem perdeu com a gestão pública da TAP, seguida da privatização manhosa, corrigida de modo a que não ficasse só pública, nem só privada? Quem ganhou com as centenas de milhões que circularam em poucos anos com estas operações? Quem ganhou e quem perdeu com a gestão do BPN? Por que se decidiu que a sua falência teria problemas sistémicos? Qual foi a vantagem da nacionalização se o banco acabou no que acabou, com milhares de milhões a pagar pelos contribuintes? Como se perdeu valor com o BPN? Quem roubou no BPN? Onde está o dinheiro? Sumiu? Quem ganhou e quem perdeu com o BES, com este que parece ser o maior golpe sórdido da história da economia e das finanças portuguesas, onde está o valor destruído, o valor perdido, o valor desviado e o valor açambarcado? Desapareceu? Quem ganhou e quem perdeu com a destruição da PT, uma das melhores empresas portuguesas, mais enérgica, com mais capacidade de inovação e projecção externa? É verdade que muito cedo se verificou uma tendência para empregar consultores familiares de políticos, parentes de empresários e associados a banqueiros, o que não ajuda muito ao escrutínio… Mas era, apesar de tudo, uma das raras realizações empresariais portuguesas dignas de nota e mérito. Era… Quem ganhou e quem perdeu com a transformação da EDP naquela que será talvez a maior e mais poderosa empresa portuguesa, agora chinesa, recheada de rendas de Estado, amiga de políticos, empregadora de celebridades de esquerda e de direita, com uma especial experiência no mercado de influências?
Como é possível que as histórias destas empresas sejam contadas com ardil: por gente de esquerda que detesta a propriedade privada e geme de amor pela gestão pública; ou por gente de direita que procura desculpas para qualquer gesto de protecção do lucro privado a que preço for. Como é possível que seja tão difícil encontrar quem, com espírito independente e sem preconceito comunista ou capitalista, se dedique a estudar e a contar estas histórias?
Alguns dos poucos livros interessantes sobre os “negócios” da nacionalização e da reprivatização são escritos por militantes de esquerda que odeiam a iniciativa privada e o mercado. Os poucos livros interessantes sobre estes negócios escritos por autores que aceitam a propriedade privada têm o triste condão de serem herméticos, tecnocratas e esconderem parte da verdade, justamente a mais sumarenta.
Portugal perdeu décadas com a ditadura. Com a Guerra Colonial, perdeu quinze anos e quase uma dezena de milhares de vidas. Com as nacionalizações, Portugal perdeu tempo e riqueza. Com as privatizações e as reprivatizações, Portugal perdeu mais tempo e valor. Quanto dinheiro e quantas pessoas se perderam para prolongar a guerra em África? Quantas vidas se perderam para descolonizar da maneira que se fez? Quanto dinheiro e quanta riqueza os portugueses perderam para nacionalizar e reprivatizar? A TAP faz parte desta história de desastres, é uma saga, um folhetim, uma telenovela… Em quase todos os negócios importantes realizados em Portugal nas últimas décadas e envolvendo grandes projectos, fusões de empresas, nacionalizações e reprivatizações, Portugal ficou a perder alguma coisa e os portugueses ficaram a perder muito. Conhecem-se alguns casos, muito poucos, de grandes investimentos ou transacções que resultaram e os contribuintes, os accionistas e os trabalhadores ficaram a ganhar, mas são tão poucos! Na maior parte dos casos, os contribuintes ficaram a perder.
A saga da TAP é um bom exemplo da promiscuidade de interesses, da fraqueza negocial de Portugal e da debilidade das instituições com a missão de fiscalizar e avaliar. Assim como do pensamento dogmático em vigor, à esquerda como à direita, relativamente aos grandes problemas nacionais. Haverá certamente alguém que, um dia, fará a história verdadeira da TAP, mas será seguramente tarde de mais! Até esse dia, teremos de viver com este mito e este nó cego.
Sociólogo
TÓPICOS: OPINIÃO  BPN  PRIVATIZAÇÕES  BANCA  BES  EDP  TAP
COMENTÁRIOS
Filipe Paes de Vasconcellos INICIANTE Enquanto Portugal tiver: 1.- Um PR que faz o papel de mestre cerimónia do regime social-comunista dos tempos modernos, e porta voz do governo com o mesmo nome 2.- Um PM que é um verdadeiro ditador e populista, mas com vestes democráticas, não estejamos nós na Europa. 3.- Um governo que gere o dinheiro de todos os Portugueses com uma perspectiva meramente ideológica. 4.- Um líder da oposição que, chegado à capital aparvalha completamente. 5.- Um regime que se chama democrático, mas que não tem qualquer Oposição, e o PR valoriza essa amputação. 6.- Um POVO, completamente agachado, e feliz por ter o salário mínimo, e uma classe média a caminho acelerado para a sua inexistência. Teremos de ter um POVO com cada vez mais POBREZA e FOME, Pois é assim que os regimes totalitários se mantêm no Poder
graça dias INICIANTE: Parabéns pela excelente síntese sobre o "desgoverno" deste país, cujos desígnios se situam em interesses individuais e partidários, bem ao estilo do que há de pior em alguns países da América Latina.      Maria Odete Vilas Coutinho MODERADOR: ...Saltou mesmo a tampa, ao professor! Entretanto, e embora um tanto fora do contexto, gostaria de ter visto uma referenciazinha, "en passant" que fosse, ao mundo do futebol, até ao seu mais alto nível nacional, já agora...
barbosa de almeida INFLUENTE: O problema da TAP é que não é uma empresa lucrativa e essencial à economia. Se fosse uma EDP, vendia-se, asseguravam-se os salários principescos dos funcionários e reformados e ainda, se sobrecarregavam os clientes, com tachas e tachinhas uma vez que se trata de um bem de consumo essencial. Voar, nao e' essencial. E' um mercado competitivo, que nao se coaduna com os previlegios dos seus funcionarios. E' mau negocio para o Estado. E e' mau negocio para um privado.
Vickyvicotas INICIANTE: Uma esclarecedora forma de se apresentar a situação. Obrigado por tal.
Raquel Azulay EXPERIENTE: Um profundérrima análise da constelação de valores que permeiam a saga que é o devir humano.    Fowler Fowler INICIANTE: Mais uma vez, o arauto da desgraça pela voz de um taxista. Quando em Portugal há problemas para resolver, este tipo de comentadores bem remunerados, do alto da sua bancada, optam pelo relincho, sobretudo quando se sentem incapazes de condicionar ou influenciar os governantes. Quantas vezes os valores materiais e os valores éticos se atrapalham em palco?
Raquel Azulay EXPERIENTE: Apenas gostaria de saber o seguinte: o taxista tem bigodes?
barbosa de almeida INFLUENTE: Entao diga lá quais são os assuntos importantes em Portugal, que não foram focados pelo autor do artigo?
Raquel Azulay EXPERIENTE:barbosa, a minha curiosidade infantil e sempre indisciplinada não manchará, certamente, a sublime análise do herr professor. onde está o dinheiro? está no SNS, nas PPP's, na SN educação, no Novo, na TAP e na associação de jogadores de berlindes de celorico de baixo.
Jose EXPERIENTE: O "nosso dinheirinho" é o produto do trabalho manual e intelectual. Cada empresa, que é um registo notarial, faz entrar nas contas bancárias tituladas pelo seu legal representante a riqueza recolhida em forma de facturação. A soma das contas de todas as empresas contém a riqueza criada pelo proletariado. Essa riqueza é registada na contabilidade oficial, criativa ou informal como dá jeito ao topo do poder da hierarquia do Patrão. Na assinatura analógica ou digital do legal representante está a distribuição da riqueza. Distribuí como quer, quando quer, o que deve, parte ou nada! Depende da correlação das forças, da luta social, mais nada! Já ocorreu que 59% da riqueza ia para salários. Agora só 34% da riqueza vai para salários. A diferença é o demérito da luta social e o mérito da violência!     duarte.alves.830747 INICIANTE: "A diferença é o demérito da luta social e o mérito da violência!" Lúcido!      Joao EXPERIENTE: Óbvio, o caro Jose resumiu toda a política em 22 linhas. Repito, toda a política. As lutas, as arruaças, os combates, tudo isso são a visibilidade da política que é gerir o bem-estar, a distribuição, a igualdade, a sanidade moral, tudo isso.
nelsonfari EXPERIENTE: Existem livros publicados que respondem à procura de informação credível. Em minha opinião, os livros que indiquei no comentário de hoje, das 16,25 horas, satisfazem este critério, como o articulista indica. Não são herméticos e descrevem bem as questões.    Raquel Azulay EXPERIENTE: Eu não preciso de comprar livro algum. Basta ler o Nelson Fari e aprender. Obrigada, komo sabe.
nelsonfari EXPERIENTE:Como chegámos aqui e vivemos o período 1995-2020? Estou a lembrar-me de quatro livros que explicam muito do que se passa em Portugal e foram escritos por portugueses. Fomos competentes como preparámos a adesão ao Euro? Pedro Brás Teixeira explica-nos os erros da governação Guterres no crucial período 1995-2000 ("O Euro" - Ed. FFMS). Como se pode explicar a bomba BES? Quatro economistas explicam em dois livros ("O Caso BES"), Avelino de Jesus et al e extrapolam essa análise para a fragilidade periférica de Portugal e a quantificação dessa fragilidade (Ed.Clube do Autor).O Prof Miranda  Sarmento explica o labirinto do colete-de-forças de Bruxelas e ficamos com a noção que o bodo inicial de 1985(adesão à UE) e adesão ao Euro(2000) tinha contrapartidas duras(Uma edição da Almedina, a ler s.f.f.).
FERNANDO RODRIGUES EXPERIENTE: O livro sobre o Euro de Pedro Braz Teixeira aborda ainda a desastrosa atuação do ministro das finanças de Sócrates no caso BPN e o quanto podia ser poupado com uma decisão atempada. De resto, boas sugestões.
joorge INICIANTE: Mas vamos lá a ver: que sociedade, país ou regime se defende? Todos foram, são e serão abjectos. Enquanto houver bonitos e feios não há remédio. Ponham-se é a estudar a maneira de ficarmos todos mais inteligentes e mais bonitos. Com a genética, sim senhores. Melhorava logo tudo. Muitos erros em Portugal, 2 exemplos: - Em 1973 ainda havia cartazes espalhados no território rural a desafiar os portugueses a fazerem a vida nas colónias, com a promessa do céu na terra; - Em 1975 as nacionalizações foram “forçadas” e sem indemnizações; estas vieram minimizadas, 15 anos depois; os capitalistas que regressaram investiram à custa de dívida, pelo que as empresas sempre estiveram fragilizadas. O resto está à vista.
eteofilo.901716 INICIANTE: excelente, lúcido e certeiro.    INICIANTE:O que são "valores" hoje em dia? Apenas o "vil metal" conta para tudo. É exactamente por isso que esta sociedade caminha para o abismo. Triste, mas real...      antonio rocha INICIANTE: Aqui anda o azedo, está sempre tudo mal, são todos desonestos, isto é tudo um lodaçal, todos menos o senhor Barreto, bem entendido.
Mario Coimbra EXPERIENTE Que comentário mais desagradável o seu.
barbosa de almeida INFLUENTE: Vê diferente? Está a correr-lhe bem a vida suponho. Estará do "lado certo" dos desfalques?     Leitor Registado EXPERIENTE: "Quem se aventura a explicar bem, entre outros, o BES, o BPN, a PT, a EDP, a TAP, o Banif, a REN e o Montepio, assim como as PPP, sabe que, algures, podem ser pesadas as represálias no emprego, na publicidade e na informação." Dito de outra forma, não espere encontrar investigação e verdade num jornal que recebe subsídios do Governo.
Arpi INICIANTE: Genial. Sempre o Público foi um péssimo negócio para a Sonae. Foi prendado há pouco, a exemplo de muitos OCS. E sai agora esta pérola.    barbosa de almeida INFLUENTE: A Câmara Municipal do Porto não pode ser criticada no Público. O Norte Shopping (Sonae) não pode ser responsabilizada de estrangular as vias de comunicação do Norte, no Público. Assim, assistimos ao "desenvolvimento"..05.07.2020
Filipe Paes de VasconcellosINICIANTE: Sem palavras! Sem comentários!   cidadania 123, INICIANTE:A TAP é um monstro de interesses instalados, privilégios irrealistas, totalmente manipulada por sindicatos, amiguismo, interesses. O impacto da falência seria desastroso para o país mas o governo decidir que assumimos este elefante moribundo vai nos custar muito caro... 05.07.2020  


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